A Filha Do Hokage
17 Tédio
Notas iniciais
Mei estava deitada na cama olhando para o teto enquanto imaginava os últimos oito anos de sua vida, oito anos presa dentro de um quarto, saindo de vez em quando para fazer o que ele a mandava fazer, mas sempre voltando para o quarto e ficando muito tempo lá, ela tinha desistido de contar os dias que estava aqui a muito tempo, porém podia agradecer a informação a Setsuko, que parecia comemorar e parabeniza-la a cada ano que passava, como se de alguma forma isso fosse seu aniversário e ela devesse ficar feliz por isso. Na verdade, ela já não se importava mais, não se importava mais com nada, tinha cortado seus cabelos na altura dos ombros de forma irregular, suas roupas eram talhas que raramente lavava, fazia oito anos que não via a luz do sol ou que tinha tido algum momento de felicidade genuíno, tinha se conformado com isso, se acostumado a rotina de prisioneira e há tempos desistido de armar algum plano de fuga ou alguma forma de contatar aqueles que um dia tinha chamado de amigos e família, essas pessoas agora só faziam parte de lembranças distantes e depois de tanto tempo, nem saudades ela ainda conseguia sentir. A única coisa que sentia era tédio, o único sentimento que conseguia distinguir e deixar que a preenchesse era preguiça. Uma mulher de 24 anos desleixada e indiferente era o que tinha se formado, nada mais podia mudar isso.
Houve batidas na porta e ela olhou para o lado, Setsuko entrou e olhou para ela.
– Tenho más notícias, pelo menos para você.
– Hum. – Resmungou, esperando ele começar a falar.
– Primeiramente, queria te dizer que sinto muito por isso, mas foi necessário. – Ela revirou os olhos e se sentou, olhou para ele franzindo a testa, esperando-o continuar. – Hinata faleceu, infelizmente tive que fazer isto pelo fato de que ela estava chegando perto de mais de te encontrar.
Isso pareceu despertar uma pequena coisa dentro de Mei, ela sentiu um pequeno incômodo na garganta, mas ignorou isso, fazia anos que não via sua mãe, por que daria atenção a isso?
– E a outra má notícia é que eu terminei minha pesquisa, não preciso mais de você. Sinto muito por isso, pois me apeguei a você, só que terei de te matar. – Mei não esboçou reação alguma, então ele continuou – Não se preocupe, por que vai ser rápido, de um momento para outro você vai simplesmente apagar, eu prometo.
Mei acordou com barulho de batidas fortes na porta, resmungou alguma coisa e se virou para o lado oposto da porta, que se abriu logo depois, porque ele bate se vai entrar de qualquer forma? Pensou Mei.
– Trouxe sua comida, presumi que estivesse com fome já que recusou o lanche de ontem.
– Sim, estou. – Foi à única resposta que deu, e depois de alguns segundos em silêncio, Setsuko somente suspirou, deixou a bandeja que continha um prato com alguns bolinhos e sushis no chão e saiu do quarto, trancando a porta, como sempre.
Depois de mais alguns minutos deitada, Mei rendeu-se ao seu estômago implorando por comida e se levantou da cama, sentando-se em frente à bandeja no chão e comendo a comida que, em sua opinião, era gostosa de mais para uma prisioneira.
O pesadelo que teve voltou a sua mente e ela tentou ignorar isso, não pretendia ficar aqui por tanto tempo assim e não podia desistir de encontrar alguma saída, sabia que isso não seria fácil e nem rápido, mas tinha que conseguir.
Fazia somente duas semanas que estava ali e não tinha saído do quarto uma única vez, ficava o dia inteiro ou dormindo ou pensando em muitas coisas, e duas vezes por dia Setsuko trazia algo para que ela comesse. Às vezes ela recusava por raiva, mas se arrependia depois quando a fome a consumia. Estava sendo dramática ao máximo com ele, mas isso não parecia o telo surpreendido nem incomodado, a indiferença dele a tudo e a tranquilidade e simpatia que ele exalava a deixava irritada. A sua rotina atual sem nenhum acontecimento relevante era entediante, e a saudade de casa doía tanto que ela tentava esquecer tudo, mesmo que às vezes fosse impossível. Em alguns momentos se pegava imaginando como estariam às coisas na Vila, se estariam a procurando ou sentindo sua falta, e tentando imaginar uma saída, não conseguia achar nenhuma.
Ainda restava esperança, mas estava muito difícil a manter.
Quatro semanas depois
Deitada no chão com os olhos fechados, Mei queria quebrar alguma coisa. Estava cansada daquele quarto e do tédio que sentia, ignorava todos os sentimentos tristes e se concentrava na raiva, já fazia quase dois meses e ela continuava presa, o que ele queria dela para trazê-la aqui? Deixa-la em cativeiro para enlouquecê-la? Era a única explicação plausível para a situação, estava se sentindo completamente inútil trancada ali, queria fazer alguma coisa para mudar isso, qualquer coisa.
