A Family Affair
17 Capítulo 17
⌘ Pepper ⌘
—Olá, tudo bem?— cumprimento a loira e me sento ao lado do meu namorado, como estávamos antes de me ausentar.
—A escritora.— ela observa num misto de surpresa e desdém —Ainda ela?
—O nome dela é Virginia.— Anthony informa —Sim, é ela.— ele reforça.
—E você quem é?— questiono.
—Ashley Benson, a ex.— ela se apresenta.
—Ex.— comento, minha boca amarga. Ao vê-la de longe achei que fosse uma fã qualquer —Agora entendi a pergunta sobre o presente. Brincos, né? Combinamos que ele nunca me dará joias, né, amor?
—Esperta.— Ashley observa —Então você pode sair desse relacionamento sem nada?
—Com dignidade, com certeza, agradeço a sua preocupação.— respondo.
—Ashley, você está sendo muito desagradável, não te convidei pra sentar, então, por favor?— com muita educação, ele pede que ela nos deixe.
—Boa noite, Tony. E boa sorte.— ela diz olhando pra mim, depois nos deixa.
—Então esse era o seu tipo?— o alfineto —Linda, novinha, mas zero amor próprio.
Se essa situação tivesse acontecido no começo do nosso namoro eu estaria completamente insegura, e surtada, mas hoje não mais.
—A gente pode ir embora?— ele parece desconfortável.
—Por causa da garota? Nem terminamos de comer.
—Se você quiser, pode ficar, mas pra mim já deu.— Anthony chama o garçom. Paga conta, deixamos o pub, entramos no primeiro táxi que apareceu, chegamos ao hotel.
—Você vai me dizer que bicho te mordeu?— questiono ao fechar a porta atrás de mim.
—Quando começamos a namorar você falava muito do meu tipo de mulher, da idade delas, do meu histórico, hoje isso não te incomoda mais?— ele pergunta.
—Ah, entendi, você queria que eu fizesse uma cena de ciúme no bar.— sento-me ao sofá para tirar os sapatos.
—Talvez.— ele responde —Você nunca vai brigar por mim?— ele questiona, não entendo onde Anthony quer chegar.
—Amor, esse é o seu ego falando…— prendo os cabelos num coque no alto da cabeça e cruzo as pernas.
—Não, Pepper, sou eu, em nome do meu amor próprio, porque eu te amo e sei que vacilei contigo, mas não vou me punir pelo resto da vida.
—Do que você tá falando?— pergunto.
—Sempre sou quem tem que entender, esperar, não forçar. Sei tudo sobre você, mas você não sabe nada sobre mim, nunca me perguntou como gosto do meu café. Eu queria ter assistido uma aula sua, você nunca foi me ver no estúdio, mesmo que eu tenha convidado várias vezes. Quantos dos meus filmes você viu?
—Sobre as aulas, você iria me desconcentrar e tirar toda a atenção dos alunos…
—E sobre o resto?— ele me interrompeu —Qual a justificativa pra você simplesmente não fazer questão?— ele senta ao sofá na extremidade oposta a mim.
—Amor, você foi fundamental pra que eu construísse essa confiança e agora quer que eu me comporte como se eu não estivesse confortável no nosso relacionamento? Você acha que eu não te amo?— pergunto.
—Acho que você me ama, mas eu não gosto da forma como você mostra que ama.— ele responde —Eu me ofereço inteiro e tenho que me contentar com a metade do que eu sei que você pode dar.
—Anthony, meu amor, você é expansivo, passional, mas eu não sou assim e isso não quer dizer que eu não te ame.— digo ao me aproximar —Eu sou mais introspectiva. No entanto, se algo me incomodar sempre vou falar. Se acha que não sei algo que é muito importante que eu saiba, quem precisa me dizer é você. Não fique fazendo as minhas vontades sempre, esperando que eu adivinhe.
—Eu não estava empenhado em fazer suas vontades.— ele se defende.
