A Fera

8 Não se Esqueça de Mim


Notas iniciais
Olá meus amores! Espero que gostem deste! Bjos ♥

Sob a luz das estrelas, o jardim dos fundos se tornava sombrio e assustador. Não havia nenhum outro resquício de luz pelas beiradas dos abismos invisíveis que chamavam a atenção de Adélia, exceto os postes distribuídos em alguns pontos nada estratégicos e a própria iluminação que vinha de dentro do enorme salão atrás de si.

Estava tremendo, e não sabia se era de medo por estar ali sozinha, de frio ou de nervoso.

Não deveria ter aceitado aquele convite, sequer saído sem um agasalho extra. Nem o jeans, nem o suéter ou as botas pareciam resolver o problema com a insegurança que a dominava. Queria voltar correndo para o quarto, e mal se importava se teria que se explicar para Jeniffer depois.

Seu corpo estava começando a reclamar quando Adélia resolveu levantar-se e esticar-se um pouco, respirar e tentar se manter calma.

“ Respire ” – havia sido o conselho de Jeniffer, quando a mesma estava quase se roendo de agonia enquanto se preparava. – “Lembre-se sempre de respirar, Adélia. ”

Era tudo o que vinha fazendo durante quase meia hora.

Rafael não havia chegado no tempo combinado, e a medida em que os minutos se arrastavam Adélia estava começando a acreditar que ele nem iria mais aparecer. Aquela ideia lhe era muito indiferente.

Ficaria irritadíssima, claro. Mas não conseguia deixar de pensar que foi um erro aceitar conversar com ele naquele momento. Ainda não se sentia bem o suficiente para ouvi-lo, mesmo que seu coração implorasse. Não estava disposta.

Estava quase satisfeita pela falta de Rafael.

Quase.

A proximidade dele foi anunciada por um cheiro cítrico e familiar que fez um frio percorrer a espinha de Adélia. Estava começando a realmente acreditar que ele não viria quando sua sombra se esgueirou sobre os pés dela, espalhando-se como fumaça negra no chão de mármore, tocando-a de forma invisível.

Rafael era como um fantasma. Adélia podia sentir sua presença gélida e silenciosa, embora não pudesse vê-la. Naquele momento, mal acreditava que ele estava mesmo ali, praticamente ao seu lado. Um passo para trás e então ambos estariam cara a cara.

Rafael encarou cada pequeno detalhe de sua silhueta, desenhando-a mentalmente assim que a viu. Adélia não havia mudado nada e não havia nada de diferente. Mas a forma como ele se sentiu assim que ela girou nos calcanhares para encará-lo foi instantaneamente estranha. Seus olhos pareciam maiores sob a meia luz que a iluminava, e o modo como o suéter descansava caído em seu ombro refletia basicamente o modo como ela mesma precisava de descanso.

O clima parecia pesado entre eles, e algo indicava ao coração de Adélia que aquela sensação não tinha nada a ver com a chuva que desabava sobre o mundo, diante deles.

Era ela.

Dois segundos encarando-o e toda aquela raiva, a indiferença e a vontade de discutir haviam desaparecido. Tudo voltou muito rapidamente à sua memória – a última conversa, no parapeito de seu quarto; as cartas de despedida que ele lhe enviou nos últimos dias, o encontro com Adam no dia anterior e, principalmente, a memória do rosto dele. A memória de Rafael.

Adélia queria dizer algo, mas as memórias que vinham e se aglomeravam em sua cabeça estavam deixando-a tonta. Ela não conseguia entender; estava passando mal? Prestes a desmaiar? Não estava assim tão emocionada por vê-lo, muito menos com medo ou qualquer outra coisa que lhe causasse ânsia e tornava sua visão cada vez mais escurecida e seus membros, enfraquecidos.

Respire, ela repetiu para si mesma diversas vezes, antes de escorar-se em uma das pilastras ao seu lado. Não desmaie na frente dele. Não seja tão idiota.

—Então... — ela disse, sentindo toda aquela tensão se esvair de seu corpo. Estava lutando consigo mesma para manter-se em pé, de olhos abertos e a cabeça funcionando. – Estou aqui.

—Estou vendo – Rafael respondeu, aparentemente muito distante dela.

Ela ergueu os olhos para encará-lo, mas foi ofuscada pelo brilho insuportável de.... De onde vinha toda aquela luz?

Rafael estava brilhando?

Adélia escondeu os olhos sob os dedos, em uma tentativa inútil de amenizar toda aquela luminosidade que a deixava cega.

Nada daquilo parecia ser real. Não podia ser real.

Estava passando mal a poucos segundos atrás, tonta e ranzinza – e, até aí, tudo bem. De onde vinha tudo aquilo?

