A Filha Da Timidez
2 Capítulo 1 – Novo na Turma
Segunda-feira. Era a última semana de aulas antes das férias e da excursão que eu tanto aguardava. Acordei com uma almofadada na cara.
– Acorda sua vaca, já é 06h30min, estamos atrasadas. – Babi, sempre muito educada.
– Mas que porra, você esqueceu de colocar o despertador de novo? – também sou muito educada, portanto se acostumem.
– Sim, acordei por sorte.
– Você não presta pra nada mesmo. – dei risada e fui em direção ao banheiro. Peguei qualquer calça e qualquer blusa que vi pela frente, fiz um coque e coloquei meu tênis da Vans – que eu amava. Eu não gostava de me arrumar muito para ir à escola, mas a Babi... Totalmente o contrário de mim. Me arrumei em 10 minutos e desci para tomar café da manhã. A Babi desceu meia hora depois, e consequentemente nós chegamos atrasadas na escola. Mas tudo bem, eu já tinha me acostumado com isso. Por sorte conseguimos chegar 2 minutos antes do professor, caso contrário, não entraríamos para assistir a aula. Eu até que iria gostar.
– Bom dia turma. Hoje nós temos um aluno novo. Qual é o seu nome? – disse o professor olhando para o fundo da classe. Todos se viraram.
– Wesley. – soou uma voz grossa.
Parei por um momento e fiquei analisando-o. Era isso mesmo que eu estava vendo? Moreno, olhos azuis, lábios finos, lindo pra caralho! Mas não foi isso que me chamou a atenção. Ele tinha alargadores – que só de olhar pude ver que eram de 12 mm – e dois piercings na boca. Era o único garoto “diferente” que eu já havia visto nessa cidade. Por um instante comecei a pensar que iriam chamá-lo de estranho também, por sermos “iguais” – eu também uso alargador e me acham estranha por isso – mas pude perceber as meninas da classe suspirando por ele. Revirei os olhos. Pude perceber também que ele me fitou por um instante, e acho que fiquei vermelha por causa disso.
No intervalo ele ficou rodeado de garotas que, para mim, são um bando de vadias atirando pra todo o lado, louquinhas por atenção. Os garotos mais populares também chegaram nele, dando a maior moral. Uma pena, pois eu realmente não queria que ele se tornasse mais um otário dentro daquela escola. E eu, como sou tímida, preferi ficar na minha, até porque se eu chegasse nele eu iria parecer como as outras: um bando de galinhas com uma metralhadora na mão – se é que vocês me entendem.
Na hora da saída, quando bateu o sinal, voltei pra casa. Não fui junto com a Babi porque provavelmente ela estava por aí dando uns “amassos” com o Rapha, seu namorado. Ele era gente boa, mas era o típico “filhinho de papai”. Mas a Babi gostava disso. Ela demorou um pouco pra chegar em casa, e assim que chegou já veio me encher o saco.
– E aí dona Jullie... – olhei com cara de desentendida para ela, pois não havia entendido o que ela estava querendo insinuar com o tom de voz que ela tinha usado. Permaneci em silêncio.
– E o Wesley, hein?!
– O que tem ele? – perguntei.
– Qual é, eu vi o quanto você olhou pra ele hoje. E não negue. Além disso, eu sei que ele faz o seu estilo. – a Babi era uma ótima observadora, e isso não há como negar.
– Então você viu errado.
– Sua mentirosa! – jogou duas ou três almofadas na minha cara e começou a rir.
– Eu não estou mentindo. – joguei as almofadas de volta e ri também.
– Você está vermelha, ou pior, quase roxa de tanta vergonha. Eu sei quando você mente.
– Não enche! – respondi e nós duas começamos a rir.
Durante a semana inteira ela ficou me enchendo o saco dizendo que eu estava apaixonada e blá, blá, blá. O pior é que ela tinha toda a razão sobre isso.
Na semana seguinte eu fiz questão de colocar uns quatro despertadores pra tocar. Tínhamos que estar em frente à escola às 7h em ponto para pegarmos um ônibus, que nos levaria até o litoral. Para a minha alegria todos os despertadores tocaram, e logo em seguida a Babi começou a me xingar pelo susto que ela tinha levado. Nos arrumamos – dessa vez coloquei uma roupa melhorzinha – fizemos as malas e fomos até à escola. O ônibus não demorou a chegar, e logo já estávamos todos partindo em direção ao litoral.
Percebi que o Wesley também estava indo, o que me deixava muito irritada, porque eu era obrigada a ver as meninas se esfregando nele o tempo todo. Sim, eu estava com ciúmes. Todos sempre me encaravam bastante, afinal, eu era “estranha”, como gostavam de dizer, e eu já estava acostumada com isso. Mas ele? Sim, ele me encarava também, e muito! Isso me deixava com a pulga atrás da orelha. Cheguei até a pensar que poderiam ter dito algo a meu respeito para ele, algo que provavelmente não era bom.
Assim que chegamos ao litoral, depois de quase 1h e meia de ônibus, todos desceram. Ficamos em frente a uma rampa que levava direto ao cruzeiro. Era gigante e parecia ser muito foda lá dentro. Um homem começou a tagarelar, dando algumas “instruções” da viagem. Depois de muito, muito tempo falando bobagens, ele gritou:
– TODOS À BORDO!
Nesse instante a Babi pegou no meu braço e começou a me arrastar para dentro do cruzeiro.
Que as férias comecem, e que coisas boas aconteçam, porque de desgraças a minha vida já está cheia.
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