A Family Affair

15 Capítulo 15


Notas iniciais
Achei esse capítulo fofo, espero que tenham a mesma sensação.

⌘ Pepper ⌘

No dia 05 de janeiro acordei com 44 anos, e nenhuma crise existencial, tudo estava bem. Eu estava numa casa nova, tinha um namorado lindo e apaixonado por mim, minha filha estava feliz, pois havia dado uma chance pra si e para seu amor da adolescência e, magicamente, uma nova história estava formada na minha cabeça. Eu só precisava escrever.

O processo de escrita desse novo livro foi… peculiar. Quando escrevo as colunas das revistas sempre tenho um prazo, o editor me encomenda um tema e eu desenvolvo. Mas com os livros, gosto de ter a liberdade de criar, talvez porque o primeiro eu escrevi sem pressa e sem pressão, ele já estava “pronto” quando Jackie leu, nunca houve cobrança para a entrega do segundo ou terceiro, embora eles tenham fluido com facilidade. Mas agora tenho um fã morando comigo e, extremamente privilegiado, ele queria ler tudo antes de todo mundo.

Claro que eu o deixava ler algumas páginas, eu nunca fui tão mimada durante o meu processo criativo. Quando ficava trancada no escritório, ele me levava lanchinhos, suco, água e aproveitava pra bisbilhotar. Eu estava tão acostumada com a presença dele que, às vezes, decidia escrever sentada na varanda e acabava me desconcentrando ao observá-lo praticando exercícios na praia.

Durante três meses dei a ele alguns spoilers, mas a história pronta foi apenas a minha editora quem leu.

—Lembra quando você me mostrou aquele outro projeto e parecia ter palavras demais e então divagamos sobre várias coisas?— Jackie questiona, aquiesço —Esse está pronto, e é aquele romance que fará o leitor se questionar se em sua própria vida não está deixando passar as oportunidades, sabe?

—Sei.— respondo —Por que era o que eu estava fazendo e, com alguns empurrões, decidi não fazer mais.

—Está muito evidente que, embora os personagens sejam fictícios, tem muito a ver com vocês.— Jackie conclui —Aliás, precisamos atualizar o seu perfil, porque muita coisa mudou desde seu último lançamento, e fazer novas fotos. Mas ainda vamos revisar e pensar no layout, bem você estará muito ocupada, por um bom tempo.

(...)

Manhattan conta a história de uma casal que se conhece na balsa que faz a travessia entre Staten Island e a ilha que dá nome ao livro. Cris, o protagonista, é socorrista, sempre encontrava com Brooke na embarcação, mas apesar de se sentir fisicamente atraído desde a primeira vez que a percebeu, nunca teve coragem de conversar com ela. Até o dia em que a viu chorando e descobriu que teria pouco tempo em sua companhia.

Brooke, por sua vez, é enfermeira, vivia para o trabalho, mas soube que seu contrato não seria renovado e, por isso, teria que deixar o país, pois era imigrante. No dia em Cris tomou coragem de se aproximar de Brooke, ela não chorava por ter de ir embora, mas por não ter conhecido nada da cidade além do caminho do pier até o hospital onde trabalha. Sabendo disso, Cris decide apresentar Nova York à ela e eles descobrem que têm muito em comum.

(...)



Apenas depois que Jackie me deu o aval foi que entreguei o manuscrito para que Anthony pudesse ler a história inteira. Depois de jantarmos, ele imprimiu todas as paginas, porque ele gosta de papel, sentou na nossa sala, então me dei conta de que eu dormiria sozinha, pois ele não o largaria até acabar.

Na manhã seguinte, foi só sentir a presença dele que já acordei. Aquela sensação inexplicável de que os átomos do quarto haviam se rearranjado, de uma hora para outra, simplesmente porque ele estava ali. Eu estava acostumada e gostava demais de tê-lo por perto.

—Como é ser a maior romancista do mundo?— ele perguntou beijando as minhas costas.

—Você gostou mesmo?

