A Fate Between Stars
1 Garras Verde Musgo
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Todo o esforço mental e físico de mais de três horas poderiam ser perdidos com somente um movimento. Os últimos raios de sol já anunciavam a chegada da noite. Um pequeno coelho branco saiu de um dos arbustos me fazendo ficar mais rígida em cima da árvore. Segurei a adaga com mais força e tentei abafar a respiração, era a minha chance. Atiro a adaga acertando o chão alguns centímetros do coelho que assustado desaparece dentro da vegetação.
Uma gota fria de suor corre por minhas costas, este erro significava mais um dia sem comida e talvez minha morte. Desço da árvore e guardo adaga dentro da túnica preta. Se eu não quisesse ficar sem um lugar para dormir tinha de chegar rápido até o Abrigo Público. Passo os dedos dormentes pelo rosto retirando um pouco da tenção e câimbra que reinavam em meus ossos. Meu plano de morte não é me afogar por não conseguir me mover ao tentar chegar até a cidade do outro lado da Grande Muralha.
As pequenas fendas na Grande Muralha serviam como apoio para me impulsionar contra a correnteza do rio. A água já havia coberto todo o estreito caminho da praia não me deixando escolhas a não ser ir nadando o que, no momento, era impossível devido as minhas péssimas habilidades na água e a correnteza que a cada momento ficava mais forte. Uma pequena onda cobriu minha cabeça embaçando a visão. Por cima do doce barulho da água os sons de fortes trombetas indicavam o início da noite e o despertar dos animais proibidos.
Tateando a pedra para achar outra fenda sinto um pequeno puxão na túnica. Dedos frios percorrem minhas pernas sobre a grossa calça de couro preto e garras perfuram levemente os meus braços através das mangas da blusa. Com força as garras começaram a me puxar para o fundo do rio enquanto a maré ficava mais agitada e onda atrás de onda cobria minha cabeça. A dor latejante das garras perfurando minha pele fez com que meus dedos escorregaram das fendas dando espaço para a criatura me levar para o fundo do rio. Debatendo-me tentei soltar as garras dos meus braços, uma grossa calda se enroscou nas minhas pernas me imobilizando. A fome e a dor por ficar muito tempo sentada em cima da maldita árvore na floresta atarde inteira só se somavam sobre o cansaço.
Minha vista começou a ficar turva e glamorosas bolhas de ar subiam pela água negra azulada calmamente até a superfície. Já não havia ar em meus pulmões e a ardência pela falta de oxigênio já estava tomando todo o meu corpo. Com minha falta de movimento as garras se afrouxaram um pouco e algas começaram a encostar gentilmente em meu corpo, segurei sutilmente uma delas em cada mão e sutilmente me girei somente o suficiente para usar o fundo do rio como um impulso até a superfície no momento certo. Dentes afiados começaram a apertar devagar o meu pescoço e quando as garras soltaram meu braço para segurar minha cabeça enrolei as algas da melhor maneira possível no animal antes de chutar seu corpo com a maior força que pude.
Quando o ar entrou em meus pulmões senti um alívio perturbador, mas não havia tempo algum para o luxo de sentir este alívio. Nadei o mais rápido e da melhor maneira possível até a muralha. Usando as pequenas fendas consegui chegar até o outro lado da Grande Muralha e me segurar em uma forte raiz de árvore bem a tempo das garras perfurarem minha bota esquerda e me puxar de novo para o fundo. Chutei a cabeça do animal diversas vezes até conseguir subir pera a beirada da terra firme usando a raiz como uma corda. Peguei a adaga e esfaqueie o braço verde musgo que me segurava. O animal soltou um grunhido rouco de dor e finalmente desistiu voltando para o fundo do rio.
Deixei-me cair na grama à beira do rio para recuperar um pouco o fôlego. Fechei os olhos por um momento e me concentrei nos ruídos ao redor, um pouco distante o barulho de conversas animadas e risos me davam nojo. O nojo não vinha da inveja por eles não estarem passando fome ou dormindo em becos fedorentos quando não se conseguia um lugar no Abrigo Público, mas vinha do fato deles estarem rindo enquanto deveriam estar procurando um jeito de voltar para a Terra.
