Notas iniciais
Gomenasai mas andei sem pc e net

Era um bonito fim de tarde. Corria uma leve brisa e o sol banhava as planícies daquele campo suave onde passavam as férias. A grande casa de campo erguia-se sozinha no meio da calmaria. Ficava vazia durante a maior parte do ano, mas na Páscoa e nas férias de verão ganhava vida, enchia-se de alegria, de risos e de chocolate quente. Era uma casa velha que os avós tinham deixado à Mamã. Durante um ano fora deixada perdida, esquecida no meio daquele campo. Mas depois o Papá mandara arranjá-la e desde então, três dias antes, a menina Nana e o senhor Jaken prepararem-na. Quando lá chegavam, a casa brilhava, as colchas de retalhos repousavam nas camas de madeira e na Páscoa a lareira estava acesa. Se o dia estava bom, o Papá levava-a a passear no bosque ali perto. Era sempre agradável, mas ela tinha sempre medo de ir por causa das aranhas. Não gostava nem das suas patas, nem dos seus olhos, nem do seu corpo, nem do seu pelo e nem das suas teias que a Mamã dizia serem verdadeiras obras de arte. Em suma, não gostava de aranhas. Aquilo tornava-se um verdadeiro problema para a menina Nana, que tinha de fazer constantes verificações à casa, e principalmente ao quarto da princezinha, para que esta não encontrasse nenhuma dos desagradáveis bichos. Ninguém sabia ao certo de onde vinha semelhante medo (ou, nas palavras da Mamã, embirração); afinal a princezinha atégostava de formigas, borboletas, libelinhas, louva-a-deus e outros animais facilmente detectados na natureza. Ninguém sabia explicar e ela também não; só sabia que não gostava e era uma berraria de cada vez que vislumbrava alguma. No entanto, toda a família ansiava que chegasse o dia de ir para a cas de campo. Só aí se descansava verdadeiramente. Podia-se correr toda a tarde e no dia seguinte dormir toda a manhã, ou ouvir as histórias do Papá durante todo o dia, ou percorrer a casa pela milésima vez à procura da passagem secreta que levava à igreja da aldeia mais próxima e à grande casa senhorial, no topo da aldeia, que todos juravam estar assombrada. Era ainda ali que a Mamã e a princezinha decidiam o feitio dos vestidos das bonecas para a próxima estação. Enfim, podia dizer-se que a vida gritava em torno da casa de campo. Contavam-se os dias e os meses para lá ir, e uma vez lá contava-se o tempo que faltava para de lá regressar.

Naquele dia, Saya estava contente. Fazia anos, onze anos, e parecia-lhe que era uma data importante. Mas também o achara quando fizera seis, e depois nove e, ainda no ano anterior quando fizera dez. Era pequena e um pouco magra de mais para a idade, situação que a Mamã achava ligeiramente preocupante. O filho da sua melhor amiga era roliço, mas o Papá achava que ele não tinha alegria nos olhos e era sem dúvida muito carente de imaginação, um bem essencial, especialmente nas crianças. A Mamã concordava, o menino só queria «estudar para ser Senhor Engenheiro, como o paizinho»; ela não dizia que estudar não fosse necessário, claro que era, mas também não era tudo; além disso, Saya eraaté uma das melhores alunas da turma. Enfim, a menina havia de crescer e engordar. Afinal, ela também fora assim na idade dela.

Já tinham apagado as velas e comido o bolo. Agora o Papá estava a sugerir quefossem caminhar um pouco pelo campo.

- Está bem. Vou só buscar a Milady — a Milady era a boneca mais querida de Saya. Fora a Mamã que a fizera quando ela tinha quatro anos e, apesar dos recente onze anos, Saya ainda gostava muito de brincar com ela. Era uma boneca de trapos, de cabelo castanho encarcolado, olhos verdes e boquinha vermelha, toda vestida de azul.

Saya entrou na grande casa de campo, subiu a correr a escaderia de madeira escura, percorreu o corredor e entrou na terceira porta á direita: o seu quarto.

