A Fechadura - O Portal
1 Capítulo 1
– Você está bem? — Me perguntam após eu ter caído.
– Estou — Digo levantando com dificuldade. — Obrigada.
– O que houve? — Pergunta o homem que havia me ajudado a levantar.
Pus a mão em minha nuca e sinto a dor enfraquecendo. — Foi apenas o Sol — Minto. — Hoje ele está brilhando com muita intensidade. Foi uma insolação, eu acho.
– Então vá para casa, antes que desmaie de novo — Disse o homem gentilmente.
– Está bem, obrigada — Agradeci.
•••
Caminhei vagarosamente para casa, temendo que a dor volte a incomodar-me. Deve ser a terceira vez que isso acontece comigo nesse mês. É a marca, eu acho. Uma fechadura. Tenho essa marca desde que eu era criança. Meus pais poderiam me contar, mas...ninguém pode me explicar o por quê desta marca. Avisto a porta de minha casa e corri até lá. Sentei-me na escada da varanda e fiquei observando o céu, com o Sol sem a companhia das nuvens.
O céu a leste ficava escuro e trazia uma tempestade. Seria bom um pouco de chuva para refrescar a terra da intensidade do Sol, mas a muito tempo não havíamos visto uma chuva de água. Normalmente quando a tempestade vem, sabemos que é época de reconstrução. Com ventos fortes e uivantes, raios potentes rachando a terra. O desespero toma conta da cidade, amedrontando famílias que estavam cansadas de viver deste modo, invejando os mortos. Nosso povo não tem crescido mais, por conta do medo de criar os filhos em um tempo de sombras.
Ao longe, luzes roxas e azuladas reluziam entre a massa de nuvens escura. Toda uma fúria sobrenatural estava concentrada ali. Tudo por conta da Noite. Ela nunca havia se manifestado desse jeito. Sempre quieta em cavernas, se alimentando de animais nojentos, repugnantes, vivendo só. Tudo ficou assim após um homem tentar se comunicar com ela. Ele morreu imediatamente e seu manto foi amaldiçoado. Hoje, o manto que vestia está enterrado, pois seu corpo foi tomado por Ela e logo após um dia, tudo ficou macabro e aterrorizante. Eu gostaria de saber o que faria uma pessoa tentar interagir com um ser obscuro. Um pensamento egoísta o pode ter-lhe tomado a cabeça, talvez.
Logo o chão reverbera. Os raios já estão vindo. À distância vi homens, mulheres e crianças fugindo da chuva reluzente. Coisas voavam pelos ares quando eram atingidos pela carga poderosa. Entrei rapidamente para dentro de casa e canalizei minhas forças para as minhas mãos. Levantando-as com tamanha precisão e as mantendo nesta posição, esperei até a os raios começarem a despejar sua carga em cima de mim. Avistei a luz dos raios se aproximar. Quando senti o impacto do primeiro raio na superfície do campo de força que formei em volta de minha casa, minha mãos se aqueceram e o impacto me empurrou para baixo, mas resisti a força. O impacto continuou por uns dez minutos e parou, apenas deixando o ar carregado de eletricidade e o seu rastro de destruição. Abaixei as minhas mão e puxei uma cadeira para me sentar. Massageei levemente os meus pés para aliviar a dor causada pelo impacto dos raios. Me levantei e vi que conseguia ficar de pé. Caminhei até a porta e observei a horrível cena. Casas chamuscadas e esburacadas, árvores flamejantes ao longe, crianças chorando e pais tentando acalmar o coração inocente delas, outros que gostariam de ter seus filhos vivos e que essa chuva de raios não tivesse acontecido. Como eu havia dito, existem pessoas que decidem não ter filhos nesta época, mas poucas pessoas se arriscam a ter pelo menos um filho. No final eles veem que não valeu a pena. A cor voltava as minhas mãos pálidas, as veias tornando a ficar cheias de sangue. Peguei meus remédios para ferimentos feitas com alguns tipos de ervas e corri para ajudar aos atingidos.