Ela apertou os olhos, engolindo em seco e beliscando a coxa, pronta para despertar daquele pesadelo. Suas unhas cravaram-se em sua perna com tanta força que ela pensou ser impossível graças ao jeans que usava.

—Olhe para mim – a voz metálica de Rafael chegou até seus ouvidos, deixando um rastro gélido por sua coluna. – Olhe! – Ele exigiu mais uma vez, intimidando-a.

Não seja covarde — ela murmurou para si mesma, respirando fundo. Quando todo o ar foi exilado de seu corpo, Adélia abriu lentamente os olhos e os ergueu, deparando-se com a figura intimidadora em sua frente.

Rafael continuava em sua postura arrogante, um degrau acima dela. Seu rosto de metal estava pendendo de lado, de forma sinistra e peculiar.

—O que... — ela engoliu em seco, sentindo uma linha tênue emaranhar-se em seu coração. Era fria, cortante e fazia seu peito palpitar com mais força. – O que aconteceu?

—Estou esperando pela resposta tanto quanto você – Rafael soou ríspido, e Adélia piscou.

O que diabos estava acontecendo?

Ela abriu e fechou a boca, tentando explicar. Mas explicar o quê? Que começou a ver coisas?

Adélia engoliu a bile que se instalou em sua garganta, encarando o rosto de Rafael de forma minuciosa. Ela podia sentir o peso de seu olhar, e não conseguia evitar encarar as duas fendas negras que a encaravam de volta.

—Mentiu para mim – ela se viu dizendo, e um segundo mais tarde se perguntou como ficou corajosa tão de repente.

Rafael apenas suspirou em resposta, sentindo toda a sua energia falhar miseravelmente. Não estava apto para discutir quando deixou seus aposentos para vê-la, embora fosse óbvio que chegarem aquele ponto seria algo inevitável.

—Já estou ciente disso – ele continuou, indiferente. Queria a todo custo pular aquela parte, cansado. Queria não ter saído do quarto, para começar. – E, se me permite adiantar, também estou ciente de que sou um covarde e ficarei muito satisfeito se sua decisão de permanecer longe de mim for verídica.

—Está zombando? — Adélia o fulminou com o olhar durante alguns segundos, irritada.

— Muito pelo contrário, minha querida.

—Não me chame de querida – ela disse, cruzando os braços.

Rafael a analisou por um momento, resistindo a vontade de recuar um passo. Adélia não parecia simplesmente chateada. Pelo modo como o encarava naquele momento – o olhar semicerrado, os lábios franzidos e as bochechas coradas – ela parecia enfurecida.

—Eu acreditei em você – ela continuou, apertando com mais força os braços em volta de si. Sentia-se tão irritada, tão trôpega e tão inerte que não sentia nem vontade de chorar. – Por quê?

Rafael engoliu em seco.

A poucos segundo atrás estava tão irritado e indiferente que não pensou duas vezes a cada resposta seca e dura que lhe deu, mas naquele momento ele sentiu a irritação dela – apenas dela— fazer seu coração palpitar perigosamente mais lento.

-Eu preciso saber – ela disse, quando Rafael permaneceu quieto. – Por que não me contou? Por quê pedir para Adam...

—Esse é o problema, minha quer... Adélia – Rafael replicou, sentindo suas palmas suarem por dentro das luvas. – Adam é o problema. Sempre.

—Não foi Adam que me prometeu coisa alguma! – Sua voz saiu mais alta do que Adélia pretendia. Estava ficando cada vez menos intimidada por ele, e começava a se importar menos e menos com sua história. – Não deveria ter me mandando aquelas cartas estúpidas! Não deveria prometer nada, seu...

—Covarde – Rafael concluiu para ela, entorpecido pela mágoa crescente.

Estava enganado quando pensou que Adélia não poderia mais magoa-lo depois de ler sua carta odiosa. Enganou-se ridiculamente ao se sentir erroneamente eufórico para revê-la.

Mas ele não conseguia entender.... Por que enchê-los com palavras doces em seguida, convidá-lo para aquele encontro e então, de repente, ser tratado daquela forma? Como um animal doente e rejeitado?

—Que seja! – Adélia rebateu, dando de ombros. Uns degraus depois e já estava na entrada para o grande salão, pronta para ir embora.

Por um momento, Adélia esteve tão cega de raiva que não conseguia deixar de associar a imagem de Adam à Rafael. Ela queria acreditar que ele fosse aquele tipo cruel de pessoa, que a estava magoando intencionalmente – só para ter motivos para odiá-lo.

Por um momento, Adélia quase o fez. Quase odiou Rafael, e tudo por que estava magoada consigo mesma, com toda aquela situação.

