A Filha Dos Mundos

44 Algumas despedidas II


No outro dia de manhã, Saya levantou-se cedo. Lá fora o dia não nascera. As luzes nas ruas da cidade continuavam acesas e as iluminações de Natal, festivas e multicolores, ainda estavam animadas. Lentamente, as persianas das janelas dos prédios abriam-se. A cidade despertava para esse dia de véspera de Natal.

Saya fez a cama, tomou banho, vestiu-se, comeu o pequeno-almoço e arrumou a cozinha. Tentava agir como se tudo fosse normal, como se estivesse realmente apenas a preparar-se para viajar. Tirou uma pequena mala de viagem do armário e abriu-a, enfiou lá dentro as últimas recordações que levava do Mundo em que crescera e voltou a fechá-la.

Depois foi até á sala de estar. Devagar, leu os titulos de todos os livros que estavam na estante, tentando lembrar-se da história de cada um. Passou os olhos pela comprida prateleira repleta de cassetes de video e DVD. As horas alegres e divertidas que passara a ver esses filmes onde tudo era possível: grandes romances com um fim trágico ou feliz, aventuras innimagináveis, comédias hilariantes, dramas reais e angustiantes, guerras terríveis, musicais fantásticos, desenhos animados maravilhosos. Sentou-se no moderno sofá branco e ligou a gigantesca televisão, essa caixinha que se tornou um fenómeno de massas. E ficou assim algum tempo a olhar para esse fantástico ecrã e a passar canais à procura de algo interessante. Num outro dia qualquer, numa situação diferente, teria achado aquilo uma incrível perda de tempo ( era sempre preferível ver um bom filme do que procurar desesperadamente algo para ver naquela caixinha).

Porém naquele dia era diferente. Queria fazer tudo o que era normal fazer naquele Mundo e assim despedir-se dele definitivamente.

Por fim levantou-se, desligou a televisão, pegou na pequenina mala e saiu de casa. Desceu até à garagem de elevador e entrou no carro.

Andou ainda durante muito tempo de carro às voltas na cidade. Faltava-lhe a coragem para fazer o que sabia ter de fazer. Por isso, durante uma hora, vagueou pelas as ruas da cidade, naquela véspera de Natal pouco movimentada, a rever pela a última vez todos os lugares que tão bem conhecia e que durante tanto tempo tinham feito parte da sua vida. Mas finalmente ganhou coragem. Guiou o carro em direcção à grande casa de campo onde costumavam passar férias antes do pai morrer e onde a mãe se instalara há pouco tempo.

A viagem foi bastante agradável. A estrada corria sempre por entre montes verdes de grandes árvores, o céu estava escuro e pronto para largar uma enorme tempestade e, como era véspera de Natal, practicamente não se viam carros.

Saya passou pela aldeia próxima da casa de campo. Não mudara absolutamente nada desde a última vez que ali estivera. Apenas a grande casa senhorial, no topo da aldeia, estava mais degradada e parecia cada vez mais assombrada. Perguntou a si própria se existiria mesmo uma passagem secreta a ligar a casa de campo à igreja e à casa senhorial; contudo nunca o descobriu.

Quando chegou à casa de campo, a tempestade começou. Mas felizmente a mãe já a esperava com um guarda-chuva preparado para a abrigar. A casa estava esplêndida e acolhedora, tal como Saya se lembrava dela. Sobrevivera ao tempo e agora enchia-se novamente de vida. Saya ficou contente. Não gostaria que aquela casa ficasse eternamente perdida no meio daquele verde campo. Aparentemente, a mãe ultrapassara o terrível desgosto que tivera naquela casa e decidira ir viver definitivamente para lá. Ambas sabiam, que aquela casa era muito querida pelo Sesshoumaru. Foi lá que a sua Rin encontrou o espelho que permitiu eles se conhecerem, foi lá que eles casaram-se e moraram nos primeiros dois anos de casados, foi lá que Saya nasceu e foi lá que ele deixou-as para sempre. Sim, aquela velha casa de campo apesar de ser testemunha de uma terrível fatalidade, também foi testemunha de muitas alegrias, de amor, de união e superação.

Entraram para a sala de estar onde a menina Nana dava os últimos retoques a uma enorme árvore de Natal. A lareira estava acesa e em cima da mesa uma chávena de chocolate quente esperava por ela.

Notas finais
e faltam sete para acabar