Setsuko entrou em seu quarto e ela bufou, ver aquele homem loiro a tratando como uma hóspede de forma amigável a deixava enjoada e tinha que se controlar para não manda-lo ir embora, só não fazia isso porque queria realmente sair dali, e talvez ser grossa com quem controlava isso não era uma boa ideia.
– Sua compreensão em relação a sua estadia obrigatória nesse quarto provisoriamente me comove. – Ele disse com sarcasmo e ela o olhou de forma mortal.
– Sua compreensão a meu tédio também me comove, você não faz ideia de como me comove. – Rebateu com raiva e ele pareceu feliz com a resposta. – O que veio fazer aqui?
– Só vim avisar, caso esteja interessada, que todos estão bem, e, além disso, acabei de receber uma informação de que Naruto está te procurando.
– Eu não acredito em você sem provas lembra? E, além disso, eu sabia que ele me procuraria, ele é meu pai, procurou por Yasuji, um desconhecido desgraçado, é lógico que procuraria por mim. – Ela falou sem pensar e observou o rosto de Setsuko, que não tinha nenhuma expressão.
– Vou te provar assim que possível, confie em mim, não há motivos para eu mentir para você.
– Certo, é só isso?
– Sim, tchau Mei, tenha uma boa noite. – Despediu-se dela indo embora logo depois, e o desejo de Mei para que ele tivesse uma péssima noite ficou preso em sua garganta.
Duas semanas depois
Por um momento, Mei pensou que estava sonhando, ela realmente estava sendo liberada do cárcere? Setsuko estava esperando na porta, esperando-a esboçar alguma reação.
– Você tem certeza absoluta que não bebeu Saquê de mais? – Ela indagou, o fazendo rir.
– Estou completamente sóbrio. Você já ficou tempo suficiente aqui para pensar no que deveria.
– Ah claro, pensar em como eu estou com saudade de casa e em como eu odeio este lugar? – Mei disse com ironia, fazendo uma expressão de tédio. – É, pensei muito sobre isso, principalmente no fato de que eu realmente não aguento mais ficar presa nesse quarto.
– Prefere realmente fazer qualquer coisa a ficar trancafiada aqui? – Ele perguntou exalando uma falsa surpresa.
– Não, eu estava mentindo quando disse isso. – Revirando os olhos e suspirando, Mei falou, fazendo um sorriso surgir no rosto de Setsuko.
– Venha comigo, preciso de um pouco do seu sangue.
– Pra que você quer meu sangue? – Ela perguntou enquanto ia em direção à porta, sua voz não mostrava medo nem preocupação, e sim pura curiosidade, ela realmente não se importava com o que tivesse que fazer para ser pelo menos um pouco mais livre, e no momento que saiu pela porta, sentiu-se aliviada.
– Já te expliquei isso. Uzumaki e Hyuuga. Vou pesquisar seu sangue.
– Tipo o que?
– Genética, DNA, células, coisas assim.
– E em que isso vai te servir?
– Nada que você precise saber, pelo menos por agora, é uma surpresa.
– Sempre em tom misterioso... – Ela comentou baixinho, mas ele a ouviu.
– Obrigado, é exatamente essa a intenção. – Ele disse, sorrindo de lado olhando para Mei. Ela o encarou e riu pelo nariz, balançando a cabeça levemente.
Eles andaram por mais alguns minutos, percorrendo longos corredores, a distância entre as portas era considerável, e ela tinha uma imensa vontade de entrar em algumas portas que pareciam a chamar, mas sabia que para fazer isso dependeria das ordens de Setsuko, pelo menos por enquanto. Quando eles finalmente pararam, no final de um corredor, entraram em uma porta que dava em uma sala incrivelmente clara, onde tinham duas camas de hospital com cortinas em volta, que no momento estavam abertas, também tinha uma grande bancada em uma parede, ao lado de um armário que estava meio aberto, o que possibilitava ver um pouco do que continha lá dentro: Frascos e potes, alguns vazios e outros com substâncias dentro.
Setsuko guiou Mei até uma das camas e indicou com um aceno de cabeça para que ela deitasse, ele foi até o armário e pegou uma agulha de lá, passou um algodão molhado com alguma coisa na agulha e voltou para o lado de Mei, que observava tudo em silêncio, então ele pegou o braço dela e passou o mesmo algodão sobre seu pulso, depois enviou a agulha ali, retirando um pouco de sangue. Feito isso, ele voltou ao armário, botou o sangue em um pequeno frasco, e o guardou.
Foi tudo tão rápido e simples que Mei ficou decepcionada, não queria voltar para o quarto, de jeito nenhum.
Alguém bateu na porta e a abriu logo depois, atraindo a atenção de Mei, que se sentou, e Setsuko, que olhou na direção da porta.