Avancei por mais ou menos dez minutos, o céu escuro, repleto de nuvens furiosas, bloqueando o Sol completamente. Comecei a caminhar devagar e achei uma pessoa que precisava de minha ajuda. Um homem estava recostado em um dos pilares de um dos templos da cidade. Sua expressão se resumia em dor e parecia que tentava não expressar o sofrimento da tamanha da mesma. Corri até ele e pude ver melhor a ferida. Era uma queimadura grave, não era profunda, mas estava em estado crítico. Agarrei entre tantos itens em minha bolsa um frasco com uma mistura especialmente feita para queimaduras. Pus um pouco do conteúdo em um pedaço de pano, para limpar a ferida. Quando encostei o tecido na ferida, o homem desmaiou, não por ser um homem fraco, mas sim por conta dor aguda causada pelo o iodo, uma das substâncias da mistura que é totalmente eficaz com queimaduras. O ajeitei em uma posição confortável e molhei seu rosto e seus cabelos conta do calor do Sol.
Correndo mais um pouco pela cidade, encontrei um grande grupo de pessoas feridas deitadas nas ruas e nas calçadas, uma cena deplorável. Algumas pessoas ajudavam como podiam aos feridos com seus poucos conhecimentos medicinais. Ao me verem, vieram conseguir algumas misturas que pudessem usar nos feridos para ajudá-los. Separei-os em grupos de três e disse para que deixassem os que estivessem em estado grave comigo. Rapidamente atendemos a todos feridos. Colocamos todos em lugares com sombra para que pudessem descansar um pouco. Após toda a mobilização para socorrer as pessoas, achei um lugar à sombra para descansar um pouco. Observei o rosto das pessoas e pude enxergar o medo e a tristeza ali estampados. Não consegui me acostumar com a tristeza e o medo que nos assola neste momento de escuridão. Não éramos assim. As catástrofes começaram quando eu tinha sete anos. Lembro-me nitidamente como era bela e muito elegante a nossa cidade, Mathryndir. Seus muros reluzentes com pedras lisas e brancas cercando toda a cidade. Densas florestas que se estendem até a borda das Montanhas Agael D'Lum, à leste, e as Montanhas Rognael D'Lum, à oeste, margeavam os muros do lado direito e esquerdo, deixando apenas a área de frente para os portões principais vazio, um campo de relva verde que se estendia até o começo da Floresta de Hoggandor. Víamos o Sol despontar na ponta mais alta de Agael D'Lum, e repousar nos picos afiados de Rognael D'Lum. Todos eram alegres do seu modo e viviam em harmonia. Nosso antigo e amado Rei Ataglandhir, O Inspirador, com seu modo honesto e solícito governava esta cidade. Era respeitado por todos e visitava a todos em suas casas. Comandou nosso exército todas as guerras que havíamos lutado e sempre vencíamos. A tristeza e o medo não existiam para nós. Até que um impacto abalou a terra e o céu escureceu de modo tenebroso. A terra tremia constantemente e sentíamos uma força maligna fluir do lado de fora dos muros. Vivíamos com tremores de terra e fortes chuvas de água e não pensávamos em algo pior do que aquilo. Após alguns anos, um exército de sombra e cinzas de monstros hediondos marchava na direção de Mathryndir. Ataglandhir ficou alerta com os estranhos sons vindo do norte. Quando eles estavam a dois dias de distância, estranhas sombras passavam pelos portões e um som ruidoso de marcha ecoava ao longe. O Rei convocou todo o seu exército e fomos para a guerra contra as sombras. A caminho da guerra, marchávamos com força, como um exército indômito, as cornetas de chifre de Mathryndir, que soavam espantosas para os inimigos, naquele momento ecoavam fortemente, todos gritavam com bravura. Eu caminhava ao lado de Ataglandhir montado em seu cavalo. Estávamos prontos para lutar. Foi uma guerra muito sangrenta. Os seres mais horrendos vindos diretamente da Noite nos atacavam fortemente, mas não nos dávamos por vencidos. Lutávamos com coragem. Meu pai lutava ao meu lado, mantendo-se firme em sua posição. Um som estranho começou a soar em nossa direção. Pisadas fortes, o galopar de um cavalo, rapidamente se adiantava até nós. Subitamente a lâmina venenosa de Cavaleiro Amaldiçoado cravou-se no pescoço de meu pai. Eu não podia correr até ele, mas podia vingá-lo. O Cavaleiro voltou-se em minha direção com a espada estendida, reluzindo palidamente em meio ao