—Se eu gostei?— ele para de me beijar —Vire-se agora e olhe pra minha cara.

—Você chorou?— pergunto ao notar seus olhos vermelhos —Meu amor?

—Depois que terminamos, me culpei muito por te levar a Nova York, você não merecia…

—Sei que não foi uma exclusividade.— eu o calo —Mas foi especial, eu me apaixonei em Nova York.— revelo —Por isso essa é a última frase do livro. Ele é a minha declaração de amor pra você.

—Ah, babe, eu te amo pra caralho.— Anthony me beijou os lábios, sua boca tinha gosto de café, as mãos ávidas enredando sob a minha camisola.

—Não está com sono?— questionei, afinal, ele havia ficado acordado a noite toda. Sua negação me fez aprofundar o beijo e me aproximar mais.

Antes mesmo que eu me desse conta, ele estava deslizando para dentro de mim, como sempre, aquela primeira sensação era maravilhosa. Ainda ficava surpresa com a forma como ele se encaixava em mim. Grosso. Perfeito. Como nenhum dos que tinham vindo antes dele, como se eu tivesse passado a vida inteira andando por aí com uma vagina feita especialmente para Anthony Edward Stark, sem nunca saber disso.

—Azar de quem te teve e perdeu.— ele disse, deslizando para dentro e para fora de mim, mantendo o olhar fixo no meu durante todo o tempo, sem hesitar, sem perder o ritmo —Caralho… Você é tudo para mim.— ele declarou. A respiração ofegante, entrecortada misturando com a minha.

Mais tarde, quando eu ainda estava me deleitando com meu orgasmo, com Anthony dormindo ao meu lado, o corpo escorregadio de suor, pensei muito sobre o que ele dissera enquanto fazíamos amor. Naquela noite, na Nova York dele, eu sabia que não tinha sido a única, mas não podia imaginar que seria a última.

(...)



Após cumprir todos os meus compromissos profissionais relacionados ao pré-lançamento do meu 4° livro, estava livre para a viagem que, se dependesse do Anthony, teríamos feito em janeiro. Expliquei pra ele que viajar talvez fizesse tudo desaparecer, por isso eu precisava ficar em casa e focar no trabalho. Postergamos as férias.

Uma semana antes de embarcarmos tivemos nossa primeira discussão boba. Extremamente teimoso, meu namorado insistia que, se ficássemos hospedados em uma casa-barco poderíamos navegar livremente pelos canais de Amsterdam, mas isso só era possível na cabeça dele.

Então qual é a vantagem da casa-barco em relação ao hotel?— ele me questionou.

A experiência.— respondi —E já pagamos o aluguel da hospedagem, não quero dor de cabeça em ter que procurar um hotel faltando uma semana pra viagem, e ainda terá a multa pelo cancelamento.

Minha assistente nos arruma um hotel.— ele informa, acreditando que um astro de Hollywood pode fazer tudo —E a multa não será um problema.— ele disse. Cedi, afinal, durante a estadia na Holanda comemoraríamos seu aniversário.

Nos primeiros dias fizemos passeios culturais, fomos a museus, visitamos a casa de Anne Frank. Numa noite fomos ao Red Light District por pura curiosidade dele, aguçada depois de ler um dos meus textos publicados na Vogue há alguns anos. Era a primeira vez dele na cidade, mas não a minha, embora algumas coisas fossem novidade, por isso eu havia insistido pela hospedagem diferente.

Passamos um dia lindo de primavera, na vila dos Moinhos em Zaanse Schans, próximo à Amsterdam. Fomos a Keukenhof, e andar de bicicleta por aqueles campos de tulipas sempre seria encantador.

—A minha pessoa favorita no mundo, no meu cenário favorito.— digo ao capturar uma foto dele. Evitava postar sobre nós em minha rede social, mas essa imagem teve milhares de curtidas.



