A Fera

19 Um Lindo Presente


Adam escondeu as mãos nos bolsos quando a porta diante de si foi aberta, revelando a imagem de uma mulher de meia idade.

—Senhor – ela disse, aparentemente embasbacada com sua presença. – Sinto dizer, mas a senhora Suzane não...

Adam a empurrou para o lado, ignorando as regras que ela ditava com profissionalismo.

—Ela vai adorar me ver, Gale – disse, presunçoso. Gale engoliu em seco e fechou a porta atrás de si, caminhando a passos largos até desaparecer em um corredor.

Voltou alguns minutos depois, acompanhando uma Suzane furiosa.

—Você! – Exasperou, avançando com tudo para cima dele.

Adam, no entanto, já esperava por aquele ataque de fúria e desviou-se do tapa que receberia da mulher. Ele a observou por um momento, analisando o vestido caro e colado em seu corpo escultural.

—Por que ainda continua a se rebaixar, Suzane? – Ele disse, mordendo o lábio. – Uma das herdeiras mais ricas de Nova York se rebaixando ao nível de pessoas... – Adam estalou a língua em sinal de reprovação. – Pessoas de nível inferior.

—Nojento! – Ela o acusou, cruzando os braços. – O que você quer?

Desde que Adélia partira, Suzane e Thiago faziam o possível para não caírem no mesmo desespero que sentiram ao se darem conta de que a havia perdido. Ainda doía, muito. Nem mesmo quando Adam lhes devolveu toda a fortuna roubada e a vida de luxo que tanto desejaram, Suzane conseguiu encontrar um pingo de paz – nada daquilo tinha mais algum sentido para eles.

Ambos passavam o dia inteiro enfurnados no novo apartamento, no centro da cidade. Quando não estava chorando, passava um tempo na cozinha com Gale ou alimentando a paranoia de Thiago em encontrá-la.

Já havia desistido dos detetives que ele havia contratado há cerca de dois meses. Não que não quisesse mais encontra-la ou estivesse se entregando ao jogo de Adam – nenhum deles parecia fazer o suficiente por ela, por Thiago ou por Adélia. Estava cansada de ter a esperança em pessoas que trabalhavam apenas pela fortuna que lhes era paga.

Estava, na verdade, cansada da própria vida.

—Onde está seu marido? – Adam se jogou no sofá, estirando-se por todo o assento confortavelmente. – Queria dar um presente para vocês.

Suzane sentiu um aperto em sua garganta quando a ideia de “presente” lhe veio à mente. Ela lembrou-se do cacho dourado e perfeito que Adam cruelmente mandou para eles, uns dois dias depois de sequestrar sua filha.

Havia ficado tão horrorizada que gritou e o atirou para longe no momento.

—O que você quer, Adam? – Suzane vociferou, bateu os saltos no chão e o encarou com firmeza. Depois de três visitas para infernizá-los, ela já havia aprendido a ser forte diante dele. Claro, nas outras vezes ou ela estava com Thiago, ou tinha um segurança dela aguardando-o logo na porta. Agora, tinha apenas a si e a Gale. – Nos deixe em paz!

—Ei – ele levantou-se, aproximando-se dela minuciosamente. – Eu quero falar com você em particular.

Adam lançou um olhar para a mulher logo atrás de Suzane, posta de forma protetora. Observava cada movimento dele em relação à patroa, atenta e pronta para comunicar a equipe de segurança com um mini-rádio nas mãos.

—Não – a mulher em sua frente negou, afastando-se dele. – Vá embora antes que eu chame o Jack.

Adam sorriu e ergueu a pequena sacola que carregava em mãos. Sacudiu bem na cara dela, de forma que ela visse do que se tratava.

—Não estou brincando, Suzane. – Disse, desta vez mais sério.

Ela o encarou, suspirou e virou-se para pedir que sua empregada os deixasse a sós. Gale hesitou, obviamente, mas só saiu depois de entregar o radio para Suzane e fazê-la prometer que a chamaria caso Adam a atacasse.

—Me sinto ofendido perto dessa mulher – ele disse, voltando sua atenção para Suzane.

Ele, então, a entregou a sacola.

Suzane segurou a caixa nas mãos, encarando de forma confusa e irritada o objeto.

—Um celular? – Murmurou, sentindo vontade de atirá-lo na cara de Adam. – Não preciso de um celular, seu idiota.

