A Fantástica Fábrica é invadida.
4 Capítulo 3
Notas iniciais
Willy sentou-se a mesa e observou o pupilo. Tanto Charlie quanto o sr. Bucket, tinham começado a jantar sem ele. Era algo comum, uma vez que a mente dele, de Willy, podia obrigá-lo a trabalhar até mais tarde. Mesmo ciente de sua idade avançada, Willy recuperou parte de sua criatividade enquanto bolava o diário com folhas comestíveis. Era como se a mente quisesse mostrar o que ainda podia ser feito e onde as coisas poderiam ser melhoradas.
Graças a isto, a rotina da fábrica estava, quase, normalizada. O chocolateiro tinha decidido que Charlie já tinha capacidade para cuidar de algumas coisas administrativas e ao passar estas coisas ao pupilo, Willy se viu com muito tempo livre.
Só que aquele jantar, não estava normal.
Os Buckets tinham saudado-o como sempre, mas não mantiveram a conversa que sempre mantinham. Nem Charlie e nem seu pai estavam conversando sobre nada, o que era mais do raro.
Willy arriscou:
– O que decidiu? — Perguntou ao pupilo.
– Sem negócios...
Mas o pai de Charlie parou a frase ao ver Charlie arrastar o prato para o lado e ficar mais sério do que já estava. Eles não discutiriam os negócios, eles lavariam a roupa que estava suja. O senhor Bucket levantou-se, puxando o prato consigo e saindo da mesa de jantar antes que fosse atingido pela guerra que poderia começar em poucos segundos.
– Não liguei.
– Ótimo! — Exclamou Willy, verdadeiramente, contente.
Ele não percebeu o quanto a situação incomodava Charlie. Por mais que tivesse percebido a possibilidade de fazer uma tempestade em copo d'água, alguma coisa ainda o perturbava. Ainda haviam vestígios do medo.
– Mas Willy, quero saber o motivo de você achar que não preciso me importar.
Willy Wonka recolocou a cartola. O adorno era uma fonte de segurança para ele e por este motivo não conseguia tratar de coisa séria sem ela. Na verdade, ele até conseguia, só que sabia que a amada cartola lhe dava mais seriedade.
– Charlie. — Willy movimentou os dedos de uma mão, fazendo as luvas rangerem. — Já invadiram minha fábrica, diversas vezes. Meus sistemas são bombardeados milhares de vezes por dia. E durante anos, só conheci uma pessoa que pensa em chocolate como eu.
Charlie entendeu a indireta, mas queria saber o que dava tanta confiança ao chocolateiro. O que Willy tinha e ele não, para ignorar o perigo que era a imprensa. Não era só por Charlie ter morado fora da fábrica, pois Willy também tinha vivido fora daquele mundo e por quase o mesmo tempo que o herdeiro, talvez, até mais.
Então o que dava tanta confiança ao Wonka?
Willy pegou um pedaço de pão e o mordeu. Ele deu uma pausa no texto para matar a fome e deixar Charlie digerir suas palavras. Não voltaria a falar para o pupilo que nunca o trocaria, isto era trabalho dele, de Charlie, agora. A confiança é algo que se vai adquirindo aos poucos, quando passamos a perceber que fazemos algo bom e bem-feito. Quando passamos a perceber que qualquer esforço já é valido para ser algo importante na sociedade.
E a sociedade de Willy e de Charlie, era aquela fábrica. Os dois, fundador e herdeiro, eram o coração da fábrica.
– Não é deixar de se preocupar. — Willy falou, depois de engolir o alimento. — Nem ignorar. É apenas fazer de tudo, uma grande peça de comédia.
– Isto é loucura. — Charlie sussurrou.
– Não é. Eles não podem fazer nada. Somos bons no que fazemos e o máximo que eles podem fazer é criar teorias e histórias. Só há duas pessoas que podem destruir meu mundo. E ambas o amam demais para isto.
Ϣ.Ϣ.
Willy contorceu o rosto e Charlie desatou a rir. A última pessoa que encontrou o bilhete dourado se chamava Violet Beauregarde.
– Quais as chances? — Willy perguntou.
