A Fantástica Fábrica é invadida.
21 Capítulo 20
Notas iniciais
Willy sentou-se à mesa assim como Charlie. O herdeiro ainda estava desnorteado e com uma quantidade tão grande de perguntas para fazer, que jurou beirar a loucura. O senhor Bucket, por outro lado, saudou o filho com uma tranquilidade invejável e logo voltou sua atenção para o jornal daquela manhã.
– Tantas coisas para fazer. — Gemeu Willy.
O que, de fato, era verdade. Ele tinha que mostrar algumas partes da fábrica para Lane, depois dizer o que queria dela e, só então, se dedicar aos estragos que seu estresse causou.
Pensando nisto, ele ergueu os olhos para o pupilo e suspirou. Ainda teria que ter uma longa conversa com Charlie e sabia que o assunto seria demasiadamente delicado.
– Willy, o que aconteceu? — O herdeiro questionou quando viu que Wonka o olhava.
– Muitas coisas, estrelinha. — Willy puxou uma caneca e encheu-a de chocolate quente. — Vejamos… — Ele espiou a mesa para se decidir o que comeria. — Ah! — Pegou uma torrada. — A senhorita Salt passou na fábrica e me estapeou. Então eu percebi que estava condenando as pessoas erradas.
Willy mordeu a torrada e olhou o pupilo. Ele esperava que Charlie estivesse boquiaberto, mas o encontrou estarrecido. O rosto estava neutro, mas os olhos estavam trincados sobre o chocolateiro. Wonka quase sentiu medo. Medo de ter destruído a mente de Charlie.
– Veruca veio aqui? — Sussurrou o herdeiro.
– Veio. E conseguiu me fazer entender que a senhorita Kenneth não fez nada de ruim para a fábrica. — Willy sorriu.
Ele nunca tinha problemas para assumir que errou. Ficava envergonhado, obviamente, mas nunca negava seus erros, pois eles lhe geravam evoluções. Isto, este dom de não negar suas falhas, fazia com que Charlie o amasse e admirasse. Claro que Willy não escancarava seus erros para qualquer um. Se fosse um desconhecido, Willy só diria que errou quando tivesse criado algo mais chamativo do que o próprio erro.
– Onde está Veruca? — O mais novo questionou. — Quero agradecer.
– Ela se foi. — Wonka sussurrou. — Entrou. Disse que eu estava errado. Partiu.
– Está brincando comigo? — Charlie estava irritado.
– Não. — Wonka não se abalou pela ira do mais novo. — Ligue para ela e questione. Ou, se preferir, mande uma carta.
– Isto não faz sentido! — Berrou Charlie.
– Não na mesa, filho. — O senhor Bucket repreendeu. — A mesa é um lugar sagrado e não devemos trazer os problemas para ela. Você e Willy discutem isto em outro canto.
Como se os dois maiores chocolateiros do mundo não passassem de duas pequenas crianças, o senhor Bucket os repreendeu. E, para o espanto de Lane, os dois se desculparam e tomaram o café da manhã em volta de assuntos banais e amenos.
Se havia um adulto naquela fábrica, pensou a invasora, era o senhor Bucket.
Ϣ.Ϣ.
Charlie e Willy ficaram na naquela cabana por horas. Depois que os Oompa Loompas retiraram a mesa, os dois discutiram e berraram por horas a fio, como se estravassem todas as coisas frustrantes que tinham de guardado dentro de suas cacholas.
Sabiamente, e já prevendo que aquilo aconteceria, o senhor Bucket resolveu mostrar a fábrica para Lane. Paternalmente ele mostrou do jardim até as alas de fabricação e administração. Mostrou a sala de criações, mas deixou claro que só Charlie e Willy podiam dar permissão para entrarem ali.
– Claro que você não precisa contar que entramos aqui. — Piscou o mais velho morador daquela fábrica. — Segredo nosso, sim?
Então seguiram para uma e outra sala. Algumas bem intimidadoras, outras engraçadas. Tinha umas, que além de ter uma porta sem janela, estavam trancadas. Outras, nem o senhor Bucket sabia como chegar.
– Acho que é aqui que você ficará. — O homem anunciou ao entrar em uma sala espaçosa e fria.
