A Fate Between Stars
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Oooiee!
Espero muito que gostem do primeiro capítulo!
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Todo o esforço mental e físico de três ou quatro horas poderiam ser perdidos com somente um movimento. Os últimos raios de sol anunciavam a chegada da noite quando um coelho laranja claro de três orelhas saiu de um dos arbustos verde com tons de lilás me fazendo ficar mais rígida em cima da árvore branca. Segurei a adaga com mais força e tentei abafar a respiração, era a minha chance. Atiro a adaga acertando o chão alguns centímetros do coelho que assustado desaparece dentro da vegetação. Definitivamente aquele não era o meu dia de sorte.
Encosto a cabeça desajeitadamente no tronco da árvore enquanto uma gota fria de suor corre por minhas costas, este erro significava mais um dia sem comida e talvez a minha morte. Desço da árvore e guardo adaga dentro da túnica preta. Se eu não quisesse ficar sem comer por mais um dia tinha de chegar rápido ao Abrigo Público. Passo os dedos dormentes pelo rosto retirando um pouco da tensão e câimbra que reinavam em meus ossos. Meu plano de óbito não é me afogar por não conseguir me mover ao tentar chegar até a pequena cidade do outro lado da Grande Muralha.
Até hoje não entendo o por quê de construir um muro de 80 metros que não se fecha completamente. A Grande Muralha, em forma de meia lua, deixava o leito do Rio Nevado passar livremente pelo lado esquerdo como um tipo de escudo forte o bastante para não se precisar fechar a jaula. Contudo, se a maré estiver baixa bastava usar o estreito caminho um pouco inclinado que se estende entre a muralha e o rio. Se a maré estiver alta, você tem de agarrar as fendas do paredão que se encontram com a água e de pouco em pouco se impulsionar para o lado que deseja ir. Qualquer um com miolos e um pouco de força consegue transitar entre os dois lados.
A maré já havia coberto todo o caminho me deixando só uma opção que, no momento, parecia meio impossível devido as minhas péssimas habilidades na água e a correnteza que a cada momento ficava mais forte com o vento. Verifico se meu cinto está bem preso e os nós que atavam minhas coisas estavam firmes antes de começar a descer. Uma pequena onda cobriu minha cabeça embaçando a visão. Por cima do doce barulho da água o som de fortes trombetas indicava o início da noite e o despertar dos animais proibidos.
Tateando a pedra com uma mão para achar outra fenda sinto um pequeno puxão na túnica. Dedos frios percorrem minhas pernas sobre a grossa calça de couro preto e garras perfuram levemente os meus braços através das mangas da blusa. Com força as garras começaram a me puxar para o fundo do rio enquanto este se agitava e onda atrás de onda cobriam minha cabeça. A dor latejante das garras perfurando minha pele fez com que meus dedos escorregassem facilmente das fendas dando espaço para a criatura me levar para o fundo do Rio Nevado. Debatendo-me tentei soltar as garras dos meus braços, mas uma grossa calda se enroscou em minhas pernas me imobilizando. A fome e a dor por ficar sentada em cima da maldita árvore na floresta a tarde inteira começaram a fazer efeito junto ao cansaço.
Minha vista começou a ficar turva quando grandes bolhas de ar subiram tranquilamente pela água negra até a superfície. Já não havia muito ar em meus pulmões e a urgência de oxigênio começou a tomar o meu corpo. Paralisei. Minha falta de movimento deu gosto ao ser que me segurava e as garras se afrouxaram um pouco. Algas vivas começaram a encostar gentilmente em meu corpo raspando os pequenos dentes ao longo de seus corpos em mim buscando meu sangue. Segurei sutilmente uma delas em cada mão fazendo um pouco de sangue se espalhar ao meu redor. Arranquei as algas do chão levantando areia para cegar temporariamente o animal proibido que de olhos fechado não viu que eu estava prestes a raspa-las em seus braços. Os pequenos dentes bem afiados conseguiram rasgar levemente a pele do animal. Ele se me soltou e se afastou o suficiente para que eu tivesse uma visão completa de seu corpo. A cabeça parecida muito com a de um guaxinim fazia uma combinação medonha com os longos braços, tronco e calda semelhantes à de um crocodilo com carapuça de tartaruga. A água escura fazia com que os olhos azuis fluorescentes da criatura parecessem dois pequenos faróis.
