A Fera
17 O Símbolo
Fordy empurrou Adélia com violência quarto à dentro. Por sorte, ele ainda a segurava no braço – senão, teria caído.
—Está me machucando! – Ela gritou, já com lagrimas nos olhos.
O modo como o velho a encarava – cheio de fúria – a enchia de pânico. Ela já havia visto aquele olhar antes, já havia sentido aquela mão em seu pescoço.
Adélia chutou a perna do velho e o empurrou para longe de si, tropeçando. O terror que se instalou em sua mente foi paralisante. Tentou de todas as formas chutá-lo novamente, mas nem mesmo seus punhos pareciam atingi-lo.
Aquela altura, o velho segurava seus braços acima de sua cabeça e, com a outra mão, tapava sua boca. Sua expressão estava calma, embora seu rosto estivesse vermelho e com uma linha sangrando, cortando sua bochecha.
Adélia continuou a se debater, sem fôlego. Estava eufórica, em pânico e tremendo. Sua voz atravessava a mão do velho de forma esganiçada, aguda e quase sem nenhum som. Estava tão atordoada com o ataque que mal conseguia ouvir a própria voz.
Fordy encarou os olhos turvos da garota, sentindo a adrenalina misturar-se ao pânico.
Sua cabeça estava a um milhão, e ele mal conseguia sentir os tapas e chutes da garota no momento.
—Se acalme! – Ele vociferou, furioso. – Fique calma, Adélia!
Ela, em resposta, cravou os dentes no mínimo pedaço de carne que conseguiu sugar. Adélia sentiu o gosto do sangue assim que seus dentes fincaram mais em sua pele, dormentes.
—Puta merda! – O velho murmurou. Seus olhos tornaram-se turvos pela dor, mas ele não puxou sua mão e nem fez menção de soltá-la. – Sua louca! Desgraçada!
A medida em que o velho pressionava mais os seus lábios, mais a memória de Adélia se escurecia. Toda a sua euforia deu espaço para que uma cortina negra se abrisse em sua mente.
Estava acontecendo de novo, aquela sensação de déjá vu. Mas, desta vez, era mais intenso.
Real.
De repente, todo o seu pânico deu espaço para o silêncio.
Adélia sentiu seu corpo esvaziar-se como um enorme balão inflável, ficando leve a medida que sua mente se tornava mais clara e menos embaçada.
Ela lembrou-se: estava jogada no chão, com algo apertando seu pescoço. Adélia lutava com todas as forças naquele momento, gritando e debatendo-se. A coisa, no entanto, parecia se aproveitar de sua euforia e apertava com mais força sua carne.
E então, em meio ao turbilhão de sensações, ela viu algo negro raspar sua visão. Parecia-se com cabelos, que deu espaço para o rosto de alguém. Ela sentiu – sentiu o peso por cima de seu corpo, prendendo-a. Sentiu o calor, o ardor em seus lábios e o gosto do sangue.
Ela ouviu a voz dela, xingando-a.
—Adélia? — Fordy murmurou, sacudindo-a.
Adélia tentou gritar, mas foi interrompida novamente pelo velho.
—Não vou machucar você! – Ele suplicou, enfurecido. – Não vou machucá-la, está bem? Fique calma, Adélia.
Adélia o encarou, abatida. Seu coração parecia querer fugir de toda aquela euforia, e ela se sentia tão cansada que permitiu-se respirar por um momento.
—Você me atacou primeiro – ela disse, depois de recobrar o fôlego. – Me empurrou e... Me machucou.
—O que diabos você tinha na cabeça? – Fordy vociferou. – Você não deveria estar por aqui, Adélia.
—Deixe-me ir embora, então. – Ela vociferou de volta, sentando-se. Estava zonza, sua cabeça latejava violentamente e sua garganta doía.
Fordy estava de pé, diante dela. Quando Adélia retribuiu seu olhar, ele moveu-se.
Primeiro, foi até a porta a qual empurrara para dentro e certificou-se de que estava trancada. Depois, caminhou até uma mesa redonda próxima e encheu um copo com um liquido âmbar.
Adélia observou-o com atenção e curiosidade, lembrando-se vagamente de Adam ao vê-lo engolir o liquido sem hesitar.
Fordy apoiou-se na mesa, cabisbaixo. Ele parecia abalado e, por um momento, Adélia se perguntou se estava chateado com ela.