—É para se comunicar com Adélia – ele disse, escondendo as mãos nos bolsos. – E, antes que pergunte, eu alterei a configuração dele de modo que se torne impossível de rastrear. Servirá apenas como um meio de comunicação mais fechado...

O queixo de Suzane estava no chão.

A primeira coisa que a voz da experiência gritou em seu ouvido foi: não acredite nele. Mas seu coração palpitou com a revelação e logo se encheu de expectativa.

Ela alternava o olhar para a caixa ilustrada com a imagem de um aparelho caro e avançado até Adam, sem saber muito bem o que dizer.

—Por quê? – Murmurou. Sua garganta estava tapada, sufocando sua voz.

Adam ajeitou a postura e desviou o olhar da mulher para a caixinha em suas mãos, sentindo-se tonto.

—Por que eu posso – ele disse, cínico.

Suzane negou, empurrou o aparelho contra seu peito e se afastou com lágrimas nos olhos.

—Monstro! – Vociferou, tão dolorida por dentro quanto furiosa. – Por quê, Adam? Por quê continua a nos torturar? – Suzane limpou furiosamente as lágrimas do rosto, arranhando a pele com as unhas sem querer. – Você já não destruiu o suficiente? Já não machucou o suficiente? Vá embora!

Adam engoliu em seco e segurou com mais firmeza a caixa em mãos.

Por um momento, ele quis dizer.

Quis contar para alguém sobre aquela coisa que o perseguia desde o princípio, aquela coisa estranha... sufocante...

—Estou tentando ser bonzinho, Suzane – desperdiçou sua ultima dose de cinismo com sua fala, pois sua voz saiu mais arrependida do que cínica. – Estou lhe dando a oportunidade de conversar com a sua filha e é assim que você me trata?

—Não! – Suzane gritou, controlando a vontade de arremessar algo nele. – Você está sendo cruel, Adam! Está nos torturando a troco de quê? O que você quer?

Ambos ficaram em silencio por um momento. Suzane controlava os soluços e Adam a encarava com um misto de raiva e ressentimento.

Por que aquilo era tão difícil?

—Se quiser saber – ele disse, se aproximando dela – sua filha está tão ansiosa para isto quanto qualquer outra pessoa estaria. – Mentiu. Ainda não havia conversado com Adélia, mas pretendia mandar que Fordy cuidasse de tudo por ele ainda naquela tarde. – Durante todos os dias de sua vida ela sente falta de vocês dois. Ela implora por noticias suas e de Thiago.

—E por que você se importaria com isso? – Suzane soluçou, sentindo o abalo pela menção da filha. – Você é frio, cruel e mentiroso. Jamais faria algo bom para ninguém, principalmente se isso não vai beneficiá-lo.

Adam pensou por um momento, sentindo-se um tanto ofendido por ser visto daquela maneira.

—Não estou fazendo isso por mim – mentiu de novo. Na verdade, era quase uma mentira, sim; lhe parecia ser certo fazer aquilo pela garota, mas Adam, bem no fundo, sabia que aquilo tinha muito mais a ver com ele do que alguém poderia imaginar. – Estou fazendo isso por que... – pense!, sua mente gritou. – Estou fazendo isso, pois acho necessário para os negócios.

Suzane o encarou com incredulidade, um tanto pasma com a frieza dele.

Mas era muito mais fácil de se acreditar naqueles argumentos.

Não era como se ele, de repente, se importasse, certo? Adam não era o tipo de pessoa que se importava muito, ou que fazia boas ações “de graça”.

—Estou sem tempo, Suzane – disse, ansioso para ir embora. – Não me faça desperdiçar dinheiro com essa merda. Se não quiser...

Suzane arrancou o presente das mãos dele, encarando-o com fúria.

—Se você estiver mentindo, eu juro que acabo com você – ela prometeu.

—Ótimo – ele suspirou, sentindo um misto de alivio se atrelar a bile em sua garganta. – Toda a informação que precisa está junto com o aparelho. – Ele apontou para a caixa e, antes de lhe dar as costas em sinal de partida, disse-lhe: — Esteja atenta às dezoito de hoje. Não deixe Adélia falando sozinha.

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Adélia ficou chocada ao descobrir que teria uma campainha para o jantar naquela noite. Enquanto se arrumava, analisou todas as suas opções: Rafael, Fordy, Adam.