Com a adrenalina já quase totalmente fora de meu organismo, finalmente, as consequências do dia me atingiram com força total. Onde as garras haviam perfurado uma substância com cheiro metálico escorria. Sangue. Meus músculos reclamavam pelos esforços feitos ao longo do dia. A noite já tinha estabelecido o seu reinado de escuridão dando espeço apenas as luzes da cidade e ao brilho das estrelas junto à lua. Provavelmente já não havia espaço algum no Abrigo Público, sobrando apenas os becos para aqueles que não tinham para aonde ir. Levantei-me com o capuz da túnica escondendo totalmente o meu rosto e mancando fui em direção à cidade.
Nas ruas o cheiro de comida fazia meu estômago rugir. Andando pelos cantos o mais longe possível de qualquer pessoa cheguei na praça principal aonde o Abrigo Público fora outrora estabelecido. Do lado de fora crianças, jovens e adultos imploravam por um lugar no estabelecimento enquanto outros ficavam encolhidos no chão da praça já sem nenhum tipo de esperança por uma vaga, e talvez, nem pelo amanhã. Um leve cheiro de jasmim veio junto à brisa noturna por trás de mim, era perfume, o perfume de uma garota que eu conhecia muito bem.
— Sai da minha frente garota do mato, você está bloqueando o caminho.
Franciele Del Rios, uma das pessoas com mais dinheiro na cidade, ou melhor, namorada de uma das pessoas com mais dinheiro na cidade. Franciele me olhou com uma expressão exagerada de desgosto e torceu o nariz de bruxa.
—Ugh, você fede mais do que o chiqueiro dos Jacksons – comentou a loira com um sorriso irônico estampado nos lábios – E essa túnica está mais acabada do que as prostitutas do Distrito Sul quando conseguem uma noite bem proveitosa, se é que me entende.
É verdade que não tomo banho á algum tempo, mas deixar uma loira com nariz de bruxa ficar me usando para passar o tempo esta fora de cogitação.
— Pelo menos eu não tenho de dormir junto a um porco e muito menos sou uma prostituta que finge ser uma lady, mas afinal, isso não é problema meu. Como vai o Tom?
Mesmo ela não conseguindo ver o meu rosto através do capuz coloquei o melhor sorriso inocente que pude em meus lábios.
— Não se atreva a me chamar de prostituta ou ficar insinuando essas coisas ridículas sua ratinha imunda. Nunca mais pronuncie o nome dele de novo por essa sua boca cheia de vermes.
— Aham, acorda Franciele estamos no ano 2432 pare de agir como uma minhoca com vestidos de frufru. Você sabe muito bem que não vai conseguir me obrigar a fazer nada ou já se esqueceu de como esse seu nariz arrebitado ficou como o de uma bruxa?
— Se está pensando em encostar um desses seus dedos imundos em meu rosto de novo saiba que dessa vez não irei ignorar. Vou chamar os guardas e te mandar direto para a prisão. Pensando bem, até que é uma boa ideia, não acha? Assim pelo menos você não vai dormir junto aos ratos ou prefere continuar com seus irmãozinhos contaminados?
— Ignorar? Você estava com medo, isso sim. O interessante é que sua covardia vai muito além do que simplesmente se esconder atrás do nome do namorado, agora usa os guardas para tentar intimidar os outros. Estou fascinada por quão nojenta você é.
Uma risada rouca brotou na garganta da loira que inclinou a cabeça graciosamente para trás elevando a voz e chamando a atenção de algumas pessoas ao redor que logo desviavam a atenção ao que quer que estivessem fazendo. Quando se está ensopado, usando uma túnica suja e com o rosto escondido pelas sombras de um capuz as pessoas tem uma certa tendência a fingir que você não existe. Isso de certa forma é bom se você perceber que mais tarde ninguém vai lembrar-se de você, o que dá uma pequena vantagem para qualquer tipo de fuga iminente.
— Estou avisando Lucy, se levantar um dedo contra mim de novo vou usar todo o poder a minha disposição para te colocar dentro de uma solitária por muito, muito tempo. Me cansei de você por hoje, este seu cheiro me dá dor de cabeça.
