A Farsa Real
1 Capítulo 1
A evidenciação
Primavera, Sec. XVII
Um edificio ergue-se por entre a rua encorporada de casas, as margens divididas por uma estrada e dois troços de passeio. Surpreendentemente, as paredes não estavam cobertas de negredo e o paçadisso comum aos moradores não exalava de nada fora do habitual. O Laboratório, no entanto, fazia-se realçar por entre curvas e contra-curvas nos telhados e janelas com o toque final na porta, munida de perfeitos ângulos de 90º, para criar o contraste. De todos, aquele era um dos poucos blocos que quebrava a monotonia obvia de quadrilateros, estreitos e compridos, seguidos numa ordem uniforme pela rua. Mas não se tratava de um acaso, Issac Chapman (o aristocrata doutorado em ciências medicinais) era não só o inquilino daquela obra como também simultâneamente, o fundador e orientador em termos económicos, de uma quantia considerada "choruda" por parte dos vizinhos.
Teriam sido agendadas cerca de 22 semanas para o arranjo desse projeto mas os atrasos cometidos, levaram a uma tentativa de construção rápida que o condenara, encontrando-se o mesmo com paredes atulhadas de fendas, buracos e escavações tudo significativamente fundo para a passagem consideravel de humidade e consequentes rajadas de ar frio. Sem dúvida, a Chapman não lhe teria agradado saber que necessitaria, como medida provisória, de arranjar uns quantos cobertores de algodão para se aquecer, todavia, estando tomado de trabalho, perdoou o Mestre de obras e o empreiteiro de mais encargos que iriam indubitavelmente sobrar para si.
Issac, não era o tipico fidalgo cientista daquela cidade, os seus estudos e anos de prática levaram-no a destacar-se muito bem na medicina em termos práticos e teóricos que o teriam elevado à aristocracia, e ao contrário da sua concorrência, evitava engressar em conversas banais e bailes corteses que mais tardiamente iriam afetar as suas responsabilidades. Deu-se portanto, apesar de um dos seus poucos dias de folga, a caminhar então em direção à alta porta do seu local de trabalho, até ter sido abordado por uma voz:
— Issac!
perplexo, mirou em volta só para se deparar com Marie Clement que embora não fosse francesa, passou 3 anos com os gaulêses e deu-se por apaixonada pela língua querendo mudar o nome tipicamente corriqueiro (Maria Alberta) para um mais "refinado" de acordo com as suas próprias palavras:
— Oh Marie! — Respondi-lhe com um sorriso. — Não é comum vê-la por cá!
E não era de facto, a jovem senhora, tinha o seu lugar estipulado lá nas terras remontadas de sua majestade longe das cidades ao seu redor desniveladas claramente em termos luxuosos:
— Pois sim mounsiour Issac, mas quando as circunstâncias chamam para tal...
Marie terminara a frase olhando para a calçada e as paredes atentamente, como se por esquecida se dé-se:
— Obras suas? — questionou de sobroulho erguido.
— Só o laboratório... — respondi-lhe — Mas certamente não veio de tão apartada terra para falar da nossa arquitetura local. — acrescentei curioso da sua visita.
Marie, que me olhava com reparo, deu um pequeno riso sem perder a compustura e fez me um breve sinal com a sua mão para que a segui-se. Primeiro teria-lhe passado pela cabeça ir a sua casa, mas dadas as horas tardias, não no quis temendo as represálias da sociedade, constatando que talvez um café relativamente perto fosse o bastante. Contudo, não era todos os dias que se presenciava duas figuras de tal influência percorrendo as ruas tortuosas de Hopkins, e durante o passeio, fez-se sentir imensamente os olhares surpreendidos dos populares que os encaravam. Ele porque envergava um casaco branco saturado de botões, calças de carvão e sapatos de oxford tudo assente num corpo de estatura alta e elegante de cabelos castanhos e olhos verdes, Ela porque continha um vestido de um rosa claro pouco avolumado (com a respetiva sombrinha), sapatos de cetim de baixo salto e um penteado ornamentado numa única trança ruiva que lhe descaia ao peito, com o toque final de olhos castanhos quentes e uma estatura igualmente elegante embora já não tão alta:
— Ainda tarda muito? — perguntou Marie impaciente
— Se me lembro há um já à direita deste cruzamento... Mas...