Jeniffer, no momento, a poupou muito bem de descobrir quem seria seu acompanhante. Mesmo quando ela insistiu e ameaçou não ir, a mulher manteve-se em silêncio e não revelou nenhum detalhe.

Claro que não tinha tantas opções, mas pensou em Rafael o tempo todo.

Queria vê-lo. Independente da discussão na biblioteca ou o quanto ainda estivesse magoada com sua acidez, ainda queria conversar com ele, porque sabia quem ele era de verdade. Conhecia-o muito mais agora desde quando chegara.

Ela ficou imaginando se seria ele a ter feito o convite. Era provável, certo?

Talvez ele estivesse se preparando para lhe contar mais coisas sobre seu passado ou algo muito mais íntimo – como naquela manhã. E estava tão animada com aquela ideia que sequer lembrou do velho Fordy.

E se fosse ele?

Era pouco improvável que fosse. Se ele quisesse lhe contar algo, certamente seria muito, muito discreto a respeito. Não deixaria que Jeniffer soubesse de algo, ou qualquer outra pessoa.

Adélia não havia se preparado para a verdadeira pessoa que a esperava já sentada à mesa, no salão principal.

Era o mesmo lugar do primeiro dia, ela se lembrou. A diferença era que agora estava acompanhada de Adam e tudo estava muito mais iluminado, embora sombrio.

Haviam ainda dois homens idênticos que lhe eram muito familiares, como se fossem gêmeos. Ela ficou hipnotizada com a cicatriz que cortava o rosto de um deles, aparentemente muito recente.

Havia uma mulher também, vestida de branco. Ela praticamente correu até Adélia, segurou seu braço com delicadeza e a arrastou até um assento próximo a Adam.

—Está belíssima, Adélia – ele disse. Bebericou o liquido vermelho em seu copo e saltou de sua cadeira para cumprimenta-la. – Tão bela quanto sua mãe.

—Não... – ele a interrompeu com um gesto. O sorriso cínico no rosto daquele homem só servia para enfurecer ainda mais o coração de Adélia. – Não fale dela!

—Não conte isso para ela – ele riu ainda mais. – Ela vai ficar enciumada. Não é atoa que perde tanto tempo aperfeiçoando tanto algo que já está ótimo.

Adélia o encarou com fúria.

A mulher que a conduziu até a mesa pesou seus ombros com as mãos, obrigando-a a se sentar.

—Sirva-nos, Payne – ordenou, lançando um olhar penetrante a mulher inabalável que começou a se mover com uma destreza impressionante.

Adélia ficou imóvel. Não sabia muito bem o que dizer diante de tudo aquilo.

Queria esganar Adam, ao mesmo tempo que desejava fugir e se esconder. Ela encarava o homem sorridente com uma fúria mal contida, contando o tempo para que aquilo tudo acabasse.

Estava com medo do que ele poderia fazer, das suas intenções no momento. Mas também estava furiosa, cansada de querer sempre se esconder dele como um animal machucado. Mesmo em desvantagem.

—O que você quer? – Adélia perguntou, agarrando com força a bainha do vestido que usava.

—Conversar, apenas – Adam respondeu, por sua vez. Parecia tranquilo, confortável em sua própria pele. – Dá última vez que tentamos, as coisas não saíram muito bem.

—Eu lembro bem – ela retrucou, sentindo seus olhos arderem de raiva. Por que ele era tão podre? – Me lembro bem do mal que me causou e ainda me causa.

Adam estalou a língua após ingerir o vinho que lhe foi servido.

— Me desculpe por isso. Não era o meu dia – Adélia engasgou com a bile, mas Adam continuou falando. – Tenho outro proposito, e desta vez estou muito mais amigável.

Ele ergueu a taça e apontou para ela antes de bebericar o resto do liquido com voracidade.

Adélia o analisou por um momento, buscando algo que indicasse qualquer coisa que contrariasse suas palavras. O problema era que Adam era cínico por natureza. Era quase impossível decifrar quando ele estava sendo verdadeiro ou quando estava apenas se aproveitando da boa vontade dela para lhe pregar mentiras ou machucá-la de alguma forma.

Por isso que era tão difícil acreditar nele. Adélia nunca sabia o que esperar daquele homem, mesmo que estivesse com todos os seus sinais de alerta, calafrios e sentidos ativos.

