A Fera
16 Déjà vu
—Você está bem? – Jeniffer murmurou em algum lugar atrás dela. – O que aconteceu desta vez?
Adélia sentiu vontade de lhe lançar uma resposta ríspida, mas se conteve. Não gostou do modo intrometido como a mulher lhe indagou, como se o encontro com Rafael apenas se resumisse aquela raiva explicita em sua face.
—Ele é um idiota – ela se limitou a responder. Por estar irritada com a indagação e ainda com Rafael, Adélia achou uma maneira de atingir a ambos sem nem sair do lugar. – Isso aconteceu.
Jeniffer soltou um muxoxo atrás dela.
—Ora, Adélia. O que ele fez?
Adélia virou-se para encarar a mulher atrás de si, que estava recostada em sua escrivaninha com os braços cruzados, observando-a. Seus olhos estavam vidrados de forma sinistra, e seus lábios congelados em um meio sorriso.
Adélia sentiu um arrepio estranho na nuca. Jeniffer havia se transformado muito desde aquela visita misteriosa – estava irritadiça, distraída e calada. Não se esforçava mais em parecer simpática com Adélia, muito menos em conversar como de costume.
Aquele dia em especial, Jeniffer parecia fora de si.
—Nada demais – disse, sentindo receio em entrar em detalhes. Não sabia o que esperar da mulher caso lhe contasse o que realmente aconteceu no encontro.
—Não estaria com tanta raiva dele se não tivesse lhe feito algo de ruim – ela deu um passo para frente, até estar diante da poltrona e de Adélia. – Diga-me, para que eu possa ajuda-la.
Adélia recuou na poltrona, segurando com força os braços. Suas unhas cravaram-se no tecido aveludado com tanta intensidade que as pontas de seus dedos esquentaram.
—Eu apenas lhe fiz algumas perguntas – ela murmurou. Sentiu um calafrio alertar seu corpo do perigo, mas sua mente estava entorpecida.
Talvez Rafael tivesse razão ao chama-la de estúpida. Ou talvez Adélia fosse corajosa.
O modo como os lábios de Jeniffer se contorceram naquele momento fez o coração dela disparar. Estava prestes a entrar em seu jogo, tinha plena consciência disso.
E Adélia não conhecia as regras. Tinha uma vaga, pequeníssima noção das consequências, mas ainda assim estava ali, provocando-a.
—Perguntas? – Jeniffer indagou, seca.
—Bem... – Adélia levantou-se e andou pelo quarto. Não tirou os olhos da mulher, encarando-a com sua melhor expressão de inocência. – Queria saber sobre sua maldição, seu passado...
—O que ele disse, a propósito? – Jeniffer a acompanhava com os olhos, enquanto Adélia passeava por entre os móveis. – Imagino que tenha ficado desconcertado, coitado.
—Sim, ele ficou um pouco – Adélia respondeu. – Disse-me coisas horríveis, Jeniffer.
—Adélia – a mulher fez menção de se aproximar, mas se deteve.
Adélia sentiu seu sangue congelar no momento, mas tratou de se recompor logo ao perceber que ela não o faria. Não teria a menor chance caso Jeniffer fizesse algo contra ela, embora a mulher lhe parecesse ser tão mais frágil.
—Você sabia? – ela indagou à Jeniffer, em tom de acusação. – Sabia o quanto ele sofreu? E o quanto ainda sofre?
—Sim, eu sei – Jeniffer admitiu, em tom culposo. – Não sabe o quanto eu sofro por ele, Adélia. Não sabe o quanto rezo por ele, para que um dia seu coração esteja livre de tanta amargura.
Adélia ergueu uma sobrancelha ao sentir sua garganta se apertar. Por um segundo, ela quase sentiu pena de Jeniffer. Quis confortá-la e avisar-lhe que ficaria tudo bem. Mas não conseguia mais olhar para a mulher da mesma forma de antes. Não conseguia mais evitar aquela desconfiança, aquele temor que sentia diante de sua presença.
—Ele merece saber a verdade, Jeniffer – agora, o tom de tristeza em sua voz havia sido verdadeiro.
