A Filha Dos Mundos
5 Elianor
Ao anoitecer chegaram finalmente a uma clareira onde fora construida uma casinha baixa e rectangular. Não era muito grande, mas tinha um ar muito acolhedor.
Ele aproximou-se da porta e bateu. Uma rapariga ruiva e de olhos profundamente azuia abriu-lhes a porta. Usava um vestido verde brilhante que ondulavam quando ela se mexia, o que criava estranhos reflexos cintilantes. Todos os seus gestos era extramamente graciosos.
- Estás atrasado, Kai! — então era assim que ele se chamava.
- Eu sei. Desculpai, Elianor.
- Entrem. Daqui a pouco é noite e vocês devem estar cansados e com fome.
Saya deu-se conta que não comia desde o almoço e que estava cheia de fome. Aliás, tudo o que queria agora era uma boa refeição quente e uma cama lavada com um bom cobertor. Parecia-lhe que ficariam ali a dormir, e a rapariga era simpática. De manhã, pedir-lhe-ia alguma roupa mais confortável e talvez uns sapatos mais apropriados para longas caminhadas.
Entraram para uma salinha onde a lareira se encontrava acesa. De cada lado da sala havia uma porta. A da direita dava para a cozinha e da esquerda para um corredor.
Elianor conduziu-os pelo o corredor até à porta do fundo que pertencia a uma casa de banho onde já estavam preparados dois banhos quentes. Saya ia começar a prostetar que não tomava banho com ele, mas Elianor perguntou suavemente:
- Qual de vocês vai primeiro?
- Ela — respondeu imediatamente Kai, para grande surpresa da Saya — As damas primeiro.
Pareceu a Saya que aquele era o melhor banho que alguma vez tomara, provavelmente por estar tão cansada e gelada. Quando saiu do ofurô e se enrolou na suave toalha branca, ficou espantada ao ver que as suas roupas tinham desaparecido, mas que a esperavam umas novas em cima de um banquinho.
Vestiu-as e olhou-se ao grande espelho colocado a um canto da casa de banho. Não lhe ficavam nada mal; de facto ficavam-lhe até muito bem. Eram parecidas com as do youkai. Umas calças justas verde escuras, umas botas como as do youkai, embora pretas, e uma túnica num tom de verde seco de mangas compridas, com flores douradas bordadas.
De súbito percebeu que havia alguém à porta. Virou-se rapidamente, mas era apenas Elianor que lhe sorriu.
- Já acabaste?
- Já. Arigatou pelas roupas.
- Oh, de nada, minha querida. Talvez seja melhor mostrar-te o quarto onde vais dormir e deixarmos a casa de banho livre para Kai.
- Hã... Pois... claro! — Saya não estava muito certa de querer ser agradável para aqule youkai, mas, ao fim e ao acabo, ele ajudara-a. Devia merecer um banho quente, e a água dele já não estaria tão quente quanto a sua!
Entraram num quarto onde havia uma cama de solteiro, um pequeno armário e um toucador, em cima do qual estava um espelho oval, com banquinho baixo. Uma janelinha abria para a floresta. Enfim, era um quarto agradável, principalmente de um dia como aquele.
- Talvez queiras descansar um pouco. Chamo-te quando a comida estiver pronta. — e Elianor saiu, fechando a porta atrás de si.
Saya foi até ao toucador, sentou-se no banquinho e olhou para o espelho. Era a mesma Saya de sempre mas o que é que estava a acontecer-lhe? Por outro lado, sentia-se bem naquele lugar. Parecia mesmo que a sensação de vazio ia desaparecendo!
Pegou num pentezinho que se encontrava em cima do toucador e começou a pentear-se. Os cabelos estavam de facto grandes de mais, já quase chegavam ao quadril. De certeza que de manhã não conseguiria fazer um coque que costumava usar, e mesmo que conseguisse ele nãose aguentaria muito tempo, especialmente sem laca.
Quando acabou, deitou-se um pouco em cima da cama e fechou os olhos. Conseguia ouvir os passáros a chilrear e o vento a brincar com as folhas das árvores. Era uma música suave, extremamente calma, que ela agradeceu. Aquele « Mundo paralelo» era suave e fresco. Parecia tão puro e sem preocupações! supunha que nada do que fizesse a tiraria dali, pelo menos para já. Portanto o melhor era aproveitar ao máximo fosse lá o que fosse. Kai parecia saber o que fazer. Por agora teria que confiar nele, por muito que isso lhe desagradasse.
