A Fantástica Fábrica é invadida.
11 Capítulo 10
Notas iniciais
– Ficarei aqui fora – O senhor Bucket anunciou. — Caso ela saia por aqui.
Mas a biblioteca tinha duas ou três saídas secretas — Willy nunca conseguia lembrar quantas tinha colocado — e a mulher podia achar uma delas por um simples acaso. O chocolateiro puxou a porta pesada passando por ela e presenciando a fuga feminina. O corpo se escondendo por um dos corredores formados pelas estantes.
Charlie passou a sua frente, correndo na direção em que mulher corria e saltando os degraus que separavam as poltronas e mesas, das incontáveis estantes que Willy mantinha ali. O lugar era pequeno, mas tão carregado de livros, que qualquer um se perderia ali.
O chocolateiro aguardou, sabendo que não teria pique suficiente para uma perseguição prolongada. A idade lhe anunciava isto e as pernas já começavam a reclamar do longo dia que estavam tendo.
Wonka ficou ali, escutando os passos dela e de seu pupilo se fundindo em uma conversa nada amigável. Willy torcia por Charlie. Para que ele encontrasse a mulher e a segurasse. Para que ele acabasse com o pesadelo que Willy teria se a mulher escapasse daquela sala ou se encontrasse uma de suas receitas antigas e magníficas.
Torcia para que, caso o pupilo a perdesse, a fábrica seduzisse a mulher até um caminho sem saída. Um simples beco ou sala que despertasse a curiosidade da mulher e permitisse que os donos a achasse.
Uma estante tremeu, gritando de forma estrondosa, mas se mantendo em pé.
– Droga!
O criador da fábrica correu até o estrondoso som que escutou, pouco antes de Charlie gritar sua frustração. A estante ameaçava cair a qualquer momento. Se ela caísse – Willy aumentou a corrida – derrubaria todas as outras e poderia matar Charlie.
Willy Wonka poderia viver sem a fábrica.
Mas nunca sem Charlie.
E Willy nunca soube explicar o motivo de amar tanto o pequeno Bucket.
– Estrelinha! — Gritou ao entrar no corredor em que a confusão tinha acontecido.
Charlie estava caído. Jogado contra o chão, mergulhado entre livros caídos e abertos, e acompanhado de um banco de madeira que, provavelmente, tinha lhe derrubado.
– Desculpe Willy. — Charlie abaixou a cabeça. Cansado demais pela corrida e envergonhado pela derrota. — Ela foi pela esquerda.
Largando a bengala contra o chão e saltando sobre o pupilo, Willy Wonka correu. O coração batia desesperadamente, irrigando o corpo com o mais fino medo e apagando qualquer vestígio de velhice. Correu. Passando pelas estantes e se guiando pelo puro instinto.
Olhava de um lado para o outro. Seguia pelo caminho que suspeitava ter visto vestígios da mulher e se deparada com corredores sem fim. Perdia-se naquele mar de livros, sentindo que a fábrica ria de como ele parecia perdido.
Parou. Bruscamente, tentando se encontrar naquele mundo que lhe pertencia.
“Por favor! Por favor! Por favor!” Sua mente sussurrava implorando pelo fim daquela caça.
Fechou os olhos, puxando o máximo de ar que conseguia e prendendo-o nos pulmões. Silêncio. O mais puro silêncio jorrou pela sala deixando que a invasora se denunciasse. Um barulho abafado e baixo, tão rouco que nem mesmo ela deveria ter escutado.
Willy sorriu.
Voltou por alguns corredores, correndo com sofreguidão e encontrando Charlie guardando alguns livros caídos. Estava acabado. A mulher estava presa pela própria curiosidade e ingenuidade.
“O silêncio é o melhor amigo dos sábios.” Pensou Willy, lembrando das poucas coisas que seu pai realmente havia lhe ensinado. “É nele que se escuta o erro dos tolos”.
Ϣ.Ϣ.
Charlie seguiu o tutor com a ansiedade lhe torturando. O dono da fábrica havia recolhido a bengala de pirulito e caminhava com orgulho, até uma fileira de estantes que se escondiam no fundo da sala. A bengala batia contra o chão, aumentando a intensidade de Wonka e o tornando um vilão. Daqueles que lhe amedrontam quando aparecem prontos para destruir os mocinhos e lhe embrulham o estômago quando mostram o quão cruéis podem ser.
O coração de Charlie titubeou uma batida. Não queria ver Willy como um vilão.
O tutor virou a esquerda na penúltima fileira. Com a mão livre, segurou em uma das bordas da prateleira e a puxou com força. O carpete vermelho abafou o gemido do objeto, deixando-o rouco e quase inescrutável. Apenas parte da estante tinha se mexido e revelado uma pequena sala de pedra escondida por detrás da madeira pesada.
Charlie nunca soube daquela sala.
Já havia caminhado por aquela biblioteca, mas nunca percebido o pequeno vão na lateral de uma das estantes — o mesmo espaço que Willy usou para abrir a passagem daquele segredo. O passado de Willy Wonka, estava ali. Naquela sala minúscula, quando comparada com as outras salas da fábrica.