Adélia encarou seus pés descalços, confusa. Não conseguia falar em Rafael sem sentir seu peito apertar. Não conseguia usá-lo para provocar Jeniffer – não era isso o que seu sentimento permitia.
—Não posso, Adélia – Jeniffer murmurou.
-Por quê? – Adélia indagou, irritada.
Jeniffer lançou lhe um olhar afiado, fazendo com que Adélia se encolhesse. A garota esperou que ela gritasse ou algo do tipo, mas Jeniffer não fez nada.
Ao invés disso, ela se aproximou de Adélia vagarosamente, até ambas estarem face a face.
—Fique longe disso, Adélia – ela murmurou. Sua voz não veio em tom ameaçador, mas ainda assim assustou Adélia. – Para o seu bem.
—E para o bem dele? O que devo fazer?
Àquela altura, os ossos de Adélia já haviam virado gelatina. Seu coração estava disparado, e sua pele estava quente devido ao calor que a adrenalina fazia correr por suas entranhas.
O barulho que saiu da garganta de Jeniffer havia sido assustadoramente baixo. Parecia que ela estava contendo um rosnado, e o modo como seus olhos pareceram bilhar com uma luz dourada fez a cabeça de Adélia doer.
Algo naqueles olhos fez o corpo de Adélia adormecer. Parecia que Jeniffer a estava ferindo, mas ela tinha consciência de que a mulher mal a estava tocando. Nem mesmo a brisa que chegava da janela parecia ter algum efeito sobre o corpo de Adélia – ela se sentia entorpecida, desfocada e estranhamente pesada e cansada.
—O que você está fazendo comigo? – Adélia murmurou, sentindo sua garganta fechar.
Jeniffer piscou e, como um trovão, disparou até a porta.
Adélia estava atordoada demais, mas ainda assim conseguiu ouvir o burburinho de vozes atrás de si. Jeniffer parecia conversar com alguém e, quando ela se virou para encarar, viu o velho Fordy encarando-a da porta.
De repente, a visão de Adélia ficou tão turva que, por um momento, ela pensou estar desmaiada. Mas então uma sensação familiar a despertou.
Ela já havia visto algo do tipo – ou melhor, já havia vivenciado algo do tipo. Não se lembrava com clareza, mas tinha certeza de que algo ruim aconteceria em algum momento.
Adélia ficou encarando ambas as figuras que discutiam na porta, esperando. Esperava que algo acontecesse, tinha a sensação de que...
—Adélia? – Jeniffer murmurou, parada diante de si. A mulher sacudiu seus ombros até que Adélia a encarasse. – Precisarei sair por um momento, mas voltarei em pouco tempo. Tudo bem?
Adélia encarou Jeniffer a procura de qualquer sinal estranho, mas a mulher parecia irritantemente normal. Seus olhos dançavam em seu rosto enquanto encarava o rosto de Adélia – não vidrados, como há poucos segundos atrás – e seus lábios pareciam torcido em reprovação.
Até sua pele parecia menos pálida, sua postura mais firme e seu tom de voz mais concentrado no que dizia.
—Sair? – Adélia murmurou de volta, sua voz saindo um tanto esganiçada. – Para onde?
—Fordy precisa que eu arrume algumas coisas e... Adélia, você está bem? – O tom caloroso da mulher fez Adélia recuar um passo, para se afastar do toque quente dela.
Adélia assentiu rapidamente, já em tom de despedida. Deu uma breve encarada em direção a porta, que estava recostada.
Jeniffer se despediu com um breve aceno e saiu, deixando-a sozinha.
Assim que a porta fechou-se, Adélia sentiu-se dez quilos mais leve.
Ainda sentia aquela sensação estranha de déjà vu, e queria entender o que aquilo significava. Mas não conseguia se livrar daquela sensação de embrulho ao ver Fordy e Jeniffer juntos.
Ela não temia tanto Fordy quanto Jeniffer, mal chegava a desconfiar dele. Mas o modo como sempre aparecia sorrateiramente, sempre que algo estranho acontecia entre Jeniffer e ela, lhe parecia motivo para suspeitar.