—Estava sim.— acuso —E isso tinha a ver com a culpa que você sentia ou sente por ter me “decepcionado”— faço aspas com as mãos. Talvez a nossa conversa esteja se tornando uma sessão de terapia de casal, mesmo assim continuo —Bastava você dizer “Odiei esse café com avelã, prefiro puro” ou falar “Não me importa se você gosta de Amsterdam, odeio tulipas, meus joelhos doem quando ando de bicicleta, vamos direto pra Paris”. Dançar com aquele cara não foi nada demais, não fiz pra te causar ciúme. A atitude daquela garota não foi lutar por você, ela só queria afrontar. Concluir que ela não tem amor próprio, é mais pelo fato dela aceitar um par de brincos como uma consolação pelo pé na bunda. Aliás, nunca falamos sobre esse seu comportamento ridículo, quer é falar sobre isso agora?
—Não.— ele responde contrariado.
—Você vai começar a dizer o que te incomoda?—questiono, Anthony acena positivamente —Isso me faz questionar se você gosta mesmo do meu trabalho ou se só queria me agradar.
—Gosto mesmo da sua arte, embora você não goste da minha.— ele provoca.
—Te disse que nunca tinha visto seus filmes de super-heroi no dia em que te conheci na minha casa, Anthony.— digo, ele é obrigado a concordar —No entanto, fui na pré-estreia do último, mesmo assim, não fui?
—Foi.
—Gosto mais daquele do advogado com problemas com o pai, aquele é bom. Aquele outro do psiquiatra, da moça acusada de matar o marido, um thriller ótimo.— falo e continuo a discorrer sobre muitos dos seus filmes antes da franquia do Homem de Ferro —Porque você tá me olhando com essa cara? Acha que eu fui até aquele jantar sem pesquisar nada?— ele ri, e me ganha de maneira muito fácil, eu queria ser menos apaixonada, porém não posso perder a chance de alfinetar —Mas esse último que você filmou, e que eu não fui num dia de gravação sequer porque estava trabalhando do outro lado do país, também parece interessante. Além disso, serei obrigada a assistir, pois as minhas duas pessoas favoritas no mundo estão envolvidas nesse projeto.
—Estou perdido, porque você vai fazer isso pro resto das nossas vidas…
—Isso o quê?— chego ainda mais perto e monto em seu colo.
—”Amor, veja como eu estou certa”.— ele diz —Então virão os argumentos e odiarei ter que concordar.
—Vou te dizer uma coisa— envolvo os braços ao redor do seu pescoço —Je t'aime, mon amour, nous sommes ma saveur préférée.— sussurro em seu ouvido.
—Falar francês é golpe baixo, mas não entendi nós sermos o seu sabor favorito.— meu namorado diz, suas mãos fazendo carinho em meu quadril com movimentos circulares.
—Pepperony.— respondo, ele me encara —O nome do shipper que você queria, não sei se é bonito, mas é sonoro, minha pizza favorita.
—Pepper + Tony.— ele sorri ao concluir —Babe, você é genial, uma delícia, mas te chamar assim é uma exclusividade minha.
—Como se eu quisesse ser chamada assim por mais alguém.— digo, ele tenta me beijar, me esquivo —Ainda não terminamos, eu preciso falar antes de ser envolvida, porque esse seu jeito de me pegar, beijar, conduzir, me deixa sem reação…
—Você sempre parece saber o que está fazendo.— ele diz malicioso —Não é como se eu te forçasse.
—Não me sinto forçada a nada. É instintivo, porque é bom, é muito bom. Estar com você é como um dia ensolarado.— esclareço —Mas hoje nublou de uma forma que não gostei, e o diálogo é fundamental pra que não volte a acontecer, não quero que a gente converse apenas porque você está bravo e imaginando que eu não te amo tanto quanto você me ama. A vida me forçou a ser desapegada, Anthony, não vou deixar de ser assim de uma hora pra outra, mas o meu maior ato de amor é querer, e gostar de estar perto. Abrir mão de você pra uma garota qualquer não é uma opção, a não ser que você me mostre, me diga ou que eu sinta que não sou mais sua escolha.
—Babe, você é o meu amor, te esperei a vida toda. Não quero mais ninguém. Prometo ser pra sempre o seu dia ensolarado.— ele me diz.