sangue rubro de meu pai. Rapidamente puxei a espada de meu pai de sua bainha e cortei o braço do Cavaleiro, fazendo-o cair do lombo de seu cavalo. Cravei a espada em sua cabeça e saí dali rapidamente. Ajoelhei-me ao meu pai e beijei-lhe a testa, despedindo-me rapidamente de um grande homem. Continuei lutando bravamente na guerra até o fim, até o cair da última gota do sangue nojento daqueles seres obscuros. Quando todos daquele exército maligno haviam sido derrotados, um som solitário soou por todo o campo, o som da única corneta restante. Vencemos todos, mas isso nos custou a vida de maioria de nossos homens e a de Ataglandhir. Voltamos para Mathryndir com os corações desolados. A espada em minha bainha pesava, como se todo o peso dos corpos dos homens de nosso exército estivesse contido naquela lâmina, que agora estava suja com o sangue viscoso e repugnante daqueles seres. Quando os portões principais foram abertos, vimos os rostos abalados por descobrirem que seus filhos e maridos nunca mais voltariam. Nem o próprio Rei Ataglandhir retornaria. Aquela noite foi terrível. Todos choravam e lamentavam pela perda de seus filhos, maridos e pais. Filhos e mães choravam tristemente. Naquela noite eu não consegui dormir por conta da tristeza que assolava nossa cidade. Lembranças de meu pai cuidando de mim inundaram minha mente e trouxeram mais tristeza. Eu era a primeira e única moça que lutava nas guerras. Isso por causa de meu pai. Ele me ensinou todas as táticas de batalha com espadas. Foi por conta dele que me tornei quem eu sou hoje. Eu tinha dezesseis anos e provei da amargura da perda de alguém amado. É inevitável que essa lembrança volte a minha mente. Algo para me entristecer. Uma marca da própria Noite. Não me culpo pela morte dele, não que seja para afastar o peso da culpa, mas para lembrar que eu fiz o que eu pude. Eu poderia morrer também, mas acredito que não é o que ele queria. Do mesmo modo que estou orgulhosa de meu pai, eu sei que ele está orgulhoso de mim.
O vento do norte me fez sair de meu repouso e observei o céu escurecer vagarosamente. Logo começaria o tempo de domínio da Noite. Ao longe os uivos das montarias dos Saqueadores ecoava distante. Levantei-me rapidamente e pude ver que a maioria das pessoas já haviam sido encaminhadas para os refúgios. Deveriam estar a dois quilômetros daqui se saíram na hora que eu imaginava. Voltei rapidamente para a minha casa e guardei meus unguentos e frascos com misturas dentro de um pequeno armário recostado na cozinha da casa. Pegando meu cajado e com minha espada embainhada, corri para a Rua Galain, a principal via da cidade. Me escondi em uma das casas por perto. Suas paredes estavam com rachaduras e com alguns pequenos buracos. Havia furos no telhado e bem embaixo deles, no chão, haviam orifícios de três palmos feitos pelos raios. Após algum tempo, era possível ouvir a respiração pesada dos lobos. Atravessaram os portões principais pelas brechas deixadas pelo tempo e a fúria da Noite. Antigamente elas eram extremamente fortificadas, precisando de um sistema de engrenagens fortes para movê-las. Mas com o tempo todas as engrenagens dali foram arrancadas e seu corpo, antes pesado, agora se movia apenas com uma ventania. As patas grosseiras dos lobos pisoteavam fortemente a terra, com suas garram amedrontadoras. O olhos dos Saqueadores observavam tudo que fosse suspeito. Mas esse não é o objetivo principal deles. Eles vem a Antiga Mathryndir com fome. Se alimentavam da vida das pessoas. Muitas vidas foram roubadas por eles nesta cidade. O ruído estranho e agudo que vinham de suas bocas, repletas de dentes sujos e apontados, alertou-me da distância em que se encontravam. Quando percebi os poucos metros que nos separavam corri na direção de um deles e bati com o punho da espada nas costelas do grande lobo. Ele soltou um longo uivo e tombou para a o lado, prendendo a perna direita do Saqueador. Rapidamente finquei a espada na área escura onde deveria se localizar seu rosto e puxei-a, deixando-o morto. Me escondi novamente em outra casa e fiquei quieta em minha posição, esperando pelo outros de seu bando que já estavam vindo para cá. Já haviam sido alertados do perigo. Leanën Marin Lael, filha de Gangnor Lael, fiel espadachim de Mathryndir.