Adélia sentou-se na cama por um momento, segurando a própria barriga numa tentativa de manter seu café da manhã ali. Estava enjoada mesmo, a ânsia sufocando-a. Ela fechou os olhos por um momento, tentando recobrar qualquer coisa que fizesse ligação com o que sentiu há poucos segundos.
Tudo o que conseguia se lembrar era de sua suplica ao pedir que Rafael lhe fizesse companhia. Depois, da sensação de fascínio ao conhece-lo, de fato; dos olhos vidrados e dourados de Jeniffer e do temor que lhe causara aquele enjoo.
Por que sua mente parecia turva e fraca e, ao mesmo tempo, ela conseguia se lembrar de coisas pequenas – como por exemplo, a música melancólica que ouvira Rafael tocar na primeira vez, embora sequer a conheça?
Como se sentia tão forte e serena, mesmo diante de todo aquele mal-estar, desconforto e fadiga emocional?
Adélia respirou fundo, pondo os pensamentos em ordem.
Parecia loucura, mas sentia que Jeniffer tinha algo a ver com aquilo tudo. Não sobre sua instabilidade, mas sobre coisas inimagináveis.
Adélia sentiu uma tristeza abatê-la quase que imediatamente, ao dar-se conta de que, um dia, considerou-a como sua melhor e única amiga. Naquela época, Adélia desejava de todo coração que Jeniffer a visse da mesma maneira, e faria qualquer coisa para que a mulher confiasse nela e a visse da mesma forma.
Naquele dia, no entanto, tudo o que Adélia sentia por Jeniffer era uma mistura de medo e cautela. Queria que Jeniffer se mantivesse afastada, até que Adélia se sentisse segura o suficiente – e tudo aquilo por meras desconfianças.
Naquele momento, ela não queria que Jeniffer contasse quem ela era – queria saber, por conta própria, quem Jeniffer era de verdade. Queria poder olhar nos olhos dela e saber, sem dúvidas, quais eram suas verdadeiras intenções.
Involuntariamente, Adélia encarou a porta fechada, imaginando se seria uma boa ideia ou não segui-la. Se fosse pega, Adélia mal conseguia imaginar no que aquilo resultaria.
E, se conseguisse, o que ela esperava encontrar?
Adélia sentiu seu sangue ferver com a dose de adrenalina que aquela ideia lhe deu. Tinha tudo para dar errado – poderia ser pega ou, na melhor das hipóteses, poderia acabar não gostando das respostas que buscava – mas, ainda assim, aquela havia sido a melhor forma que encontrou para saciar sua angustia.
Sem nem pensar duas vezes, Adélia abriu a porta vagarosamente e espiou o lado de fora. O corredor estava vazio, sem nenhum sinal de Jeniffer ou Fordy.
Não fazia tanto tempo desde que ambos saíram – cerca de dois minutos? – e Adélia já estava disposta a desistir da ideia.
Ela caminhou, descalça para não fazer nenhum barulho, até o final do corredor. Suas mãos suavam dentro dos bolsos da calça, e seus joelhos tremiam tanto que ela teve de apoiar uma das mãos na parede.
Respire, repetiu para si mesma. Queria acreditar que daria tudo certo, embora o medo lhe dissesse o contrário.
O burburinho de vozes a fez recuar um passo. Ela esgueirou-se pelo corredor, calculando quanto tempo daria para correr até a porta mais próxima e se esconder, caso os donos das vozes resolvessem se aproximar.
Assim que se concentrou nas vozes, Adélia logo percebeu que uma delas pertencia a Jeniffer – pois era a única feminina que conseguiu ouvir. A segunda era masculina, a qual ela deduziu ser a de Fordy.
—Sabe que não posso me expor assim! – Jeniffer vociferou de um jeito que fez a pele de Adélia arrepiar. – Se Adam me vir, estarei perdida.
O queixo de Adélia caiu.
De fato, parecia que havia pegado a conversa no meio. Mas aquelas poucas palavras foram o suficiente para ela entender parte da situação.
—Me poupe, mulher! Não vai ficar tanto tempo assim – Fordy respondeu, ríspido. Adélia nunca o viu usar aquele tom. – Vá, faça seu serviço e volte para aquela garota.