– Com licença, Set? Trouxe... Olá Uzumaki Mei. – Um homem que aparentava ser jovem entrou, ele tinha a pele clara, os cabelos castanhos muito curtos e os olhos azuis extremamente claros, era alto e possuía uma postura firme, usava somente uma calça branca e uma camiseta vermelha, a qual era aberta, mostrando um abdômen definido e com algumas cicatrizes bem finas em seu peito. Ele disse teu nome, entretanto, Mei não se lembrava dele.
– Eu te conheço?
– Claro que não, mas eu conheço você. Então finalmente saiu daquele quarto? Por que geralmente demora menos...
– Cale-se Ichiru, vai acabar a fazendo pensar que fui ruim com ela.
– Mas é claro que não, pode continuar falando. – Mei retrucou, incentivando Ichiru continuar a falar e resistindo ao insistindo de revirar aos olhos ao comentário de Setsuko que insinuava que ele não tinha sido ruim com ela.
– Geralmente a "fase" de isolamento é mais curta do que foi a sua.
– É mesmo? Por que Set? – A loira questionou com ironia, olhando para Setsuko e o chamando pelo apelido que o garoto tinha usado.
– Por que foi necessário, simplesmente isso, não me olhe com essa expressão questionadora, você mesma disse que eu tenho um tom misterioso. – Setsuko respondeu, dando de ombros, e Ichiru riu principalmente da cara de tédio de Mei.
– Então... Como eu ia dizendo, trouxe o que você pediu. – Ichiru falou, entregando uma pequena caixa marrom para Setsuko que Mei não tinha reparado antes. – Como você tinha presumido, não foi fácil encontrar.
– Obrigada Ichiru, agora será que você poderia levar Mei de volta...
– Ah, sério? Tenho mesmo que voltar pra aquela cela agora? – Mei o interrompeu, o encarando com os olhos pidões.
– Não é uma cela, é seu quarto. – Setsuko retrucou.
– Aqui isso da quase no mesmo. – Ela reclamou, fazendo uma careta.
– Sinto muito, mas você vai ter que voltar pra lá, no momento não preciso de você para mais nada. – Ele explicou a fazendo bufar e ficar de pé. – Não reclame, amanhã você sairá de novo, tenho que te apresentar uma pessoa.
Ela pensou em perguntar por que ele não faria isso hoje, entanto, percebeu que se fizesse hoje o que faria amanhã, demoraria mais tempo para sair novamente, então deixou para lá. Saiu da sala ao lado de Ichiru e eles permaneceram em silêncio até que Mei o quebrou.
– Então, você está aqui por que quer ou... Você sabe.
– Ou se eu estou aqui por sequestro, ameaças e tal? Eu estou por que não tenho outro lugar para estar.
– Como assim?
– Digamos que eu não sei quem é minha família e nem quem eu sou, fiquei metade da minha vida vagando sem rumo, até que Set me encontrou e estou com ele desde então. – Ele explicou, sem olhar para ela.
– Ah... – Mei pareceu compreender a situação e ele continuou.
– Eu só não morri quando criança pela piedade de algumas pessoas, caso você esteja se perguntando.
– Resumindo, você está aqui por que quer. – Mei disse, franzindo a testa.
– Não, estou aqui por que não tenho escolha.
– Todos tem uma escolha.
– Então estou aqui por que é a escolha mais fácil, você sabe exatamente do que estou falando. – Ichiru retrucou, agora olhando para ela.
– Você sabe muitas coisas sobre mim, pelo jeito. – Ela disse, estreitando os olhos, e ele simplesmente deu de ombros.
– É um hobby, sei poucas coisas sobre mim, então procuro saber sobre os outros.
– Então você deve saber me explicar por que Set me quer aqui, tirando a parte da pesquisa, que foi a única que ele me explicou um pouco.
– Talvez eu saiba, mas você não vai conseguir tirar nada de mim, sou ótimo em guardar segredos. – Ichiru falou, sorrindo de lado para ela, que revirou os olhos, como se eu fosse contar algum segredo para ele, pensou.
– Chegamos.
– Argh. – Mei resmungou aborrecida, o fazendo rir, no mesmo momento ela o olhou de forma assassina.
– Eu não fiquei preso, então não posso dizer nada, mas sei que logo a fechadura vai permanecer sempre aberta, tenha paciência.
– Paciência? É a coisa que mais falta em mim ultimamente, Ichiru, e eu não estou a fim de trabalhar nisso.
– Certo. Você quem sabe. – Ele assentiu, e pegou algo num bolso em sua calça, um molho de chaves parecido com o de Setsuko, só que a de Ichiru continha menos de um terço da quantidade de chaves que Setsuko tinha. Talvez ele não tivesse tanto a confiança de Setsuko quanto ela presumiu em um primeiro momento. – Tchau Mei.
– Tchau Ichiru. – Mei sorriu de forma meiga, e entrou no quarto, ouvindo a porta ser trancada mais uma vez e se jogou na cama, suspirando.
Fale com o autor