Adélia lançou um olhar para a silhueta sombria e petrificada no vão de entrada, sentindo-se infeliz ao encará-lo tão inerte na própria existência. Não soube dizer quanto tempo passou enquanto alternava seu olhar das costas de Rafael para o topo da escadaria, que a levaria até o quarto.

Rafael parecia tão sozinho e tão... calado. Adélia sabia que ele poderia estar irritado com ela, mas não conseguiu evitar sentir o gosto do alívio inundá-la. Ela havia dito tudo o que queria para ele, havia xingando-o e o ofendido – mas tudo não passou de um momento.

Ela percebeu tarde demais que seus pés a estavam guiando para o lugar errado. Talvez de forma proposital, mas Adélia só percebeu para onde estava indo quando o cheiro da terra molhada misturado com uma pitada suave do perfume dele chegou até seu rosto.

E então ambos ficaram em silêncio. Adélia, esperando uma resposta e Rafael, sem saber o que dizer.

Ele sentia seu olhar sob si, analisando-o. Rafael quase poderia desenhar o perfil de Adélia naquele momento, sem nem mesmo precisar encará-la. Sabia que ela estaria de olhos arregalados, os lábios franzidos e as bochechas coradas.

Tudo ao redor de ambos estava em absoluto silêncio, à espera de que alguns dos dois iniciasse o combate. Até a chuva havia se recolhido, deixando que apenas alguns pingos caíssem.

—Eu sinto muito – Rafael murmurou. Não tinha a menor intenção de ser ouvido, e o peso que descarregou junto com aquela frase quase o derrubou no chão.

Adélia deu um passo em sua direção, até parar ao seu lado. Ela ergueu o rosto e concentrou toda a sua atenção à paisagem escura em sua frente, tendo uma pequena noção do campo que se estendia à sua frente graças aos relâmpagos que iluminavam os céus.

—Eu não consigo entender, Rafael – Adélia confessou, baixinho. – Por que disse que eu poderia voltar para casa? Por que escreveu aquelas cartas?

Rafael respirou fundo, sentindo o ar pesar em seus pulmões. Queria desabafar com Adélia, queria lhe contar tudo o que sentia e o que estava acontecendo com ele, mas não podia. Não confiava o suficiente nela, embora não conseguisse explicar o motivo.

—Eu pensei que poderia, Adélia. Eu juro que tentei – disse, fechando as mãos em punho. Estava tímido, não queria contar a verdade por medo de se expor demais. — Ninguém mais do que eu desejou que isso fosse possível.

—Por que queria tanto que eu fosse embora? – Adélia indagou, embora tivesse uma pequena noção do que poderia ser o motivo. – Foi por conta do que aconteceu na nossa última conversa? Por que você...

—Adélia – Rafael a interrompeu, abrupto. Era um péssimo momento para tocar naquele assunto. – Não devemos voltar para trás. Deixe isso para lá.

—Eu preciso saber – ela continuou, embora já tivesse sua resposta. Sabia que pressionar Rafael nem sempre acabava em resultados bons, mas da última vez em que tentou, Adélia finalmente havia conhecido o verdadeiro ser diante de si. – Me sinto culpada Rafael. O tempo todo. Parece que estou lhe causando um mal indescritível, e o modo como vem me evitando têm me deixando angustiada.

Não era uma desculpa, mas Adélia não conseguia se explicar de outra forma.

—Seja honesto consigo mesmo, Rafael – Adélia deu um passo à frente, para ficar cara a cara com ele, mas desta vez mais próxima, menos medrosa e mais compreensiva – e não precisará se esconder de mais ninguém. Muito menos de mim.

—Você me magoou – ele disse, honesto. O cenho de Adélia se franziu, e ela desviou os olhos para os lábios congelados da máscara, como se buscasse enxergar sua voz.

—Eu sei. Sinto muito por isso – Adélia lhe deu um meio sorriso, sem graça. Ela sentia que toda aquela tensão causada pela irritação de ambos estava ficando para trás, e aquele sentimento de cumplicidade estava unindo-os novamente. – Me desculpe por ter sido rude com você. Deveria ter sido mais paciente e não ter dado tanta importância ao que Adam disse.

Por um momento, Rafael sentiu vontade de saber o que diabo Adam havia dito para ela, ao ponto de causar tanto transtorno. Queria discutir com ele, exigir respostar e fazê-lo pagar por aquilo. Mas estava tão exausto, tão cansado de todas aquelas discussões e brigas inúteis...

—Me desculpe, Adélia. Deveria ter sido honesto com você naquelas cartas e dito que as chances eram mínimas daquela promessa ser cumprida. – Rafael engoliu em seco, observando o semblante de Adélia se transformar em algo próximo a tristeza. – Eu só queria.... Eu pensei que a ideia de voltar para casa pudesse agradá-la e fazê-la esquecer que... Bem, queria que esquecesse o que tinha acontecido.