Jeniffer resmungou alguma coisa que Adélia não conseguiu entender, o que quase a fez dar um passo para frente para entender melhor.
—Por que aquela gorda nojenta está demorando tanto? – Jeniffer continuou, e Adélia pôde ouvir seu risinho. – Aposto que tropeçou nos próprios pés e morreu.
—Cale-se – Fordy avisou, irritadiço. – Sua língua ainda irá matá-la, Marion.
Adélia franziu a testa diante de toda aquela informação.
De quem ela estava falando? Será que era algum outro funcionário?
Quem era Marion? Será que havia outra funcionária com eles e ela não percebeu?
Adélia se concentrou o máximo que pôde e, o mais silenciosamente, deu um passo para frente e observou as duas figuras esgueiradas no corrimão da escada.
Não estavam nos degraus; estavam em direção a uma outra ponta do ambiente, que dava para outro corredor. Adélia já havia reparado nele, mas nunca havia se perguntado para onde ele a levaria.
Fordy parecia mexer em um celular, distraído e de frente para Adélia, enquanto Jeniffer estava esgueirada e concentrada em algo no andar de baixo.
Bom, não havia nenhum outro funcionário ali e, por um momento, Adélia ficou apenas pensando naquele nome.
Marion.
Ela desejou que ambos voltassem a conversar, só para ouvi-lo outra vez.
Por que Fordy o usou? Por que ele chamou Jeniffer de Marion?
Será que era seu sobrenome?
Uma faísca clareou a cabeça de Adélia quando ela deduziu que, mesmo insignificantemente, descobriu algo sobre Jeniffer.
Boa! , ela quis gritar para si mesma, limitando-se a um leve sorriso.
Ela passou mais alguns minutos observando Fordy e Jeniffer Marion (ou Marion Jeniffer?), que permaneceram em silêncio durante todo aquele tempo. Fordy havia atendido uma ligação naquele meio tempo e Jeniffer havia apenas revirado os olhos.
Adélia estava tão distraída que mal notou quando o barulho de rodinhas preencheu o ambiente, sendo guiado por uma mulher alta e de cabelos escuros. Ela vestia um par de calças pretas e uma camisa de mangas com bolsos na frente – o que Adélia deduziu ser o uniforme, visto que ela estava vestida como Jeniffer.
—Você demorou – Jeniffer vociferou.
—Eu estava ocupada – a mulher rebateu, inabalável.
Adélia ficou fascinada por ela, simplesmente por não conhece-la. Nunca havia parado para imaginar como seriam os outros funcionários – já que, na cabeça dela, só existiam Fordy e Jeniffer ali.
— Eleanor, deixou tudo do jeito que ele gosta? – Fordy perguntou, usando um tom estranhamente amigável com a moça. – Não quero que ele venha me encher.
—Fiz o de sempre, Fordy – ela respondeu, entregando o carrinho com produtos de limpeza e alguns lençóis para Jeniffer. – Infelizmente, seu estoque de álcool está precisando de Macallan.
Fordy grunhiu, puxando seu celular do bolso novamente.
—Jeniffer, vá fazer o seu trabalho – ele avisou para ela, que revirou os olhos e arrastou o carrinho até o corredor na outra ponta.
Adélia recuou dez passos ao ver Fordy e Eleanor caminharem até o topo da escadaria. Se algum deles olhasse para trás, ela estaria perdida.
Muito lentamente, ela esgueirou-se por entre as sombras, agachando até estar de joelhos no chão. Quando não podia mais ver a cabeça de Fordy, ela engatinhou até a ponta do corredor e esperou.
O que ela faria agora? Deveria voltar ou continuar com aquela loucura?
Não fazia a menor ideia de para onde Jeniffer havia ido, muito menos Fordy. E se fosse atrás de Jeniffer e fosse pega?
Ela não conhecia aquela parte da casa, não saberia onde se esconder. Naquele momento, enquanto estava no meio termo, Adélia pensou no quão errado era aquilo. Havia sido tomada pela adrenalina e não tinha a menor noção do tamanho do perigo em que poderia estar se metendo.
