A Fera de Los Padres
1 A Fera de Los Padres
Santa Felícia Daily Newspaper , Terça-feira, 3 de fevereiro de 2012,
“Era um mar de sangue”
Foram essas as palavras de Hal Emmerich, trinta e dois anos, engenheiro mecatrônico, ao se deparar com uma cena deprimente ao se aventurar pela floresta nacional de Los Padres.
Na noite passada, dia 2 de fevereiro, os corpos de seis jovens, residentes em Santa Felícia, foram encontrados em uma das trilhas da floresta ao norte da cidade. Eles foram brutalmente atacados por algum animal selvagem ensandecido. Devido aos ferimentos, atribuísse o acontecido a algum dos ursos negros que vivem na região. Normalmente esse tipo de animal não ataca seres humanos quando não provocado, todavia, o espécime em questão poderia estar com prole recém nascida, o que explicaria em parte a violência do acontecido.
Segundo amigos das vitimas, os adolescentes teriam planejado tal expedição às escondidas, sem consentimento dos pais e teriam viajado em um grupo de sete pessoas: Sarah Macdougall, Paul Roberts, Denzel Seaman, Margaret Wolovitz, Rowena Kennethson, Roger Sanchez e Ulric Connor. Sendo que, o ultimo citado, não foi encontrado entre os mortos. A guarda florestal esta, neste momento, tentando localizar o desaparecido e o animal que teria cometido o ataque...
O corpo de Denzel Seaman havia sido alvejado por uma bala 9mm, disparada pela Glock 18 do pai de Paul Roberts, arma a qual o rapaz furtara da própria família antes de começar a viagem. Segundo a pericia foi um tiro acidental, fogo amigo durante o pânico de ser atacado por um animal selvagem, contudo os fatos ainda estão sendo verificados...
1 de fevereiro, domingo. Vinte horas e 12 minutos.
Algum lugar na Floresta Nacional de Los Padres.
Vejam bem e prestem atenção, histórias negras que perpassam por obscuras sendas... Todas começam do mesmo jeito, afinal, todas fazem parte da mesma historia...
Olhem só, os sete adolescentes. Caminhando por sobre uma das inúmeras trilhas da floresta, rindo, gritando, fazendo uma maldita algazarra. Mas, ambiente estava aconchegante, um vento agradável batia contra o rosto dos jovens, jogando seus cabelos para trás, conforme eles caminhavam noite adentro.A floresta era uma representação real do imaginário dos garotos, nada de lúgubre, nada de medonho, parecia que a mata gostaria de obedecer aos desejos dos garotos, formando um clima bom, propício para suas fantasias... Apenas parecia...
Enquanto andavam podiam ouvir, em meio aos seus risos, o criquilar dos grilos, como que para saudá-los. As correntes de ar traziam mais do oxigênio e gases atmosféricos, levavam até os jovens os cheiros da terra molhada, o sabor de fontes cristalinas de longe o coaxar dos sapos e o som da água de algum riacho caudaloso.O clima era de conto de fadas, até mesmo as tímidas corujas, que calavam-se na presença de estranhos pareciam contar aos coros para os jovens, recebendo-os com “uh-uhs”, para que não se sentissem sozinhos na imensidão verde e toda essa baboseira que historias da Disney cansam de passar para as pobres criancinhas.
E assim os adolescentes iam: alheios ao horror que a trama do universo havia lhes preparado, acreditando estar em apenas uma viagem pela Floresta Nacional de Los Padres
...
- Eu sabia que não deveríamos ter chamado essas garotas medrosas, olha só o quanto nos atrasaram! – brincou o ruivo, que estava mais a frente.
- Roger, de nada serviria essa viagem se apenas um bando de cuecas tivesse vindo. Se é que me entende... – Respondeu, com um sorriso, um moreno que andava abraçado com uma loira, ele fazia o tipo: “jogador de futebol machão”.
Denzel soltou um “ai” no instante em que o beliscão de Sarah, a loira o qual estava abraçado, cumpriu o seu papel de repreendê-lo e irritá-lo.
- O que você quis dizer com isso mocinho?
Alguns dos rapazes riram da loira, porem, sem dizer o que ela provavelmente já sabia, afinal, quem não teria entendido? Limitaram-se a olhar uns para os outros como os idiotas que deveriam ser e a gargalhar.