Em 14 de maio, o aniversariante mais charmoso, comemorava os seus 51 anos tomando sol no deck do hotel-barco em que nos hospedamos. A vista que eu tenho é de tirar o fôlego, não só por causa dele, mas pela localização, o Stunning Boat é realmente deslumbrante. Quanto ao Anthony, o que ele tem de gostoso, tem de cabeça-dura, mas eu sei como dobrá-lo. Juro que não fiz nenhuma chantagem emocional. E ele adora ver os patinhos e cisnes passando diante da nossa janela, parece criança.

—Vir essa época do ano foi a melhor coisa que fizemos.— ele comenta.

—É nesse momento que você me agradece pela nossa hospedagem.— eu provoco.

—De novo “Sra estou sempre certa”?— ele me pergunta, estamos sentados lado a lado em espreguiçadeiras —Isso me faz questionar se eu ainda quero passar o resto da minha vida com você, sabe? No meu aniversário de 90 anos não quero ouvir um “Lembra como eu estava certa em 2025?”

—Você o quê?— ajeito a minha postura —Como assim, resto da vida? O aniversário é seu, mas o presente é meu?— eu brinco.



—Achei que estivesse claro.— agora foi a sua vez de se ajeitar —Mas ok, vamos formalizar…

—Formalizar?

—O meu presente de aniversário, oras. Vem cá…— ele estende a mão e me puxa pra junto de si na sua espreguiçadeira, monto em seu colo —Relaxa, babe, você está tensa. Não estou te pedindo em casamento, não ainda…— ele deixa claro, Anthony adora me provocar com este tema e depois apaziguar com o seu “não ainda” —Hoje, quando acordei, você disse que eu poderia pedir qualquer coisa, certo?

—E você acha que pode pedir algo vitalício?

—É o meu desejo de ano novo.— ele beijou meu pescoço —Pedi, agora me dar o que quero só depende de…— ele tocou com o indicador entre os meus seios como quem diz “Você”.

—Eu não estava procurando ninguém, porque gosto de mim, gosto dessa coisa autossuficiente, de me bastar, sabe?— ele move a cabeça em afirmação —Mas eu gosto ainda mais de nós, e da cumplicidade que construímos nesse tempo que estamos juntos, de como meu corpo parece ter sido feito pra encaixar no seu e vice-versa, de como eu amo dormir ao seu lado, com ou sem roupa, não tô a fim de desgrudar, então a gente pode demorar bastante nesse namoro gostoso, tipo até você ter uns 90 anos.

Anthony não me diz nada em resposta a minha declaração, talvez pela surpresa. Embora eu seja uma pessoa que escreve, falar, muitas vezes é bem complicado pra mim, ele sabe disso, por isso as declarações sempre foram dele.

Ele agarrou um punhado de meu cabelo em suas mãos quando envolveu minha nuca e me puxou para um beijo. Um beijo ardente que queima em mim, me incendeia de dentro para fora. Quando termina, ele afrouxa sua pegada apenas para ver meu rosto o suficiente para sussurrar contra a minha boca.

—Você chama de namoro, mas essa declaração, facilmente poderia ser votos de casa…— aproximei meus lábios dos dele antes que pudesse concluir a palavra.



—Amor, eu já fui casada e não foi bom, mas o que a gente tem… é indescritível, te amo tanto, vamos seguir como estamos? Sem rótulos sociais?— questiono. Simplesmente não entendo como um homem que viveu por tanto tempo sem se prender a ninguém, de uma hora pra outra, virou a chave e se tornou tão formal a ponto de querer casar —Ah, que droga, eu não quero te deixar triste.— falo quando ele desvia o olhar do meu —Hoje é seu dia. Eu sou muito feliz por você existir. Olha pra mim?— seguro seu queixo e levanto seu rosto —Temos pelo menos 40 anos juntos, prometo fazer valer a pena, não precisa que alguém me declare sua esposa pra isso, ok? Já sou sua. Me auto declaro sua.

