A Fantástica Fábrica é invadida.
13 Capítulo 12
Lane sentiu as paredes do estômago grudadas e a língua seca como uma lixa de madeira, quando recebeu a primeira visita dos donos da fábrica. O ambiente quieto e frio, lhe sussurrou quando uma porta pesada foi aberta e o ranger dela denunciou que raramente usavam aquela ala. Depois, escutou uma massa de vozes em tom tão baixo, que nenhuma palavra fora captada.
Antes da porta se abrir, houve o farfalhar de chaves e um murmurinho exaltado do lado de fora. Ai sim, a porta de madeira espreguiçou-se para dentro da cela e o ambiente se preencheu com o adocicado perfume de chocolate e amendoim.
Charlie Bucket Wonka, ao cair sobre os olhos de Lane, parecia um adolescente frágil, tímido e curioso. As bochechas avermelhadas davam uma inocência magistral ao garoto e também denunciava que ele não estava mal alimentado — como a aparência pálida do restante do rosto tentava passar.
Mas Willy Wonka a fez prender a respiração. A cartola era como a cereja do bolo e a vestimenta formal um glacê delicioso aos olhos. Os lábios vermelhos eram tão tentadores quanto uma bela maçã do amor e os olhos duas bolinhas de creme de avelã.
Lane conteve o impulso de saltar para perto do chocolateiro e tocá-lo.
Ele era alto, esbelto, belo. Era um cara de idade avançada, que escondia os anos sob a pele coberta pelo fraque, luvas e cartola.
Wonka fechou a porta e Charlie aguardou que ele desse os primeiros passos. Lane tinha os olhos bem abertos, captando cada movimento, cada ato. As narinas também estavam dilatadas, apreciando o cheiro adocicado que desprendia do mais velho e captando uma fraca fragrância refrescante.
– Qual o seu nome? — A voz de Willy era baixa e despreocupada. Ele lançou a pergunta enquanto terminava de encostar a porta de madeira pesada e o timbre era idêntico ao de um médico que vai atender um paciente pela primeira vez.
– Lane Kenneth. — Respondeu.
A voz saiu rouca e a garganta gritou uma dor aguda por culpa da secura.
Charlie aproximou-se um pouco, estendendo uma garrafa de água que estava lacrada. A mulher agradeceu com um movimentar de lábios, que mais parecia um sorriso de desculpas. Lane não sabia da onde tinha saído aquela garrafa, mas não tinha motivos para recusá-la.
– Interessante. — Willy sussurrou.
O chocolateiro era fanático por nomes e palavras. Um pouco mais do que fanático, era viciado. Vivia buscando o significado de cada coisa que escutava e seus sinônimos, mas quando os conhecia, buscava o antônimo. Foi por amar nomes que ele soube, de cara, que o nome Lane Kenneth era mais do que apropriado.
– Está com fome? — O chocolateiro escutou a voz do pupilo vazando pela sala.
Movendo os olhos para o mais novo, encontrou-o parado há poucos passos da mulher capturada e demonstrando um carinho maior do que ela merecia. Aquilo o irritou. Willy Wonka se irritou pelo simples ato de Charlie Bucket — o SEU Charlie Bucket — demonstrar carinho para uma mulher que tinha invadido a fábrica e poderia carregar seus segredos para qualquer um de seus concorrentes.
– Charlie! — Advertiu Wonka.
O Bucket ergueu os olhos para o tutor.
– Ela precisa comer. — Escutar aquilo, para Willy, foi como escutar uma criança ensinando ao pai, como deveria atravessar a rua.
Aquilo feriu o orgulho de Willy.
– E invadiu a fábrica. — Retrucou Willy. — Poderia nos dizer o motivo? — Dirigiu-se à mulher.
Lane poderia, sim, dizer o motivo. Poderia dizer que sonhava com o dia em que conheceria a fábrica, mas que perdeu a oportunidade nas duas vezes, nas duas raras vezes, em que ela surgiu. Que admirava Wonka e todos os seus feitos, que não abria mão de um doce Wonka e que havia decorado cada fórmula dos cinco produtos mais vendidos e que tinha reforçado a segurança do sistema ligado à internet.