Ouço as patas rústicas dos lobo pisarem o solo uma curta distância de onde eu estava. Achei uma fissura na parede e observei o grupo. Eram praticamente dez Saqueadores. "Não posso lutar com todos de uma vez. Posso tentar me teletransportar para uma certa distância daqui, mas não terei mais força para fazer outro feitiço" Penso, indagando comigo mesma se posso lutar. Os passos soaram mais nítidos. Subitamente a lâmina da espada de um deles cravou-se na parede, a poucos centímetros de minha orelha direita. Desencosto-me imediatamente quando outra lâmina fincou exatamente onde estava minha cabeça. Voltei a pensar em me teletransportar e sair correndo, mais abominei a ideia e tomei minha posição de guardiã desta cidade. Concentrei toda a minha energia em minhas mãos, transpassando o poder para o cajado.
– Rubro! — Gritei e uma onda reluzente vermelha e alaranjada sai de meu cajado destruindo a parede, juntamente com os Saqueadores que estavam rente a ela. Com a espada desembainhada, segui até os seres abomináveis, esperando que ele estivessem mortos. Empurrei com pé os corpos e observei o manto em retalhos, deixando exposto o corpo deles. Chagas enormes jorravam um líquido escuro e viscoso, carregando o ar com um cheiro pútrido. Revistei-os um a um, caso achasse algo que tivessem roubado de alguma casa. Uma luz branca reluziu entre um deles e logo pus minha espada de prontidão. Achei que estava vivo ou algo do tipo. Mas todos continuaram em seus lugares, onde haviam morrido. Caminhei até a a pequena fonte luminosa e me assegurei de que o Saqueador que a havia pegado estava morto cravando minha espada em seu peito. A luz provinha da lâmina de uma pequena adaga. Sua lâmina deveria medir dois palmos, suavemente arredondada na ponta e meramente mortífera. Certamente deveria ser algo precioso para quem quer que seja o dono. Peguei um pedaço do manto escuro do Saqueador e cobri a lâmina, ocultando sua luz. Com ouvidos atentos, tentei ouvir outro grupo por perto, mas pareceu que havia apenas aqueles.
Voltei para minha casa e decidi tomar um banho. Enchi a banheira, pondo algumas ervas aromáticas. Tomei um longo banho para afugentar o cheiro e os pensamentos sobre os Saqueadores. Um descanso merecido. Após estar limpa do odor nojento dos caçadores sombrios, deitei-me na cama e tentei dormir, mas muitas preocupações vieram me assolar. Onde estaria o povo de Mathryndir? Estariam voltando dos refúgios? Será que foram capturados? Tentei me acalmar a enorme onda de pensamentos em minha mente e fechei os olhos, esperando o sono me desligar do mundo temporariamente. Mas algo estava diferente. A preocupação me assolava todos os dias, mas logo eu esquecia-os. Desta vez, parecia que algo realmente havia acontecido. Pensei que poderia ser o cansaço tornando minha mente uma massa nublada que me impedia de ver que era mais uma sessão de preocupações, mas eu tinha algum pressentimento de que algo havia acontecido. Me levantei exasperada, pegando minha bolsa para socorrer os moradores, se eles realmente estivessem em perigo. Firmei meus pés no chão e me pus de pé. Um formigamento perpassou por minhas pernas, mas logo a a força necessária delas voltaram. Fui até um pequeno estábulo ao lado de minha casa e pus a sela em meu cavalo, Gaarlamum. Seu dorso escuro e sedoso brilhava a luz da lua naquela noite. Afivelando as correias rapidamente, abri a porta da baia e com um movimento rápido subi em suas costas. Gaarlamum disparou a frente enquanto eu me abaixava para acariciar seu pescoço.
– Corra! — Gritei e subitamente Gaarlamum deu uma guinada para frente, aumentando sua velocidade. Não era preciso cravar os calcanhares ou bater nele para que corresse mais. Temos uma certa ligação e essa linha que nos conecta aumentou desde que eu lhe dei a benção, proporcionando-lhe mais disposição e força do que qualquer cavalo normal. Em corridas pela cidade em dias de competição, era sempre os mais rápido. É um cavalo incomparável.