Na televisão, a garota sorria e mascava um chiclete. Os jornalistas enchiam os ouvidos dela de perguntas, sem dar tempo para ela responder.
– Como não pensamos nisto? — Charlie perguntou em meio ao riso.
– Não quero a amora na minha fábrica. — Willy Wonka ainda não conseguia aceitar a ideia.
– Vamos Willy, ela me deu uma força e tanto.
Willy encarou o pupilo, ainda com o rosto contorcido pela indignação que sentia. Ele parecia gritar, corporalmente, “nem ouse me convencer a deixá-la entrar aqui!”, mas Charlie realmente estava preso ao riso.
Na televisão, Violet ignorou as perguntas e declarou em alto e bom som:
–Não vou à fábrica, doarei meu bilhete para uma conhecida. Podem me chamar de sortuda, mas sabem que eu gosto de bater recordes e é claro que quero ser conhecida como a garota que mais teve chances de ir visitar a fábrica.
– Que garotinha. — Willy rosnou.
Um jornalista questionou se ela não estava se esquecendo de Charlie, que morava na fábrica.
– Eu disse garota e visitar. É muito fácil assim. Saibam, então, que bati outro recorde: como a garota que mais pulou corda nesta casa.
– A senhorita não tem medo de dar este convite e perder a oportunidade de ganhar a fábrica? E nem de que algo horrível aconteça com a criança e depois lhe culpem?
O riso de Charlie parou. Willy permitiu-se sorrir para a televisão e aguardou a resposta que já sabia qual seria:
– Vocês estão loucos? Não há nenhuma palavra sobre ganhar algo além de chocolate. E convenhamos, Charlie não permitiria que algo acontecesse. Ele e o Senhor Wonka forma a melhor dupla que poderiam conhecer. A loucura e a sanidade andando juntas.
Willy encarou o pupilo, enquanto desligava a televisão.
– Eu te disse. Eles só acham.
Charlie devolveu o sorriso.
– E ela te chamou de louco em rede internacional.
O chocolateiro franziu o cenho. Era verdade.
Ϣ.Ϣ.
Charlie estava caminhando calmamente pela fábrica. A área administrativa estava em ordem, Willy tinha adiantado os lançamentos do próximo mês e eles tinham duas semanas para decidir a melhor rota para a visita. Já tinham deixado o caminho meio andado, mas Willy Wonka era desconfiado demais para não fazer uma análise minuciosa e rever suas escolhas.
O Bucket virou o envelope que carregava e sorriu. Era raro receber cartas, principalmente por não ter muitos amigos fora da fábrica. Na realidade, ele sempre achou que não tinha amigos até hoje, quando Dóris lhe entregou uma carta. Ele estava ansioso para ler o conteúdo, mas a carta teria que esperar. Veruca Salt teria que esperar.
Willy Wonka girou nos calcanhares e escutou a porta se abrir. Estava em uma sala cumprida e quase vazia. Quase, apenas porque aquela era a sala dos mapas, onde toda a planta da fábrica estava exposta. Apenas ele tinha a chave daquela ala e era a primeira vez que permitiria alguém entrar ali. Nem mesmo os seus amados Oompa Loompas tinham a permissão. Era Willy quem a limpava e esta era a única forma dele conseguir dormir a noite, sem a sensação de que alguém conhecia seu mundo mais do que ele.
Charlie entrou, calmo, curioso e guardando um envelope no bolso da calça. O pupilo observou o ambiente, mas não comentou nada, aguardando que o tutor desse o ponto de partida.
– O que é isto? — Willy perguntou sem esconder sua curiosidade quanto a carta, mas ocultando seu nervosismo.
Seria possível que Charlie não se assustou com a imensidão da fábrica? Ou ele não tinha percebido que aquele era o mapa dela?
– Ah, Veruca me mandou uma carta.
– E o que ela disse?
Willy era, realmente, uma criança. Pensou Charlie.
– Está lacrada. Não sei.
As luvas de Willy rangeram quando ele apertou o polegar. “Calma”, pedia a mente, “vamos, lá Willy, você está esquecendo algo.
