A Filha Da Timidez

12 Capítulo 11 – “Time das vítimas”


Chegamos à praia e encontramos uma multidão. Não conseguíamos ver nada. Wesley se estressou e começou a empurrar as pessoas ali e aqui para conseguir passagem até conseguir ver o corpo do garoto. O segui.

O corpo estava deitado na areia. Era como se estivesse dormindo. Não havia sangue, nem cortes e nem qualquer tipo de machucado. Alguns adultos – que deviam ser os responsáveis pela excursão do garoto – estavam ali, tentando, inutilmente, fazê-lo voltar através de respiração artificial e reanimação. Parecia que nada funcionava. Seu corpo estava pálido. Um dos homens pegou em seu pulso e fez um sinal para o outro. Aquele sinal não me parecia algo bom.

– Ok, voltem todos para seus respectivos navios. Acabou a farra. – e carregaram o corpo. Acho que levariam para o navio deles.

Pude ver, de relance, uma tatuagem na mão do indivíduo. Aquela tatuagem era familiar. Eu já tinha visto ela antes... Mas onde?! Parei um momento para pensar enquanto o corpo era levado pelos homens. Encarei a areia e me pus a pensar, tentando me lembrar de algo. Não demorou muito. Um flashback se passou pela minha mente, fazendo-me lembrar de tudo. Era ele! Era o garoto que me atacara na praia! Quer dizer, eu acho que era.

Lembro-me de sua mão me entregando o bilhete naquela noite. Havia alguns traços em sua mão, mas não tinha visto direito por conta da falta de luz. Na hora eu não pensei em nada, apenas achei que pudesse ser sujeira. Como pude ser tão estúpida?

– É ele Wes! – ele me olhou assustado.

– Ele quem?

– O garoto que me atacou na praia

– Como sabe? Você não tinha visto o rosto dele.

– Mas eu vi a tatuagem.

– Tatuagem?

– É! Mas como ele morreu? Será que agora tudo acabou? Quer dizer, aquela palhaçada dos bilhetes... – Wes não me respondeu, só agarrou o meu braço e me arrastou para dentro do navio. Levou-me de volta ao quarto, enquanto Babi e Rapha ficaram lá fora. Quando chegamos, ele entrou e trancou a porta.

– O que foi? Fala logo!

– Ok, mas não me mate. Eu tinha visto o rosto do menino depois que você saiu correndo.

– Porque não me contou? – aumentei o tom de voz.

– Calma! Foi pro seu próprio bem. Eu não queria que você se preocupasse com isso.

– Porra Wes, que mancada!

– Me escuta. Eu conversei com ele na praia hoje de manhã. Ele não disse nada a respeito, mas ele não me engana. Eu acho que ele foi só uma “cobaia”.

– O que você quer dizer?

– Quero dizer que alguém o mandou fazer aquilo. Ou o pagaram ou o ameaçaram, eu não sei.

– Porque acha isso?

– Ele me disse, mas não diretamente. Na verdade eu acho que ele deixou escapar. E isso é muito estranho, porque agora ele está morto.

– E o que isso significa? – demorei a responder.

– Significa que não são apenas bilhetes ou apenas uma brincadeirinha qualquer. Acho que estamos lidando com alguém que pode estar obcecado.

– Obcecado?

– Obcecado por você, Jullie.

Não consegui dizer mais nada. O silêncio prevaleceu. Obcecado... Eu sabia o que essa palavra significava, e era isso que me assustava. Uma pessoa capaz de fazer qualquer coisa pra ter o que quer... Isso é realmente bizarro, se você parar pra pensar. Qualquer coisa é muita coisa.

Sentei-me no chão do quarto e apoiei a testa em meus joelhos. Comecei a chorar. Sim, isso soa um pouco dramático, mas acredite, eu estava muito assustada. Além disso, a morte do garoto não havia ajudado em nada. Wes se sentou ao meu lado e acho que ficou me encarando por alguns segundos. Quando eu finalmente retornei a levantar a cabeça, senti suas mãos passando pelo meu braço, indo de encontro às minhas. Ele as segurou firme. Olhei fixamente em seus olhos e pude sentir segurança. Era como se ele estivesse me dizendo, com os olhos, que estaria comigo e que iria me proteger. A última coisa que me lembro é de ter apoiado minha cabeça em seu ombro. Apaguei.

Acordei deitada na cama, e Wes não estava mais lá. Virei e pude ver Babi na cama ao lado. Decidi não acordá-la. Troquei-me e saí. Queria procurar informações sobre o que ocorrera na noite passada, mas fui surpreendida. Quando cheguei à parte de fora do navio, notei que já não estávamos mais no mesmo local de antes. A praia já estava distante. Estávamos voltando! Foi aí que uma voz sussurrou, atrapalhando meus pensamentos.

– Assustada? – era Bryan.

– Confusa.

– Acharam melhor adiar os dias na praia e voltar logo pra casa, depois do que aconteceu. – fiquei em silêncio por alguns segundos.

– Você conhecia o menino? – ele me olhou de um jeito estranho.

– Ahn?! Não... Por quê?

– Porque alguém iria querer matá-lo?

– Disseram que ele se suicidou... Tentou se afogar. Mas as ondas acabaram o trazendo de volta para a praia.

– Eu não acho que essa seja a versão verdadeira. Aí tem treta...

– Bom, foi o que disseram... – silêncio mais uma vez. Estávamos parados em uma das extremidades do navio, observando o mar. – Mas porque você acha isso? – olhei bem em seus olhos e demorei a responder.

– Dedução. Eu só acho que não há motivos para alguém querer se matar durante uma excursão em um cruzeiro.

– Vai saber... Algumas pessoas têm sérios problemas mentais.

– Realmente, elas têm. Cada uma com um tipo de problema diferente. – encarei o mar, séria, e logo saí de perto.

– O que você quer dizer? – ouvi sua voz, que já estava um pouco distante.

– Nada. – respondi, e continuei andando.


POV Wesley

Depois que Jullie adormeceu em meu ombro, coloquei-a na cama e voltei para o meu quarto. Tudo o que eu mais queria era me jogar no colchão e apagar.

Não conseguia parar de pensar no ocorrido. Tentava, de todas as formas, fazer qualquer ligação que fosse. Bom, se não era ele que queria algo de Jullie, então era outro alguém, e disso eu tenho certeza. Mas quem? Teria ele cometido suicídio por conta da “pressão”, ou simplesmente decidiram que a “cobaia” não seria mais útil? Eu ficava pensando e me perguntando coisas que não entendia. Tentava encontrar a resposta, mas não conseguia. Suposições era tudo o que eu tinha.

Assim que entrei no quarto notei que Rapha ainda não havia chegado. Fui direto para o banheiro, tomar uma ducha gelada. Saí e fui para a cama. Finalmente havia conseguido me esquecer de todos aqueles pensamentos que estavam me atordoando e eu finalmente poderia dormir, despreocupado. Seria só mais uma noite tranquila de sono, mas só seria mesmo.

\"\"

Era um bilhete. Estava grudado na cabeceira de minha cama. Parece que não fui usado apenas em uma citação. Agora estão jogando comigo também, e algo me diz que faço parte do time das vítimas.


Notas finais
Não acontece muita coisa nesse capítulo, mas ele é necessário para esclarecer muitas coisas... Espero que gostem. Não esqueçam de deixar um review, ok?! Gosto muito de ler o review de vocês! Até mais =)