Os quadros pendurados, mostravam reportagens sobre a primeira lojinha de Willy. Os primeiros prêmios, medalhas e as fotos que mais o inspirava. Havia também, uma cristaleira com diversas pastas – Charlie não sabia, mas naquelas pastas haviam todas as fotos e imagens que Willy usou como inspiração para chegar onde chegou.
E dentro de uma delas, escondida de forma carinhosa, a única foto da mãe de Willy Wonka. A mulher que o chocolateiro quase não tinha lembranças por culpa da pouca convivência.
Wonka avançou. Dois passos rápidos que o levaram até a mulher. A bengala fora erguida tão rapidamente, que Charlie conseguiu sentir a brisa que ela ergueu ao ser movimentada. Erguida tão brutalmente que o ar se assustou e deixou que seu “oh” escapasse ao ser cortado com fúria.
Um golpe certeiro.
O objeto de madeira atingiu a mulher no pescoço, passando raspando pelo ombro dela.
Ela ainda teve tempo de se assustar, soltar o quadro que segurava e quase enxergá-los pela visão periférica. Assustou-se pelo barulho dos passos que ecoaram no chão de pedra. Assustou-se ao perceber, tarde demais, que tinham lhe encontrado.
Por ter sido pega desprevenida. Mergulhada naquele quadro que segurava e por ter escutado, de última hora, o barulho da bengala que se aproximava.
O quadro despencou, estilhaçando o vidro que cortaria o corpo da invasora. Ela despencou. Tão rápida quanto desmaiara, deixando apenas um gemido como últimas palavras.
– Ops. — Willy sussurrou. — Vamos ter que recolher o corpo dela.
Corpo. Charlie escutou mais uma vez, por culpa do eco que havia em sua mente.
Havia diversão nas palavras do chocolateiro. Uma diversão genuína que vinha mesclada com o alívio de, finalmente, ter detido a mulher que invadiu seu mundo. Girou no próprio eixo, pronto para enxergar o sorriso triunfante de seu herdeiro.
Charlie olhava para o papel que escorregou da moldura quebrada. O papel que continha a primeira reportagem daquela fábrica. Da maior e mais fantástica fábrica que existia em todo o mundo.
O Bucket abaixou-se e pegou o papel amarelado. Olhou para aquilo que tinha eternizado a genialidade de seu tutor e depois para o corpo caído.
O gênio e o louco.
O celerado e o probo.
Sentiu medo e largou o papel, girando para a porta e passando por ela sem coragem alguma de ficar perto de Willy Wonka. Do cara que acabara de conhecer e que, naquele momento, poderia ter perdido qualquer vestígio de sanidade.
Caminhou apressado para a saída daquela sala, tentando apagar a imagem do corpo que sangrava sobre os vidros quebrados e tentando, desesperadamente, acordar daquele pesadelo.
– Filho?
Ignorou o pai. Passando a correr por qualquer direção e depois de algum tempo, finalmente, parando a corrida. O estômago implorando para se livrar daquele pavor e jogando todos os alimentos que estavam contidos nele.
Charlie vomitou. Parado em um corredor que não conseguia identificar e sem controlar os espasmos de manter-se naquele ato nojento.
Ele expeliu, naquele momento, a frustração de ver que seu herói também era um vilão.
Willy Wonka era o homem de seus sonhos. Aquele que sempre lhe incentivava a seguir lutando e ignorando as pessoas que lhe diziam que era impossível fazer algo. Charlie cresceu assim, idealizando um chocolateiro quase santo e inocentemente sádico.
Até mesmo quando teve que recusar a fábrica, porque Willy não entendia a importância da família, continuou acreditando que o chocolateiro era sua maior referência para a vida. Ainda ali, quando qualquer um desistiria, idolatrou Wonka.
E agora, era um assassino.
Um cara que tinha usado todas as forças para assassinar uma invasora e sem ter dado tempo dela se defender. Ela não teria como fugir daquela pequena sala, mas o maluco preferiu agir sem pensar.
Um golpe da maldita bengala e a mulher caiu desacordada.
A lembrança do cheiro doce de amendoim e do sangue, que escorreu quando o corpo da mulher caiu sobre o chão, o fez vomitar um pouco mais.
“Acorde Charlie!” a mente implorava, tentando acreditar que tudo não passava de um sonho. “Ou ache um erro em seus olhos!”
Charlie se afastou da poça que tinha criado e permitiu-se cair sentado sobre o chão. As nádegas reclamaram o choque, mas não conseguiu dar atenção para aquela dor. Não quando sentia algo pior correndo pelos pulsos, pelas veias.
Toc.
Fechou os olhos sentindo as lágrimas quentes escorrendo pelas bochechas. O barulho dos sapatos de Willy eram únicos para ele, independente do piso em que ecoavam.
Toc. Toc. Toc.
Mas não queria enfrentar a realidade naquele momento. Não ali.
Escutou um rosnado de nojo.
Willy aguardava que ele se levantasse e pudessem conversar.
Charlie Bucket sabia interpretar o corpo de Willy Wonka, mesmo que estivesse de olhos fechados.
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