- Gente... Nós não deveríamos acampar? – Perguntou Rowena cautelosa, temendo alguma resposta particularmente maldosa – Pelo menos era o que guia o viajante di...
A garota não pode completar o que dizia, pois foi violentamente interrompida por um dos seus companheiros, um rapaz que bebia, pelo gargalo, uma garrafa de alguma espécie de aguardente, como se achasse que isso significava que suas bolas eram maiores que as dos outros. Paul era seu nome.
- E é “exatabente” por isso que ninguém quer comer essa fresca... Por que “nóis” trouxe ela para cá mesmo? – gritou.
Paul estava começando a ficar embriagado, não que ele fosse muito agradável quando são, mas, idiotice tende a piorar de modo exorbitante quando acrescida de álcool. Somando tudo isso à um grupo em uma mata, pode levar a causos “fodidamente” desastrosos.
- Ela veio com agente porque é nossa amiga, babaca, diferente de você que teve que ameaçar falar para nossos pais o que agente ia fazer e por o Denzel estar “te devendo uma”. Essa bosta de honra masculina. – Margaret suspirou – Seria tão interessante se você pisasse num maldito ninho de “Yellow Jacket”.
- Vou fingir que não escutei o que você disse, minazinha – deu mais um gole em sua cachaça – E afinal, o que diabos é “Yellow Jacket”.
O sétimo integrante desse pequeno conto de horror finalmente se pronunciou. Havia ficado calado até este instante, talvez não quisesse estar onde estava, ou talvez fosse apenas um medroso ou ambos. Eu apostaria nesta terceira opção.
- Yellow Jacket é um tipo de vespa. Uma bem sinistrona. Se ela picar sua perna você fica sem andar por uma semana, dizem. – fez uma pausa – elas fazem ninhos no chão, como esse ai que você quase pisou.
Paul virou-se para o sétimo do grupo, que estava mais atrás, com uma cara mista em asco e surpresa, o que o tornou ainda mais feio. Depois voltou-se novamente para os outros, falando:
- Tudo bem, tudo bem, entendo a mal-comida ter vindo. “Bais” por que diabos esse nerdzinho teve que vir, aliás, porque um tipinho como ele quis vir com agente?
- Ulric veio porque ele é a porra mais próxima de um guia que arranjamos... E, na verdade, ele NÃO quis vir... A vinda dele foi acertada entre ele e o Denzel. – Roger falava enquanto saltitava ao lado de Margaret, certamente tentando manter algum estilo idiota de “não estou nem ai para nada”
- É como o Roger falou, Paul, eu e ele temos um pequeno... Acordo... – disse o valentão enquanto estralava os dedos da mão, a que não estava na bunda de sua namorada, no próprio rosto.
Com o rosto vermelho de raiva, Rowena se preparou para esbravejar com todos. Podia ser meio mole, mas pelo menos era justa, de todos ali, talvez fosse a única que não merecesse o que estava destinada... Que se fôda, todo mundo morre um dia mesmo... Como eu...
- Vocês são idiotas ou o que?! Vocês ameaçaram o garoto, isso é Bullying!
- Calma, calminha Rowena, eu até que ameacei, mas depois dele saber quem vinha ele preferiu vir também, não queria que alguém daqui se machucasse por causa de alguma merda que fizéssemos na floresta, algo assim.
- Olha só, mal-comida, aposto que é em você que ele ta ligado. E parece que esta preocupado que você seja “estruprada” por algum urso ou algum outro animal qualquer.
Tudo se passa bem devagar, mas, quando as coisas começam a ir de mal a pior... Bem, tudo acontece bem rapidinho...
- Você é nojento Paul – suspirou Margaret.
- Eu, nojento? – “Chamem o veterinário que o porco deu sinal de vida!” nesta hora Paul soltou um potente arroto – Nojentas são vocês, que parecem até que gostariam que todo mundo fosse que nem o nerdzinho. Olha aqui o que eu faço com essa bichinha.
Paul virou-se de supetão e pulou em direção à Ulric. Mesmo estando um tanto quanto grogue, teve rapidez suficiente para, como o covarde que era, acertar de surpresa uma garrafada no desavisado rapaz. Por sorte, o golpe não fora realizado com maestria, e a arma improvisada, que visava à têmpora do primogênito dos Connor, acabou por atingir o lado da testa do rapaz, em um golpe horizontal.
