A Filha Dos Mundos
42 A decisão
Saya estava parada no meio da rua, incapaz de se mover. O camião vinha direito a ela. Fechou os olhos, mas rapidamente os voltou a abrir porque ouviu o som metálico de espadas a chocarem. Estava no meio da batalha travada em Ranthlin e Naraku encontrava-se à sua frente. De repente, um grande clarão branco ergueu-se no ar e tudo o que ela viu depois foi a escuridão simples e densa do vazio. O mesmo vazio em que caíra, durante tanto tempo, depois de se confrontar com Naraku pela última vez. E durante muito tempo não viu mais nada. Até que por fim uma outra imagem surgiu.
Surgiu uma imagem desfocada em que as diversas cores se misturavam, impedindo-a de perceber onde estava. Semicerrou os olhos para ver melhor e a imagem tornou-se um pouco mais nítida. Agora via que estava em Omnirion e à sua frente erguia-se o Palácio do Ouro e do Verde. Em cima, na varanda do seu quarto, alguém caminhava de um lado para o outro, olhando ocasionalmente para o interior da floresta como se aguardasse há muito a chegada de alguma pessoa ue lhe era querida. Saya sabia que era Kai quem caminhava na varanda do quarto e que ela era a pessoa que ele esperava. Mas não conseguia ver as suas feições. Via a longa cabeleira loura e os olhos brilhantes e profundos olhos verde líquido. E no entanto não conseguia distinguir os traços que formavam o belo rosto.
Acordou. Tivera novamente um desses estranhos sonhos, o primeiro desde ue regressara ao Mundo da mãe. Mas aquele não era uma visão do que iri acontecer. Era um aviso. Já tinha passado quase dois meses desde do confronto com Naraku e estava a começar a esquecer-se desse outro Mundo que também era seu. Até o rosto do Kai, que tanto amava e do qual tanto sentia a falta, estava a começar a desvanecer-se na memória. Tinha adiado a decisão tempo de mais. Estava na altura de decidir.
A verdade era que só as recordações a prendiam ao Mundo em que crescera. Também lhe custava separar-se da mãe e do jornal que tanto trabalho lhe dera a erguer. Mas por outro lado era rainha do Mundo do pai. Tinha obrigações para com o Povo da Luz, ao qual também pertencia, que a amava e que ela também amava. Além disso, e mais importante que tudo o resto, Kai esperava-a. O pai abdicara do seu Mundo repleto de amor e sabedoria, do conforto da sua vida, para ficar com a mãe. Tinha deixado os amigos para trás, a família e provavelmente muitas outras coisas a que estava habituado e que lhe custara abandonar. Mas mesmo assim fizera-o. Por isso, ela também o podia fazer e fá-lo-ia.
Levantou-se, envolveu-se num quente e confortável roupão e foi telefonar à mãe. marcou o numero e aguardou.
Na rua começavam a colocar as iluminações de Natal. Como ela gostava do Natal e de toda a magia nostálgica que o envolvia! As ruas cobriam-se de pinheiros repletos de luzes multicolores, anjos papudos, estrelas douradas e prateadas, sinos, bolas coloridas e pinhas. As montras das lojas eram decoradas com neve a fingir, cristais de gelo, pais natais sentados ( papai noel) em cadeiras de baloiço com uma lista repleta de nomes, renas a puxarem trenós atulhados de prendas embrulhadas em papéis coloridos e brilhantes, meninos a brincarem à beira de um lago gelado. As portas das casas enfeitavam-se com coroas de Natal vermelhas e verdes. Por todo o lado ouviam-se belas e festivais canções de Natal. E as pessoas, envoltas em quentes sobretudos, com cachecóis bem aconchegados ao pescoço e as luvas calçadas, aceleravam o passo para chegarem mais rapidamente ao calor das suas casas.
Saya, ao contário da maioria das pessoas, adorava o inverno. Amava a sua luz perfeita e suave, as chuvas melodiosas, as tempestades assustadoras, o vento suave ou irado com as suas perfeitas e estranhas melodias, a calma superior, o frio aconchegante. Como era bom sentir-se quente no meio do frio... No verão nunca se sentia quente, apenas suada. Mas no inverno havia aquela sensação tão especial de se estar confortavelmente aconchegada numa camisola de lã fofa e quente, enquanto tudo o resto à volta permanencia frio. Ou então podia estar comodamente deitada no meio dos cobertores enquanto ouvia a chuva a cair e bater contra a janela do quarto. Como era belo o inverno... E que pena tinha de esses dias cinzentos serem tão raros nas Terras da Luz!
- Bom dia. Faça o favor de dizer.
-Menina Nana? É a Saya. A minha mãe já está levantada?
- Está sim. Quer que vá a chamar?
- Hai, se não se importar.
- Só um minuto.
Saya aguardou e passado pouco tempo ouviu a voz da mãe do outro lado do telefone.
- Então, Saya, já decidiste?
- Já — respondeu firmemente.
- E tens a certeza de que não te vais arrepender de abondonar seja o que for que estás a deixar para trás? — a mãe estava pô-la à prova. Queria ter a certeza de que ela escolhia aquilo que verdadeiramente queria.
- Não vou dizer que não terei saudades, mas tenho a certeza do que decidi. Vou regressar a Caladmirion.
- Ficaria surpreendida se não fosse a tua decisão — disse a mãe — Vens amanhã para cá?
- Ainda não — respondeu Saya — Primeiro tenho de tratar de uns assuntos. Vou para aí na véspera de Natal.
- É o teu jornal não é?
- Hai. Não posso abandoná-lo assim e mandar toda a gente para o desemprego na época do Natal.
- Souka e tens razão. Então até à véspera de Natal
- Até mãe e beijos.
- Beijos para ti também.
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