Porém, quando ele a encarou, havia um sorriso em seu rosto.
—Você é corajosa, garota – ele disse, num tom mais calmo. Adélia não tinha certeza se aquilo era um elogio, mas preferiu dar de ombros em resposta. – Ou idiota. É difícil dizer.
Adélia o encarou de forma penetrante, irritada por seu comentário.
—Esperta, talvez. – Fordy continuou, enchendo o copo com mais uma dose da bebida. Ele a ofereceu com um meio sorriso, mas Adélia o encarou com nojo. – Não seja ridícula. Não irá lhe fazer mal algum.
Adélia o ignorou, levantando-se do chão. Sentia-se muito mais firme agora, e irritada também. Queria voltar para seu quarto, para poder analisar em paz tudo o que lhe acontecera naquele dia.
—Rafael não lhe contará nada, Adélia. – Fordy disse atrás de si. Adélia deu ombros, ignorando-o mais uma vez. – Ele não sabe muita coisa, apenas umas baboseiras que Adam lhe contou durantes esses anos.
—Acha que eu me importo com isso? – Adélia vociferou, sacudindo inutilmente a maçaneta da porta. – Me deixe sair!
—Eu acho que você se importa bastante – ele disse. Sua voz rouca retumbava pelo ambiente de forma arrepiante. – Não teria se arriscado seguindo Jeniffer se não se importasse.
—Me deixe em paz, Fordy! – Adélia chutou a porta, furiosa. – Se não me deixar sair daqui agora, eu vou gritar!
Fordy se aproximou dela e a segurou pelo ombro, pressionando seu corpo contra a porta.
—Você está correndo perigo, Adélia.
Adélia o encarou por um momento, tentando decifrar o que queria lhe dizer. Fordy não parecia estar brincando.
Sua expressão estava séria e sombria, mas seus olhos pareciam querer lhe denunciar algo. Adélia debateu-se até conseguir se livrar do toque dele, arrepiando-se com a brisa fria que dançou por sua pele.
—Do que você está falando? – Ela murmurou, absorvendo para si aquele tom sombrio.
Fordy recuou um passo, ignorando-a.
—Rafael não vai me machucar, Fordy – ela continuou, destemida. Seus pelos se eriçavam cada vez que o velho piscava para ela, encarando-a por cima do ombro. – Eu confio nele também.
Fordy negou, suspirando. Adélia o observou ficar desconfortável a medida que ela se calava mais.
Não, não era Rafael. Era outra pessoa. Pior.
Ela ponderou a situação. Pelo olhar de pena que o velho a lançava, Adélia deduziu que ele já sabia da metade da situação. Talvez estivessem falando da mesma pessoa, mas Adélia era covarde demais para falar em voz alta.
—Eu posso ajudar você, Adélia. – Fordy murmurou, em tom de segredo. – Mas você precisa me ouvir.
Adélia sentiu vontade de chorar, mas se conteve a apenas um suspiro aliviado. Talvez estivesse se precipitando demais, talvez estivesse errada em confiar nele...
—O que você sabe sobre ela, Fordy? – Ela se aproximou do velho, ávida. Adélia encarou seus olhos por um momento, buscando qualquer pista que indicasse que suas intenções eram outras, mas não encontrou nada. – O que ela está fazendo comigo?
—Adélia, isso não é tão simples – Fordy rebateu, desvencilhando-se do olhar inquisidor dela. – Saiba que, se eu ajuda-la, estarei correndo perigo também. E, por Deus, ela é capaz de qualquer coisa.
Adélia engoliu em seco.
Aquela era sua melhor opção, certo? Não poderia desperdiça-la.
—Foi ela quem me atacou naquele dia, não foi? – Ela disse, chamando a atenção do velho para si.
—Você se lembra, não é? – Ele cruzou os braços, atento.
—Bem, não é grande coisa, mas... – Fordy insistiu para que Adélia contasse. Ela respirou fundo, movendo-se de um lado para o outro. – Desde aquele dia, eu tenho tido experiências estranhas com minhas lembranças. Em alguns momentos eu vejo flashes, tenho sensações estranhas, como se estivesse sufocando...
—O que você vê? – Fordy insistiu, calmo. – Conte, Adélia!