Bateram à porta. Saya levantou-se e abriu, esperando ver o rosto de Elianor. No entanto, deparou-se com o de Kai, o que a deixou aborrecida. Ele esboçou um sorriso maroto.
- Elianor espara-nos. Vamos? — perguntou estendendo-lhe o braço.
- Vamos.
Passou por ele, ignorando o braço, fechou a porta e ficou à espera que ele indicasse o caminho. Percorreram o corredor, passaram novamente pela salinha e entraram na cozinha.
Numa grande mesa, já posta para o jantar, aguardavam-nos fumegantes travessas de legumes, batatas e carne. Encostados à parede havia um balcãozinho de cozinha e um fogão a lenha, do qual saía uma enorme chaminé que se perdia no tecto da casa. Mas Elianor não estava lá.
- Boa noite, Elianor — disse Kai, olhando para a porta que conduzia ao exterior. Saya virou-se rapidamente e viu a bela figura de Elianor recortada na ombreira. Elianor entrou em casa e Saya reparou com grande espanto que lhe nasciam das costas duas grandes asas de borboleta em tons de vermelho transparente.
- Gomen se os fiz esperar. Fui só buscar um pouco de néctar para bebermos.
Pousou um pequeno jarro em cima da mesa e quando se virou as asas tinham desaparecido. Kai e Elianor sentaram-se e Saya imitou-os. Serviram-se e começaram a comer. Estava tudo delicioso.
- O que se passa, minha querida? — Elianor parecia ter percebido a inquietação de Saya desde que esta vira as asas. — Não esperavas ver as asas?
- Para dizer a verdade, não. Pensei mesmo que não tivesse visto bem.... Elas desapareceram quase logo!
- Elas só aparecem quando preciso delas. Como devias saber.
Como devias saber?! Não, não devia saber nada daquilo. Nunca lho tinham ensinado. De facto, se alguém lho dissesse, pensaria que esse alguém era doido. Mas agora já não sabia quem seria mais doido. Quem lho dissesse ou ela por não acreditar.
- Pensei que toda a gente soubesse que as Fadas têm asas. Os livros infantis dos humanos sempre nos representaram com elas — continuou Elianor, com um ligeiro desapontamento na voz.
- Parece que hoje todas as criaturas que eu jugalva pequenas se tornaram grandes.
- Hai, já ouvi dizer que os humanos nos representam sempre pequenos — observou Kai — Parecem recear-nos! É como se por nos respresentarem pequenos nos tornássemos mais insignificantes e menos credíveis.
- Não é isso. No meu Mundo é apenas ridículo acreditar em fadas, youkais e outras criaturas mágicas, pelo menos para pessoas acima dos nove anos de idade — explicou Saya
- Minha querida.... — Saya levantou o rosto para Elianor e reparou que ela devia ser muito mais velha do que aperentava, pois nas profundezas dos seus olhos havia o reflexo de uma vasta sabedoria acumulada ao longo dos tempos. — Eu vivo há muitas centenas de anos, muitas mais do que possas imaginar. O próprio Kai não é tão novo como aparenta, embora não deva ter mais de cinquenta anos, o que para nós é quase se ele fosse uma criança.
Saya olhou-os espantada. Kai não podia ter cinquenta anos, ele não podia ser mais velho do que ela! E Elianor...? Como podia ela ter muitas centenas de anos? Dar-lhe-ia, no máximo, trinta e dois anos!
- Não parece, pois não?
- De facto... lie. Pensei que Kai tivesse a minha idade.
- Bem, para nós, vocês têm quase a mesma idade. Poderiam mesmo casar um com o outro.
- NUNCA! — era óbvio que o dissera alto demais. — Gomenasai, mas penso que é impossível que venha a apaixonar-me por ele. Pelo menos tão impossível quanto eu ficar a viver neste Mundo.
Elianor sorriu enigmaticamente.
- As Fadas, os Elfos e os Youkais ficam eternamente jovens a partir de uma certa idade. Mais ou menos aos vinte e cinco anos.
- Mas então... vocês são eternos?
