A Fera e a Bela
3 Capítulo 2.0
Notas iniciais
“Abri os olhos e vi um teto de madeira, olhei para a esquerda, havia uma janela, olhando através da janela, vi que estava clareando, devo ter dormido a noite toda. Ao olhar para a direita, encontrei uma estante de livros, fechei os olhos e me sentei. Ao reabri-los vi um relógio grande, em frente a uma porta, olhei bem e percebi, era mais uma coisa encantada. Estava vivo. Era um guarda.
Eu estou presa.”
Passaram-se umas 4 ou 5 horas. Eu apenas dormia, e nos curtos momentos que estava acordada olhava pela janela, para o céu. Quanto tempo teria que ficar ali? Tudo que estava vivendo era realmente real ou não passavam de coisas da minha mente? Seria apenas um sonho? Não, cheguei à conclusão, que apesar de tudo ser inexplicável, tudo era real. Senti vontade levantar, andar pelo quarto, abrir a janela, mas não tinha forças. Minhas vontades então mudaram em segundos, sentia uma vontade imensa de chorar.
Chegou um momento em que cansei de tentar entender, parei de pensar e simplesmente fechei os olhos deixando o cansaço físico e mental me dominarem e me levarem para o mundo dos sonhos. Devo ter dormido por mais umas 2 horas. Olhei para o céu, que horas seriam? 11h? 12h?13h? Não tinha a mínima ideia.
Escutei minha barriga roncar. Tudo que mais desejo, era uma fatia do pão que papai fazia para mim todas as manhãs. Ou então um pedaço do bolo que ele fazia em todos os meus aniversários, para não deixar passar em branco. Ou então, até um pouco da sopa horrível que ele me obrigava a tomar todas as noites de domingo, em homenagem a mamãe, a sopa era sua comida favorita. Mas agora não há nada que posso fazer em relação a isso, a não ser, ignorar e me distrair para não me concentrar naquela sensação ruim.
Suspirei diversas vezes. Contei 10 e levantei da cama. Olhei o quarto mais uma vez. Fui até a estante de livros e olhei os títulos, tinham muitos em línguas diferentes, muitos dicionários e alguns de matemática e astronomia, e alguns poucos de literatura. Achei um chamado “Uma aflição Imperial”, parecia interessante. Peguei-o e sentei no chão, do outro lado do quarto, encostada na parede em baixo da janela.
Em cada paragrafo lido, eu saia um pouco mais da minha estranha realidade e entrava em um novo mundo. Li até escurecer. Tentei ignorar ao máximo a fome, porem, a cada virada de página sentia meu estomago reclamar mais um pouco. Quando ficou escuro de mais para ler, fui até a cama e me deitei sem realmente dormir.
Passado alguns minutos escutei o guarda se movendo. Levantei em um pulo e fiquei do lado da cama olhando enquanto o guarda saia e fechava a porta. Em menos de 1 minuto a porta abriu-se de novo e dessa vez quem entrou foi o homenzinho com o prato planando ao seu lado, na altura do ombro, e o candelabro do outro lado.
Ele estava diferente. Estava alto, com músculos definidos aparecendo no peitoral nu, estava sem camisa e uma caça jeans rasgada. Pelos cobriam seu peito.
Tinha feito a barba, seu rosto não havia mudado, agora porem, era visível uma porção de cicatrizes pelo seu rosto. Seus olhos, para mim, estavam indecifráveis, estavam mais escuros. Eles pareciam uma noite fria sem estrelas, parecia à imensidão do vácuo eterno perdido nas profundezas de uma das crateras da lua, parecia, percebi enfim, a própria dor da perda de uma vida em um único olhar.
Ele parecia muito menos um homem bizarro, ele agora era um monstro em forma de homem, um animal, uma fera.
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