A Family Affair
12 Capítulo 12
Notas iniciais
⌘Tony⌘
—E corta.— Melora Hardin, diretora do meu novo filme, anuncia.
Mais um dia de gravação encerrado, faltam poucas cenas para a conclusão das filmagens. Pela primeira vez em anos não emendarei um projeto em outro. Recusei participações, mesmo que pequenas, em outros filmes e séries. Me and You, ao contrário dos outros filmes que fiz, não teve cenas de ação, mas a carga dramática é intensa. Preciso de férias e quero descansar.
Parte da minha decisão tem também a ver com a Pepper que, depois de muito ponderar, deixará Princeton ao concluir seu segundo semestre como docente. É muito louco pensar que há um ano eu não a conhecia e hoje só quero passar a maior quantidade de tempo possível com ela. O Tony Stark que eu era jamais teria reduzido a carga de trabalho por alguém.
Por falar na minha namorada, ela está na cidade, não por minha causa. Ao que parece ela tem uma tradição de assistir a pelo menos um jogo da temporada no Dodger Stadium, Zoey esteve ansiosa o dia todo lembrando dos partidas que assistia com o pai quando era pequena.
—Pode entrar.— respondo ao ouvir batidas na porta do meu camarim.
—Vim te convidar pela última vez pra ir com a gente.— Zoey surge usando um boné azul com as letras L.A —Aquela desculpa sobre assédio, não cola, tá? Famosos vivem nos jogos.
—Mas eles são tão famosos quanto eu?
—Ah, sei lá, Robert Downey Jr é tão famoso quanto você? Jennifer Garner, Tom Cruise, Emma Stone, Ben Affleck…— ela cita uma lista imensa —Temos os ingressos, deixa de ser chato.
—Acho melhor não, talvez sua mãe queira um momento com você…
—Já sei qual é o seu problema…— ela observa —Está desconfortável porque estou dizendo há dias que é uma tradição de família?
—Claro que não.— eu minto —Não sou muito de esportes.
—Tony?!— ela coloca as mãos na cintura —Te conheço. Sei que ela não insistiu tanto quanto eu, mas mamãe vai adorar se você for, foi ela quem fez questão do seu ingresso.
—Ok, eu vou.— afirmo.
Quando encontrei com Zoey novamente, ela usava também uma jaqueta do time da casa, antes de deixarmos o estúdio fomos ao figurino porque eu precisava ao menos parecer um fã de beisebol. Chegamos ao estádio e Pepper nos esperava no estacionamento acompanhada de Jackie, ambas também no dress code do evento da noite.
—Oi.— ela sorri pra mim, linda em seu jeans e uma camisa dos Dodgers branca com botões.
—Ah, não, você vai tomar toda a minha atenção, não vou conseguir ver o jogo.— Jackie brinca ao me cumprimentar.
—Já percebeu que você terá que sentar ao lado dela, né?— Pepper comenta. E assim foi, nos sentamos na arquibancada na seguinte sequência: Zoey, Pepper, eu e Jackie.
Durante o jogo, Jackie me contou várias curiosidades que envolviam aquele esporte e sua família. Muitas das histórias tinham a ver com Charlie, seu filho, mas descobri que Zoey foi convidada a se retirar do time quando era pequena.
—Ela parecia ter duas mãos esquerda.— Jack ri.
—Não que isso fosse um problema, tem gente que é ótimo com a mão esquerda.— Pepper defende a filha, se hoje ela ainda é o que chamam de mãe-coruja fico imaginando como era quando Zoey era uma garotinha.
—Parecia ter dois pés esquerdos também, ela era péssima, Tony.
—Jackie, que horror!— Pepper protesta.
—Ainda bem que naquela época você não me falou isso, vovó, os comentários eram crueis o suficiente pra uma criança de seis anos.— Zoey comentou —Mas eu nunca vou esquecer do papai socando aquele outro pai.
—Foi errado, mas eu adorei.— Pepper comenta —Qual é? Elas eram só crianças.
—E foi assim que a “carreira” dela no esporte acabou.— Jackie ironiza e dá um gole em sua cerveja —Você podia ser uma ótima neta e ir buscar um hot-dog pra sua avó.