- Lie, minha querida. Morremos como todos os seres vivos. Apenas vivemos mais tempo, cerca de dois mil e qinhentos anos.
Fez uma pausa e olhou para o lado. Fechou os olhos por momentos e inspirou fundo. Depois voltou-se novamente para Saya.
- Os Homens nem sempre nos temeram. Quando eu era ainda uma jovem fada, eles adoravam-nos e sabiam que existíamos. Os nossos dois Mundos costumavam colidir frequentemente. Mas os Homens passaram a adorar o que não podiam ver, ficaram independentes e o seu conhecimento desenvolveu-se muito para além do que a maioria deles esperava. E assim, porque não era lógico, eles esqueceram-nos. Passámos a ser só uma bonita fantasia para os anos em que ainda são crianças.
- Deixaram de querer acreditar; deixaram de sonhar.
- Não digas isso, Kai — retorquiu firmamente Elianor. — Os Homens nunca deixaram de sonhar. Foi a sua capacidade de nunca deixar de sonhar e acreditar no impossível que os levou onde eles estão hoje.
- Não tenho bem a certeza de terem chegado a grande sítio.
- Isso não cabe a nós decidir ou julgar, Kai — repreendeu Elianor. — Desde que eles sejam felizes, acredito que têm toda a sabedoria necessária para decidir o que é melhor para eles. Não te esqueças de que somos muito diferentes deles, por muito parecidos que sejamos fisicamente.
Saya tinha sem dúvida algumas perguntas a fazer, no entanto quando olhou para a fada paraceu-lhe que Elianor não estava disposta a acrescentar fosse o que fosse. Não parecia zangada, apenas um pouco aborrecida com Kai. Este aparentava saber que fizera algo errado e passou o resto da refeição de cabeça baixa, o que agradou a Saya.
Definitivamente, ele e ela não jogavam. Contudo, era engraçado ter encontrado alguém que conseguisse fazer-lhe frente, e até levar-lhe a melhor e vez em quando, não sempre, claro. De uma maneira ou de outra, ela teria a última palavra, e quem ri por último ri melhor. Passaram o resto da refeição em silêncio. Elianor serviu ainda uns bolinhos de mel com compota de ameixas e chá de flor de laranjeira.
- Agora é melhor irem deitar-se — aconselhou Elianor, quando já tinham comido o suficiente. — Amanhã têm de se levantar cedo. Eu chamo-vos um pouco antes de amanhecer.
Saya e Kai foram juntos até aos quartos, porém não trocaram uma palavra.
- Boa noite, Saya. Até amanhã.
- Boa noite.
Quando Saya entrou no quarto, descobriu uma bonita camisa de noite em cima da cama. Vestiu-a e enfiou-se entre os lençóis.
Tinha sido um dia cansativo. Ou teria sido apenas um sonho? Não lhe parecia. Era demasiado real para um sonho. Ainda ali estaria quando acordasse? Talvez sim, talvez não. O certo era que se estivesse teria de se levantar cedo e muito provavelmente teria outro dia igualmente cansativo. E se não estivesse, logo se veria. Por isso, o melhor que tinha a fazer era dormir.
Soprou para apagar a vela que iluminava o quarto, virou-se na cama, puxou os cobertores mais para si, fechou os olhos e adormeceu profundamente.
GLOSSÁRIO:
Kai — youkai filho de Raiden e Tsuki. É durante a maior parte da viagem o guia e protector de Saya. A batalha contra o mal é bastante penoso para ele, pois teme perder a Saya, a fada/hanyou que ele se apaixona de verdade.
Elianor — fada de grande sabedoria. É ela quem apresenta Rin a Sesshoumaru e que mais tarde orienta Saya.
Fadas — seres belos e sábios que têm a capacidade de voar com auxílio de um grande par de asas de borboleta, o qual só aparece quando necessário. Tal como os elfos e os youkais, vivem cerca de dois mil e quinhentos anos; as suas orelhas não são pontiaguadas. Amam a Natureza, como os elfos, e todas as maravilhas do Mundo, mas principalmente o ar.
Elfos — Seres de grande beleza e sabedoria. Têm uma vida longa como as fadas e outros seres e orelhas pontiagudas como os youkais. Amam a Natureza e tudo o que é belo, mas principalmente as árvores.
Fale com o autor