A Filha Da Selva

1 1- Eu não sou única


Notas iniciais
Primeiro capítulo, espero que gostem

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Eu tinha 10 anos e estava correndo de uma legião de dracaenaes que insistiam em me perseguir. Já estava sem fôlego e acabei entrando em uma mata. Elas estavam chegando e eu não tinha como me defender. A única coisa que pensei antes de fechar os olhos foi que eu gostaria de estar em qualquer lugar que não aquele.

Quando abri os olhos percebi que eu estava em outro lugar, ainda era uma mata, mas não era a mesma. Como eu sabia disso? Eu sempre tive uma ótima relação com a natureza. Por mais estranho que pareça, eu sempre consegui falar com animais, eu sabia as necessidades das plantas, me localizar bem em florestas, etc. Meus amigos costumavam me chamar de ‘A Filha da Selva’ e inimigos de ‘Índia’. Ridículo, né? Os índios não! Mas o modo como a palavra era usada.

Bem, assim que percebi que não estava mais no mesmo lugar, fui procurar a saída da floresta.

Encontrei a saída deparando-me com um garoto que deveria ter a minha idade chorando nos fundos de uma fábrica.

– Está tudo bem? — eu perguntei para o menino

– Quem é você?

– Meu nome é Lily. Posso saber o seu?

– Leo — respondeu, virando o rosto para o lado

– Prazer, Leo.

– Hum...

Hesitante, sentei-me a seu lado.

– Então... Não vai me dizer por que estava chorando?

– Eu não estava chorando — ele disse grosso, mas sua voz falhava

– Você finge que é verdade e eu finjo que acredito.

Abracei-o. Eu costumava ser muito carinhosa com as pessoas.

Ele não fez nada para me afastar, o que me surpreendeu. Eu o abracei mais forte e ele me puxou pela cintura, abraçando-me também.

Senti sua respiração acelerar por causa das lágrimas que ameaçavam escorrer, senti que eu fazia o mesmo. Por que eu estava chorando? Eu não sabia. Será que era meu pai? Mas eu nunca o conheci, como poderia estar chorando por ele? Por causa das piadas que escutava a meu respeito todo dia? Mas não faz sentido, já que nunca chorei por isso também. *suspiro* Desista Lily, você nunca vai descobrir por que está chorando!

Quando Leo parou de chorar ele se afastou e, olhando em meus olhos perguntou:

– Por que fez isso? Por que está tentando me ajudar?

– Eu gosto de ajudar as pessoas, acho que todos merecem a felicidade. Mas me pergunto por que acha que eu deveria agir de forma diferente?

– Ninguém me quer por perto – disse ele, dando de ombros

– Por que não?

– Como se você não soubesse.

– Mas não sei.

– Todos nesta cidade me odeiam.

– Por que? Você por acaso fez algo errado?

– Para eles?.... Nasci!

– Não exagera.

– Não é exagero. É a verdade.

Ficamos em silêncio por um tempo, já que eu não sabia o que dizer. Mas acabei quebrando o silêncio ao falar:

– Onde estamos?

– Como?

– Que cidade é essa?

– Você não sabe onde estamos? Está perdida?

– Na verdade, eu não estou perdida, é que... – parei por um tempo pensando no que dizer. Suspirei – Você não entenderia. Mas pode responder minha pergunta?

– Estamos em New York – respondeu-me em um tom desconfiado

– NEW YORK?!?!?! ESTOU NOS ESTADOS UNIDOS?!?!?!?! – gritei levantando-me

– Bem... É... Por que está tão assustada e... surpresa?

Olhei para ele que me encarava tentando decifrar minha expressão... Não, não só somente minha expressão, mas meus pensamentos também.

– Se eu contar vai me achar louca.

– Não vou, eu prome... – ele parou no meio da frase e arregalou os olhos para algo que deveria estar atrás de mim.

Virei-me rapidamente e me deparo com as dracaenaes que me perseguiam a pouco. Como elas conseguiram me achar? E pior, como conseguiram chegar tão rápido aqui?

Olhei para Leo e ele parecia em choque. Acho que ele tinha visto a verdadeira forma das dracaenaes.

Elas estavam prestes a atacar e eu queria fugir de novo, mas e Leo? Ele não poderia fugir. Então foi aí que notei que estava ao lado de uma floresta.