—Mentiu para que eu me sentisse confortável? — Adélia estava se controlando, mas sua voz saiu estridente e alta demais. Ela sentiu seus olhos se umedecerem repentinamente, enquanto um bolo se formava em sua garganta.

—Não – Rafael respondeu, seco. Podia ver nos olhos dela o quanto aquele assunto estava esgotando-a. – Não foi uma mentira, Adélia. Foi um impulso. Eu queria que...

—Queria o quê? – Ela resmungou, ainda tentando manter-se calma e serena. Não queria chorar de novo, não na frente dele para variar.

— Queria que ficasse feliz e... – A voz de Rafael foi diminuindo gradativamente, até se tornar um sussurro quase inaudível. — Esquecesse quem eu realmente era.

—Por quanto tempo você achou que poderia sustentar isso? – Adélia sentiu sua voz ficar embargada, mas manteve-se firme e não chorou.

Rafael ficou imóvel, sentindo sua pele esquentar a medida em que a discussão ia retomando os pontos que ambos estavam tentando evitar.

—Eu fui impulsivo – ele respondeu, irritando-se. – Eu queria saber que não havia me rejeitado, queria saber se ainda era minha amiga, mas você... — ele engoliu em seco, tenso. – Manteve-se calada o tempo todo. Sabia que eu estava em um momento difícil por sua causa e mesmo assim se recusou a conversar.

Adélia abriu e fechou a boca por um momento, sentindo-se uma idiota. Não queria admitir que havia magoado Rafael daquela maneira, e estava um tanto impressionada pela atitude dele.

—Não sabe o quanto eu desejei que respondesse às minhas cartas, Adélia. Estive preocupado com você durante todo esse tempo – Rafael deu um passo para trás, em busca de espaço para recuperar o próprio fôlego. – Então você me responde daquela forma.

A cada palavra que saía de sua boca, Rafael sentia-se prestes a explodir. Queria calar a própria boca e ir embora, mas era quase impossível.

— O que queria que eu fizesse? – Adélia respondeu, sua voz saindo em um murmúrio. – Eu estava assustada. Não sabia como responde-lo.

—Isso não importa mais – ele continuou. Adélia tomou um susto quando ele enfiou as mãos nos bolsos e puxou o que deveria ser um papel amassado, entregando-o para ela. – Ah, tem mais essa carta também.

Adélia encarou o papel em suas mãos de forma assustada, alternando o olhar do objeto para as orbitas escuras da máscara.

Não queria ver aquela carta novamente. Não queria ver sua própria caligrafia sendo usada para ofendê-lo.

—Não precisa me mostrar – ela disse, dura. Estava segurando as lágrimas quando Rafael insistiu para que pegasse o papel, em um gesto grosseiro.

Trêmula, Adélia segurou o papel firmemente, respirando fundo antes de começar a ler as primeiras linhas.

Não sei ao certo como começar esta carta. Devo dizer que talvez eu possa passar dos limites ao compartilhar com você os meus sentimentos, mas não vejo outro momento adequado para dizer-lhe algumas coisas...

Ela encarou-o novamente, desta vez sentindo um misto de confusão e fúria arderem em seu peito.

—O que isso significa? – Adélia amassou o papel violentamente, encarando Rafael. – Como isso foi para em suas mãos?

Rafael ficou estarrecido.

—Foi você quem me enviou isto, mais cedo – ele explicou, igualmente confuso.

—Não enviei nada — Adélia estava tremendo. Como aquela carta havia parado em suas mãos? Depois de tanto tempo... – Foi você quem me convidou a vir até aqui.

Rafael deixou que sua cabeça pendesse de lado. Aquilo não era possível – se nenhum dos dois haviam escrito carta alguma, então...

—Fordy – ele murmurou, tão inaudível que Adélia o encarou ainda mais confusa, esperando que ele falasse mais alto.

A primeira pessoa que surgiu em sua mente havia sido Jeniffer. Mas Adélia não conseguia acreditar que ela faria algo do tipo – por quê? Como? Quando ela havia pegado aquela carta?

A única lembrança que Adélia tinha era de como a mulher lhe pareceu suspeita quando ela sentiu falta da carta sob sua escrivaninha. Adélia tinha chegado ao ponto de acreditar na própria insanidade ao imaginar que não havia escrito nada.

De repente, ela esqueceu-se de tudo o que acontecera até aquele momento. Esqueceu-se de Adam infortunando-a e lhe causando tamanha confusão com Rafael, do próprio Rafael em sua frente e de toda a irritação que sentira nas últimas horas.

Tudo o que ocupava sua cabeça naquele momento era Jeniffer.

Como ela pôde fazer aquilo com Adélia?