Só quando tirou o gesso é que voltou à redação do jornal. Kohaku companhou-a e foi ele que conduziu o carro até ao grande edificio onde ficava a redação.

Estava um daqueles dias cinzentos em que a luz do sol é mais calma e agradável para os olhos, as nuvens se tornam cada vez mais pesadas e escuras, prevenindo o transeuntes de que se abrigam em breve ficarão encharcados, e corre um vento calmo e frio pelo o ar já de si gelado. Embora ainda não fosse muito tarde, já começara a anoitecer e as luzes dos candeeiros e das lojas acendiam-se, enchendo tudo de néons.

Kohauku ligou o rádio. Estava na hora das notícias e eles ficaram a ouvir. O noticiário dividia-se entre as desgraças do dia (atentados, mortes, acidentes, guerras iminentes), as reformas políticas ( subida de impostos, aumento das horas de trabalho semanal, nova discussão sobre a legalidade ou ilegalidade de um qualquer assunto que é discuto no mínimo há dois anos) e as notícias desportivas não menos interessantes ou estúpidas que a novela que passa todos os dias à noite na televisão. Saya não percebia por que razão aquelas notícias a irritavam tanto. Antes do acidente, lidava diariamente com elas e não se aborrecia, muito pelo contrário. Mas agora... Era certo que num jornal havia sempre crónicas, crítiacas, destacáveis de músicas, cinema e artes, noticías sobre acontecimentos locais, informação económica, banda desenhada. Por isso era possivel lidar com mais do que as desgraças e coscuvlilhices mundiais. Mas ela não se lembrava de ficar tão irritada só de as ouvir. Parecia-lhe que o Mundo estava a ruir, a ficar podre e que nada era feito para o evitar. E no entanto continuava a achá-lo belo e cheio de qualidades. Talvez fossem qualidades desaproveitadas, mas mesmo assim estava cheio delas. E não era mais belo ou mais feio do que o Mundo do pai. Era apenas diferente. Desenvolvera-se, assim como os seus valores, de forma diferente e por isso não podiam ser iguais. Ambos tinham defeitos ( talvez um mais do que o outro, mas enfim...) e ambos tinham qualidades.

Chegaram finalmente. Kohaku estacionou o carro no parque subterrâneo e subiram juntos para o quinto andar onde ficava o escritório de Saya e o local de trabalho da maioria dos jornalistas. O elevador parou e aporta abriu-se.

O pequeno corredor para o qual abria a porta do elevador estava completamente deserto e às escuras. Saya e Kohaku percorreram-no em silêncio. Ela abriu a porta que dava para a grande e comprida sala onde estavam as secretárias dos jornalistas. Também a sala encontrava mergulhada no silêncio e na escuridão.

- O que se passa, Kohaku? — perguntou espantada — Está tudo deserto e às escuras. Hoje é quarta-feira e se bem me lembro à quarta trabalha-se.

- Pois é — disse Kohaku, como se estivesse a lembrar-se de algo óbvio mas do qual, por algum motivo estranho, se esquecera — Faça-se luz!

E ao som das suas palavras todas as luzes da sala se acenderam. Toda a equipe jornalística estava reunida ao fundo da sala, com chapéus de festa nas cabeças. A sala estava repleta de balões(bexigas) multicolores, as secretárias tinham sido encostadas às paredes e uma grande mesa redonda, repleta de doces e bebidas, fora colocada no meio da sala; as paredes tinham sido decoradas com jornais emoldurados por flores e na parede do fundo estava um gigantesco cartaz onde se podia ler, em letras brilhantes:

« Bem vinda, Saya. Já não era sem tempo!»

Maya avançou para ela com uma coroa de plástico nas mãos que lhe colocou na cabeça.

- Bem vinda, Saya, nossa grande e amada rainha — saudou Maya com um ar excessivamente sério.

Então Saya desatou a rir. Como era irónico Maya chamar-lhe rainha! Se eles ao menos soubessem metade do que lhe acontecera durante o tempo em que supostamente estivera no hospital a dormir.... Mas nunca saberiam. Se lhes contasse, não acreditariam ( ela própria não acreditaria) e sentia que a existência daquele Mundo devia permanecer secreta.

Aproximou-se da mesa redonda. No centro, havia um bolo enorme e rectangular de massapão branco onde estava escrito em letras castanhas e bem desenhadas « Saya, finalmente voltaste! Já não o conseguiamos aturar mais». Eles esperaram pela reacção dela e assim que Saya começou arir, riram alto com ela. Até Kohaku se riu (de facto, a ideia fora sua).

O jornal estava basicamente na mesma. O seu sucesso continuava a ser enorme. Não havia dúvida de que Kohaku fizera um exccelente trabalho como director. E todos pareciam contentes e felizes com o seu trabalho. Talvez ele até fosse melhor director do que ela, pois no fundo era um deles e tratava-os como tal. Ela era «sua rainha», a quem desviam obediência e a quem temiam, já que ela tinha o poder para os despedir. Era certo que naquele último mês mudara muito, mas também não tinha a certeza de querer, e conseguir, continuar ali para sempre...

Notas finais
Faltam oito capítulos para terminar