Notas iniciais
Capítulo dedicado ao HDH Febre que soltou o primeiro comentário-recomendação da Fic. Obrigada, suas palavras me motivaram ainda mais :3

– Isto não é um problema.

Willy comentou enquanto colocava o fraque que tanto amava. Ele estava se vestindo, quando Charlie entrou no quarto do chocolateiro e comentou sobre o que a imprensa estava divulgando. Willy era um cara vaidoso e tomava de dois a quatro banhos por dia. Ele só saía do quarto quando sentia-se limpo e “refrescado” como gostava de falar.

– Não acha? — Charlie coçou a cabeça. Será que só ele via o problema que a imprensa estava fazendo? — Nem com a possibilidade de alguma criança cair no rio?

– Se isto acontecer, vou aniquilar a família da pestinha! — Willy retrucou verificando se a cartola estava combinando com a roupa.

Ele percebeu, pelo reflexo no espelho, que Charlie realmente estava preocupado com o caminho que as coisas estavam tomando – e parte de sua percepção era por Charlie não tê-lo repreendido ao falar com tamanha brutalidade.

Para Wonka, era de se esperar que as pessoas tivessem receios pelo ocorrido da última brincadeira dele e que também pensassem que ele queria um outro herdeiro.

Há alguns meses, quase um ano, quando se ausentou da fábrica Charlie agiu de formas que muitos não gostaram e até mesmo Willy revelava seu desgosto, na época, pelas atitudes do pupilo. Charlie tinha agido com cautela e conseguiu acabar com os planos de Mike Teavee, que na época consistia em revelar segredos e falhas da fábrica, mas isto não ficou perceptível ao mundo e nem para Willy.

Se aquele mundo, o mundo de Willy Wonka, permanecia intacto, atualmente era graças ao herdeiro.

E Willy o não trocaria.

– Eu não volto atrás tão fácil, Charlie.

Willy lhe sorria pelo espelho. Os dentes aparecendo com a característica brancura.

– Ah é – Charlie quase tinha se esquecido do segundo motivo por ter ido até o quarto do chocolateiro. — Seu pai ligou.

– Não! — Willy deixou os ombros cair.

– Amanhã você deve ir até o consultório dele.

– Não faz três meses! — O chocolateiro girou no eixo e escondeu o rosto por detrás da cartola – Vai Charlie, finge que esqueceu.

Charlie sorriu ao tutor e negou. Willy Wonka resmungou diversas coisas e saiu do quarto, deixando o cheiro de amendoim – que Charlie não sabia como ele fazia para ter – como o característico rastro.

Era uma tarde ensolarada, mas a fábrica mantinha a temperatura habitual. Charlie também saiu do cômodo, mas seguiu pelo caminho contrário ao do tutor. Enquanto Willy ia trabalhar na sala de invenções, Charlie ia até a ala de administração verificar o número das vendas. Era um trabalho que, desta vez, Willy tinha lhe dado e agora o herdeiro entendia o quão chato e complicado ele era.

Não só ver quanto tinha vendido, mas quantas remessas teriam que ser enviadas e para onde. Depois, era dar uma forma de aumentar a fabricação, o que exigia muito tempo dos Oompa Loompas.

Quando Charlie estava chegando na sala, Omar apareceu correndo pelo corredor. A criatura carregava um jornal e tropeçou nos próprios pés enquanto corria. Sem equilíbrio, Omar caiu sobre o piso lustrado e deixou que o papel escorregasse até o herdeiro.

– Você está bem? — Charlie questionou preocupado.

O Oompa Loompa ergueu o polegar para dizer que sim, depois se levantou e voltou, calmamente, pelo caminho que tinha o levado até Charlie.

O Bucket abriu o jornal e leu a manchete:

“O terceiro e quarto bilhetes foram encontrados ontem a noite. Um foi encontrado por Alice Grumplent que, com seus vinte e um anos, disse que realizaria o sonho da sobrinha, de sete. O segundo bilhete foi encontrado por Elizabeth Nunk, que mora na cidade vizinha a de Alice. Elizabeth tem oito anos e se escondeu das câmeras.

Os pais de Elizabeth estão receosos sobre a ida da menina até a fábrica...”

Wonka soltou o jornal sobre as pernas e continuou encarando a imagem das duas sortudas. Ele contou os segundos e dentro de um minuto Charlie surgiu na sala de invenções. Dóris tinha lhe entregado o jornal e ela revelou que Omar estava levando o outro exemplar para Charlie.

Talvez, pensou Willy, estava na hora de dar atenção a Charlie. Ou era melhor agir como estava agindo? Ignorando os receios do herdeiro?

– O que acha? — Charlie se sentou sobre o chão, ignorando a possibilidade de alguma coisa grudar em sua roupa.