Não devo precisar dizer que a porra da garrafa quebrou, cortando a testa do garoto e fazendo escorrer uma porrada de sangue. Enquanto todos olhavam atônitos para aquela cena, o lado direito do rosto de Ulric era coberto por seu fluido vital.
O rapaz atacado, desesperado, tentou, muito mal e porcamente estancar o a corrente com as mãos, mas não foi lá muito bem sucedido. Enquanto todos estavam parando de andar e ficando preocupados com Connor, ouviu-se um som seco, como um estalo, Rowena havia estapeado Paul, e parecia mais irritada... Pelo menos não é só TPM que deixa mulher irritada, não é mesmo?
- Filho da puta! Você podia ter matado ele, está maluco é?!
O bêbado colocou a mão no rosto. Obtuso como era, não tinha percebido ainda o que ocorrera, só quando colocou a mão sobre a face e sentiu a quentura de seu sangue a se agitar que o estúpido percebeu o que tinha acontecido. Então, em um ápice de covardia, deu um soco no nariz da garota, derrubando-a no chão.
A garota ficou se debatendo, na certa nunca tinha apanhado na vida, quanto mais quebrado o nariz. Estava tão em pânico quanto Ulric deveria estar, afinal, seu rosto também estava ficando apinhado de sangue.
- Isto é para “cê” aprender a nunca mais “levantá” nem a “vozi” “pá” mim, “buta”
- Roger, Denzel, façam alguma porra para parar esse maluco!- gritava Margaret histérica diante de ver a amiga ser esmurrada.
Denzel estava farto de toda aquela loucura. Achou que realmente não foi uma boa ideia chamar o Paul. Tudo bem que ele era meio doido, mas nunca pensou que ia dar naquilo tudo, naquela tremenda merda. Pois bem, o jogador de futebol americano estava disposto a acabar com aquela palhaçada toda. Ele andou rapidamente em direção ao colega pirado e colocou a mão no ombro deste, tentando conseguir impulso adicional para que seu soco saísse com uma potencia melhor. Bem teria dado certo... Se tudo não tivesse dado errado.
Lembram da combinação idiotice mais álcool mais floresta? Pois é, acrescentem nesta equação a Glock 18 do pai e verão o que realmente é uma catástrofe.
Isso mesmo que devem estar pensando. Por algum acaso do destino travesso, Paul conseguiu ser mais rápido do que Denzel. E antes que esse terminasse de levar a mão para trás, preparando seu soco, o beberrão se virou, já com a arma nas mãos... “PÉI”... E agora Denzel tinha uma bala calibre 9mm em seu estômago. Como ele apenas tirava uma de valentão, logo entrou em choque, deu uns passos trôpegos e vacilantes para o lado antes de perder o controle das próprias pernas e ir de cara ao chão, do ladinho de um ninho de Yellow Jackets.
Houve aquele clássico minuto de silencio entre o som do tiro e o barulho do corpo ao chão. É exatamente neste instante que os gritos dos sobreviventes começam, principalmente quando duas mocinhas, já afoitas estavam presentes. Roger preferiu se incluir entre as garotas e simplesmente se desesperar, sua macheza e “não tô nem aí pá nada, rapá” havia desaparecido completamente. Os três teriam corrido no mesmo instante, mas, Paul, percebendo a cagada que havia feito, não quis perder ninguém de vista e apontou a arma para eles, dizendo a frase que todo bandido deve decorar antes de começar sua carreira no crime.
- “Biquem” todos quietinhos que “guém” se machuca.
Ouvindo a historia fica parecendo que muito tempo se passou entre a garrafada e a fala clichêzassa de Paul. Mas, na verdade, nem mesmo cinco minutos se passaram naquela cena toda, porem tempo é como dizem,relativo e, para Ulric, vidas haviam passado desde que ele havia sido ferido, Rowena espancada e Denzel assassinado. Esses três eventos traumáticos acabaram por gerar uma raiva indescritível, que crescia a cada segundo deixado para trás.
Aquela fúria crescente era algo totalmente alienígena para um carinha pacato. Ele sentia que algo deveria ser feito, sabia que deveria fazer algo. Não podia deixar o seu inimigo, e sim, para ele Paul ERA um inimigo, sair daquele lugar sem ter nenhum tipo de punição. O coração dele ardia, sentia uma força que nunca soubera existir dentro dele. Já não ligava mais para o corte, tampouco lembrava de seu rosto estar coberto pelo próprio sangue. Levantou-se, da mesma maneira que um rei faria ao sair de seu trono, e se preparou, não como um lorde, pois desta vez mais parecia um animal, para então, da maneira que pudesse, matar Paul.