A partida transcorreu entre os comentários das três tagarelas ao meu redor, hot-dogs e cervejas, e ao fim de quase 4h, um home run consagrou a vitória dos Dodgers.
—Obrigada pela companhia, Tony, você foi nosso amuleto da sorte.— Jackie me abraça usando uma daquelas luvas de espuma que os torcedores usam no estádio —Que bom que você voltou.— ela beija meu rosto. Faz uns sete meses que eu e Pepper estamos juntos, mas eu ainda não tinha visto Jackie, talvez por isso o comentário —Vamos fazer um churrasco amanhã?— eu rio concordado, além de estar eufórica com a vitória Jackie bebeu um pouco demais.
—Viu? Você já faz parte da família, apesar de ser um chato.— Zoey comenta ao me abraçar.
—Ok, o que foi isso?— Pepper questiona, quando a mais jovem e a mais velha caminham na nossa frente.
—Nada, mais cedo eu estava desconfortável em me intrometer na tradição familiar.— esclareço.
—Fiquei muito feliz que você veio.— ela me beija —E me desculpe.
—Pelo quê?
—Não te dei tanta atenção.— ela responde, sei que com o fato de estar longe, todas vez que ela está em L.A. se cobra com essa questão da atenção entre sua família e eu —E todas essas histórias envolvendo o Charlie…
—Ele é uma parte importante da vida de vocês três, Pepper, aliás, pelo que entendi, beisebol era uma coisa dele, então todas as lembranças são perfeitamente compreensíveis.
—Você é perfeitamente compreensível.— ela me beija —E irresistível. Dorme comigo hoje?
É claro que dormi na casa dela, e no dia seguinte fizemos o churrasco sugerido pela Jackie. Deborah, amiga de Zoey também apareceu, então descobri que Pepper tem “outra filha”, foi um domingo agradavelmente incrível. Eu posso perfeitamente me acostumar em ser um membro desta família.
⌘ Pepper ⌘
Embora eu tenha amado a temporada em Princeton, aceitar dar aulas, a princípio, foi uma forma de fuga. No início me achava uma impostora. Eu havia acabado de abandonar um novo livro e estava falando pras pessoas como serem criativas? Mas com o passar dos meses fui sendo mais honesta comigo e com eles.
—E o que você indica quando parece que a história não avança?— Rebeca, uma das minhas alunas mais empenhadas pergunta.
—Deixe pra lá.— respondo —Eu já abandonei projetos por dias, meses, alguns pra sempre. Algumas vezes dá pra buscar fragmentos do que você estava criando, como se usasse pedacinhos de um fracasso como isca para fisgar um novo projeto, e tudo volta a fazer sentido.
—E se não voltar, se o que eu estava criando, simplesmente desaparece? Perco tudo?— outro aluno questiona.
—Há um ano eu estava escrevendo algo que minha editora havia adorado, embora tenha me dado algumas dicas de como melhorar, mas então, de novo, fui atropelada pela vida. Eu queria escrever, mas não conseguia mais fazer o que eu queria, então mudei de cidade e vim fazer outra coisa.— respondi —Quem me ensinou isso foi uma amiga, Elizabeth Gilbert, conhecem?
—A autora de Comer, Rezar, Amar?— alguém no fundo da sala questiona.
—Ela mesmo.— confirmo —Liz tem um livro ótimo, Grande Magia, no qual destrincha vários contos e textos sobre criatividade e o processo criativo dela e de outras pessoas, o que aprendi com ela é… Você não pode ficar parada, inerte, na frente do seu computador esperando a história voltar, deixe ela um pouco de lado, vá praticar um esporte, consumir arte, ver um show, namorar, tenha um plano B… Faça alguma outra coisa, qualquer coisa, e mais cedo ou mais tarde a inspiração voltará a te encontrar, seja pra continuar de onde parou ou pra criar algo novo.
E no processo de ser honesta comigo e com os outros foi que decidi não renovar com a universidade para um novo ano como docente. Quando informei a minha decisão ao meu namorado ele ficou eufórico, a segunda temporada do nosso relacionamento só não foi melhor que a primeira por estarmos longe demais.
(...)
Estava sendo delicioso, fácil, leve e tranquilo, na medida do possível, estávamos administrando a distância, conciliando seu trabalho e o meu. Eu o amo, ele me ama, parecia simples, ideal.