“Bem, funcionou quando eu pedi para estar em outro lugar. Talvez funcione agora.”. Foi a única coisa que veio a minha cabeça. Então concentrei-me nas árvores que estavam a minha frente. De repente os galhos das árvores começaram a envolver os monstros pela cintura e espreme-los até que virassem pó. Em pouco tempo eu já estava cansada e não conseguia fazer mais nada. Cai no chão e as dracaenaes ainda não tinha acabado, acho que ainda tinham três ou quatro, quando as vejo serem incendiadas. Olho para trás e vejo que Leo foi o responsável pela morte do resto delas. E com a visão daquele garoto com as mãos em chamas olhando preocupado para mim, eu desmaiei.

Acordei sem saber onde estava, eu não lembrava de nada.

Aos poucos minha memória foi melhorando e eu percebi que ainda estava no mesmo beco de ontem a noite. Eu também percebi que Leo estava sentado me olhando enquanto fazia carinho em meu rosto. Aos poucos consegui me acostumar com a claridade e abri os olhos por completo.

Ao abrir meus olhos, encontrei, imediatamente, com os de Leo, que não parara de fazer carinho em minha bochecha e abriu um sorriso de lado que eu achei muito fofo:

– Bom dia, Bela Adormecida. Está melhor? – perguntou enquanto me sentava

– Bom dia. Sim, estou melhor – falei com a voz rouca e um pouco manhosa.

Então ele começou a gargalhar. Eu não estava entendendo nada. Por que ele estava rindo? Acabei rindo com ele, mesmo não sabendo o motivo, mas a risada desse garoto é contaminante.

– Do que está rindo? – perguntei quando minha respiração voltou ao normal

Ele ainda riu por mais algum tempo e quando, finalmente, me respondeu, estava com lágrimas nos olhos de tanto rir.

– Você tá muito engraçada! – disse e abriu um sorriso enorme e lindo

– Como assim “engraçada”? – fiz aspas ao falar.

– Seu cabelo tá todo bagunçado e sua voz tá engraçada. – ele mantinha o mesmo sorriso pelo qual eu me apaixonei

– Eu sei que eu to engraçada e que minha voz está engraçada, mas engraçada como?

– Perdeu a graça. Sua voz voltou ao normal. – ele fez bico – Mas o cabelo tá hilário – e abriu novamente aquele sorriso lindo, eu não tive outra reação se não sorrir também – E respondendo à sua pergunta: sua voz tava rouca e manhosa. Faz de novo?

– Fazer de novo? – perguntei erguendo uma sobrancelha

– Você fica fofa com aquela voz. – agora foi a minha fez de cair na gargalhada

Leo me encarava com uma expressão interrogativa e eu apenas ria.

– Para de rir. – tentou parecer autoritário, porém ele parecia mais era indignado.

Quando consegui parar de rir e tomar fôlego, falei:

– Eu? Euzinha aqui? Fofa com aquela voz? Só pode tá de brincadeira.

– Não to brincando. É sério, você fica fofa.

Abaixei a cabeça envergonhada e, tenho certeza de que estava vermelha. Ele apenas sorriu com a minha reação e me abraçou pelos ombros.

– Eu estou com fome. E você? – sorri

– Você tem comida? Porque o que parece é que está fugindo e fugitivos não costumam ter tempo de pegar a comida – falei sugestivamente

– Você não pode falar nada. Também estava fugindo.

– Mas eu estava fugindo de uma legião de dracaenaes, então é diferente.

– Você nem sabe do que eu estava fugindo – ele falava em um tom melancólico

– Então, porque não me conta?

Leo pareceu relutante, mas me contou como perdeu a mãe e tudo o que sentiu quando isso aconteceu, também disse que estava fugindo da nova família adotiva e que estava chorando ontem a noite, porque as lembranças da mãe estavam muito vivas em sua mente, já que estávamos atrás de uma fábrica, de acordo com Leo, uma oficina mais precisamente. Leo me contou sobre seus poderes, sobre uma tal de Tía Callida, que tinha TDAH e dislexia e que vivia sendo expulso das escolas aonde estudava. Eu ria com isso, nossas vidas eram muito parecidas: nenhum de nós conheceu o pai, tínhamos TDAH e dislexia, vivíamos sendo expulsos de nossas escolas, éramos considerados aberrações onde vivíamos e mais.