E sim, mesmo nunca tendo estado em uma briga, Ulric iria fazer de tudo para matá-lo, nem que o enforcasse até a morte, o rapaz certamente o faria, caso nada de espetacular acontecesse para desviar toda aquela cena lúcida para algo sobrenatural. Acho que não preciso dizer que foi exatamente isso o que aconteceu.
Mas, antes da continuação, peço duas coisas: A primeira, perdoe-me, mas mudarei um pouco o meu jeito de contar esse conto, afinal, nos encaminhamos para o derradeiro clímax.
E segundo: perca um pouco de seu tempo refletindo como estava aquele cenário. Pause tudo em sua mente, e veja o panorama, o magnífico mar de possibilidades que estava naquele exato local.
Ulric pronto para pular em cima do companheiro e derrubá-lo.
Paul ainda apontando a pistola para o grupo.
Rowena caída no chão, sangrando, aparentemente desmaiada.
Denzel morto, fim de sua participação nessa história.
Os outros três em pânico, cada um pensando na melhor ação para não ser atingido.
Seria bem interessante ver o desfecho da cena. Onde em cinco míseros segundos de agressividade e estupidez tudo estaria decidido: Quem viveria e quem morreria. Inúmeros desfechos poderiam surgir deste simples causo entre milhares de outros que poderiam estar acontecendo.
Porém, uma unidade infinitamente pequena de tempo antes de toda a seqüência de ações que levariam ao fim simples, à conclusão possível de ser explicada por ignorantes mentes mortais... A canção começou.
A cantiga era como um pêndulo, ia e vinha sem parar. Por horas quase desaparecendo, por outras, insistente como aquela muriçoca avara que atormenta o sono de qualquer um. É claro que ninguém do grupinho entendeu o que se passava. Mas, pelo menos, a hostilidade eminente se dissipou. Paul baixara e a atenção dos três que estavam sob ameaça foi desviada da pistola para o estranho som.
A mudança maior ocorreu foi em Ulric. Com a vinda da novidade, toda aquela ira desmedida que havia surgido e o fazia ter desejos assassinos, desapareceu. Foi como um calmante e daqueles bem fortes. De volta a si, o garoto imitou seus colegas, pôs-se a olhar ao redor, procurando a fonte daquela curiosa musicalidade.
Após o instante em que os cinco adolescentes, aqueles que ainda estavam de pé, começaram a procurar, com os olhos, uma explicação para aquele mistério, não demorou muito para que ele fosse revelado, ao menos em parte.
A canção agora estava acompanhada por passos e, diferente de antes, não era mais onipresente, vinha de uma direção facilmente discernida, que era algum lugar logo a esquerda de Paul. Todos se viraram para o local, tremendo de medo e excitação, sem saber ao certo o que se mostraria. Aos poucos uma silhueta difusa foi mostrando-se através da escuridão que cercava aquele ambiente.
Tudo seria mais fácil de se ver se alguém tivesse o bom senso de apontar uma lanterna, mas a adrenalina se tornou novamente presente nos corpos dos integrantes do grupo e, assim como antes da musica começar, voltaram a não pensar claramente.
Dentre todos os segundos que se passaram aquela noite, estes foram certamente os mais demorados. Pouco menos de um minuto deve ter se passado entre a aparição do vulto e sua imagem se tornar nítida. Mas, para os cinco que o observavam muito mais que isso se passou. Eles ficaram ali, atentos, sem respirar, apenas olhando a ser que se aproximava e escutando o torturante ruído que cada passo do desconhecido produzia, estalando gravetos e deslocando folhas. Até que, uma hora, a pessoa se mostrou.
Era uma mulher. Uma jovem, não muito mais velha que eles. Possuía pele morena e cabelos negros. Suas roupas não estavam em um estado muito apresentável, parecia ter passado dias naquela mata. E sim, era ela que cantava.
Foi se aproximando do grupo, com um andar firme e determinado, sem parar sua cantoria, que, bem observada, chegava a ser bela. Ninguém entendia as palavras que eram proferidas, não tinham nem a certeza de que havia letras naquele cântico. Começaram a ficar acuados. Com medo da desconhecida misteriosa, que até agora, não havia parado de cantar.
