A Fera
4 Demônios
Notas iniciais
A princípio, Adélia pensou que fosse uma piada quando o velho Fordy anunciou uma visita de “extrema importância” para ela, “convidando-a para um chá informal”. O velho estava tão rígido que deixou Adélia com dor nas costas só de encará-lo, mas o olhar minucioso e avaliador dele a fez estremecer. Parecia querer lhe contar alguma coisa.
Embora estivesse curiosa, Adélia tinha um pressentimento muito ruim quanto aquela visita.
Primeiramente pensou que fosse Rafael, mas logo descartou o pensamento. Ele iria até sua porta, certo? Ou lhe enviaria um bilhete ou qualquer outra coisa.
Depois, pensou que talvez pudesse ser seus pais. Sim, iludiu-se a esse ponto — e logo descartou esse pensamento.
—Adélia! — A voz grosseira e arrogante de Adam reverberou por todo o salão de entrada, anunciando sua presença. — É um imenso prazer revê-la.
Adélia congelou onde estava, sentindo uma fúria queimar sua garganta.
Fordy parou ao seu lado, atento a cena que se seguiria.
—Adam — ela murmurou, furiosamente. Estava tão surpresa quanto furiosa por revê-lo. Passou longos segundos em choque, tentando manter-se respirando para não desmaiar ou ter um ataque diante de ambos os homens suspeitos ao seu redor. Tudo o que sua coragem conseguiu expulsar se sua boca foi: — O que você quer aqui?
Ela mal havia se recuperado de sua última visita, e mal estava conseguindo se manter sã agora.
Como ele conseguia ser tão cínico?
Depois de tudo o que a fizera da última vez, Adam ainda tinha a coragem de encará-la com um sorriso no rosto. Como se nada tivesse acontecido.
—Bom — ele começou aproximando-se — eu meio que sou dono desta casa, portanto, eu venho e faço o que eu quero aqui.
—Isso não lhe dá o direito de me incomodar — Adélia revidou. Seus olhos estavam lacrimejando de fúria.
Com um passo para trás, ela deu-lhe as costas e pôs-se a subir as escadas. Estava quase no terceiro degrau quando foi interceptada por uma mão em seu pulso, puxando-a de volta.
Estava prestes a gritar quando Fordy murmurou em seu ouvido, calmamente.
—Adélia, isso é importante — disse. Sua voz havia soado tão gentil que a fez sentir-se constrangida, mas a urgência expressa em seu olhar quase a fez estremecer.
Adélia negou e, o mais sutil que poderia, desvencilhou-se do toque dele e voltou para os degraus.
—Eu escutaria o velho, se fosse você. — Adam se intrometeu.
Como alguém tão insignificante conseguia estressá-la tanto?
Certo, Adam não era tão insignificante. Fora ele o responsável por destruir e infernizar a vida de sua família, quem a confinara naquele lugar.
Adélia com toda certeza tinha motivos para lhe odiar, lhe ignorar e tratá-lo mal, certo?
—Que bom que sou uma pessoa muito diferente de você — ela rebateu, irritada.
Estava prestes a continuar a subir os degraus novamente quando ouviu um rosnado.
Adam se aproximou das escadas pronto para atacá-la, mas Adélia o interceptou com um golpe em seu rosto.
Estava tão surpresa quanto ele por sua atitude, e um pouco orgulhosa também. Mas aquele sentimento se transformou em medo quando Adam a encarou com uma expressão assassina no rosto.
—Senhor — Fordy intrometeu-se, aparentemente tranquilo. Parecia não ter se abalado com a atitude de Adélia, e ela não conseguia decidir se aquilo era bom ou ruim. Será que estava acostumado a ver Adam apanhar de garotas? Ela queria rir da ideia, embora estivesse muito nervosa. -Temo que estejamos perdendo tempo. — Ele continuou, em sua postura firme e arrogante. — Em minha humilde opinião, sugiro que cancelem o chá e terminem logo o assunto proposto, antes que seja tarde.
Adélia não conseguia desviar os olhos da marca vermelha de sua mão na bochecha de Adam, embora estivesse mais concentrada no que o velho dizia ao seu lado. Por um momento, ela quis correr para longe de ambos — e principalmente de Adam. Mas temia que, se lhe desse as costas, seria brutalmente atacada como uma gazela distraída no meio de um bando de leões.
—O que temos para conversar é particular, Fordy — Adam sibilou, ainda com os olhos fixos em Adélia. — Saia. Agora. Daqui.