Um grunhido rouco veio do animal e sua boca abriu levemente revelando três fileiras de dentes afiados, uma atrás da outra. Os braços verde musgo quase tão longos quanto a calda possuíam oito longas garras de um preto fosco bem desgastadas. Agarrei o máximo de algas possíveis com as duas mãos e com apoio do chão as arranquei levantando uma grande neblina. Me impulsionei para cima o mais forte possível jogando as algas ao meu redor com a esperança de que isso afastasse a estranha criatura.
Quando o ar entrou em meus pulmões senti um alívio perturbador, mas não havia tempo algum para esse luxo. Nadei desajeitadamente até a muralha e usando as pequenas fendas novamente cheguei o mais rápido possível ao outro lado. Agarrei uma grossa raiz de árvore bem a tempo das garras perfurarem minha bota esquerda e me puxar de novo para o fundo. Chutei a cabeça do animal diversas vezes até conseguir subir a beirada de terra firme utilizando a raiz como uma corda. Peguei a adaga no bolso da túnica e esfaqueie o braço que me segurava. O animal soltou um grunhido rouco de dor e finalmente desistiu de mim apenas voltando para o fundo do rio. Pela pequena adaga corria um grosso filete de sangue verde que começou a borbulhar até sumir completamente.
Deixei-me cair na grama à beira do leito para recuperar um pouco do fôlego. Fechei os olhos por um momento e me concentrei nos ruídos ao redor, um pouco distante o barulho de conversas animadas e risos me davam nojo. O nojo não vinha por inveja dos donos desses risos que não estavam passando fome ou qualquer tipo de necessidade, mas vinha sim pelo fato deles estarem rindo, bebendo e comendo feito porcos enquanto deveriam estar procurando um jeito de voltar para a Terra. Para casa.
Acima, o céu noturno já estava totalmente estabelecido. Milhões de estrelas cobriam sutilmente o véu azul escuro. Por estar muito perto do planeta, era possível notar vários detalhes na lua como crateras de antigas colisões e morros de lava endurecidas, além de algumas erupções vulcânicas. Três pequenos planetas disputavam atenção no grande céu, não era possível ver os detalhes de suas superfícies em função da distância, mas parecia haver água nos três devido a cor de grande parte de suas superfícies. Talvez não estivéssemos sozinhos ali.
Com a adrenalina já quase totalmente fora do meu organismo, finalmente, as consequências do dia me atingiram com força total. Onde as garras haviam perfurado uma substância com cheiro metálico escorria. Sangue. Meus músculos reclamavam pelos esforços feitos ao longo do dia e a noite já havia estabelecido o seu reinado de escuridão dando espaço apenas para as luzes da cidade que ofuscavam o brilho das estrelas junto à lua. Provavelmente já não havia espaço algum no Abrigo Público, sobrando apenas os becos para aqueles que não tinham para aonde ir. Levantei-me com o capuz da túnica escondendo totalmente o meu rosto e mancando fui em direção à cidade.
Nas ruas, o cheiro de comida fazia meu estômago rugir. Andando pelos cantos o mais longe possível de qualquer pessoa cheguei na praça principal onde o Abrigo Público fora outrora estabelecido. O abrigo era basicamente como uma pequena igreja só que ao invés de fileiras de bancos havia várias folhas para as pessoas dormirem. Do lado de fora crianças, jovens e adultos imploravam por um lugar no estabelecimento enquanto outros ficavam encolhidos no chão da praça já sem nenhum tipo de esperança por uma vaga, e talvez, nem pelo amanhã. Um leve cheiro de jasmim veio junto à brisa noturna por trás de mim, era perfume, o perfume de uma garota que eu conhecia muito bem.
