A Fantástica Fábrica é invadida.
6 Capítulo 5
Notas iniciais
Os portões da fábrica se abriram com esplendor, soprando o entusiasmo sobre cinco crianças e cinco adultos que clamavam pelo momento em que pisariam no chão daquele monumento. É incrível como o simples não saber, transforma algo simples em algo único.
O segundo portão, este de madeira e com uma porta menor em seu centro, abriu-se para as dez pessoas que ficaram estagnadas a sua frente. Uma música agitada começou tocar, aumentando a expectativa. Alguns bonecos surgiram, dançando animadamente enquanto pareciam cantar a música de apresentação do grande chocolateiro Willy Wonka.
A pirotecnia foi utilizada e uma cadeira surgiu por detrás de toda a cena, parada ao fundo de todo o cenário.
Naquele exato ponto, algo dera errado e dois bonecos pegaram fogo, passando para mais três outros e destruindo o sistema de som que deveria estar escondido por ali. A música acabou, dois bonecos continuaram se mexendo por culpa da inércia e mais um despencou para o lado, como se o fogo que o queimou o tivesse feito desmaiar.
O show maravilhoso tornou-se uma aberração. Pelo menos dois dos cinco pais que estavam naquela fábrica, pensaram em jogar seus filhos por cima do primeiro portão e correr daquele mundo que, definitivamente, não era normal.
– Eles sempre queimam nesta parte.
Os ganhadores do convite dourado correram os olhos para a direita e encararam o homem que teceu o comentário. A cartola com alguns flocos da neve que caía naquele final de inverno.
– E quem seria o senhor? — Comentou alguém.
– Ah, sim! — O homem vasculhou o bolso interno. — Eu juro que deixei aqui.
Os felizardos começaram a ficar ansiosos pela resposta. O homem que caçava algo em seu bolso, estava coberto com um casaco vermelho e luvas de lã protegiam suas mãos. Óculos enormes cobriam seu rosto e ele resmungava algo como “por que estas coisas sempre fogem do bolso?”
– Wonka!
As onze pessoas, que estavam paradas em frente a porta da fábrica, encararam a cadeira que escapou ilesa da chacina que a pirotécnica causou.
Lá estava, com o rosto banhado por raiva, o herdeiro da fábrica.
Charlie B. Wonka, o garoto que tivera o prazer de herdar um mundo fantástico e desconhecido, estava alto e continuava magro. Assim como o cara desconhecido, porém não mais desconhecido, usava um casaco pesado, mas sem bengala, cartola ou óculos. Nas orelhas estavam tampões felpudos, que deveriam dificultar a audição do herdeiro.
– Estrelinha!
Enquanto os ganhadores do convite dourado encaravam o dono da fábrica correr na direção do pupilo, eles sussurraram a única palavra que parecia descrever Willy Wonka: Excêntrico.
Willy Wonka não se encaixava em nenhum grupo social. Ele usava roupas sérias, mas com atitudes infantis. Seu traje era elegante, contudo seu requinte era quase exclusivo de festas a traje de gala. Não usava gravatas, apenas uma gargantilha personalizada com o logo da fábrica.
Os dois donos da fábrica discutiram alguma coisa entre sussurros impossíveis de serem entendidos. Charlie parecia repreender a atitude o mais velho e Willy parecia retrucar a repreensão do mais novo. E como se, juntos, tivessem percebido que pessoas o aguardavam, os dois giraram nos eixos e encararam a plateia que congelava.
– Senhoras, senhores e senhoritas. — Anunciou Charlie, que já era bem conhecido pela sociedade. — É com grande prazer que os recebemos neste pequeno universo paralelo.
– Esta não era minha fala? — Sussurrou Willy de forma audível.
Ele realmente tinha gostado daquela frase, só não teve capacidade lembrar-se dela.
– Você não deveria estar sentado na cadeira? — Charlie retrucou o sussurro.
Willy apontou os braços para a cadeira, bateu um dos pés e rosnou:
– E como eu ia assistir ao show?
Charlie limpou a garganta. Willy acertou a roupa. E juntos sorriram de forma forçada e bela.
– Nos desculpe por isto. — Pediu Charlie com vergonha.
– Vamos, venham! Por que estão parados aí? — Wonka afastou-se um passo e girou o corpo para ficar de frente para Charlie. Ele apontou para a entrada da fábrica e anunciou: — Há pouco para se ver e muito tempo para isto. — Wonka pensou um pouco.
– Algo deveria ser invertido. — Charlie coçou a cabeça.
Entraram pelos portões e logo eles e fecharam. O cheiro de plástico queimado era enjoativo e Charlie não escondeu o nojo que sentia, fazendo o rosto contorcer-se em uma carranca. Willy, por outro lado, não pareceu se abalar.