—Eu não vejo nada, Fordy! Eu apenas sinto— ela confessou, roendo a unha. Ela fechou os olhos por um momento, vivenciando o ataque de pânico que teve a poucos minutos atrás para lhe contar. – Eu descobri isso a pouco tempo atrás, enquanto lutava contra você. – Adélia engoliu em seco, sentindo sua garganta fechar. – Minha visão estava turva enquanto eu sentia que mãos agarravam minha garganta, e então eu a vi.
—Simplesmente a viu? – Fordy bufou, incrédulo. – Como você a viu?
—Fordy, eu não sei – Adélia coçou a cabeça, confusa. – Eu tive uma sensação do tipo mais cedo, quando você apareceu em meu quarto. Como se eu já tivesse vivido aquilo antes, como se tudo estivesse acontecendo de novo.
A expressão de Fordy clareou-se. Ele saltou de onde estava, foi até uma estante de livros e puxou algo de lá.
—Fordy, o que esta acontecendo? – A voz de Adélia saiu mais tremula do que a mesma desejava. – O que isso significa?
—Déjá vu— Fordy murmurou, trazendo consigo um livro aberto. Ele lia as páginas rapidamente, passando-as sem cuidado algum. – Você teve um déjá vu, Adélia.
—Não sei do que está falando, Fordy. – Adélia rebateu, irritadiça. – O que isso significa?
—Significa que sua mente consegue recuperar memorias roubadas. – Fordy fechou o livro e o jogou na mesa, bufando de frustração. – Significa que você tem certa imunidade a rituais do tipo.
—O que? – Adélia soltou um gritinho, cruzando os braços. – Rituais? Mas... Do que diabos você está falando, Fordy?
Fordy a encarou com descrença.
Ele a analisou de cima abaixo, tentando decifrar se ela estava ou não falando sério.
—Está me dizendo que... – ela engoliu em seco, afetada. – Está me dizendo que eu tive minhas memorias roubadas em um ritual?
Fordy assentiu.
—Você está brincando comigo! – ela riu, desta vez com gosto. Era sua risada nervosa, incrédula e completamente medrosa. – Eu? Em um ritual?
—Cuidado, Adélia. – Fordy murmurou, perigosamente calmo. — Não acreditar em certas coisas não mantém livre delas.
Adélia parou de rir, engolindo em seco.
—Não posso acreditar nisto, Fordy. Isso é supersticioso e...
—Real – Fordy rebateu. – Eu poderia passar horas lhe explicando que o seu estúpido mundo mundano não é como você pensa, mas temos coisas mais importantes com o que nos preocuparmos, certo?
—Não – ela rebateu. – O meu estupido mundo mundano é real, Fordy.
—O que lhe garante isso? Pessoas que você não conhece, fazendo coisas que você não vê, não sente e nem imagina? – Fordy caminhou até ela e cutucou-lhe o ombro. – Não quero destruir suas expectativas, Adélia. Você tem o direito de acreditar no que quiser. Mas, aqui dentro, a ameaça é real. E você, mais do que ninguém, deveria saber disto.
Adélia engoliu em seco, piscando varias vezes. Não podia acreditar naquilo, certo? Era baboseira de gente lunática.
No entanto...
—Não peço que acredite em mim agora, Adélia. Pode continuar vivendo em seu conto moderno – Fordy continuou, desta vez distraído com outro livro. – Você não é a única a quem ela tem perseguido aqui, embora seja a pessoa que ela mais detesta.
— Está falando de Jeniffer? – Seu nome lhe deu calafrios, e Adélia sentiu um embrulho no estomago ao pronunciar: — Ou Marion?
Lentamente, Fordy virou-se para encará-la. Havia uma faísca em seus olhos, relampejando.
— Marion, Jeniffer – ele murmurou. – Tanto faz, é a mesma pessoa. Só tenha um cuidado, Adélia; existe um motivo pelo qual não a chamamos de Marion por aqui.
Adélia recuou um passo quando Fordy se aproximou dela, com um segundo livro aberto diante de si.
—Existe uma maneira de mantê-la protegida. Talvez você goste da ideia – Fordy se aproximou e lhe mostrou a figura de um símbolo. Parecia que, no centro, havia um ponto onde as linhas se concentravam, saltavam e davam voltas nelas mesmas, formando um triangulo. Parecia-se com uma flor delicada.
—O que significa? – Adélia perguntou, receosa. Estava fascinada com aquelas linhas, tinha que admitir.