—Je t'aime mon soleil.— declarei, porque ele é mesmo o meu sol e ama me ouvir em francês. Tony me puxou para um beijo delicioso e cheio de desejo, desta vez não lutei contra, nem tinha como fazê-lo. Deixei que as coisas acontecessem como deveriam e me entreguei ao nosso momento.
(...)
Viajar foi ótimo, mas dormir na nossa cama depois de semanas foi muito bom. É como dizem, não há lugar melhor que o nosso lar. No entanto, eu não imaginava que o meu sossego estava prestes a terminar.
Ao contrário do que Anthony previu, Zoey não apareceu, não ligou e nem mandou e-mail sugerindo um novo trabalho. Ela estava bem quieta nos últimos dias, era até estranho. Suas redes sociais também estavam “silenciosas”. Fazia alguns dias que havíamos voltado quando finalmente ela ligou dizendo que tinha algo pra contar, mas não faria por telefone, porém também não podia vir até nós.
—Acho que eles casaram escondidos.— Anthony provoca enquanto dirige em direção a minha antiga casa.
—Bem, a vida é dela, se foi o que aconteceu, só acho que está muito cedo.
—Cedo? Eles não namoram desde adolescentes?
—Com um hiato de quase 8 anos.— observo —Mas acho que é outra coisa, quando fizemos aquela chamada durante a viagem, comentei contigo que ela estava diferente, lembra?
—Lembro que você disse diferente de um jeito bom.— ele me diz —Mas essa voz não parece a de alguém que está pensando em algo positivo.— ele observa. Claro que a minha voz está vacilante, sou mãe dela e estou preocupada. Ao notar meu nervosismo, Anthony acelerou um pouco mais.
Eu podia ter entrado ao chegar, afinal de contas a casa ainda era minha, mas já não morava ali oficialmente há, pelo menos, seis meses. Kyle nos recebeu surpreso por já estarmos lá.
—Quantas leis de trânsito foram quebradas?— ele ironiza, não sorrio —Ei, Ginnie, tá tudo bem, ok? Entra, ela está de repouso, lá…
Quando ouvi a palavra repouso eu entrei como uma raio em direção ao quarto, mas ao chegar na escada, ouvi minha filha rir de mim.
—Mãe, estou aqui embaixo, onde você vai?
—Porra, Zoey, olha como eu estou tremendo?— eu pergunto ao caminhar em direção a sala —Que inferno…
—Mamãe, vem aqui.— ela diz, me sentei quando ela fez o gesto para que me aproximasse, ao menos a cara dela estava boa, na verdade embora esteja deitada ela parece ótima, linda como sempre. Abraço o mais forte que consigo —Preciso respirar, mãe.
—Estava com saudades e você me deixou tensa pra caramba, Zoey, que droga.— eu falo, nem sei porque estou quase chorando.
—Mamãe, a gente não fala mais palavrão e nem pragueja mais, ok?— já suspeito onde isso vai chegar, mas quero que ela me confirme —O bebê já ouve tudo e não quero que ele seja tão boca suja quanto nós.
—Bebê?— questiono ao sentir meus olhos se encherem de lágrimas. Ela assente.
—Primeiro achei que vocês tinham se casado escondidos, no meio do caminho pensei em um zilhão de coisas ruins, mas é um neto? Porra!
—Tony!
—Amor?!
—Desculpa, não falamos mais palavrão, certo.— ele diz ao se aproximar —Vou poder dizer que ele é meu neto, né?
—Claro.— Zoey afirma e os olhos dele, instantaneamente, se enchem d’água também.
—Como a minha filhotinha pode estar esperando um filho?— minha voz embarga.
—Babe, lembra como a gente era até termos aquela conversa? É daquela forma que se fazem os bebês.
—Não quero ouvir.— Zoey leva as mãos aos ouvidos, Kyle apenas ri.
—Que conversa?— meu genro questiona.
—A gente gosta muito do processo de fabricação de bebês, mas duvida da indústria farmacêutica e não confia um no outro pra lembrar da camisinha, então fiz vasectomia.— meu namorado boca aberta informa.
—Tony, por Deus do céu, eu não precisava saber disso.— Zoey diz.
—Pequena, vou ter que fazer vasectomia?— Kyle pergunta.
—Não, meu pequeno.— ela responde de uma forma muito amorosa —Confio na indústria farmacêutica.