– Certo. Vamos deixar isto para depois. — Willy abanou uma mão. — Estudei os ganhadores, menos a criança que receberá o bilhete da senhorita Beauregarde, por motivos óbvios.
– Você sempre faz isto?
– Claro Charlie. E se você não tivesse ganhado o ingresso tão em cima da hora, eu teria achado uma forma de te testar. — Willy cruzou um dos braços sobre o peito e apoiou o outro sobre ele. A mão parou em frente aos lábios vermelhos, auxiliando-o no pensamento. — Se bem que, se você fosse um mal caráter, teria vendido o bilhete ou roubado algo.
O herdeiro sentiu as bochechas esquentarem. Ele tinha pensado em vender o bilhete, mas seu avô George o convenceu do contrário. Como era grato ao velhinho rabugento, que morreu feliz e alegre anos depois.
A saudade o fez sorrir e Willy Wonka apreciou a beleza do pupilo. Não só a beleza física, mas aquela inocência que só parecia ser capaz de se manter viva, dentro de Charlie. Era fácil fazê-lo mergulhar no passado, na infância. E mais fácil ainda, fazê-lo ter uma ideia incrível.
– Bem. — Willy chamou a atenção do pupilo. — Começaremos pelo jardim, claro.
Charlie viu Willy apontar, com a bengala, para a direita. Ele não olhava para o ponto, mas apontava com precisão para o jardim bem desenhado. O herdeiro se aproximou do ponto, sabendo que Willy o acompanhava com os olhos e o sorriso orgulhos que sempre dava, quando sabia que estava sendo incrível.
– Parece uma réplica perfeita. — Charlie sussurrou.
– Oi? — Willy puxou a bengala e aproximou o rosto, ainda ficando passos atrás de Charlie. — Ah é. Eu sou bom naquilo que faço. E eu fiz esta fábrica.
Charlie olhou para Willy com o maior sorriso que conseguiu dar.
– E é claro que decorou cada pedaço.
– Como sei o sabor de cada doce que inventei. — Willy piscou ao pupilo.
– E depois?
– Elizabeth gosta de bichinhos, por isto, nada de esquilos, algodão-doce e cremes. Alice é fascinada por rios e lagos, é nadadora, então...
– Quanto tempo você precisou para decorar tudo isto? — Charlie não conseguiu esconder sua fascinação pela mente do tutor.
Willy endireitou as costas e coçou a cabeça. Dois dias? Três?
– Não me faça perguntas difíceis. Estou estudando-os desde que soube quem viria para cá. — Willy bateu a bengala no ponto em que a sala de invenções estava desenhada. — Tenho dúvidas quanto a isto.
Charlie olhou para o ponto e torceu os lábios. Estavam em uma das paredes, mas em todas tinham desenhos que, por dedução, eram pontos da fábrica. Não conseguiu ver tudo em tão pouco tempo e se perguntou, em algum momento, se Willy lhe mostraria cada canto daquele lugar.
– É importante. Mostra onde tudo nasce. — Charlie correu o dedo por volta do ambiente. — Mas estou com medo deste e deste ponto. — Ele colocou uma mão em cada ponto, perdendo alguns segundos para achar os lugares desejados.
Era muito parecido com andar pela fábrica, mas um simples desenho detalhado na parede, não era a mesma coisa e as vezes o senso de direção de Charlie falhava – e feio.
– A sala de televisão e do refrigerante?
Willy não gostou. Ele amava aqueles pontos.
– Tivemos uma boa experiência com Tevee? — Willy sabia que era uma pergunta retórica.
Ele teve que concordar com Charlie, a sala de TV estava fora de cogitação – mesmo que a experiência de transformar uma criança irritante em um ratinho, fosse gratificante.
– E a de refri? O que ela tem? — O chocolateiro semicerrou os olhos, enquanto observava o ponto.
– Willy, a fórmula tem anos e anos de teste e nunca dá certo. Um Oompa Loompa sempre voa descontrolado. Se alguém beber sem a nossa supervisão...
– Tá! Tá! — Willy resmungou. — Voltando à sala de invenções.
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