A Filha Da Timidez
7 Capítulo 6 – Dormindo em território alheio
Imagine uma galera foda – galera típica que vai a shows de rock. Agora imagine todo mundo pulando e cantando um dos clássicos do rock. Isso sim é show, porra! Animação. Não existe outra palavra senão essa para definir o que é um show de rock maneiro. A voz do cantor só se sobressaia perante a cantoria da platéia por conta do microfone. Havia uns caras – que, mais tarde, fiquei sabendo que eram amigos da banda – que tinham o típico estilo de um metaleiro. Cabelos longos, calça preta, camisa de uma banda e um coturno. Alguns tinham piercings e maquiagem nos olhos. Começaram um “bate cabeça” ali, mesmo sem espaço. Achava isso legal – quando não era tão violento – mas não podia me atrever a entrar em uma dessas rodas. Os caras realmente eram da pesada – maiores que eu e mais fortes também. Seria interessante fazer uma roda de bate cabeça só com meninas, mas isso era impossível. As únicas que estavam ali nem deviam saber o que estava acontecendo. Babacas.
Depois de “I Wanna Rock”, do Twisted Sister, eles tocaram “I Love Rock N’ Roll”, da Joan Jett. Foi estranho ouvir essa música na voz de um homem – nunca tinha escutado – porém isso não estragou a música. Muito pelo contrário. Foi tão bom quanto seria se eu estivesse ouvindo a música original no meu celular. Em seguida tocaram “Welcome To The Jungle”, do Guns N’ Roses, uma das bandas mais fantásticas. O guitarrista não era um Slash da vida, mas era muito bom também. Eu surtei com “Back in Black”, do AC/DC, que tocaram logo após. AC/DC era uma das minhas bandas favoritas. Os caras são simplesmente incríveis. Comecei a pular e a cantar feito uma louca, como se estivesse no próprio show do AC/DC. Empolguei-me tanto que acabei caindo na roda de bate cabeça dos metaleiros, mas nada aconteceu e saí logo. Pra finalizar a primeira parte do show, tocaram “Crazy Train”, do Ozzy Osbourne. Eu amava essa música. Em casa, quando eu jogava Guitar Hero, eu quase sempre a tocava.
– Ok pessoal, nós vamos fazer um intervalo de 10 minutos. – o vocalista anunciou. Andei até uma das poltronas e me sentei. Não ia ficar 10 minutos em pé, à toa.
– Eu não sabia que você gostava de rock. – um garoto chegou e se sentou ao meu lado. Estremeci ao perceber de quem era a voz que eu acabara de escutar. Wesley, o próprio. Olhei para ele tentando disfarçar a minha cara de espanto misturada com desespero. Não consegui dizer nada. Acho que ele notou meu pânico momentâneo e, depois de um tempo em silêncio, deu uma risadinha e sorriu de canto.
– Você é a Jullie, não é? Amiga da Babi... O Rapha fala bastante de você. – grunhiu – Quer dizer, de vocês...
– Sim. – não conseguia dizer mais nada. As palavras não saiam.
– E você veio sozinha?
– Sim. – eu parecia um robô respondendo tudo que ele perguntava.
– Ah sim, agora me lembro que o Rapha me disse que ia jantar com a Babi hoje. – silêncio se fez. – Ok, vou voltar pra lá então. – e apontou sua rodinha de amigos com o dedão – A gente se vê por aí.
Não consegui fazer outra coisa além de abanar o braço numa tentativa de dizer tchau. Comecei a pensar em mil coisas. Quão ridícula eu sou! Porque eu não consigo agir como gente normal? É tão difícil assim abrir a boca e conversar com as pessoas, Jullie?
Assim que os caras da banda voltaram, eu tentei esquecer o que acabara de acontecer. Começaram tocando “Everlong”, do Foo Fighters, e em seguida mais uma do AC/DC. Desta vez era “Highway To Hell”. Me empolguei de novo e, mais uma vez, acabei entrando na roda de bate cabeça. Mas desta vez eu queria. Os metaleiros não se importaram com a minha presença ali, e posso dizer que levei uns bons chutes e socos. Mas nada muito sério. Apenas alguns hematomas pelo corpo. Mas, voltando ao que interessa, eles também tocaram “Smells Like Teen Spirit”, do Nirvana, e “Rock You Like a Hurricane”, do Scorpions. Mal pude acreditar quando começaram a tocar “School’s Out”, do Alice Cooper. Essa música é tão foda! O refrão dela é simplesmente contagiante. Outras músicas que me lembro de terem tocado também foram “Rock and Roll All Nite”, do Kiss, “Smoke on The Water”, do Deep Purple e “Sweet Child O’ Mine”, do Guns N’ Roses. Tiveram outras, incluindo músicas do Queen, Iron Maiden, Metallica, Pink Floyd, dentre outras bandas conhecidas. O show teve mais uns dois ou três intervalos, todos de 10 minutos. Realmente terminou tarde.