Lane não só poderia, como deveria ter feito uso de tais palavras. Mas, na verdade, ela terminou de beber o líquido da garrafa que tinha ganho e soltou:
– Porque seu sistema me permitiu.
Ela esperou que Willy ladrasse em sua direção e lhe esbofeteasse até que Charlie conseguisse tirá-lo de cima dela ou que ela sucumbisse aos braços da morte. Lane estava tão confiante que isto aconteceria, que mordeu a parte interna da boca tentando se preparar para a surra que levaria.
Não aconteceu. Willy deu uma caminhada pela sala, parou em frente a Lane e curvou o corpo até ficar com os olhos na altura dela.
– O que você fez, para que a fábrica lhe deixasse entrar?
A mulata soltou a pele que mordia e ergueu um dos braços para coçar o pescoço. Era como um tique nervoso, aquele ato. Coçar o pescoço enquanto controlava o acanhamento de ter que se orgulhar do trabalho bem feito. E Lane se orgulhava de ser tão boa em invadir e proteger sistemas.
– O protegi. — Sussurrou com o rosto desviando para as correntes que chacoalhavam.
Charlie olhou para o tutor no mesmo instante em que ele o olhava. Qual a probabilidade? Questionou, o Bucket, com o olhar. Nenhuma, respondeu Willy.
– Protegeu? — A voz de Wonka demonstrou a descrença. — Eu já o tinha feito quando Tevee decidiu invadir meus sistemas. Dou minha cara a tapas se alguém o invadir.
Lane voltou a encarar os donos da fábrica e os olhos dela queimavam. Havia, também, um sorriso magistral.
– Daria? — Ela ousou utilizar de malícia.
A Kenneth odiava ter que contar seus feitos e usar de orgulho para falar com alguém. A mulher não suportava se elevar ou ser elogiada pelo trabalho exemplar, mas adorava a forma como conseguia se convencer de que cada trabalho era mais do que bem feito. Mas, em hipótese alguma, você deve duvidar de que ela fez algo.
– Está querendo me bater? — O timbre de Willy ficou mais agudo, provando que ele adotou o lado infantil de sua personalidade.
– Você disse que daria o rosto à tapas. — Lane adicionou.
– Prove! — O desafio de Wonka saiu como um sussurro.
E Charlie Bucket apenas observava o ping-pongue que a invasora e o chocolateiro travavam. Ele tentou, diversas vezes, apartar aquele momento, contudo ninguém parecia lhe dar ouvidos. Cansado de tentar e tentar e tentar, o herdeiro sentou sobre o chão de pedra e aguardou o desfecho.
– Há duas câmeras de segurança nesta sala — Lane começou. Ela tinha decorado cada câmera que funcionava e cada ponto que ela capturava. — Uma na porta, e uma no canto superior esquerdo.
– Muito fácil — Wonka retrucou. — Você teve muito tempo para conhecer a cela.
– Há dezoito câmeras no jardim — Charlie olhou para o tutor. Não fazia ideia de que o chocolateiro tinha tantas câmeras ali. — Quatro ficam desligadas, mas ligam automaticamente se duas ou mais câmeras pararem de funcionar. E, veja, elas possuem uma bateria para funcionarem quando a fábrica ficar sem energia.
"Oh, e a fábrica tem quinze geradores diferentes e paga um valor exorbitante de conta de energia, água e gás. Falando em contas, o senhor quase deixou três delas vencerem há uns dez ou doze anos, não é?"
A pele branca do rosto de Willy Wonka, estava vermelha. Vermelha como tivessem jogado tinta guache e esquecessem de limpar. A boca estava entreaberta, os olhos banhados pela inconformidade do que escutava e pela descrença de que, a mulher realmente tinha invadido seus sistemas.