—Acho tão engraçado vocês com essa coisa de pequenos. Zoey é baixinha, então, ok, faz sentido, mas Kyle é enorme.— Anthony comenta, o namorado de Zoey é mesmo grande, um tipo falso magro de mais de 1.90m —Aliás, tenho certeza que você está de repouso porque esse bebê é gigantesco pra você carregar.
—Tony fala como se o bebê estivesse prestes a nascer, medisse 50 cm e pesasse 5kg.— Kyle comenta —Minha mãe diz que eu nasci mirradinho.
—Qual é o motivo do repouso?— pergunto preocupada. Quando engravidei dela, não tive qualquer intercorrência, embora tivesse 17 anos.
—Há alguns dias estivemos em Venice, foi lindo incrível, tiramos um monte de fotos juntos, fomos ao parque, e então eu cismei de andar de patins. Caí de bunda, nada sério, levantei e voltamos a nos divertir. Viemos pra casa, estava vivendo uma vida de não grávida…
—Mas já estava e nem sabia, não é?— eu questiono.
—Sim.— ela responde —Tive uma cólica horrível, um sangramento estranho, dor na barriga, o pequeno insistiu pra ir ao médico e dentro de mim tinha um bebê.— ela diz —Agora estou de repouso porque minha placenta está meio descolada.
—Do jeito calmo que ela conta parece até que não ficamos sem fala, num surto silencioso, e depois choramos muito.— Kyle comenta.
—De quantas semanas você está, filha?
—6 semanas.— ela responde.
—O repouso não devia ser no quarto? Estão dormindo aqui embaixo?— Tony questiona curioso.
—Fiquei vários dias inteiros no quarto, mas cansei.— Zoey respondeu —Não fiz nenhum esforço, o Pequeno me pegou no colo e cuidadosamente me trouxe até aqui.
—Certo, você está comendo direito, a Mila tem vindo?
—Sim e sim.— Zoey me responde —Mãe, tudo isso está bem pra você?
—Porque não estaria?— pergunto.
—Minha mãe nos deu um sermão, e bem, ela é um pouco mais velha que você e não tá aceitando muito bem ser uma avó.— Kyle responde —Mas meu pai achou o máximo, está torcendo pra ser menina. Disse que nossa família precisa de menina.
—Na verdade, Margot está preocupada, porque nós acabamos de voltar “E se não der certo, como vai ser?”, aquela coisa toda. Disse que devíamos ter esperado, como se tivéssemos planejado este bebê.— Zoey diz, e eu sinto um pouco de raiva da mulher que por anos conversou comigo e parecia torcer pra que eles voltassem.
—Tive você sem nenhum planejamento também, e olha onde chegamos.— digo segurando as mãos dela —Se não der certo com Kyle, nada pessoal, tá?— digo ao olhar pra ele —Você tem a mim.
—A mim também.— Anthony se aproxima e coloca suas mãos sobre as minhas. Zoey olha pra nós e começa a chorar.
—Ah, minha pequena, não chora.— Kyle se ajoelha diante do sofá ao lado do Anthony e coloca as mãos sobre a barriga da minha filha.
Ano passado, a possibilidade de ter um filho me fez surtar, mas um neto ou neta apenas me enche de amor. Zoey foi a bebê mais linda do mundo e eu já posso imaginar a mistura dela com Kyle, que é lindo também.
—Kyle, nada contra o seu pai, mas acho que vai ser menino.— Tony comenta —Melhor já pensarmos num nome de menino com 4 letras.
—Porquê só quatro letras?— Kyle pergunta.
—Pra seguir a tradição da família, oras.— ele responde —Zoey, Kyle, Tony…, desculpe, babe, continuo te amando.
—Ih, Ginnie, vamos ter que te renegar.— Kyle ironiza.
—Vocês dois juntos parecem competir pra ver quem fala mais besteira, vamos ter que conviver pra sempre mesmo?— eu pergunto.
—Bem, o pequeno me engravidou, mas o que nos prende ao Tony mesmo?— Zoey provoca.
—Seu emprego.— Anthony responde.
—Ele é o amor da minha vida.— respondo, é o suficiente pra que eles fiquem quietos.
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