Haviam tantos computadores, que Lane sentiu o coração disparar. Era uma sala com diversos Oompa Loompas que usavam óculos e liam jornais. Outros digitavam coisas como se fossem fazer aquilo por toda a eternidade.
– É incrível. — Sussurrou Lane.
– Eu penso isto todas as vezes que acordo. — O senhor Bucket revelou. — É uma fábrica incrível.
A garota inspirou e, de olhos fechados, soltou:
– Acho que está mais para fantástica do que incrível.
Ϣ.Ϣ.
Dóris caminhava ao lado de Charlie. O herdeiro estava com o rosto cansado e cheio de problemas para resolver. Lane estava conhecendo os sistemas da fábrica, pois ficaria responsável por garantir que nada falhasse e que nenhuma segurança fosse vencida.
E quando Wonka disse, após o café da manhã, que ela cuidaria disso, também disse que Charlie cuidaria da administração do tempo da fábrica. Tudo teria que correr conforme ele planejasse e no tempo que ele planejasse.
A conversa, obviamente, fora fervorosa, com direito a Charlie rosnar que o chocolateiro estava abandonando a fábrica e o mesmo retrucar:
– Eu já disse que não vou abandonar a fábrica! — Berrou Willy. E depois, expirou furiosamente. — Vamos Charlie, você está uma pilha!
Estava mesmo! O herdeiro quis berrar. O que diabos Wonka esperava? Que depois de saber que a fábrica tinha sido invadida, saber que Wonka era capaz de matar alguém a base da porrada e que Veruca tinha ido até a fábrica, alguém ficaria com a mente sã? Isto era impossível!
Mas descontar em Wonka, agora, era demais.
– Desculpa Willy. — Gemeu o herdeiro. — Tem tanta coisa na minha cabeça, que eu sinto que vou enlouquecer.
– Somos dois, estrelinha. — Wonka sorriu. — Mas preciso de você raciocinando direito.
O pupilo caminhou até uma janelinha e espiou os arredores da cabana. Se sua mãe ainda estivesse viva, ela lhe diria para ficar calmo. “Tudo já tinha se resolvido, não é?”
– Por que agora? — O herdeiro sussurrou.
– Porque estou ficando velho, assim como você. — Wonka respondeu. Lá de cima, do lugar onde Charlie já chamou de quarto, ele se sentia protegido. Sentia que o mundo todo era seu e que, mais uma vez, era uma criança ambiciosa e sonhadora.
Por sorte, pensava Charlie, Willy tinha uma péssima memória para coisas que não eram receitas ou cantos da fábrica – apesar de o mesmo viver esquecendo da existência de algumas dezenas de salas – e por isto tinha deixado tudo detalhadamente escrito.
Havia um livro grosso e velho que dizia o que fazia cada máquina e quanto tempo levava para ela concluir o trabalho. Havia outro dizendo quanto tempo uma receita demorava para ficar pronta. Quanto tempo demoraria para uma barra Wonka sair de uma máquina e ser levada para outra e assim por diante. Era um mundo minuciosamente descrito.
– Dóris, deixe estes papéis na sala de criação, por favor. — O herdeiro pediu. — Merecemos uma boa noite de sono. Estamos quebrados.
A Oompa Loompa concordou e seguiu seu caminho. Charlie, em contra partida, precisava devolver alguns livros para a biblioteca principal da fábrica e ainda queria ver Willy. Somente ver. Bater um papo sem nexo e depois assistir alguma coisa. Queria, na verdade, ter um tempo de paz com o tutor.
O herdeiro caminhou um pouco mais e sentiu o corpo se chocando contra o nada. Como presente, o corpo ricocheteou para trás e um dos livros bateu contra o rosto claro. O hematoma surgiu em seguida.
– Outch. — Gemeu.
Ele piscou atordoado por um ou dois segundos e sorriu. Fazia um bom tempo que ele não usava o elevador de vidro e agora viria a calhar. Entrou no veículo e apertou o botão da biblioteca.
Ϣ.Ϣ.