– Estes bonecos precisam aprender a dançar. — Sussurrou o chocolateiro mais velho.
Alguns metros a frente do portão que se fechava, uma porta surgiu. Estavam em uma sala ampla, mas sem mobília, com um texto escrito na parede ao lado da porta e algumas assinaturas rabiscadas na parede. Willy girou nos calcanhares e apontou para a parede, usando a bengala.
– Este ponto é importante. — Anunciou seriamente. — Ninguém entra sem assinar esta parede.
Era um contrato, explicou Charlie. Onde informava que coisas ruins poderiam acontecer aos visitantes, mesmo que seguissem as ordens dos donos. Também informava que nada poderia ser retirado dali sem a permissão de Willy ou, e o nome a seguir estava com uma letra diferente, Charlie. Alí, também, ficava vetada a divulgação de qualquer coisa que acontecesse ou fosse vista dentro da fábrica e que ninguém, além de quem sofresse, seria responsável por possíveis acidentes naturais.
– E o que seriam estes acidentes? — Um dos pais questionou.
– Posso dizer o que não seria. — Charlie respondeu. — Se o senhor for atropelado por uma empilhadeira, será nossa culpa.
– De um Oompa Loompa, na verdade. — Willy murmurrou.
– Um o que? — Alan questionou com sua curiosidade de criança.
– Tudo em seu tempo. — Willy Wonka respondeu.
Lentamente os visitantes leram o contrato e cada um assinou seus respectivos nomes. Alguns adultos tentaram debater o contrato junto com Willy, mas o chocolateiro os enxotou reclamando que era algo chato, conversar com adultos limitados. Charlie assumiu a responsabilidade de explicar o que era cada termo do contrato e perderam bons minutos naquele lenga-lenga.
– Prontos? — Willy resmungou, já se arrependendo da ideia de chamar dez pessoas para sua fábrica. — Vamos começar.
Passaram pela porta e depararam com um corredor branco. Willy largou o casaco, as luvas de lã – mostrando que as luvas de emborrachadas estavam lhe protegendo sobre a lã – e os óculos no chão e Charlie orientou que fizessem o mesmo.
– É quente aqui dentro, pois a fábrica é climatizada. Não passarão frio.
Sem parar para esperar os visitantes, Willy caminhou pelo corredor, aguardando o momento em que seria agarrado por alguma criança irritante e intrometida. Não aconteceu. Ele cruzou todo o corredor sem ter nenhum problema com contatos físicos.
– Começo a gostar deles. — Sussurrou para Charlie.
– Isto é ruim?
– Não. Não é não. — O mais velho piscou para o pupilo e parou em frente a pequena porta.
Era hora. Pensou.
– Vamos entrar na minha parte favorita. — Anunciou o criador.
– Por esta porta? — Uma garotinha questionou. — O senhor passa por aí?
– A porta contém um segredo grande. – Explicou Charlie. — Ela é pequena...
– Para manter o grande sabor. — Sussurrou Wonka.
A pequena porta se abriu e o magnífico jardim surgiu. O cheiro de chocolate mesclava-se com um pouco de menta e morango. A grama impecavelmente verde, convidava-os para deitar e descansar do mundo cinza que havia fora da fábrica.
As árvores eram únicas dali, todas dando doces e geleias e cada uma com um formato ou detalhe diferente. Havia um caminho que se bifurcava e levava para áreas diferentes e longínquas. A cachoeira despencava ao fundo, cantarolando a queda do chocolate perfeitamente misturado e aerado.
– Não percam a cabeça. — Charlie sussurrou por detrás do visitante que estava mais distante. Ninguém tinha notado que ele caminhou até o final da fila mal formada. — Pois é tudo comestível.
Willy passou pela porta, sendo seguido por cada um dos visitantes e depois por Charlie. O herdeiro deixou a porta aberta, pois sabia que um Oompa Loompa logo viria fechá-la – eles nunca deixavam a porta aberta por tempo demais.
– Vejam a maravilha da vida. — Willy quase gritou. — Vasculhem e degustem de tudo, mas não ousem tocar em meu rio. Tudo é comestível, mas ele é sagrado.
– Por quê? — Juanito questionou.
– A última pessoa que tentou beber dele, caiu nele e quase virou glacê.
O mexicano sentiu o sangue fugir do corpo. Os olhos de Willy Wonka gritavam que era verdade e que ele deveria ter muito cuidado com aquele rio.
– Mas não se preocupem – Charlie não parecia preocupado enquanto admirava a cachoeira. — Quase nada daqui é perigoso.
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