Dito isso, Franciele se virou e saiu andando calmamente pelo meio da rua ocasionalmente sorrindo e acenando para alguns de seus muitos amigos que perambulavam pelas ruas. Adentrei em uma das várias vielas que faziam conexão a praça principal e me dirigi até a tenda de primeiros socorros. A tenda branca possuía várias camas de lençóis cinza, mas quase nunca era utilizada pelas pessoas da cidade. Por mais perigoso que fosse fora da muralha nunca houve casos de animais proibido dentro da cidade e por isso eu era muito bem conhecida pelos encarregados da tenda.
Arranho levemente uma das bordas da tenda puxando a atenção de Jim. Ele levanta os olhos cansados dos papéis que estava lendo em cima de sua mesa e me recebe com um sorriso cansado junto a suspiro de desaprovação. Os cabelos grisalhos com a pele negra faziam um constrate de sabedoria enquanto também delatavam sua idade avançada.
— Grace esta no banheiro, se apresse antes que ela volte e te expulse de novo.
Silenciosamente me dirijo ao armário e coloco rapidamente um pote com um creme de ervas medicinal em um dos bolsos.
— Seja lá o que tenha feito dessa vez é melhor se lavar antes de aplicar o creme, não quero ter de amputar o seu pé.
Ignoro o comentário com a cabeça baixa por mais verdadeiro que seja. Sem nenhum equipamento na cidade uma das melhores opções para “curar” infecções era a amputação dos membros infectados.
— A estante está praticamente vazia.
Jim deu um longo suspiro e olhou para fora da tenda.
— A Grande Casa tem confiscado praticamente tudo o que temos, até levaram duas macas hoje de manhã.
— Estão com soldados doentes?
— Talvez... Mas de qualquer forma logo, logo não teremos mais nada aqui se isso continuar – ele franziu a testa e fixou os olhos em um dos cantos da sala – Sugiro que você pare de se envolver em confusão, não sei por mais quanto tempo posso deixar passar esses “sumiços” de ervas. Com o baixo estoque eles estão começando a perceber e Grace pode te delatar a qualquer momento.
— Grace sabe que vai para a cadeia por cumplicidade se me delatar agora, duvido que ela diga qualquer coisa a alguém sobre os “sumiços”. Além disso, eu não tenho nada a esconder, não fiz nada de errado.
A sombra de um sorriso irônico nasceu no canto esquerdo do lábio de Jim. Seus ombros se encolheram um pouco e uma tensão medonha tomou conta de seu rosto.
— Certo... Boa sorte para explicar aos soldados esses cortes, você tem alguma ideia de qual é a punição para aqueles que tem a ousadia de saírem da Grande Muralha escondido?
— Eu cai em uma moita com espinhos no Distrito Norte e claro que não tenho nenhuma ideia, eu jamais sai da cidade.
Jim fechou os olhos para depois me encarar sem nenhum tipo de expressão.
— Espinhos não fazem esse tipo de corte, não há nada dentro da muralha que consegue fazer este tipo de corte. Precisa melhorar sua mentira se não quiser acabar em uma solitária no Distrito Leste, por só Deus sabe quanto tempo.
O barulho de uma tranca se abrindo tomou conta do estabelecimento, Jim fez um leve aceno para a rua antes de eu mancar até o lado de fora e usar as sombras da noite como um manto de proteção. Precisava de um abrigo e rápido, quanto mais tempo os ferimentos permanecessem sem qualquer tipo de tratamento mais a morte rastejava ao meu encontro. A cada passo para longe do centro da cidade menos movimentação se via nas ruas. Os sussurros de pequenas conversas eram encobridos pelos sons feitos pela lama de cada passo. Já fora da cidade, ao lado da cinza muralha um minúsculo chalé de um só cômodo estava escondido pela vegetação densa ao redor. Acendo uma vela iluminando o cômodo e me preparo para passar o creme nos ferimentos.
As garras não tinham perfurado a carne do tornozelo muito fundo, com uma boa noite de sono e o creme de ervas na quantidade certa, atarde eu já deveria ser capaz de ir para fora da muralha normalmente. Pego meu pequeno lápis no bolso da calça e desenho uma atadura em uma das paredes de madeira. Respiro fundo colocando o máximo de concentração possível no desenho e o mínimo na dor. Pó azul escuro aparece e gira em torno do desenho por alguns segundos antes de começar a se materializar na atadura. Pego uma cuba de madeira que havia conseguido em troca da pele de um coelho a algumas semanas atrás e a encho com água. Respiro fundo e começo o tratamento.
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