Willy sempre foi um cara orgulhoso de seu trabalho e, todas as vezes que se sentia inseguro, ele caminhava até a biblioteca, abria a portinhola secreta e observava a saleta que continha suas memórias mais importantes. Ai ele lembrava que tinha feito um ótimo trabalho. Que tinha vencido seus maiores inimigos e que poderia vencer qualquer desafio que a vida lhe colocasse.
Foi com este orgulho, que ele escutou a porta da biblioteca se abrir. Os passos rápidos que só Charlie sabia dar denunciaram o caminho que o herdeiro fazia e Willy não se movimentou. Aquela saleta já não era mais segredo, mas o herdeiro ainda não tinha tido coragem de questionar sobre ela.
Charlie era assim, o tipo de pessoa que morre curiosa, mas não incomoda os outros com perguntas.
O herdeiro caminhou até uma prateleira e pelo canto do olho esquerdo, viu Willy. Bastou ver o chocolateiro, para que Charlie desejasse largar tudo e fosse lá conversar com o tutor. Ele sempre admirou Willy e sempre admiraria. E também carreava um desejo latente de ficar perto dele e conversar sobre qualquer coisa.
Willy estava encostado na soleira da porta. Charlie, quando se aproximou, não podia ver o sorriso orgulhoso que o tutor carregava em seus lábios e nem entender a paz que inundava o coração velho.
– Eu nunca desconfiei de algo assim. — Comentou o herdeiro.
– Ninguém desconfia. — Willy replicou. — Nunca desconfiam. E olha que nesta fábrica se tem de tudo!
Lá fora a noite tinha caído, mas a lua cheia clareava tudo. Em pouco tempo o verão chegaria e os dois chocolateiros estariam enfiados sob pilhas de problemas que acompanhavam o aumento das vendas e o lançamento do projeto de outono. Eles raramente paravam e ainda precisavam pensar no presente e no futuro.
– Willy... — Charlie não sabia o que queria perguntar.
Se queria saber sobre aquele pequeno mural de memórias ou se queria falar sobre Lane. Não sabia se puxava o assunto do que lançariam em breve, se dava boa noite e ia dormir. Não sabia. Simples assim.
– Quando eu tive minha lojinha, uma pequena lojinha de esquina, eu imaginava esta fábrica. — Revelou o chocolateiro. — As pessoas achavam que eu era louco e que estava pensando nos doces magníficos que eu criaria em poucos meses, mas eu já estava aqui, nesta fábrica.
Wonka desencostou-se da soleira da porta e olhou ao pupilo. Percebeu que a criança de dez anos estava um jovem de vinte e tantos – e um jovem bem alto. Charlie tinha se tornado um garoto bonito, extremamente magro, mas rechonchudo em ingenuidade de ousadia. Seria um homem magnífico.
Os olhos castanhos de Willy, chamaram Charlie para invadir as lembranças da fábrica.
Logo ao lado da porta, entrando para a esquerda, havia um quadro com uma pequena foto em preto e branco. Era a lojinha de Willy. A mesma lojinha em que o vovô Joe tinha trabalhado. Um pouco mais para o lado, estava uma lista com os doces que Willy já tinha criado e na parede ao lado, as embalagens.
– Eu pensei nestes doces logo depois de comer minha primeira bala. — Sussurrou o chocolateiro.
Wonka estava ereto, como se fosse um duque inglês. As mãos cruzadas nas costas e a bengala residindo no lado de fora da saleta. Os olhos dele corriam pelas fotos, pelas embalagens e pelos quadros com carinho, mas Charlie sentia como se a alma de Willy estivesse correndo o dedo por ali e guiando o herdeiro por cada um dos quadros.
– Eu usava um aparelho horrível e meu pai me proibia de adoçar qualquer coisa. — O chocolateiro parou para suspirar. — Este daqui – ele soltou enquanto olhava para a embalagem da primeira barra Wonka que fora criada dentro da fábrica. — este aqui foi o meu maior sonho. E eu sonhei que já tinha ele na ponta de meus dedos vinte e quatro horas depois de ter comido minha primeira bala.
– Este foi o primeiro chocolate Wonka que ganhei. — Charlie comentou com sua característica voz baixa. — Eu tinha sete anos.