Ela fechou os olhos e, por um momento, ela imaginou Rafael chateado com ela. Não, completamente irritado. Será que ela estava invadindo seu espaço pessoal ou algo do tipo?
Adélia se recostou na parede, irritada.
Bom, ele quem deveria lhe contar as coisas, não é? Se contasse, talvez ela não precisasse ficar se esgueirando por corredores e...
Não. Era Jeniffer o seu objetivo ali, certo? Como deixou Rafael penetra-lhe o pensamento e fazê-la se sentir culpada tão rápido?
Adélia abriu os olhos novamente, respirou fundo e, mantendo-se o mais longe possível de vista no andar de baixo, ela andou apressada até o corredor em que Jeniffer entrou.
Suas entranhas contorciam-se, e seu coração estava acelerado.
Lá, o ambiente era muito mais escuro. Havia um lustre mais luxuoso em cada ponta, mas a luz era tão fraca que Adélia teve de se esforçar para enxergar melhor.
Pelo alivio que sentiu em suas narinas, aquele corredor era também muito limpo. Talvez por não ser tão longo, ou por ter apenas três portas.
De fato, era limpo com mais frequência do que o seu próprio quarto.
Vagarosamente, ela caminhou até a ponta dele, onde havia uma janela que ia do chão ao teto coberta por um par de cortinas escuras. O coração de Adélia quase saltou do peito de gratidão – era um belo lugar para se esconder, certo? Se Eleanor ou até mesmo Jeniffer resolvessem não limpar as janelas naquela manhã.
O mais corajosamente que pôde, Adélia se aproximou da primeira porta do corredor.
Era como a sua, mas parecia muito mais forte, resistente e trancada. Adélia aproximou-se o suficiente para ouvir qualquer barulho. Aquele parecia vazio.
Foi o arrastar de rodinhas que fez o coração de Adélia bater mais forte.
Só depois que se embolou no tecido áspero e pesado da cortina que ela se perguntou como havia chegado tão rápido até ali.
Sua respiração doía em sua garganta, soando como gritos. Ela tapou a boca e o nariz, recostando-se no vidro gelado da janela para acalmar-se.
Primeiro, ela ouviu vozes, e depois o barulho da porta se abrindo. Ela puxou um pedaço do tecido, o suficiente apenas para revelar uma pequena fresta do que se passava ali.
Era Jeniffer, que saía corredor afora puxando atrás de si o carrinho com os produtos de limpeza. Ela ficou observando enquanto a mulher puxava a porta vagarosamente para si, para fechá-la. Adélia quase engasgou-se com a própria respiração quando a porta voltou com tudo, revelado a silhueta de uma figura alta e magra.
Adélia soube no momento que era Rafael. Ela praticamente o sentiu.
—Sim— ela ouviu Jeniffer murmurar, estarrecida. Ele havia dito algo que a fez corar, e Adélia se amaldiçoou por estar distraída demais observando sua sombra para não ouvir. – Tenho certeza disto, senhor.
—Prometa. — a voz dele soou alta e mandona.
Adélia nunca havia visto Rafael soar tão rude antes – nem mesmo quando brigavam. Parecia que queria deixar claro que ele não deveria ser desobedecido.
Jeniffer olhava diretamente para seus olhos, e o modo como seu queixo tremeu quando murmurou a palavra “prometo” fez o coração de Adélia se compadecer.
Era assim que ela se sentia diante do próprio filho? Trêmula?
Era muito diferente da Jeniffer que Adélia encarou mais cedo, em seu quarto. Ali, seus olhos não tinham um tom intimidador dourado. Diante de Rafael, Jeniffer parecia pequena.
Adélia franziu os olhos, tentando entender a situação.
Naquela manhã, ela havia conhecido três Jeniffers diferentes.
A primeira, uma mulher aparentemente perigosa e que parecia ter feito mil coisas ruins a Adélia. A segunda, a Jeniffer Marion, que zombava de outros funcionários. E, por fim, a Jeniffer que estava diante de seu filho – pequena, cabisbaixa e intimidada.