Óbvio que eu também contei para ele de minha vida. Falei que morava no Brasil, Amazonas, Itacoatiara; que tenho uma boa ligação com a natureza desde pequena; que sempre sofria com as piadas sobre mim na escola e na cidade; nunca tive muitos amigos e os únicos que tive mudaram-se ou pararam de falar comigo.


No final, sabíamos tudo um sobre o outro e já éramos como melhores amigos. O engraçado é que até apelidos arrumamos um para o outro. Leo passou a me chamar de Natureba só porque eu sou vegetariana e, apenas para revidar passei a chamá-lo de foguinho, um apelido que ele odiou. Bem, então estávamos empatados.

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– Lils, você tem certeza que esse treco é comestível? – Leo não parava de me perguntar isso desde que ele inventou de saber como era o sabor de comida vegetariana. Tínhamos conseguido entrar na oficina, que estava abandonada, e eu tentava fazer algo para Leo beber.

– Tenho – eu ria – Agora bebe logo que o sabor não é tão ruim assim.

Ele me olhou com um olhar suplicante como se dissesse “Eu tenho mesmo que tomar isso?”

– Foi você quem pediu – falei – E tem mais, eu não fiz algo que você ficou me pedindo por séculos para no final você dizer que não quer. Agora beba logo Leo Valdez.

Imagino que ele tenha ficado com medo da minha expressão, porque pegou o copo na ora e tomou todo o líquido que tinha dentro.

Eu apenas o encarava curiosa para saber o que ele achou da culinária vegetariana. Assim que acabou com todo o conteúdo do copo me olhou com um sorrisinho amarelo no rosto e perguntou com uma voz infantil, que eu achei muito engraçada e fofinha:

– Faz mais pra mim?

Nessa ora eu não aguentei e comecei a rir infinitamente e Leo me acompanhava.

– Não disse que era bom?

– É, você disse. Agora faz mais pra mim e depois me ensina a fazer que não vai ser só hoje que eu vou tomar esse treco que você fez. Qual é o nome disso mesmo?

– Sei lá, eu que criei a bebida e nunca dei nome.

– Então eu posso dar? (N/A: vou torcer para que meus leitores lindos não tenham uma mente tão poluída como a minha e não tenham pensado besteira)

– Claro. Que nome você pensou em dar, hein, Valdez? – falei desconfiada

– O nome não é tão ruim assim tá! – ele disse e deu a língua – Mas já que não quer acreditar, então nunca vai saber o nome.

– Então tá bom. E se quiser a receita, é essa aqui – disse lhe entregando a receita que eu tinha escrito enquanto ele falava.

– Você escreve rápido, hein, garota. – ele falou e eu dei de ombros

– Acho melhor eu ir embora, minha mãe já deve estar preocupada. Também, né. Eu desapareci ontem a noite e ainda não voltei para casa.

– Tá bom. Quando te vejo de novo?

– Nunca.

– Para de mentir, Lily, eu sei que você me ama e nunca conseguiria ficar longe de mim. – disse ele com um sorriso convencido.

– Nossa, você é tãaaaaao humilde, não é, Leo?

– Pois é. Esse é um talento que poucos tem.

– E você faz parte dos outros muitos – ele me encarava indignado – Fica bravo não, bebê – disse apertando sua bochecha – Vou voltar assim que minha mãe se acostumar com o fato de eu ter um amigo nos Estados Unidos.

– Por que ela tem que se acostumar.

– Porque pras mães, qualquer pessoa pode ser um assassino ou pedófilo. Provavelmente, ele vai pedir pra te conhecer. – dei um sorrisinho para tentar acalmá-lo sobre a terrível imagem que eu passei para ele sobre minha mãe – Até Foguinho. – falei aproximando-me de floresta

– Tchau Natureba


Sorri enquanto as plantas à minha volta me envolviam e a viagem de volta a Itacoatiara começava.

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Acordei com o sol invadindo meus olhos. Já fazia dias que eu sempre tinha o mesmo sonho. Será que algo aconteceu com Leo? Com o meu Foguinho?


Notas finais
Espero reviews, meus fofos
Xoxo