A Filha Dos Mundos

31 O campo de batalha


Cavalgaram velozmente durante todo o dia e toda a noite, sem mesmo pararem para comer. Quando tinham fome, comiam em cima dos cavalos. Saya aprendera a cavalgar quando tinha dez anos, ainda antes de o pai morrer. E embora não cavalgasse há doze anos era ainda uma eximia cavaleira.

Caladmirion parecia nesse dia mais replandecente que nunca. Era como se ela soubesse que por entre as suas magnificas árvores cavalgaram as ultimas esperanças das Terras da Luz e como se, para lembrar ao Povo da Luz o porquê do seu nome, brilhasse ainda mais do que o costume. E Saya, apesar de cavalgar para o fim e provavelmente para a dor, achou a floresta mais bela que nunca. Também os restantes cavaleiros pareceram achar o mesmo, porque os seus rostos iluminaram-se e pela a primeira vez desde da visita de Suresim houve sorrisos nas belas faces.

Quando a manhã do dia seguinte começava debilmente a nascer, chegaram ao acampamento que entretanto tinha sido montado em Ranthlin. Uma multidão esperava-os ansiosamente e assim que os avistaram saudaram-nos com palmas.

Os cavalos foram levados para poderem descançar e saciar a fome e a sede. Mas foram os únicos a quem tal foi concedido.

No acampamento havia muitos elfos e youkais com o emblema de Omnirion — uma árvore dourada coroada por um sol — bordados nas roupas. Mas também podiam ver algumas fadas sacerdotisas de Névila vestidas de azul escuro como a noite onde brilhava, bordado a prata, o símbolo de Valindra: uma lua em quarto crescente rodeada por três estrelas.

Saya foi levada juntamente com Raiden, Kai e Kagura para uma grande tenda onde já estavam reunidos os vários capitães. Muitos deles ostentavam uma cara de profundo desespero e embora os Elfos, os Youkais e as Fadas nunca deixem a esperança morrer, alguns pareciam já certos de que aquela não seria uma batalha que pudessem vencer. Mas um deles ergueu-se e numa voz clara e forte disse:

- Negra é a nossa hora. Mas não consideremos a batalha perdida antes mesmo de ela começar. Se não confiamos em nós próprios, então o inimigo já venceu — calou-se um pouco, à espera de ver o efeito das palavras. Alguns berraram « Isso nunca!» e outros elevaram os olhos para aquele capitão como se vissem uma nova luz, embora pequena, a nascer. E ele continuou — Se lutarmos, temos uma hipótese, se não o fizermos nunca apagaremos a sombra que durante milhares de anos ensombrou e ameaçou a Luz. Além disso não estamos sós, pois a nossa rainha veio em nosso auxílio. E ela traz a nossa última e derradeira esperança... o Ceptro de Aerzis.

Os capitães olharam para a entrada da tenda e os seus olhos repousaram na figura de Saya. E foi assim que pela primeira vez eles a viram: alta, bela, com os cabelos soltos onde eram visiveis algumas tranças pequenas e os olhos cor ambar a brilarem estranhamente e uma linda lua crescente na testa. Talvez porque precissarem de acreditar, talvez por ser essa a verdade, eles viram nela a esperança e o fim de todas as dúvidas e de todos os medos. Era como se de repente soubessem que ela era o principio do fim e que, bom ou mau, ele depressa chegaria. Isso era já muito bom. Estavam cansados de combater uma sombra que por vezes se tornava na mais profunda escuridão e que não conseguiam apagar.

O capitão elfico que estivera a falar avançou para ela, fez uma ligeira vénia e apresentou-se:

- Senhora, sou Ilmaran. E estes são os capitães de todas as pequenas comunidades do Povo da Luz que vivem espalhadas por Caladmirion, a Grande Floresta.

Não era muitos, mas também não precisavam de o ser. Saya sabia que eles esperavam que ela os comandasse a todos, pois eles representavam todo o Povo da Luz, o seu povo. E era isso que tencionava fazer, mas esperava também que a aconselhassem e não deixassem que a sua pouca práctica lhes fosse a todos fatal.

- Quantos são os nossos adversários? — perguntou Saya

- Um exército bem treinado de cerca de dez mil guerreiros Magdul, liderados pelo o próprio Naraku — respondeu Ilmaran.

Saya não poderia afirmar quantos Youkais, Elfos e Fadas se encontravam fora da tenda, mas duvidava muito que fossem mais de quatro mil. De facto, nem tinha a certeza de que fossem quatro mil. Estavam definitivamente em inferioridade numérica, e algo teria de ser feito para compensar essa desvantagem.

A manhã e parte da tarde foram passadas dentro da tenda a discutir estratégicas. A opinião geral era que, antes de um verdadeiro combate corpo a corpo, se devia tentar abater o maior numero possível de guerreiros Magdul com setas certeiras e velozes. Os Elfos e os Youkais eram arqueiros notáveis, de pontaria inigualável e seria deveras estranho que uma seta não atingisse o alvo. Só depois de gastarem todas as setas é que deviam desembainhar as espadas. Depois restava-lhes apenas combater até a vitória chegar ou até não haver um único Youkai, Elfo ou Fada com um sopro de vida em Ranthlin.

Quando Saya saiu por fim da tenda, já mal conseguia aguentar-se de pé. Desde que saíra de Omnirion que não dormia e naquele momento esqueceu a guerra que se aproximava, esqueceu Naraku e concentrou todo o pensamento em chegar à tenda onde ela e a Kagura poderiam descançar. Mal lá chegou, deitou-se, sem mesmo tirar a capa ou as botas, e caiu de imediato num sono profundo.