Por um momento, Adélia pensou que rolaria até o final breve dos degraus, mas segurou-se no corrimão para não desmaiar. Todo o pesadelo do último encontro voltou rapidamente para ela, fazendo seus olhos lacrimejarem.
Estava tremendo, engasgada com a bile e prestes a cair sob os pés dos dois homens que a encaravam — um, com uma expressão assassina e o outro, uma expressão alarmante.
Ela quis reagir. Fugir correndo e gritando por socorro seria a sua primeira opção, mas estava tão petrificada que mal sentia seu coração batendo em seu peito.
—Meu senhor — Fordy respondeu, ainda firme. Não parecia se intimidar por Adam. — Temo pela segurança da garota e, como prometido, continuarei aqui para garanti-la.
Adélia piscou os olhos diversas vezes, assimilando tudo vagarosamente.
Fordy estava desafiando Adam?
—Não me interessa — Adam rebateu. — Sou eu quem paga o seu salário, então deve me obedecer.
—Ah, sim — o velho cruzou as mãos na frente do corpo, como se estivesse se preparando para falar algo muito importante. — Salário o qual não tenho convivência a alguns meses, se devo lembrá-lo.
A expressão assassina de Adam se direcionou para Fordy que impressionantemente continuou da mesma forma de antes: inabalável.
Adélia pensou que aquele fosse o momento perfeito para fugir, enquanto ambos estavam distraídos fuzilando-se com o olhar.
—Eu ficarei – Adélia anunciou, chamando a atenção de ambos os homens. – Mas somente se Fordy ficar, e não chegarei mais perto do que isso de você – concluiu, apontando para Adam e indicando os quatro degraus de distância do mesmo.
—Feito, querida – Fordy concluiu, pondo fim à discussão.
Adam estava vermelho de raiva, provavelmente por ter sido ignorado. Encarava Adélia diretamente nos olhos.
—Seja o que for, Adam, fale logo. Não tenho o tempo todo – era ridículo tentar soar corajosa quando suas pernas tremiam e suas mãos estavam molhadas de suor.
Seu coração palpitava com tanta força que Adélia temeu passar mal naquele momento. Não conseguia deixar de imaginar que estava em extrema desvantagem e, embora mal conhecesse o velho, depositou rapidamente toda a sua confiança nele – mesmo sabendo que Adam poderia derrubá-lo com apenas um soco.
— Você não pode ir embora – Adam anunciou, de repente muito mais calmo do que há poucos segundos atrás.
Adélia se surpreendeu quando não ficou surpresa com aquela noticia, vinda de Adam. Mas aquilo doeu, é claro.
Passara as últimas noites imaginando os possíveis reencontros com seus pais, a felicidade e a euforia que sentiria, se choraria ou não... E então, de repente, Adam pisava em tudo aquilo em pouquíssimos segundos.
—Que engraçado – ela disse, com a voz embargada. – Eu jamais iria adivinhar isso sozinha. Muito obrigado por esclarecer esse detalhe, Adam.
E então ela lhe deu as costas, pois não queria chorar em sua frente ou muito menos continuar com aquela sessão de tortura.
—Eu sei que ele lhe prometeu isso – Adam continuou, cinicamente.
Adélia parou, engolindo em seco. Não queria acreditar que Rafael compartilhasse aquele tipo de informação com Adam, chegando até a ser inaceitável.
Mas ela não poderia esquecer que ambos eram pai e filho, e, por mais que odiasse Adam, talvez ele e Rafael tivessem uma boa relação – talvez igual a relação que ela tivera um dia com o seu pai.
—Isso não importa – ela disse, defendendo-se. É claro que importava, mas não queria parecer magoada. – Eu já sabia que isso seria impossível.
—Que ótimo – Adam murmurou, aliviado. – Está vendo, Fordy? Avise ao garoto que ela não é tão burra.
—Rafael o mandou aqui para falar comigo? – Aquela simples ideia a deixou furiosa.
—De certa forma – Adam continuou, cínico. Parecia estar se divertindo, de repente, ao notar os olhos marejados de Adélia. – Seria indelicado se ele dissesse diretamente que descumpriria uma promessa.
Ela não conseguia acreditar no que Adam dizia, mas estava tão magoada que o argumento lhe pareceu convincente. Uma justificativa para ficar magoada com Rafael, a partir daquele momento.
—Então, é apenas isso que tem a me dizer? – Ela estava ansiosa para voltar.
Fordy engoliu em seco quando ela deu-lhe as costas e subiu apressadamente os degraus das escadas. Encarou Adam, que assistia a cena impassível.
—Como você pôde? – Entoou, controlando a voz.