—É um símbolo celta para a proteção, Adélia. – Fordy explicou, paciente. – Cada linha representa uma trindade diferente e, neste ciclo – ele desenhou as linhas com a ponta dos dedos – forma-se um nó que mantém seu corpo fechado e seguro de ameaças.
—Como maldições? – Adélia deduziu, arrancando de Fordy um olhar de esguelha.
—Não exatamente. Uma maldição é poderosa demais para este símbolo – ele explicou. Adélia o observou por um momento, fascinada com o modo simples com que ele explicava aquilo tudo. – Este é como uma blindagem para o corpo, apenas.
—Uau— Adélia conseguiu responder, atônita.
Ela segurou o livro nas mãos, passando folha por folha. As palavras pareciam escritas em um idioma que ela não conhecia, com traços delicados e ligeiros dando a entender que havia sido escrito à mão. Cada capitulo tinha um símbolo diferente, um mais fascinante que o outro.
—Como esse desenho irá me proteger? – Adélia fechou o livro com força e devolveu para Fordy, tensa.
—Primeiramente, ele precisa mesclar-se em você – Fordy puxou o livro de sua mão com força e o empurrou de volta para a estante atrás de si. – É um processo não muito agradável, mas vai lhe render bons resultados.
—O que quer dizer com isso? – Adélia franziu o cenho, muito confusa.
Fordy respirou fundo e fechou os olhos, impaciente.
—Geralmente é feito como tatuagem, Adélia. – Ele explicou, ansioso para calar a própria boca. — O processo é o mesmo, mas...
—Espere! – Adélia recuou um passo, apontando um dedo para ele. – Você quer me tatuar?
Fordy a encarou com desdém, irritadiço. Adélia jamais facilitaria as coisas, ele já deveria saber. A obrigação de ajuda-la tornava tudo pior, visto que não poderia expulsá-la e deixa-la a mercê de Marion.
—Qual é o problema? – Indagou, irritado. – Não é grande coisa. Nunca pensou em fazer uma?
—Não! – Adélia estava vermelha de vergonha e indignação. – Quero dizer, meus pais jamais aceitariam, e eu não vejo motivos para fazer uma. – Ela engasgou na bile que se formou em sua garganta, tensa. – Na verdade, eu nunca...
—Adélia – Fordy a interrompeu. Seu olhar era sério e intimidador desta vez. – Isso é para sua proteção. Se me deixar explicar, você terá uma escolha.
Ela piscou, tensa. Estava com medo agora, nervosa.
—Tudo depende do que você acredita, Adélia. – Ele continuou, fixando seu olhar nos olhos de Adélia. – Do lado que você joga, das suas perspectivas. Tudo o que você faz é consequência da sua crença.
Adélia suspirou ansiosamente. Ela quis interrompê-lo daquela vez, mas se conteve. Não queria deixa-lo mais irritado.
— Mas existem coisas que estão além disso. Existem coisas inexplicáveis que poucas pessoas se arriscam a entender. – Fordy assumiu um tom cauteloso em sua voz, e Adélia se retesou em nervoso. – Você não precisa de mim para saber o que está acontecendo por aqui, Adélia. Você sabe que existe coisas estranhas aqui, surreais. Isso, o que existe aqui, está além das suas crenças.
Adélia assentiu, e sua mente foi inundada por imagens de Rafael. Ela lembrou-se do tom de sua pele, das raízes que se enlaçavam em seu corpo como correntes, prendendo-o. Lembrou-se também dos olhos aterrorizantes de Jeniffer.
Nada daquilo era fruto da sua imaginação. Todo o mal que acreditava vir de Jeniffer era real – assim como Rafael.
—Está dizendo que eu não tenho escolha? – Perguntou. Sua voz saiu como um fiapo, trêmula.
—Sim. – Fordy respondeu, neutro. – Não cabe mais a você acreditar ou não. É real.
Adélia assentiu. No fundo, ela sabia daquilo, mas lhe custava acreditar. O medo, o rancor, a saudade de casa – tudo aquilo bloqueava seu coração e sua mente, o tempo todo. E era tão forte que a impedia de enxergar sua própria realidade.
—E se eu não quiser fazer parte disto, Fordy? – Ela choramingou. – E se eu quiser ir embora?
— Ela não deixará que isso aconteça de forma tão simples, Adélia. – Fordy murmurou, ficando tenso como ela.