Willy sentiu o coração batendo aquecido e acariciado. Ele sentia tanto amor e carinho por Charlie, que sentia-se puro. Saber que ele e Charlie se interligaram pela mesma barra Wonka, quase o fez chorar. O chocolateiro quis perguntar se Charlie sentiu a mesma coisa que ele tinha sentido ao comer aquela barra. Se tinha sentido que o mundo valia a pena e que nenhum dinheiro do mundo poderia valer mais do que aquele pequeno momento.
– A memória humana é falha e eu me sinto desesperado só de pensar que posso me esquecer de todo este trajeto. — O tutor sussurrou. O rosto sorrindo para Charlie. — Não sei como Lane achou isto aqui, mas sinto que foi fábrica quem guiou-a.
Os dois deram mais um ou dois passos e observaram as imagens da parede oposta a porta. Havia uma prateleira com alguns livros, pastas e cadernos. Ali, Willy abriu a boca umas quatro vezes, mas não conseguiu soltar uma sílaba que fosse.
Eram as fórmulas mais secretas que aquela fábrica tinha. Da primeira até a última. Qualquer uma que fosse importante, entrava ali.
– Quando eu preciso de uma fórmula secreta, é aqui que você vem buscar? — O pupilo questionou.
Uma pergunta retórica.
Na parede ao lado, estavam outras fotos. Fora de ordem cronológica, fora de regra, repletas de sentido. Havia um bilhete dourado, imagens das crianças que visitaram a fábrica pela primeira vez. Uma prateleira com uma pasta plastificada, onde estavam recortes de qualquer matéria de jornal onde tinha uma citação da fábrica. Havia um quadro com a notícia da fábrica sendo inaugurada, da fábrica sendo fechada.
– Oh. — Charlie soltou.
Os olhos do pupilo caíram sobre uma foto pequena da família Bucket. Ele lembrava de quando tinham tirado esta foto. Lembrava dos jornalistas entupindo a casinha, dos pais acanhados ali no canto e dos avôs sorrindo de dentro da cama. Mas não sabia que Willy a tinha.
– Pedi para um dos jornalistas. — Revelou Wonka. — Foi logo depois que você recusou a fábrica. Eu achei que poderia entender o que você sentia por eles, mas só me deprimi.
Ao lado, uma foto da família sentada à mesa e Willy junto. O chocolateiro tinha um sorriso sádico, como se deixasse claro que assassinaria alguém.
– É a minha favorita. — Ele revelou. — De qualquer foto que exista.
Willy mordiscou a ponta da luva e arrancou a mão de dentro dela. Os dedos brancos levitaram até tocar no vidro que protegia a foto dele junto com os Buckets e acariciou o retrato.
– Também é a minha. — Charlie deixou escapar. — Foi quando nos tornamos da mesma família.
Wonka recolheu a mão e tocou o próprio rosto. Ele pousou o queixo entre o indicador e o polegar e ficou pensativo. Enquanto isto, Charlie admirava a mão do tutor. Ele não conseguia lembrar quantas vezes tinha visto a mão dele assim, completamente nua, mas sempre ficava fascinado pela delicadeza que ela irradiava. Era visivelmente macia, com as unhas impecavelmente aparadas e brilhantes.
– Isto faz parecer que nos casamos. — O chocolateiro murmurou.
Quando os olhos de Willy caíram sobre Charlie, eles captaram um ponto vermelho flutuante. A ingenuidade de Charlie era a culpada por fazer com que o herdeiro se avermelhasse tão facilmente. Era algo fofo e gracioso, que Wonka adorava ver.
– Não se preocupe, estrelinha. — Willy enfiou a mão dentro da luva e a ajeitou. — Em meu mundo, em nosso mundo, podemos ser e fazer o que bem desejarmos.
O herdeiro sentiu o rosto queimando com mais entusiasmo, mas também sentiu o orgulho reclamar. Não queria ficar a mercê de Willy e precisava revidar com força. A mente mais nova começou a borbulhar e quando Willy terminou de ajeitar a luva, Charlie soltou:
– Está me devendo uma noite de núpcias descente.
– O que? — Exclamou Wonka.
Era vez dele ficar vermelho e a mente não conseguiu entender a brincadeira.
Charlie girou no eixo e por cima do ombro soltou:
– Achei que você só estava velho e não surdo.
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