—O que você quer, então? – Indagou, impaciente.

— Jantar – ele apontou para o prato de comida disposto na frente de ambos. – E conversar. No fim, terei uma surpresa para você.

Adélia engoliu em seco. Seu estomago embrulhava de forma impossível, e a bile em sua garganta era tão grande que ela pensou ser impossível algo passar por ali.

—Coma – ele ordenou, apontando seu garfo para ela.

Ela encarou o conteúdo no prato e o cutucou com seus talheres, enjoada. Não deveria obedecer às ordens dele, mas faria aquilo por si mesma. Mesmo que mal conseguisse dar mais que duas garfadas.

-Adam – ela insistiu. – Diga logo o que quer. Ou eu irei embora.

—Calma – ele disse, mastigando. – Tenho certeza de que teremos tempo suficiente para conversarmos sobre tudo o que quisermos.

Adélia engoliu em seco. Eu não quero conversar com você.

—Vamos conversar sobre Rafael? – Indagou, remoendo a comida na boca. Encarava o próprio prato, mas sentiu o olhar penetrante que recebeu de Adam pela menção dele.

—Há alguma coisa que queira me contar sobre ele, por acaso? – Adélia percebeu o tom forçado de calma na voz dele, que mais lhe pareceu curiosa do que outra coisa. Quando ela não respondeu, ele insistiu: — Pode contar, Adélia. Se ele estiver atrapalhando as coisas, eu mesmo darei um jeito de adverti-lo.

—Você não fará nada com ele – ela respondeu ríspida. Não gostou do modo como ele se referiu a Rafael, como se ele não passasse de uma criança teimosa. – O problema não é ele, e sim você.

—Me poupe – Adam deu de ombros. – O que você quer saber sobre ele?

—Sei que não me contará o que quero saber, então penso que é inútil insistir.

—Pelo contrário – ele rebateu imediatamente, arrancando um olhar desconfiado de Adélia. – Não tenho nada a esconder. Nem sobre mim, nem sobre ele.

Adélia bebericou um gole de vinho para ajudar a comida entalada em sua garganta a deslizar e encarou Adam. Ele não parecia estar brincando, na verdade, estava esperando por ela.

Uma ansiedade fez o estomago de Adélia embrulhar tanto que doeu. Ela não fazia ideia do que perguntar primeiro, ou do que poderia perguntar.

Haviam coisas demais em sua cabeça, coisas a respeito de Rafael que nem ela mesmo conseguia entender. Queria perguntar sobre tudo o que podia, principalmente sobre sua maldição.

No fundo, queria saber muito mais sobre seus sentimentos – aquilo, claro, jamais deveria ser dito a Adam. Seria ridículo demais, para ambos.

—Se você não vai perguntar, então eu mesmo direi – Adam se pronunciou. Adélia estava tão distraída com os próprios pensamentos que se assustou quando o barulho estridente do talher batendo no prato ecoou pelo ambiente.

—Não me parece certo – ela murmurou e encarou Adam, com os olhos ardendo.

Deveria haver um motivo pelo qual Rafael não contasse nada para ela. Talvez ele escondesse algo que lhe causasse tanta dor que, para ele, era difícil de se compartilhar com alguém. Ou talvez não fosse mesmo da conta dela, e ele não quisesse que Adélia ficasse se metendo na vida dele.

Não era certo que ela fizesse fofoca com Adam sobre coisas que Rafael lutava para esconder dela por diversas razões. Que tipo de amiga ela seria? Como poderia manter sua confiança de fizesse aquilo?

—Não quero saber nada a respeito dele – ela murmurou, empurrando mais uma garfada para dentro da boca, só para não ter que encará-lo.

Como ela encararia ele depois? Se soubesse de alguma coisa que, talvez, era melhor não saber?

—Existem coisas pelas quais ele vai lutar para manter em segredo – Adam murmurou, distraindo-a. – Coisas verdadeiramente terríveis, Adélia. Coisas que você jamais seria capaz de imaginar.

—Eu não quero saber – ela grunhiu, irada. Sentia vontade de tapar os ouvidos. – Adam, deixe-o em paz. Ele me contaria qualquer coisa que quisesse.

—Muito pelo contrário, Adélia – Adam encheu ambas as taças com vinho, mesmo sem o consentimento dela. – Ele jamais lhe contaria qualquer coisa, esse é o problema. Confia nele? Mesmo que mal o conheça?