Paul, sentindo o peso da arma em suas mãos, foi o primeiro a agir, apontou o instrumento para a aparição e gritou:
- Fica “parabinha” ai, “uta”, “abosto” que “cê” não vai “queber” levar uma bala nos peito enquanto fica ai “ando” uma de Madonna.
Como de praxe em toda historia de terror, a garota não parou sua marcha e tampouco sua musica. Continuou avançando, aumentando exponencialmente o nervosismo de todos. Afinal, nem mesmo a presença de uma arma foi suficiente para intimidá-la.
Sarah pensou em correr. Sair do lugar e ir para o mais longe que suas pernas a levassem, mas não conseguia. Os seus membros inferiores não faziam outra coisa alem de tremer. Desviou momentaneamente o olhar da recém chegada e viu seu antigo namorado caído ao chão. Morto. Assassinado por Paul. O choque da situação finalmente a atingiu, havia compreendido que nunca mais veria, falaria ou tocaria seu namorado. Então seus olhos voltaram-se com fúria para o assassino de seu companheiro, este enrijecia os músculos do ombro, preparando-se para o recuo do tiro...
- Eu te falei! – vociferou o bêbado milésimos de segundos antes de apertar o gatilho.
CLICK!
A arma falhara.
Toda a confiança do matador se esvaiu perante a trava do objeto que, naquele instante, o fazia ver a si mesmo como homem. Ele arregalou os olhos diante do fato de ter sido impotente, de não cumprir sua promessa e principalmente por ser um covarde que se sente seguro apenas com uma arma de fogo nas mãos. Cerrou os dentes e fez uma careta de raiva. Iria matar a mulher não iria sair daquele lugar como o idiota.Fez sua mira e se preparou para um novo tiro.
Achou tudo o que aconteceu até agora confuso?
Pois bem, não sabe ainda o que esta por vir.
Assim que Paul pensou em disparar novamente com seu troféu, sua Glock 18, algo passou velozmente logo ao seu lado, fazendo os diminutos pêlos de sua nuca se eriçarem, acometidos por um medo sobrenatural. Seu olhar foi dragado para a esquerda no mesmo instante, sua visão periférica havia captado uma mudança. Algo que não deveria estar logo ali, ao seu lado, estava.
O bêbado não conseguiu distinguir o que via, captou apenas certo movimento na escuridão. Assim que começou a entender o que via sua tez esmaeceu e um frio se apossou de seu corpo. Voltou-se novamente para a mulher desconhecida, que com sua eterna canção ainda se aproximava do grupo e, com os olhos esbugalhados e os lábios distendidos em um riso insano, olhou novamente para a gigantesca fera composta de pêlos e presas que estava logo ao seu lado, mordiscando um antebraço que ainda segurava sua pistola. Neste momento Paul perdeu os sentidos.
Roger não mais olhava para a mulher misteriosa. Havia visto tudo o que acontecera com Paul. Desde o instante em que aquela criatura infernal havia vindo de algum lugar atrás do grupo até a parte em que o amigo mutilado havia desmaiado, talvez de medo, talvez pelo choque devido a torrente de sangue que se esvaia pelo seu membro. O temor de ser atingido por um balaço foi substituído pelo de ser triturado por dentes e garras mais parecidos com facas. Entretanto, pensou que pelo menos desta ameaça pudesse fugir, o animal se deleitava com os restos do braço de Paul e isso poderia significar uma chance de fuga. Virou-se para trás, preparado para correr, ainda ouvia o estranho cântico que a mulher entoava, mas então, quando deu o primeiro passo, ouviu um sonoro “CRECK” que se sobrepôs a qualquer som do ambiente. Soube imediatamente que o mostro pisara no pescoço de Paul... Depois não soube mais nada.
Depois da morte de Roger, não demorou muito para que Sarah e Margaret caíssem. Ambas estavam em estado catatônico, agachados, esperando que o gesto as fizesse passar despercebidas. Mas não, aquele caçador nunca deixaria uma presa escapar e logo, assim como Roger e Paul antes delas, estavam mortas, dilaceradas por garras.