Então a minha menstruação atrasou e eu me dei conta que nunca conversamos sobre essa hipótese, “O que esperamos dessa relação?”, “O que Anthony quer da vida?”, “O que eu quero da vida?”, “Estou disposta a gerar uma criança se ele também estiver?”.
Não pensava em ter outro filho, ainda mais tendo uma filha já adulta. Pela sequência lógica, eu deveria estar me preparando pra ser avó e não mãe, embora meu sistema reprodutor esteja completamente saudável. Mas ao contrário dele, o meu tempo de reprodução é contado, então precisamos falar sobre isso. É muito louco que esse sinal tenha acontecido nesse momento em que estou voltando pra Los Angeles.
Ele chegou ontem, ansioso. Não queria que Anthony viesse, mas assim como fez quando eu me mudei pra cá, veio com a desculpa de que me ajudaria a ajeitar as minhas coisas, embora eu não tenha trazido quase nada quando cheguei e não vá levar nada além das minhas roupas e objetos pessoais ao ir embora. Quando me mudei, fiz questão de alugar um lugar mobiliado e decorado.
—Hey, babe…— Anthony diz ao entrar no quarto do modesto apartamento onde moro há quase 10 meses. Eu ainda fico impressionada como ele é bonito mesmo usando uma calça de moletom e camiseta e como meu coração dispara desde que ele passou a me chamar de Babe.
—Oi, amor?— eu não devia chamá-lo assim, já que a minha intenção é terminar, a agonia da iminência do fim está me consumindo desde a noite de ontem.
—Da onde é essa chave?— ele questiona ao exibir o objeto em sua mão —Já testei em todas as portas.— ele me informa.
—Me deixa ver?— peço ao deixar as roupas de lado sobre a cama, vejo um sorriso bonito e travesso se formar em seu rosto então percebo que a cena é armação dele. Junto da chave há um chaveiro escrito “Quer morar comigo?”—Anthony?
—Babe, não quero que você se assuste, não estou te pedindo em casamento, nem sei se você pretende se casar novamente um dia, mas eu sei que você é a mulher da minha vida e…— ele hesita —...Eu tenho 50 anos, nunca tive essa vontade antes de te conhecer, mas quero ter uma família.
—Não posso te dar a família que você quer, Anthony.— me sento na cama com o chaveiro em minha mão, ele abriu a boca para argumentar, mas antes de ouvir qualquer coisa preferi continuar a conversa —Esse mês eu atrasei alguns dias, então me dei conta de que, embora eu ainda possa, não quero e não vou ter outro filho.— senti um nó se formar em minha garganta, porque até este momento eu não havia admitido isso nem pra mim —Mas eu te amo, e quero que você tenha tudo o que deseja. Então, se é isso o que você quer, estou te deixando livre pra buscar alguém que possa te dar…— ele agachou diante de mim e me calou.
—Eu te amo.— ele me diz —Eu te amo.— ele repete —Ter um filho talvez seja incrível, ter um filho seu seria um sonho, e se você tivesse chegado pra mim e dito “Anthony, estou atrasada, vamos ter um bebê”, eu provavelmente surtaria, mas me jogaria de cabeça, porque eu te amo. Mas quando falo de família, estou falando de você e eu.— ele afirma —Estou falando de nós e da filha que você já tem, estou falando da Jackie que me ensinou a acender a churrasqueira. Estou pedindo pra entrar nessa família, já formada, porque eu amo cada um dos membros dela, e te amo muito mais.
—Eu…— soluço, eu o amo tanto —Eu quero.— estou chorando —Eu te amo, eu te amo , te amo.— eu o beijo desesperadamente.
—Pepper…— ele se levanta senta ao meu lado na cama e me puxa em seu colo —Promete pra mim que vai tentar ser menos controladora? Babe, você estava vivendo uma agonia porque não abre mão de ter controle de tudo.
—Prometo.— afirmo —Meu único controle será de natalidade.— ele ri, eu amo o fazer rir.
—Então você vai morar comigo?— ele quis saber.
—Sim, eu vou morar com você.— confirmo, ele me lança aquele sorriso matador e começa a me beijar. Meu único plano daqui pra frente é dar a ele todo o amor que sei que posso dar.
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