Me virei o bastante para observar a figura plantada alguns passos atrás de mim. Scarlett Swane, a minhoca que gosta de usar vestidos de frufru. A loira olhava fixamente com repugnância para o chão que eu havia molhado. Lentamente levantou os olhos para o rosto escondido nas sombras e começou a vim em minha direção tomando muito cuidado para não pisar onde estava molhado. Como se eu não passasse de uma miragem esbarrou com força em meu braço direito, uma dor latejante adormeceu todo o meu braço e um pequeno grunhido saiu de minha garganta. Scarlett me olhou de soslaio sem disfarçar o nojo no olhar.
— Uhg, agora vou ter de jogar fora o meu vestido, inacreditável.
Não consegui segurar um suspiro de impaciência que saiu alto o bastante para ela escutar.
— O quê? Tem algo a dizer? – disse ela com uma mão na cintura e tom de sarcasmo.
Apertei minha mão com força para tirar o foco da dor no braço e não começar uma discussão sem sentido. Com a dor geral que estava sentindo com certeza qualquer argumento que eu dissesse não faria sentido.
— É foi o que imaginei.
Scarlett continuou andando em direção ao abrigo com um esnobe sorriso no rosto e o queixo bem erguido tentando mostrar alguma autoridade. Chegando na porta do Abrigo Público entregou uma pequena bolsinha de veludo vermelho para a voluntária que estava na porta do estabelecimento tentando acalmar a multidão do lado de fora. Com um sorriso de cumplicidade, a voluntária, transitou o olhar de Scarlett para mim cinco vezes até que por fim entrou dentro do abrigo e fechou as grossas portas encerrando com o diálogo do lado de fora.
Adentrei em uma das várias vielas que faziam conexão a praça principal e me dirigi até a tenda de primeiros socorros. A tenda branca possuía várias macas com colchões de lençóis cinza, um dos poucos objetos trazidos da Terra, mas que quase nunca eram utilizados pelas pessoas da cidade. Por mais perigoso que fosse fora da muralha nunca houve casos de animais proibidos dentro da cidade e são raros os casos de machucados, por isso sou muito bem conhecida pelos dois encarregados da tenda. A tenda mesmo não sendo muito grande possuía bastante coisas como uma estante móvel com vários potes de diversas utilidades, duas fileiras de cinco macas cada, uma escrivaninha, dois criados mudos e um banheiro que era uma pequena sala com um balde, por exemplo.
Arranho levemente uma das bordas da tenda puxando a atenção de Jim, o médico chefe da cidade. Ele levanta os olhos cansados dos pergaminhos que estava lendo em cima de sua mesa e me recebe com um pequeno sorriso junto a um suspiro de desaprovação. Os cabelos grisalhos com a pele negra faziam um constate de sabedoria enquanto também delatavam sua idade avançada.
— Grace esta no banheiro, se apresse antes que ela volte e te expulse de novo.
Silenciosamente me dirijo ao armário e coloco rapidamente um pote com um creme de ervas medicinais em um dos bolsos da caça.
— Wow, por Odin! Esse cheiro é seu? Pode pegar um sabão também! — O tom de brincadeira e a risada rouca acabou com qualquer tipo de reação negativa da frase.
Se tem algo que se aprende nas ruas é que qualquer coisa necessária de graça é bem vinda não importando muito como acabaram com você. Jim, abriu a primeira gaveta do móvel ao lado esquerdo e me tacou pedaço de sabão quadrado que gradei no outro bolso da calça. Não consegui conter um sorriso e fiz uma pequena reverência como um gesto de gratidão.
— Seja lá o que tenha feito dessa vez é melhor se lavar antes de aplicar o creme, não quero ter de amputar o seu pé. — Comenta Jim com um olhar desconfiado.
Ignoro o comentário com a cabeça baixa por mais verdadeiro que seja. Sem nenhum equipamento na cidade uma das melhores opções para “curar” infecções era a amputação dos membros infectados.
— A estante está praticamente vazia, Jim. Não deveria repor? – disse tentando desviar um pouco o assunto e para sanar a curiosidade.