Adélia enxugou uma lágrima rapidamente, forçando sua garganta a expulsar aquela bile que se formou. Estava enfurecida com a ideia de Jeniffer controlar sua vida, e queria mais do que nunca se livrar dela.
—Você tem apenas duas opções aqui, Adélia. A primeira é fazer parte do jogo dela. – Fordy avisou. – Você não pode lutar contra ela, e a sua segunda opção é se proteger.
Adélia respirou fundo, analisando suas opções. A ideia de fazer uma tatuagem parecia mínima diante da ideia de fazer parte do jogo de Jeniffer – sem considerar o que aquilo significava.
— A primeira opção não lhe renderá outros caminhos, Adélia. Apenas tornará tudo mais complicado e...
—Eu sei o que a primeira opção significa, Fordy. Jamais escolheria essa. – Adélia pensou por um momento, analisando suas poucas opções. – Como acha que ela irá reagir quando descobrir que estou me protegendo dela?
Fordy não respondeu. Ao invés disso, ele limitou-se a um suspiro. Não queria deixar transparecer que sua segunda e única opção seria ainda mais perigosa.
—A escolha é sua, Adélia — ele deu um passo em sua direção, até estar próximo de seu rosto. – E acredite quando digo que o jogo dela não é divertido.
—Por que eu tenho a impressão de que nenhuma dessas opções me parece boas? – Adélia murmurou, atenta ao velho.
—Por que nenhuma irá, de fato, livrá-la dela.
—Como eu estarei protegida, então? — Adélia engoliu em seco.
Fordy não respondeu. Ao invés disso, caminhou até a porta e encostou o rosto na madeira. Ficou por um bom tempo naquela posição, ouvindo o que se passava através dela.
Quando Adélia fez menção de segui-lo, Fordy a puxou pelo braço com força e a arrastou até ambos estarem no topo da escadaria
—O que está acontecendo? – Adélia vociferou, intrigada. – Me solte!
Ela mal havia percebido quando o velho destrancou a porta e puxou até ali, brusco e irritado.
—Não conte nada do que aconteceu para ninguém, entendeu? – Ele apertou um pouco mais seu braço, mas sem machucá-la. – Nem mesmo para Rafael.
—Ei... – Adélia protestou, mas foi interrompida novamente pelo olhar inquisidor do velho. – Eu entendi! Agora me solte!
Fordy a soltou assim que o burburinho de vozes se intensificou atrás deles. Adélia sentiu seu peito se apertar quando a figura de Adam surgiu corredor afora, guiando a mulher bem-vestida, o homem e a mulher grávida. Pelo menos desta vez, tudo o que ela tinha em mãos eram papéis.
À primeira vista, Adam não havia notado a presença de Adélia. Ele continuou a sorrir para o pequeno trio que o seguia, conversando amigavelmente com eles. Seu olhar foi primeiramente lançado à Fordy, que assentiu em resposta.
Mas, assim que o velho deu um passo para trás, Adélia surgiu em seu campo de visão. Por um momento, ela esperou que Adam a atacasse e vociferasse com ela, questionando sua presença ali. O modo como a encarou naquele momento – com um sorriso – fez o coração de Adélia congelar de medo.
—Oh, e quem é esta mocinha admirável? – A voz rouca da mulher mais velha entoou no ouvido de Adélia, assustando-a.
Todos alternavam seus olhares entre ela e Adam, procurando por uma explicação. Adélia viu os olhos dele se encherem de algo que ela pensou ser raiva, mas seus lábios vibraram em uma linha sorridente.
—Fordy – A voz de Adam soou empática e assustadoramente amigável, ignorando a pergunta de sua amiga. – Acompanhe o Dr. Salvatore e a Dra. Mitchell até a entrada por favor.
Fordy assentiu para os convidados de Adam e os guiou pela escadaria.
Adélia não tirava os olhos do homem parado diante de si, acenado em despedida para o grupo que chegava ao salão principal. O único som que Adélia conseguia ouvir naquele momento era a própria pulsação e o barulho cada vez mais distante de sapatos no chão.
Sem sequer pensar duas vezes, ela deu um passo em direção ao primeiro degrau da escada, pronta para correr para o mais longe possível dele. Sua intenção era seguir Fordy, mas estava tão eufórica que mal notou que ainda continuava parada no mesmo lugar graças ao aperto de Adam em seu punho.
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