—Minha Pepper.— ele me beija a testa e corre beijos pelo meu rosto até a minha boca —Não vou abrir mão disso, babe, mas também não quero te forçar. Eu nunca havia colocado os olhos em alguém que eu quisesse ficar a vida toda, por isso, essa possibilidade careta e formal sequer havia passado pela minha cabeça antes, mas agora eu quero, com você. Com mais ninguém. Então vou te dar tempo pra se curar dessa ferida que criaram, não vou mais tocar no assunto, vou te dar todo o amor que eu posso e consigo dar e torcer pra cicatrizar logo.

Como ele pode estar tão certo? Entrar nesse relacionamento depois de tanto tempo foi como tirar o curativo de um ferimento que precisava cicatrizar. Com o tempo vai criando aquela casquinha, sabe? Chegará um momento em que, sob a proteção, só haverá um pedaço de mim pronto para ser exposto novamente. Nesse dia conseguirei dizer o sim que ele espera.

Amsterdam caprichou no nosso último pôr-do-sol, o final de tarde foi lindo, e à noite saímos num passeio de barco especial, com jantar, para comemorarmos o dia dele.

—Gostou de Amsterdam, meu amor?— pergunto, após brindarmos à sua vida e tomarmos quase uma garrafa de champanhe, ele deitou a cabeça em meu colo. Eu via a cidade, mas ele via apenas o céu estrelado.

—Gosto de qualquer lugar com você.— Tony responde —Amanhã vou gostar de Paris.

—Qual o lugar que não podemos deixar de ir em Paris?

—Pont des Arts.— ele responde.

Esse local é onde os casais apaixonados juram amor eterno, por muitos anos a tradição foi prender um cadeado em suas grades. Havia cadeados de todos os tamanhos, mas com o tempo, o peso dos adereços ameaçou a estrutura da ponte e o ato passou a ser proibido.



—Sabe que embora queiramos ficar juntos por muitos anos, não podemos mais pendurar cadeados na ponte, né?— ele move a cabeça em afirmação —Mas podíamos amarrar fitinhas, como na igreja do Senhor do Bonfim, ficaria lindo e a ponte não cairia.— comento.

—Nunca ouvi falar nessa igreja, fica em Paris?

—Não, no Brasil, numa cidade chamada Salvador.— respondo e ele me ouve com entusiasmo —As pessoas fazem pedidos, não só sobre amor, mas sobre qualquer coisa que queiram conquistar, então amarram as fitinhas coloridas nas grades ao redor da igreja, as fotos são lindas.

—Você já esteve lá?— Anthony questiona.

—Não.— respondo —Mas pesquisei muito sobre. Uma amiga, Liz, tinha um marido brasileiro, Felipe, as histórias que ele contava sobre o país, a cultura, me deixaram muito curiosa.

—Bom saber de um lugar onde você não tenha ido.— ele comenta, quando estávamos decidindo nosso roteiro ele ficou um pouco frustrado por eu já conhecer alguns dos lugares sugeridos, mesmo que tenha sido muito tempo atrás —Nas próximas férias vamos para a América Latina.— ele decreta.

—Vou adorar.— concordo —Pont Des Arts…— penso alto e sorrio —Deus, como explicar você, Anthony Stark?— questiono afagando seus cabelos.

—Acho que a culpa é do meu signo.— ele responde —Uma vez fiz um workshop com um astrólogo pra um personagem, sabia? Ele me explicou que no dia do aniversário a gente fica assim, sentimental, mas também pode ser por causa da lua…

—Certa vez pesquisei sobre astrologia pra escrever um livro, sabia? Acho que minha lua e meu ascendente combinam com o seu signo.— comento.

—Quais são?— ele levanta do meu colo e me encara.

—Minha lua é em Completamente e meu ascendente em Apaixonada.— respondo, ele sorri —E sério, do que você está rindo?

—Você é tão a mulher da minha vida que entrou na minha cabeça e roubou a minha piada.— ele responde sorrindo. Fico feliz de conseguir fazê-lo sorrir genuinamente.

—Você é muito o meu amor. Eu te amo tanto.— beijo seus lábios —Feliz aniversário.

Notas finais
Meu casal favorito do mundo ❤