O ultimo homem do grupo, Ulric, não acreditava no que acontecia. Todos haviam morrido ao seu redor. Restava apenas ele. Em meio à carnificina e morte lembrou-se de que Rowena ainda vivia, que estava apenas desmaiada. O pensamento de que pelo menos ela se salvaria o alegrou. Sabia que ele mesmo iria morrer, mas, pelo menos alguém, e alguém que ele gostava, iria sobreviver àquele terror. Ainda mantinha em sorriso bobo no rosto quando dura realidade resolveu golpear-lhe a porta no instante em que a garota, que apenas fingia um desmaio, tentou se aproveitar de uma suposta distração do selvagem e foi morta depois de realizar apenas dois passos, caindo no solo, com metade do rosto arrancado e varias convulsões antes de sua inexorável morte. Uma pena, como eu disse antes, talvez ela não merecesse morrer.
Tempo algum foi necessário para que a criatura decidisse que era a vez de Ulric encarar o seu destino. Ela foi andando, de mansinho, sem aquela bestialidade que usara outrora. O rapaz ficou imóvel, sequer movia um músculo. Olhava para sua frente, para a enorme besta que se aproximava e ouvia a insistente cantiga que a garota desconhecida ainda declamava.
A criatura foi chegando cada vez mais perto, quase tocando Ulric com seu corpo volumoso. Tudo parou naquele momento significativo. Até mesmo a infindável musica chegou ao seu derradeiro termino. Ulric olhava apavorado para a besta e esta a olhava de volta. Ficaram o que pareceu ser anos naquela mesma posição e então, a criatura, evanesceu, desaparecendo em milhares de pontos, como poeira levada pelo vento, como uma ilusão chegando ao fim. Contudo, ates que o jovem pudesse se sentir a salvo, ouviu um sussurro ao seu ouvido. Era a estranha garota, que finalmente havia se aproximado. Ela proferiu uma única e simples palavra.
- Durma...
E foi o que aconteceu.
É assim que termina esta pequena historia de terror, 6 mortos e um perdido. Acreditar ou não é uma opção inteiramente sua. Mas espero que esteja avisado, existem mais coisas que a razão e lógica humana podem definir...
Quanto a Ulric... Assim como sua consciência deixou o seu corpo, ele próprio deixou esta historia, e foi para lugares além do meu conhecimento.
...
Ulric despertou em uma cama que não era a sua. Na verdade, nem podia dizer que aquele amontoado de palha era de fato uma cama. Levantou-se a chacoalhou a cabeça, tentando recordar dos últimos momentos. Percebeu então que aquela musica era cantada. A mesma que havia iniciado todos os desastres daquele quando que ele não sabia definir.
Olhou ao redor, tentando descobrir onde se encontrava, e percebeu que a garota, a dona da voz, o observava atentamente com seus olhos cor de jade. Ao ver a estranha pessoa a olhar atentamente para ele, imediatamente recuou, como um animal acuado. Pelo menos dois minutos se passaram onde ninguém fez nada. Com o termino deste prazo, Ulric baixou suas defesas precárias e perguntou em tom de suplica:
- Porque... Porque você matou todos aquelas pessoas e me deixou vivo?
A moça suspirou, procurando palavras para responder ao rapaz.
- Eu não matei ninguém.
- Ma... Mas e aquela musica? – entrou em desespero — E aquele monstro?!
A mulher olhou para baixo... Demorou-se olhando para os próprios pés. Parecia arrependida. Porem, quando voltou-se para Ulric seu olhar era feroz.
- A canção era para acalmá-lo. Eu apenas tentava evitar toda aquela chacina!
Ulric não compreendeu o que ouvia. Era ridículo. Estava claro que ela controlava aquela fera, e matara a todos.
- Não minta para mim! Então o que você fazia ali, puta?!
A mulher se levantou, diante do insulto que recebera. Manteve o olhar nos olhos do rapaz e então gritou:
- A culpa foi toda sua! Você ficou nervoso, você perdeu as estribeiras. Eu estava de passagem, e não consegui para-lo! Mesmo com a musica-ritual, você no fundo DESEJAVA SANGUE. – respirou com os dentes cerrados e o olhar ainda pregado em Ulric – Eu sou uma Peeira, uma companheira dos lobos. Filha de Pindorama a voz do norte. E você, filhote, é filho de Fenris o destruidor.
Ela sorriu sadicamente, olhando para o terror e desentendimento que estavam estampados no rosto do garoto.
- Você é um Hamrammr, Um lobisomem...
FIM
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