Ele tinha aquela mania, de sentar-se em qualquer lugar e escutar. Era como se quisesse sempre ter a visão que uma criança teria e, desta forma, não ter tantos bloqueios.

– Charlie — Willy parou. Pensou um pouco e prosseguiu – Faz sentido sua preocupação, mas isto pode ser por você não ter passado por tudo o que eu passei.

– Acha que, a diferença em nossas mentes, é maior do que deveria?

– Diferentes, mas não muito. — Willy arrumou a cartola. — Vou te deixar tomar a decisão.

As narinas de Charlie se dilataram. Willy tinha algo a mais para falar.



Ϣ.Ϣ.



Charlie pegou o telefone e direcionou o indicador ao primeiro número. O dedo tremeu no ar e a outra mão devolveu o aparelho ao gancho.

Willy pode estar certo. Pensou.

Mas era uma decisão que estava em suas mãos e seus instintos pediam para fazer aquela ligação.

O Bucket voltou a pegar o aparelho e discou o primeiro número. O aparelho apitou em consentimento e aguardou o próximo número. Charlie não conseguiu prosseguir.

Willy Wonka era um cara persuasivo e com uma mente ampla. Ele, muitas vezes, percebia quando o perigo era falso. Naquele momento Charlie lutava contra o instinto de chamar toda a imprensa e contra as afirmações de Willy, que dizia não ter nenhum mato naquele cachorro.

“Espera.” Willy olhou para algo além de Charlie. “Inverte isto.”

Charlie caminhou até a sala de Dóris, a Oompa Loompa. O problema estava no tempo que perdia para discar o número da imprensa local E o dava tempo para pensar demais. Ele não bateu antes de entrar e a criaturinha assustou-se com a brutalidade que o herdeiro usou para entrar na sala.

– Disque este número. — Chalie pediu como se fosse uma ordem. Dóris aguardou que a educação entrasse em vigor e logo Charlie percebeu. — Por favor. — Ele completou com vergonha.

Ela pegou o papel que ele estendia e tirou o telefone do gancho.

– Espere! — Charlie gritou.

Dóris o encarou e devolveu o telefone ao gancho. Ela piscou os olhinhos, aguardando o próximo passo.

– Willy pode estar certo. — A guerra mental do herdeiro era intensa demais para ficar presa na cabeça. — Mas pode estar errado. Calma. — Ele ergueu as duas mãos. — Ligue. Melhor prevenir do que remediar.

Dóris voltou a pegar o telefone, concentrando-se no número. Quando discou o segundo, Charlie interrompeu.

– Pare!

Ela o encarou.

– Não, pode continuar. — Charlie abanou as mãos como se estivesse enxotando-a.

Dóris discou outro número.

Charlie mordiscou o dedo.

Mais um.

Charlie explodiu.

– Pare! Pare!

Dóris voltou a encará-lo. Charlie, vendo que ela não colocou o telefone no gancho, saltou para perto da mesa e arrancou o aparelho da mesa, jogando-o longe e estourando o fio que fazia o aparelho funcionar.

A Oompa Loompa soltou o fone, que ficou preso em seus dedos, e encarou o garoto. Ele estava desesperado, meio abatido, como se estivesse precisando dormir.

Ela saltou da cadeira, contornou a mesa e puxou a calça de Charlie. O conduziu para a ala de recepção – que ficava perto – e o fez sentar em um sofá. No meio do caminho pediu para um Oompa Loompa, que passava por perto, uma caneca de chocolate quente.

Depois de acomodar o herdeiro, sentou-se em frente a ele, cruzou as perninhas e aguardou.

Charlie desabafou rápido, explodindo com a pressão do momento.

– Willy acha que a imprensa está agindo de forma normal, mas estão falando mais do que deve. E ele só me disse que não acha que é necessário contatá-los e nem que devemos nos preocupar, mas eu me preocupo! E sabe o que ele me disse? Que eu deveria me virar! Dóris, como posso tomar uma decisão dessa? Certo, eu me livrei de Mike, mas isto não era nada! Willy disse que não faria nada, acho que devo segui-lo.

Um Oompa Loompa entregou uma caneca para Charlie e deu duas batidinhas no joelho do herdeiro. O Bucket encarou os dois Oompa Loompas e suspirou, ele era o único preocupado com algo. O único que ainda se prendia ao mundo fora da fábrica. Uma fábrica que, praticamente, se sustentava por completo.

E se ele era o único que estava preocupado com algo, também poderia ser o único errado.

A fábrica continuaria intacta por anos. Independente do que as pessoas acham daqueles que a controlam.

– Vocês são fantásticos, sabiam?

Os dois Oompa Loompas sorriram e saíram da sala. Dóris ainda encarou o herdeiro e ergueu o polegar, falando milhares de palavras motivadoras, com apenas um gesto.