—Por quê está fazendo isso com ele? – Adélia empurrou o prato para longe de si, enjoada, e encarou Adam com uma fúria contida. – Está tentando destruir a reputação dele? Ou só quer estragar as coisas?

Um barulho oco e alto fez com que o corpo de Adélia saltasse de susto.

Adam havia batido na mesa com força, assustando-a. Suas mãos estavam fechadas em punho, os nós dos seus dedos ficaram brancos por conta da força dele.

— Eu quero que você saiba a verdade.

Seus olhos estavam arregalados e avermelhados de fúria.

O coração de Adélia batia com tanta força que doía, e suas pernas tremiam tanto que, se estivesse de pé, provavelmente teria caído como uma fruta podre.

—Adam, por favor – pediu, calma. – Eu não quero machucar Rafael por sua causa.

Adam se aproximou dela e segurou sua mão com força, prendendo-a ali. Seu aperto era tão forte que, por um momento, ela temeu por seus ossos.

—Ele está machucando você, Adélia. Olhe o que ele fez com você! – ele vociferou. – Pare de tentar proteger o monstro.

—Não! – Adélia tentou se desvencilhar do aperto dele, mas doeu tanto que ela logo desistiu. – Ele não é um monstro, Adam. Ele é ótimo, carinho e amigável – disse, engolindo em seco. – Você está me machucando, você é um monstro!

Adam a encarou por um momento, analisando cada detalhe que havia no rosto dela.

Adélia parecia a beira das lágrimas, mas algo em seus olhos o intimidava de certa forma. Ao perceber que ele procurava detalhes, ela ajeitou a coluna e o encarou de cima, trazendo consigo todo o desprezo que sentia por ele.

De fato, ela parecia odiá-lo mais do que nunca naquele momento.

Ele a soltou com delicadeza e esperou que ela fizesse algo para vingar-se de seu ataque, mas Adélia continuou ereta, encarando-o com um olhar forte e ameaçador.

—Está protegendo ele? – Provocou. Adélia piscou algumas vezes antes de se pronunciar.

—Claro que estou – disse, firme.

—Você o ama – Adam deduziu, arrancando da garota um olhar abismado.

Adélia sentiu seu rosto inteiro arder.

—O quê? – murmurou, desconcertada com a afirmação dele. – Eu não disse isso!

—Não precisa dizer – ele concluiu, irritantemente seguro do que dizia. – Ele sabe disso? Ou você é do tipo que faz mistério?

—Adam! – Ela grunhiu, tão constrangida quanto irritada. – Seu idiota!

—Por quê está com vergonha, Adélia? Isso não é bom? – Adam estava sério desta vez.

—Não é dá sua conta, Adam – ela retrucou, agora muito furiosa.

—É a minha conta, Adélia – Adam apoiou os cotovelos na mesa, ansioso. – Rafael é meu filho e eu preciso saber o que se passa.

Adélia o encarou com um olhar questionador, mas não disse nada. No fundo, não sabia se deveria questionar o papel de pai que Adam exercia na vida de Rafael, ou se lhe foi dado algum direito de fazer aquilo. No fundo, poderia não ser da conta dela também.

—Por quê eu não consigo acreditar que você é um bom pai para ele? – Questionou, cruzando os braços e o encarando.

—Eu não sou um bom pai para ele – admitiu, mas sem se abalar com o olhar retorcido que recebeu de Adélia. No fundo, ela esperava por uma resposta mais brusca. – Nem sempre fui a melhor pessoa do mundo para ele, na verdade. Hoje em dia, eu tenho você para me redimir.

—O que você quer dizer com isso? Que tem a mim?

Ambos ficaram em silencio, se encarando.

Adam disfarçava bebericando seu vinho, enquanto Adélia sentia sua garganta fechar ainda mais enquanto esperava pela resposta.

—Adam! – Vociferou.

—O contrato, Adélia. – Ele fez um gesto com a mão, indicando o ambiente. – Pensei que tivesse lido.

Adélia pensou por um momento, tentando se lembrar das palavras que haviam naqueles papéis. Quase nada vinha a sua mente, mas algo despertou com tanta força no seu interior, bem no fundo da sua cabeça, que ela quase gritou quando se deu conta de algo.

—Este é o meu proposito aqui? – Ela vociferou, encarando Adam com lágrimas nos olhos. – É como se eu fosse... o presente? É isso?