Pensando brevemente sobre o caso dos cidadãos nos refúgios, com a preocupação aparente em meu rosto, o tempo passou rápido, juntamente com os quilômetros que me distanciava do refúgio. A Lua ainda reluzia no dorso de Gaarlamum, que corria incessantemente, transparecendo disposição. As rédeas escorregavam em minha mão por conta do suor produzido em minhas palmas. Algum pressentimento fazia meu rosto arder, como me motivava a cavalgar até o refúgio. Algo parecia estar errado. Eu não sentia algo assim desde que as sombras e seus monstros terríveis tentaram atacar Mathryndir. Parece que a Noite atacara mais uma vez.
Subindo e descendo suavemente em tons mórbidos e noturnos de verde, as centenárias colinas baixas se estendiam à frente, refletindo o esplendor da luz única da Lua. Logo ao longe eu podia ver a fenda que ligava a uma grande caverna de teto abobadado, a Garganta Dourada, com suas paredes de rochas cristalinas de tom acastanhado, impressionava a todos durante o dia, tornando o castanho das paredes em um tom dourado reluzente, revelando a grande queda d'água do rio subterrâneo, com o sol reluzindo através de uma enorme rachadura, proporcionando uma boa condição para a grama que crescia no chão da caverna.
Ao sentir a fria e estranha relva sob meus pés, um arrepio percorreu o meu corpo, como se algo obscuro estivesse ali. Ouço um movimento pelo lado esquerdo e, pela minha visão periférica, observo um pequeno retalho de um manto preto escorregar pela pelas finas folhas verdes da grama. O pequeno pedaço é soprado pelo vento, voando levemente pela luz da lua, revelando pequenos fios dourados que nele foram costurados. Subitamente sinto algo passar bem perto das minhas costas. Viro-me e vejo um pequeno tufo loiro anelado na grama. Atento meus ouvidos a algum som que revele a criatura e escuto uma respiração fungada na parede rochosa e úmida a minha esquerda, como se quem estivesse ali houvesse pego um resfriado. Sem hesitar, agarro uma pequena adaga em meu cinto e lanço-a em direção ao alvo escondido. A lâmina encontra o que eu esperava e um grito de dor ressoa, alcançando o teto alto da caverna, rebatendo-o em várias direções. Correndo na direção do alvo atingido percebo outros sons na entrada da caverna. Dirijo-me rapidamente a entrada e sinto uma aguda dor em minha bochecha direita. Tocando a área percebo a ferida feita por uma flecha, atirada por quem quer que fosse a indivíduo que estava na penumbra, a Lua refletindo as costas e o capuz que cobria seu rosto. Pensei em correr até ele e golpeá-lo com minha espada, já desembainhada por costume, mas não o fiz, pois correria o risco de ser atingida por uma de suas flechas. Voltei à parede em que estava o último alvo que eu havia atingido arrastei o corpo para o meio da caverna, a luz branca da lua iluminando o rosto escondido pela sombra. Os cabelo castanhos na altura dos ombros estava molhado por conta do suor. A pele branca e morbidamente pálida, mostrava que a vida já havia deixado o seu corpo. Os lábios finos e bem desenhados, em um tom rosa sem vida compunha um nariz fino e meio torto, uma narina maior do que a outra, o motivo do som que o denunciou. O manto que vestia possuía a mesma cor e costura do pequeno pedaço de tecido que eu havia visto. O tecido reluzia, mas seu cheiro não era agradável. Possuía um certo odor de decomposição. Retirei o manto do seu corpo e vi enormes feridas em carne viva em seus braços. Analisei as chagas com um olhar atento, estranhando o fato de alguém estar com feridas profundas e ainda disposto o bastante para estar aqui, no meio do nada. A cidade mais perto é Mathryndir, e ainda é longe perante a segunda cidade mais perto. O tabardo por amarelo claro com um desenho de uma cobra significava que o tal homem morto pertencia a cidade de Carian, que ficava a léguas daqui. O tecido estava com enormes manchas de sangue escuro, com um cheiro estranhamente doce. Decidi que não havia mais o que observar, então fui em busca de dos refugiados na caverna.
Após entrar em um túnel secreto por trás da queda d'água, atravessei uma série de outras passagens subterrâneas e cheguei ao refúgio. Era uma caverna menor, o teto mais baixo, diminuindo a quantidade de ecos produzidos pelos passos. As tochas estavam apagadas e não se ouvia nada além do vento, correndo livremente entre as curvas das paredes. De repente ouço o som dos passos leves e atento os meus ouvidos para achar a direção proveniente do som. Caminho até a fonte do som até que colido com algo e sinto o seu corpo ser lançado para frente. Rapidamente seguro o ombro do indivíduo em que eu havia esbarrado e o mantenho na posição.