O velho deu um longo suspiro olhando para fora da tenda ponderando o que iria falar como se a qualquer momento alguém fosse entrar ali e escutar o que não devia além de o esculachar.
— Sim, mas a Grande Casa tem confiscado praticamente tudo o que temos, até levaram duas macas hoje de manhã.
— Estão com soldados doentes?
— Talvez... Mas de qualquer forma logo, logo não teremos mais nada aqui se isso continuar – ele franziu a testa e fixou os olhos em um dos cantos da sala – Sugiro que você pare de se envolver em confusão, não sei por mais quanto tempo posso deixar passar esses “sumiços” de ervas. Com o baixo estoque eles estão começando a perceber e Grace pode te delatar a qualquer momento.
— Grace sabe que vai para a cadeia como cumplice se me delatar agora, duvido que ela diga qualquer coisa a alguém sobre os “sumiços”. Além disso, eu não tenho nada a esconder, não fiz nada de errado.
A sombra de um sorriso irônico nasceu no canto esquerdo do lábio de Jim. Seus ombros se encolheram um pouco e uma tensão medonha tomou conta de seu rosto.
— Certo... Boa sorte para explicar aos soldados esses cortes, você tem alguma ideia de qual é a punição para aqueles que tem a ousadia de saírem da Grande Muralha escondido?
— Eu cai em uma moita com espinhos no Distrito Norte e claro que não tenho nenhuma ideia, eu jamais sai da cidade.
Jim fechou os olhos para depois me encarar sem nenhum tipo de expressão.
— Espinhos não fazem esse tipo de corte, não há nada dentro da muralha que consiga fazer este tipo de corte. Precisa melhorar sua mentira se não quiser acabar em uma solitária na Grande Casa, por só Deus sabe quanto tempo. Sugiro algo que envolva gangues e muito heavy metal.
O barulho da porta do banheiro se abrindo tomou conta do estabelecimento. Jim fez um leve aceno para a rua antes de eu mancar até o lado de fora e usar as sombras da noite como um manto de proteção. Do lado de fora ainda foi possível o sussurro de Jim que mais saiu como súplica do que como aviso.
— Nenhum deles voltaram, Lucy. Ninguém jamais voltou da prisão da Grande Casa.
A forma meia desesperada que o sussurro saiu acabou ficando gravada em minha mente e levei alguns segundos até voltar a andar na rua de terra. Precisava ir ao chalé e rápido, quanto mais tempo os ferimentos permanecessem sem qualquer tipo de tratamento mais uma possível morte rastejava ao meu encontro. A cada passo para longe do centro da cidade menos movimentação se via nas ruas. Os sussurros de pequenas conversas eram encobridos pela geada da noite. Já distante da cidade, ao lado da cinza muralha, um minúsculo chalé de um só cômodo se estendia escondido pela vegetação densa ao redor.
Acendo uma vela iluminando o cômodo e me preparo para limpar e passar o creme nos ferimentos. As garras não tinham perfurado minha carne muito fundo, com uma boa noite de sono e o creme de ervas na quantidade certa, a tarde eu já deveria ser capaz de ir para fora da muralha novamente. Pego meu pequeno lápis no bolso preso ao meu cinto e desenho uma atadura em uma das paredes de madeira. Respiro fundo colocando o máximo de concentração possível no desenho e não na dor. Pó azul escuro começa a brotar de minhas mãos e a girar em torno do desenho por alguns segundos antes de começar a se materializar no rolo de atadura. Pego uma cuba de madeira que havia conseguido em troca da pele de um coelho duas semanas atrás e a encho com água da chuva que eu havia conseguido armazenar em uma jarra que já estava no chalé quando o encontrei no meu primeiro dia naquele planeta. Respiro fundo e começo a limpeza seguida do tratamento.
Notas finais
Espero que tenham gostado do primeiro capítulo! É muito importante que deixem nos comentários sugestões críticas construtivas para que a história esteja sempre melhorando :3
Aliás, não tenho nada contra porcos, okay? Kkkkkkk
Obrigada pessoal! ❤
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