Adam negou rapidamente.

— Você, não. – Explicou, mas até o som da sua voz doía nos ouvidos dela. – Eu disse, Adélia, que precisávamos conversar. Lhe dei a oportunidade de perguntar qualquer coisa antes.

—Então eu vou perguntar agora – sua voz refletiu toda a dor e duvida que se acumularam no seu peito durante todo aquele tempo. De repente, nem o constrangimento ou o que sentia por Rafael poderia pará-la agora. Ela tinha que descobrir algumas verdades, custasse o que for. – E não minta para mim. – Ela esperou até que Adam assentisse para continuar: — Por quê eu estou aqui, Adam? Sem essa história de contrato, ouviu?

Adam bebeu um grande gole de vinho antes de continuar. Precisava não estar sóbrio naquele momento.

—O contrato é, de fato, a verdade, Adélia. Você só está aqui por conta dele – disse.

—Eu quero saber mais – Adélia insistiu. Tinha a leve impressão de que acabaria destruída, mas jurou para si mesma que se manteria forte até que soubesse de tudo. – Não é o suficiente para mim. Conte mais.

—O local onde estudava era, digamos, patrocinado por mim. Seria de lá que eu escolheria a garota certa para... – Adam sentiu algo se prender a sua garganta, algo sufocante, mas ele continuou mesmo assim.

—Para dar de presente ao seu filho?

Por um momento, Adam se perguntou como um olhar poderia passar de envergonhado e tímido para furioso e pesado em tão pouco tempo. Era quase como o dele mesmo.

—Para quebrar a maldição, Adélia – ele continuou, sentindo o peso daquele olhar. – É umas condições da coisa.

—Mas por quê eu, Adam? – Ela se recostou na cadeira, gesticulando com as mãos. – Você disse que era do Instituto Florence que você escolheria alguém, certo? E eu sei que tem a questão com os meus pais...

—Escute, Adélia – ele a interrompeu. – É uma questão arbitrária. Seus pais escolheram você porque eles amavam você. Eu escolhi você porque eles tinham uma dívida comigo.

—Adam, você não está entendendo...

—Estou, sim, Adélia. – Adam fechou as mãos em punhos e murmurou: — Você quer saber como a seleção é feita?

Adélia recuou ainda mais em sua cadeira, sentindo um calafrio arrepiar os pelos de seu corpo inteiro.

—Há uma seleção?

Adam assentiu impaciente.

—As Madrinhas do Florence são minhas juradas, por assim dizer. Mas sou eu quem escolhe no final – disse. – Elas passam anos observando as garotas. Separam as mais doces, bondosas e amáveis em uma única turma para que, no fim, a que melhor se destacar, vença a competição.

—Isso é doentio! – Adélia quase gritou, enojada. – Como pode fazer algo do tipo, Adam? Como pode tratar meninas inocentes dessa forma? Você não se importa nem um pouco com a família delas?

—Me escute, Adélia – ele insistiu, fazendo um gesto com as mãos para amenizar a agitação dela. – Todas as garotas que participam foram adotadas por mim, inclusive você. – O queixo de Adélia caiu.

Ela, filha de Adam? Era a coisa mais desprezível que conseguia imaginar.

—Eu pagava muito bem às famílias dessas garotas que, ou tinham irmãos demais, ou eram pobres demais ou eram como você, adotas por famílias estrangeiras. – Adam pausou por um segundo, recobrando o fôlego. – Eu salvei aquelas garotas, Adélia. Se você soubesse do histórico familiar da maioria delas, não estaria me encarando com tanto nojo.

—Você não me salvou, Adam. – Ela murmurou. – Me destruiu! Despedaçou minha família por ganância! – Adélia segurou com força o próprio peito, dolorido pela falta de ar. Ela encarou a sala ao redor, pronta para pedir ajuda de qualquer um estivesse ali, mas já não havia ninguém, exceto ela e Adam. – Se fala sobre o histórico delas, por quê não salvou alguma que realmente precisasse disso?

Adam a encarou por um momento, analisando-a.

—Porque nenhuma delas poderia ser tão perfeita quanto você – disse, arrancando um grunhindo de desprezo da garota. – Todas tinham algum tipo de problema psicológico grave ou mediano, menos você, Adélia. Você era feliz, simples e gentil com todos.