— Mas não o sabe dizer com evidência... — conclui-o impacientemente.
Tempo era o que a Real funcionária não tinha, não gostava de ser rude, mas o ato de apressar os que estavam à sua volta devido à extrema falta deste recurso contribuia para uma atitude "desilegante" da soberana, nada disto, todavia, era novo para Issac. Ao fim de sensivelmente um quarto de hora, teriam se finalmente instalado num café. Decerto, não o melhor daquele quarteirão, superlotado de baixa burguesia e mobilado de forma duvidosa mas, dadas as horas inoportunas e o constante afogo de Marie teria servido no momento. Após pouco mais de 2 minutos o dono daquele espaço, alto de bigode grisalho,teria se movido do interior do café de forma apressada para as mesas exteriores e servido esses tais de nobres que se sentavam naquelas horas tão fora de censo que eram as 11 da noite. A verdade é que lhe tremião as mãos enquanto captava os seus pedidos e era notório o esforço colocado em si próprio para tentar ser "chic" na sua linguagem, ao fim ao cabo nada lhe garantira que não fossem criticos ou (na pior das situações) inspetores! Esses covardes que se escondiam por entre risos cinicos e roupa bem-parecida eram da pior escumalha que lhe poderiam sair na rifa, conhecidos pelos seus ilustres tratados de encerro! Bem, pelo menos era isso que achava. De qualquer das maneiras, continuou com a façada que tinha estipulado desde o inicio e fez até o seu papel de os servir sem grandes entraves. O relógio batia agora as 12, os pratos estavam quase limpos e as chavenas de café continham pouco mais que umas quantas gotas empragnadas no fundo, o dono que os observara através do seu balcão fingindo polir a mesa, tambem mostrava sinais de cansaço e ultimamente, já não se encontrava lotada a esplanada. Marie, que logo fincava os dedos, empenhava-se em buscar o olhar do seu parceiro que quase dado por vencido de tédio, se encontrava encostado na cadeira admirando o vaso à sua esquerda. Teria batido com o salto na calçada para ganhar a sua atenção e após algumas tentativas, o cruzar de olhares acontecera dando-se o inicio à segunda parte daquele encontro, a mais significativa.
— Entendia sô Issac que folgávamos? — retorquiu Marie implicante
— Não de certo... Mas não me foi comunicado que nos atrasariamos por entre a madrugada. — respondeu
Marie parecia concordar com esta ultima afirmação, de certo modo à governanta tambem não lhe agradara passar a sua tarde naquele espaço, mas não estaria ali se as ocorrências exteriores não lha obrigassem. Tratou portanto, de abrir a sua pequena mala de peles e de retirar alguns manuscritos que pousara em cima da mesa, de longe percebia-se muito pouco dada a rudimentaridade da letra elaborada, mas isto não constava um obstáculo ao nobre que promtamente as começou a ler em tom de segredo.
— E o que pretende que eu conclua destes documentos? — inquiriu Issac não tirando os olhos do manuscrito
— Sintetise as páginas e retire o que de maior valor lhe parecer... Depois, nos pronunciaremos.
O aristocrata ofertou algum do seu tempo numa leitura rapida se bem que promiscua às 13 passagens que lhe cobriam as mãos e que teria contado de forma suave entre os dedos passando assim, de uma em uma, a uma análise a que tal como indicado, lhe trariria mais frutos no menor tempo possivel:
— Contas... balanças negativas... dividas... — murmurava Issac enquanto folheava por entre o manuscrito, a sua face gradualmente adquirindo preocupação.
Muito obrigado por estares a seguir esta minha história! Espero que estejas a gostar! Se estás a ver esta mensagem no entanto, significa que ainda tenho de trabalhar no resto do conteúdo... Deixa um comentário com a tua opinião!
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