Kagura provou ser uma companhia extraordináriamente agradável. Falaram das suas infâncias, dos costumes dos Mundos onde tinham vivido. Saya explicou-lhe o que era um jornal, o que ela fazia e como era importante o seu jornal na sociedade em que vivera até então.

Kagura contou-lhe que era a filha mais nova de uma antiga e importante família. A sua irmã mais velha casara com um elfo filho de uma família amiga da sua e tivera há pouco tempo um bebé gordinho e rosado. A sua outra irmã era uma sacerdotisa em Névila. Durante algum tempo pensara em juntar-se-lhe, mas depois decidira que queria ser uma das guerreiras que normalmente protegem a rainha.

E fora então, quando começara o seu treino, que conhecera o Kai. Haviam competido sempre por tudo: pelos elogios do mestre, pelas vitórias em torneios, pelas ovações do povo que os via crescer.

- Uma vez — contava ela- , os nossos pais foram juntos assistir a um dos nossos treinos. O nosso mestre foi recebê-los e deixou-nos sozinhos. Um erro desastroso! Quando regressou, acompanhado pelos nossos pais, já nós estávamos envolvidos numa acesa briga. No meio da confusão da lluta, ele rasgou-me a camisa do fato novo que a minha mãe me tinha dado e eu cortei-lhe os cabelos. Não é preciso descrever o estao em que ambos estávamos quando finalmente nos conseguiram separar. Os nossos pais obrigaram-nos a limpar o grande salão de baile do palácio de alto a baixo. No entanto, eu não me importei muito. Tinha conseguido cortar-lhe o cabelo que ele estava a deixar crescer para ficar parecido com todos os youkais e elfos adultos.

Saya falou-lhe das memórias que tinha do pai, da grande casa de campo onde passavam férias até o pai morrer, da menina Nana, que enchia a casa de maias no dia das bruxas, e da mãe, a rainha que Kagura gostava de servir e conhecer. Contou-lhe que tinha um namorado que gostava dela, mas que ela, inexplicável, e talvez estupidamente, não suportava ( embora não tivesse sido sempre assim).

Disse-lhe que tivera uma discussão com ele antes do acidente porque ele a achava estranha. Revelou-lhe o desejo de continuar naquele Mundo que afinal era também o seu. Enfim, disse-lhe assim, num único dia de viagem, tudo o que havia para dizer da sua vida.

Saya percebeu que aquilo que fazia Kagura detestar Kai era exactamente o mesmo que ao início a fizera odiá-lo. E agora achava-o simpático, doce, compreensivo e alguém por quem estava indubitavelmente apaixonada. Mas ele era o mesmo. Era o mesmo Kai, sempre com as mesmas qualidades e defeitos. E no entanto parecia-lhe que Kagura estava cega, que só via o que nele era desagradável ( e sem dúvida alguma ele tinha atitudes bem desagradáveis) e se recusava a ver tudo o que era agradável. Mas supunha que a embirração devia ser mútua. Além disso, era um problema deles que não a impedida de se dar bem com ambos