Adélia precisaria de muito tempo para processar aquela informação toda. Talvez estivesse criando paranoias em sua cabeça no momento, mas tinha certeza de que a Jeniffer que procurava, que temia, ainda não era nenhuma daquelas três.
—Agora vá – a voz de Rafael ricocheteou pelo corredor, alta e autoritária. Jeniffer apenas assentiu e caminhou corredor afora, arrastando o carrinho barulhento consigo.
Ela queria ir embora imediatamente, mas precisava ter a certeza de que Jeniffer estaria longe o suficiente para não vê-la. Durante todos aqueles segundo, Adélia pensou em uma desculpa para lhe dar, caso não se encontrassem no quarto.
Adélia, ao ouvir o barulho da porta se fechando, quase correu corredor afora. Parecia que havia décadas que ela estava ali, congelada e enrolada na cortina, esperando.
Primeiro, ela ouviu as vozes. Pelo eco, parecia ser um grupo grande. Depois, vieram os passos.
Quem surgiu primeiro em sua linha de visão foi Fordy, com as mãos escondidas nos bolsos. Seu rosto estava extremamente sério e preocupado. Pelo modo como esperou dez segundos na ponta do corredor, ele parecia ser o guia do grupo.
A segunda pessoa a quem Adélia vira foi Adam, seguido por um homem vestido de cabelos brancos e uma mulher bem-vestida ao seu lado.
Ela não parecia ser tão jovem, embora fosse muito bonita. Seus cabelos crespos e grisalhos estavam enrolados em um belo coque e estava de braços dados com Adam. Ela sorria docemente para ele, ao mesmo tempo em que seus olhos expressavam seriedade. Como se estivesse encantada e ao mesmo tempo tentasse demonstrar que era uma pessoa difícil.
O homem de cabelos brancos olhou feio para uma mulher que parou ao seu lado, carregando uma bolsa de couro marrom aparentemente pesada. Adélia percebeu uma certa protuberância em sua barriga e, se não estivesse tão intimidada, teria ficado irritada por ela estar grávida e carregando coisas pesadas.
Fordy bateu na porta e, um segundo mais tarde, estavam todos dentro do quarto de Rafael.
Adélia ficou atônita.
Quem eram aquelas pessoas? O que diabos elas estavam fazendo ali?
Será que eram parentes de Rafael? Amigos?
Todos pareciam ser velhos demais para serem amigos dele, exceto a moça que estava grávida.
Mas de onde eles se conheceriam?
Para ela, Rafael passara a vida inteira trancafiado ali. Como fizera amigos?
Adélia sacudiu a cabeça, chocando-se com os próprios pensamentos. Deveria estar preocupada em sair dali imediatamente, e não imaginando coisas sobre a vida de Rafael.
Já era hora de ir embora e, agora que estavam todos distraídos, era o momento perfeito.
Ela caminhou na ponta dos pés, escorada na parede. O barulho das vozes lá dentro era tão alto que Adélia quase agradeceu – passaria despercebida pela porta, depois correria até estar em seu quarto. A desculpa que usaria com Jeniffer parecia insignificante demais agora.
Estava prestes a passar por aquele cômodo quando algo chamou a atenção de Adélia.
Era a sombra de alguém, que se esgueirava pelo chão e espalhava-se pela parede em sua frente. Sua garganta se fechou naquele momento.
Estava longe demais da ponta do corredor, trêmula demais para sair dali e correr de volta até a cortina. Ao invés disso, ela ficou ali parada, esperando pelo pior.
Adélia fechou os olhos com força e esperou que alguém a puxasse ou gritasse com ela, denunciando sua presença. Mas tudo o que ouviu foi um suspiro alto e irritado, e o som da maçaneta sendo trancada.
Lentamente, a imagem do velho Fordy surgiu diante de si.
Seus olhos estavam arregalados e seus lábios congelados em uma linha franzida e forçada. Adélia engoliu em seco.
Ela quase perdeu o equilíbrio quando o velho segurou seu braço com força e a arrastou violentamente para dentro do primeiro quarto, o qual ela julgou estar vazio inicialmente.
ஜ
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