Confesso que, no final do show, eu estava um caco. Minhas pernas doíam de tanto pular e meus braços estavam roxos por conta de alguns socos que levei na roda de bate cabeça. Parecia mesmo um moleque que foi pra rua brincar e voltou pra casa todo fodido. Mas vou confessar outra coisa: Não me arrependo de absolutamente nada. Minha voz também fora pro espaço. Cantei e gritei horrores.
Saindo do teatro fui direto para o quarto. Mal bati na porta e a Babi abriu como se aquela porta fosse a saída de emergência de um lugar em chamas. Puxou-me repentinamente para dentro e quase me fez levar um tombo – como se eu já não estivesse machucada o suficiente.
– Você precisa me ajudar!
– Ai! – reclamei das dores que os hematomas causavam enquanto ela apertava meu braço.
– Desculpa. O que aconteceu? Você apanhou?
– Não, nada disso. Foi por causa da roda de bate cabeça.
– Da roda o que? O que é isso?
– Nada, deixa pra lá. – revirei os olhos e ri. – Você quer ajuda em que?
– Será que você pode trocar de quarto com o Rapha por apenas uma noite?
– O quê?
– Por favor, Jullie! Por favor!
– Pra quê? – ela me olhou com uma cara de quem diz “Você sabe...” e soltou um sorriso malicioso. – Ah não, vocês não estão pensando em...
– Estamos!
– Não acredito!
– Por favor, Jullie! Rolou um clima e... Você sabe. É difícil nós termos oportunidade de novo, ainda mais longe de casa. – fiquei em silêncio, pensando em uma resposta. Ela implorou milhões de vezes, e não parou até conseguir o que queria ouvir.
– Tudo bem então! – finalmente cedi. – Mas tem uma condição...
– Qual?
– Pelo amor de tudo, não façam isso na minha cama. – ela riu – To falando sério, otária.
– Fica tranquila Jullie! Agora vai dando o fora, o quarto dele é o da frente. – ela me empurrava em direção à porta.
– Calma, eu preciso pegar umas coisas e...
– Não precisa de nada não. – Ela me interrompeu e me colocou pra fora do quarto – Talvez você se divirta também. Boa noite! – se despediu batendo a porta logo em seguida. Apenas revirei os olhos e bati na porta da frente.
– E aí Jullie! Entra aí e pode ficar a vontade como se fosse o seu quarto. To vazando, falou! – era o Rapha, com pressa.
– Espera! – quase gritei.
– O quê?
– Quem é seu colega de quarto?
– Ninguém. – demorou um pouco pra responder e quando o fez deu um sorriso de canto. – Tchau! – e saiu, batendo a porta.
Olhei para a cama do lado e estava arrumadinha. Realmente, parecia que não tinha outra pessoa além do Rapha dormindo naquele quarto. Mas ainda me lembrava muito bem sobre o que a balconista me disse outro dia. Era regra ter colega de quarto. Então porque ele não tinha?
Não dei muita importância pra isso. Tirei os sapatos e a calça de couro e fiquei apenas com a blusa que fui ao show. Ela era bem grande e parecia um vestido bem curto. Decidi dormir apenas com aquilo, já que o calor estava insuportável. Mas antes de me jogar na cama fui tomar uma ducha bem rápida.
Depois de tirar o suor do corpo, retornei a colocar a blusa e saí do banheiro, preparadíssima para me jogar na cama – principalmente depois desse show, que fora super cansativo.
– O que você está fazendo aqui?! – era aquela mesma voz rouca que me fez estremecer mais cedo. Wesley! Encarava-me com uma das sobrancelhas levantadas, sem entender minha presença ali.
Assim que ouvi sua voz, levantei a cabeça repentinamente – que antes estava abaixada devido a minha mania de andar com a cabeça abaixada. Petrifiquei. Ficamos ali, nos encarando em silêncio.
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