– Quem é você? — A voz de um garoto chega aos meus ouvidos — Diga logo, antes que eu o machuque!
– Corajoso o bastante para fazer ameaças, garoto. — Meus dedos se soltaram do ombro do garoto, deixando-o cair no chão. O garoto solta um lamento de dor e tentar chutar minha perna. Ele simplesmente não obteve sucesso. Acendo uma das tochas da parede com uma pequena esfera de fogo.
O garoto olhou atentamente para o mim com tamanha surpresa. A luz da chama iluminava parcamente o rosto do menino, revelando pouco da aparência dele.
– Garoto, não fique assustado — Calmamente, eu disse. — Não vou lhe ferir. Se eu quisesse, já o teria feito.
– Quem é você? — Novamente a pergunta saiu dos lábios do menino. Seus olhos não exprimiam mentira, eu sentia o seu medo. Seus rosto revelava pavor.
– Fique calmo, meu nome é Leanën, venho de Mathryndir. Vim atrás do povo de minha cidade. — Ao ouvir isso, senti o medo esvair-se de seu corpo.
– Eu gostei da sua adaga — Vi o garoto com algo reluzente em uma das mãos e percebi que ele havia retirado a pequena faca de meu cinto. Fico impressionada com o garoto.
– Pertencia ao meu pai. É algo para lembrar-me dele — Um tom nostálgico toma a minha voz. — Agora devolva.
Seus olhos reluziam castanhos à luz da tocha na parede. Senti que o medo esvair-se de seu corpo. Apenas estava desconfiado, uma coisa normal. Devagar ele estendeu a mão e virou o punho da pequena faca para mim. Em um movimento rápido tirei a adaga da mão do garoto e embainhei de volta ao meu cinto.
– O que faz aqui, garoto? — Perguntei, tentando não soando um pouco autoritária — Imagino que este não deveria ser um lugar para uma criança como você.
– Eu fugi de minha cidade e me escondi aqui. Parecia um lugar seguro, até as bestas chegarem — A voz do garoto era pesada e fria, os traços da voz digna de sua idade perdidos em meio a sobrevivência e o amadurecimento.
– Que bestas? Garras da Noite? — As palavras fluíram de minha boca calmamente, contendo todo o desespero dentro do meu corpo.
Torcia para que não fosse esse tipo de criatura. Mas era algo em vão. Eu sabia que eram as Garras da Noite, mas não podia deixar de acreditar que não eram. Seria um sinal muito ruim do estado do povo de Mathryndir.
O garoto confirmou, balançando a cabeça.
Senti um gosto ruim na boca, um gosto metálico. Gosto de sangue. As pulsações no meu peito aumentaram. Eu podia sentir a vida esvaindo dos corpos inocentes do meu povo. Algo que nunca havia sentido, um pressentimento. Um pensamento rodeou em minha mente e emitiu um alerta. Eu olhei para os lados a procura do que a minha intuição alertava-me. Algo disse para eu correr para o túnel a minha direita e disparei em direção à ela. O garoto ficou parado enquanto eu corria, mas logo estava atrás de mim, me seguindo.
A escuridão começou a nos envolver, turvando minha visão. Produzi uma pequena esfera de chamas azuis, iluminando tudo a nossa volta. Um cheiro podre e insuportável emanava dos esqueletos amontoados nos cantos da passagem subterrânea. Aquilo não era um bom sinal.
– Espere — O garoto disse, ofegante, sugando o ar com dificuldade por conta do mau cheiro -, aonde está indo? Não deveria rumar por esse caminho.
– Eu não vou voltar. — As palavras surgiram subitamente em minha boca. Eu só tinha um pensamento em mente: Continuar seguindo.
Corri por mais duas horas, o cansaço sendo consumido pelo meu desespero. Após alguns passos, chegamos a um lugar escuro, frio, o ar assoviando entre o que parecia rachaduras na parede dura e úmida da caverna. A esfera chamejante em minha mão mal iluminava o local. Lancei a esfera a frente, esperando que, por alguns segundos, a chamas iluminassem o quer que houvesse na caverna. Ao tocar a parede ao longe, uma luz azul iluminou todo o salão cavernoso. E a frente pude ver lanças na vertical com o que pareciam corpos atravessados. O povo de Mathryndir.
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