Saya levantava-se agora ainda mais cedo do que antes. Kagura acordava-a todos os dias ainda antes de os primeiros raios de sol se erguerem gloriosos no céu. E, depois de se alimentarem, iam para o meio da floresta treinar esgrima com uma espada que no inicio parecia infinitamente maljeitosa. Saya achou que nunca conseguiria manejá-la com elegancia e eficácia. Mas com o passar dos dias ela parecia voar, cortando os ares cada vez mais veloz, conduzida pelas as suas mãos. Kagura explicou-lhe que os Youkais era eximios artificies e que as suas espadas eram leves e lindamente trabalhadas. Também aprendeu a utilizar uma estranha arma comprida, de linhas aerodinâmicas, com duas lâminas largas, uma em cima e outra em baixo, e um punho para as mãos ao meio, que era da sua altura. Aquela era a arma elfica preferida da Kagura e ela manejava-a com uma perícia e elegancia inigualáveis. Por vezes, ao anoitecer ou ao nascer do dia, elas passeavam pelas brancas e verdes ruas de Omnirion, cobertas com uma comprida capa de viagem com um grande capuz que lhes ocultava o rosto. Era assim que Saya tentava conhecer o Povo da Luz. Mas depressa compreendeu que não podia conhecê-los apenas por observar as suas rotinas. Os Elfos, Youkais e as Fadas eram seres de infinita sabedoria, altos e belos, com vozes harmoniosas e olhos brilhantes, calmos e gentis, mas que podiam ser extraordinariamente perigosos. E eles tinham perfeita consciência disso.

Kai ensinava-lhe apenas uma coisa: a usar o arco. Mas para isso Saya era pouco dotada. Nunca conseguia concentrar-se no alvo e os musculos dos braços pareciam sempre desaparecer. A única coisa que sentia era os intestinos a contorcerem-se como cobras dentro de si.

- Não afastes os pés de mais, saya. Mantém-te firme — repetia mais uma vez o Kai — Coloca a seta e retesa o arco. Deixa o braçoesquerdo firme. Larga a corda com todos os dedos ao mesmo tempo. Fixa o alvo. Acima de tudo, não abrandes a concentração antes de a flecha ter abandonado o arco — e depois acrescentava numa voz mais doce — Vamos, tenta outra vez.

Ela tentava, mas nunca conseguia. Os movimentos serpenteantes dentro da barriga desconcentravam-na sempre e de cada vez que armava o arco, um rubor subia-lhe à cara e ela olhava instintivamente para o chão, falhando uma vez mais o alvo. Por vezes, aborrecida de falhar constantemente, pedia-lhe que atirasse. E ele, com movimentos céleres, colocava a flecha, restesava o arco, atirava e, com uma precisão excecional, cravava a flecha bem no centro do alvo. Mas a lição acabava indubitavelmente com ele a soltar um leve suspiro, enquanto murmurava um desconsolado « Voltamos a tentar amanhã!», e ela a maldiçoar o saco de cobras vivas que parecia ter sido colocado no lugar onde antes de a lição começar estavam os seus intestinos. Não que ela não soubesse a razão de isso acontecer, mas também não queria admiti-lo.

Tinha ainda lições de política, estratégia e história com Raiden. Kagura prevenira-a que seriam lições longas e enfadonhas, bem diferentes das que tinha com ela ou com o Kai. Mas Saya, habituada às intermináveis e complexas reuniões do jornal, achou-as leves e interessantes. Raiden dizia-lhe frequentemente que ela possuía um dom natural para comandar, muito embora devesse controlá-lo.

- Se o controlares, serás uma grande rainha, justa e amada. Se não o fizeres, tornar-te-ás tão louca e maléfica quanto naraku. É um grande dom, e no teu caso muito precioso. Mas se não fores cuidadosa, ele apoderar-se-á de ti. E aí será maior o mal que farás do que o bem — dizia ele, como quem faz um aviso vital.

Raiden falou-lhe ainda de um povo só de Elfos que vivia para além dos picos das Heniuenel, as grandes montanhas brancas. Chamavam-lhes o Povo Branco e dizia-se que todos eles eram loiros e tinham olhos do mesmo azul que habita as profundezas do mar e do céu. Há muito anos, pouco tempo depois de os Elfos acordarem, um grupo deles partira movido simultaneamente pelo o desejo de ver o que se escondia atrás do puro branco das montanhas e pelo que Naraku criava, cada vez com mais profundidade, em Morniran. Desde o dia da sua partida nunca mais se ouviu fosse o que fosse sobre eles; não se sabia sequer se alguma vez tinham atravessado as Heniuenel. Mas como não ficaram nem em Caladmiron nem em Brumívium, deram-lhes o nome de Povo Branco. Com o passar dos tempos tinham caído no esquecimento e a história tornou-se lenda.

- Mas muito do que foi esquecido nunca o deveria ter sido. E muitas das lendas são ainda tão reais quanto nós — disse nessa altura Tsuki, mãe do Kai e esposa de Raiden, que era sábia entre os sábios.

Saya recebeu ainda um conjunto de delicados, elegantes e magníficos vestidos multicolores que caíam suave e naturalmente pelo corpo e lhe realçavam as formas bem defenidas. Também foram feitos mais dois fatos de viagem assim como três capas: uma práctica e discreta, as outras esbeltas e, tal como os vestidos, ricamente trabalhadas.