—Monstro! – Ela vociferou.

—Se está tão preocupada, saiba que ainda cuido de cada uma delas. – Adam disse, tentando em vão amenizar a fúria que partia dela. – Mantenho as que tem histórico mais grave o mais longe possível da família, além de lhes garantir uma ótima educação. Ah, e todas tem acompanhamento de profissionais muito bem qualificados. – Ele bebeu mais vinho. Estava começando a se sentir zonzo. – Não sou um monstro, no fim das contas.

—Acha que isso é o suficiente? – Adélia respondeu, afiada. – Você as preparou para o abate durante quase toda a sua vida, e agora quer compensar? – Ela riu, porque se sentia tão pesada, usada e desesperada que sua única ação foi trazer à tona toda aquela massa negra que Adam havia posto sobre sua cabeça. – E quanto a mim, hein? A minha recompensa será ficar aqui para sempre? Presa com o seu filho?

-Você entende pouco da maldição para deduzir alguma coisa – Adam retrucou.

—Eu entendo pouco de muitas coisas, Adam. Mas entendo muitíssimo sobre minha vida, e sei que o que fez comigo e com a minha família está muito além de errado. – Adélia se levantou, exasperada. – Se você acha que eu não vou lutar para sair daqui, está muito enganado.

Antes que Adélia fizesse menção de ir embora, Adam a segurou pelo punho outra vez.

— Você não foi a única que me disse isso, garota. E não será a última a tentar.

O couro cabeludo de Adélia se eriçou quando seu olhar encontrou com o de Adam. Assim que disse aquelas palavras, ele a soltou.

Ela continuou encarando ele durante todo aquele momento, esperando que dissesse algo e não precisasse perguntar o que já gritava em sua cabeça.

—Volte para o seu quarto – ordenou, sério. Seus olhos estavam escurecidos agora, e seus lábios congelados em uma linha rígida. – Tem algo esperando por você lá.

—O que você quer dizer com isso? – Adélia sentiu sua garganta se apertar demais com a expectativa gritante. – Eu não sou a única? O que isso significa?

—Significa que você deveria zelar por minha paciência e encerrar esta discussão – ele irritou-se. – Volte para o seu quarto e aproveite o seu presente, Adélia. Aceitarei os agradecimentos depois.

—Não vou sair até que me explique o que isso significa – ela teimou, por outro lado. Estava eufórica demais, curiosa e fora de si.

Ela não foi única?

Se fosse embora sem aquele detalhe, jamais conseguiria dormir de novo – e nem chegaria perto dos pesadelos que vinha tendo por conta de Jeniffer.

—Eu não posso esconder nada de você, Adélia. Você tem essa vantagem sobre mim – Adam se aproximou dela e segurou seu queixo, fixando seus olhos. – Mas, se me pedir para contar sobre essa parte da história, tenho certeza de que não saberá lidar com isso depois.

—Eu quero saber – ela disse, cruzando os braços. Não havia pensado no momento, mas logo seu espirito entrou em combustão.

Adam falava sério e talvez tivesse razão.

Ela já tinha que lidar com muitos pesadelos e talvez um a mais não fizesse muita diferença. Mas seu corpo inteiro parecia gritar em alerta, seus nervos pareciam explodir um por um e sua pele queimava com o frio que sentia.

Adam a encarava, esperando que ela se rendesse e desistisse. Conseguia ver pela tremedeira em suas mãos que ela estava nervosa, talvez enlouquecendo.

Talvez ele realmente devesse poupar ela.

Ela e Rafael, claro.

Aquilo tinha tanto a ver com ele do que com qualquer um dos dois ali presentes. Parecia ser o tipo de coisa que ele escondia dela a todo modo; parecia ser o tipo de coisa que o fazia se isolar e esconder-se dela.

Era o pior pesadelo de seu filho, sua fraqueza, sua fúria, seu arrependimento e sua maior dor. Era algo que havia matado ele a muito tempo, o inicio de sua verdadeira maldição.

—Adélia, por favor... – Ele suplicou. Sim, suplicou para que ela o poupasse, para que o impedisse e que deixasse aquele demônio que assombrava a todos em paz. – Por Rafael.

Mas a suplica de Adam serviu apenas para enfurecer ainda mais o coração dela.

—Eu mereço saber a verdade – disse, empurrando-o para longe de si. – Eu quero saber a verdade.