Era um quarto amplo, com uma cama de solteiro, uma mesinha de cabeceira( criado mudo) com um candeeiro redondo, um bauzinho, um armário e uma estante cheia de livros. As cortinas azuis estavam abertas e em cima do parapeito encontrava-se a Milady.

Saya abriu o pequeno baú e começou a remexer no seu interior, à procura da boina e do casaquinho da sua boneca.

- Vou passear com o Papá e com a Mamã! Vou passear! — cantarolava

O Papá era alto, de feições suaves e olhos dourados vivos. Tinha o cabelo branco , que lhe davam até ao meio das costas e, umas orelhitas arrebitadas que faziam Saya dizer que ele era um youkai. Ele ria e ainda a sorrir respondia «Pois sou.» Davam-se muito bem e eram muito parecidos um com o outro. Para ela tudo o que o Papá dizia estava certo e obedecia a tudo o que ele mandava, ou quase tudo. O Papá gostava de contar histórias de terras encantadas, de lugares maravilhosos, de Youkais, Elfos e de Fadas do tamanho de homens. Ele achava que ela devia estudar para se tornar sábia e não para ter boas notas e ser melhor que todos os outros. Mas nisso a Mamã não concordava. Ela achava que havia mais do que os estudos, mas eles eram essenciais para quem queria ser laguém na vida. E esperta como era, sem dúvida que Saya, caso se aplicasse, viria ser alguém importante. O Papá fazia sempre cara feia quando a Mamã começava a falar dessas coisas, mas como não gostava de discutir com ela, lá acabava por dizer que ainda havia muito tempo e que, na devida altura, Saya decidiria o que queria fazer.

Finalmente encontrou o casaco e a boina da Milady. Vestiu-lhos e, com ela apertada nos braços, desceu as escadas a correr e saiu da casa de campo.

Lá fora só encontrou a Mamã sentada no banco de baloiço branco, com os olhos perdidos no infinito. Saya pousou a boneca ao lado da Mamã e procurou o Papá à volta da grande casa, depois na sala e na cozinha e finalmente no quarto dos pais. Mas não o encontrou. Voltou para junto da Mamã.

- O que aconteceu? Onde está o Papá? — perguntou desconfiada.

- Ele já volta, amorzinho — disse enquanto lhe fazia uma festa pelo o rosto suave da sua filha — Vai dormir. O Papá amanhã já cá está.

Só que, quando ela acordou, o Papá ainda não chegara, nem chegou nesse dia, nem no dia seguinte.... nem nunca mais. Um dia a Ma mã explicou-lhe que o Papá não ia voltar porque... mas não conseguiu dizer a palavra. Disse-lhe depois que agora estavam sozinhas e que tinham de lutar para conseguirem o que queriam. Saya devia apenas de se preocupar em estudar e tirar boas notas, para que mais tarde pudesse ser importante, poderosa mesmo. As histórias de encantar foram deixadas para a menina Nana, que dizia que os Youkais não existiam, os Elfos e as Fadas era pequeninos e que as Fadas viviam dentro das flores e tinham uma varinha de condão e ainda havia os Duendes que eram maus e travessos. Saya passou a chamar à Mamã só de Mãe, porque sentia que a sua infância, bem como a sua inocência, tinham acabado. O dia do desaparecimento do pai foi esquecido, assim como o foram lentamente as suas histórias e ensinamentos, e o próprio pai foi-se esmorecendo na sua memória, para que tudo se tornasse menos doloroso.

Não voltaram a passar férias na grande casa de campo e ela ficou novamente esquecida no meio daquele verdejante local onde tinham passado tantas e tão divertidas férias. Ficou sozinha, tendo por único consolo os risos alegres e as histórias de lugares encantados, que ainda ecoavam por entre paredes. E sobreviveu com a memória de um tempo em que se enchia de vida e ela própria vivia com as animadas conversas embaladas por uma chávena de chocolate quente.

GLOSSÁRIO:

Menina Nana — empregada da casa de Rin

Senhor Jaken — empregado pessoal de Sesshoumaru desde que este decidiu viver no Mundo Humano.

Notas finais
tentarei ser breve