– Posso continuar? — Lane questionou rindo e depois de uma pausa. — As alas dos dormitórios estão com as câmeras desativadas. E há uma sala sem nenhuma câmera, mas não tem como passar por ela ou entrar nela sem passar por uma.
Houve o silêncio mais mórbido que Charlie Bucket, um dia, escutou. A vermelhidão de Willy sumiu aos poucos e o chocolateiro não soltou um ruído por longos minutos. Até a respiração de Wonka estava quieta. Tão quieta que parecia morta.
Charlie se levantou, preocupado demais com o tutor e segurando o ombro do mesmo com muita delicadeza.
– Willy? — Chamou.
A voz rouca de Charlie retirou o chocolateiro da prisão mental em que estava. Foi como acordar de um pesadelo. Um pesadelo que, na verdade, era a lembrança de algo que realmente aconteceu.
– Como você conseguiu? — Willy questionou. — Onde achou a falha? Onde está o erro!
– Willy... — Charlie sussurrou.
O tutor caminhava de um lado para o outro, enfiando uma das mãos pelo cabelo achocolatado e lançando um cobertor de perguntas sobre a mulher capturada. A cartola caiu contra o chão de pedra, a bengala esmurrava o chão e a prisioneira observava a cena como se fosse a coisa mais incrível que um dia poderia ter visto.
Charlie pegou a cartola do tutor e limpou a poeira que grudou nela. Wonka entrou em um transe que o mais novo já conhecia e que poderia durar horas. Não havia muito o que fazer, a fábrica fora invadida e isto aconteceu sob os dedos do próprio dono.
– Está com fome? — O herdeiro questionou à capturada. — Vou buscar algo para você comer, tudo bem?
Lane tirou os olhos de Willy e, ainda com fascínio, olhou para Charlie. Ela balançou a cabeça, confirmando a necessidade da comida e confirmando que tinha escutado o mais novo.
E então, voltou o olhar para o homem que tanto admirava. O fraque balançava sobre o rastro de Wonka, o perfume do chocolateiro vazada das roupas e impregnava nos pulmões femininos, o sapatos cantarolando contra a pedra que forrava o ambiente e a maturidade, que Wonka raramente demonstrava ter, escalando o rosto pálido.
Subitamente, quando Charlie estava pronto para trespassar a porta, Willy parou de se movimentar.
– Não se mexa, Charlie. — Uma pausa. — Este assunto é sério demais, para perdermos tempo com subterfúgios.
– Subterfúgios? — A indignação saiu na voz do mais novo. — Ela é um ser humano, precisa comer.
– Uma invasora. Deveria estar presa.
– Assassinato é crime. Ela precisa comer.
– Depois que me responder como conseguiu invadir meus sistemas.
– Quer que eu fale? — Charlie usou da ironia. — Ela entende de computadores, achou uma falha e invadiu os sistemas. Respondido? Posso ir buscar a comida ou seu objetivo é realmente matá-la?
Wonka girou nos calcanhares.
– Não quero matá-la, mas a comida é uma ótima moeda de troca!
– Foi mais fácil do que eu imaginava.
A voz de Lane fora como um ímã e os olhos dos donos eram pequenos pedaços de ferro. Os dois a encararam, pedindo que continuasse a falar e explicasse onde estava a facilidade.
– De verdade – Ela continuou. — Eu comecei a trabalhar e, quando vi, a porta estava ali. Foi pelas câmeras.
– Pelas câmeras? — Charlie quis saber, não acreditando no que ela tinha falado.
– Pelas câmeras.
Era a confirmação que precisavam para entrar em estado de alerta.
– Minhas câmeras?!
Os olhos de Willy saltavam inconformados com o óbvio.
– Não pode ter sido. — Charlie retrucou. — Tevee teria descoberto.
Willy olhou para o pupilo e depois para a intrusa. Era realmente pelas câmeras, que ela tinha acessado o sistema da fábrica? Por um canal tão simples e óbvio quanto aquele?
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