Adam respondeu-lhe apenas com um olhar, antes de também dar-lhe as costas.
—Você não tem respeito? – O velho continuou deixando transparecer a censura e irritação em seu tom de voz. – Mentiu para ele, Adam. Para o seu filho!
Um segundo mais tarde e o colarinho da camisa engomada do velho estava sendo amassada pelos punhos furiosos de Adam, que o apertava com força.
—Vá em frente, Adam – Fordy o desafiou, rouco. Sentia as mãos de Adam tremerem de nervoso, e seu olhar estava desorientado. – Me bata, faça o que quiser. A verdade logo o alcançará, e o seu preço logo será pago. – O velho sentiu sua cabeça latejar quando ele o sacudiu com violência, arremessando-o debilmente nos degraus da escada.
ஜ
Eram quatro da tarde quando Adélia foi acordada pelo barulho da chuva, que entrava pela janela e molhava tudo o que conseguia alcançar. Estava frio no quarto, e tão escuro que ela poderia facilmente ser enganada pelo clima.
Sim, enganada até pelo clima.
Tudo aquilo lhe parecia ser uma piada de mal gosto. Por mais que ela soubesse que Adam não era nem um pouco confiável, ela não conseguia deixar de acreditar que algo do tipo poderia ter partido de Rafael. Talvez ele tivesse uma boa explicação para aquela confusão.
Por isso que, antes de adormecer, ela escreveu algo para ele.
Estava mais para desabafo do que uma conversação. Mais furiosa do que irritada, e mais sincera do que seria caso não estivesse enfrentando um momento como aquele.
Nem se dera ao trabalho de revisar suas próprias palavras quando entregou a carta a Jeniffer de modo dramático, obrigando-a a entregar imediatamente. Não queria brigar ou direcionar toda a sua raiva a mulher.
—Está se sentindo melhor? – Jeniffer questionou ao encontrá-la sentada na cama, aparecendo silenciosamente do seu lado.
—Eu sinto muito – ela começou, envergonhada. – Me desculpe por ter sido rude. Por ter entrado daquela maneira, por te obrigar...
—Tudo bem, Adélia – a mulher respondeu, afagando seu ombro.
Nem precisou ler toda a sua carta no meio do caminho para entender a confusão. Sabia que Adam tinha a ver com aquilo, pois seu pai deu-se ao trabalho de lhe explicar tudo enquanto colocava uma bolsa de gelo na cabeça, gemendo de dor, naquela mesma tarde.
Adam está cada vez mais desorientado, seu pai opinou, em certo momento. Jeniffer sabia o que aquilo significava, mas preferiu não falar nada enquanto massageava os ferimentos do velho.
Era o desespero de assumir um lugar como o de Rafael que tirava Adam do sério.
—Sinto muito pelo o que aconteceu, Adélia – ela disse, soando magoada para consolar a garota, que deu de ombros.
—Não tem problema – Adélia respondeu, com um sorriso sem graça. – Eu já sabia Jeniffer. Sabia que não poderia voltar, mas mesmo assim eu acreditei nele.
—Não acredito que ele tenha feito de propósito – a mulher continuou, convincente. – Talvez ele só quisesse agradá-la.
—Mentindo para mim?
—Adélia – Jeniffer a repreendeu, resistindo a vontade de lhe dar as costas e ir embora. – Não pense assim. Não o julgue antes de saber seus motivos. Talvez ele esteja tão magoado quanto você.
Adélia queria dizer que aquilo era ridículo, mas bastou uma olhadela para sua escrivaninha, onde deixou suas cartas de despedida, que seus olhos voltaram a lacrimejar.
Queria dizer que preferia mil vezes que ele lhe contasse a verdade dolorosa do que aquela mentira idiota e reconfortante. Queria dizer que Rafael era um covarde. Queria dizer que ele era confuso, que sua insegurança a afetava de certa forma e que mentir era errado.
Mas apenas assentiu, fingindo concordar com Jeniffer.
Sabia que, por mais que ela tentasse esconder, Jeniffer só estava fazendo seu papel em defender o próprio filho. Discutir seria, de certa forma, desrespeitá-la. Ela pensou em sua própria mãe, Suzane, e no modo como ficou abalada quando Adélia partira.
O problema agora era Adélia não tinha ninguém que pudesse defende-la.
Ela jamais esqueceria do alívio que sentiu quando Rafael a salvara de Adam, e o modo como se sentiu protegida e em casa com seu abraço. Adélia confiou a si mesma para ele naqueles últimos dias.
Talvez fosse por isso que aquela história lhe doía tanto.
Fale com o autor