A Face Protetora
2 Recém Chegada
Sua pele era como veludo, seu rosto parecia ser esculpido na pedra. Esculpido por um anjo. Seus olhos eram brilhantes como o diamante, cintilantes como o próprio sol. Nenhuma outra, caros, poderia alcançar a graça daqueles olhos! Seu toque, Deus meu, era suave, era doce. Seus lábios eram escarlates, cor do sangue! Seus traços, delicadíssimos e pálidos, eram mais belos que os da própria Vênus. Sua silhueta, elegante como nenhuma outra, possuía o porte de princesa. Seus cabelos negros, negros como a noite, escorriam-lhe pelas espáduas, pelo colo harmonioso, atingindo-lhe a cintura. Eram cacheados, sedosos, e brilhantes. Ela emitia luz! Seu sorrir era inefável!A mulher fitava a grande casa. A belíssima construção. Com os lábios entreabertos, como era de costume. Dali, saltava um perfume de rosas, rosas únicas. Sua pele exalava este perfume! Seus dedinhos, perfeitamente afilados, crispavam-se, agitando um leque de rubis. Descrevamos o vestir da senhorita: Trajava cetim vermelho, um vermelho rubro, um vermelho vivo, que contrastava com sua pele, alva e acentuada. Nas madeixas pretas, ela carregava uma rosa, sendo, assim, da mesma cor de seu traje. Suas luvas eram pretas, o que dava-lhe uma imensa sensualidade. Agitava as mãozinhas, bordando, com a vista, a construção. Belíssimo local! Acreditava que, ali, estava seu futuro. Ali, ela conseguiria o que queria. Sim, a qualquer custo! Lutara para estar em frente à Ópera Populaire. Permanecia em seus devaneios, quando uma mulher chamou-a: -Venha, entre! Apresentá-la-emos ao diretor.- Disse Giry, com aspecto grave, e serio. Como era de costume. -Oh, obrigada!- A moça sorriu-se, acompanhando-a. Com passos leves, adentrou a ópera, sorrindo. Passaram pela elegantíssima sala, subindo as escadas, encontrando-se com André, e outro homem. -Senhores, tenho o prazer de apresentar-lhes Malrora Morisset. Fez as inscrições, e gostaria de trabalhar conosco. -Deveras, madame?- Perguntou um deles, fitando o perfil da nova inscrita. Esta, sorrindo, inclinou, levemente, a cabeça, o que era um “sim”. -Sim, monsieur. Desde menina, sonho em trabalhar aqui. -E, madame, te pensas capaz de trabalhar conosco? Bem, vejamos. O que sabe fazer? -Canto, e atuo. Desde pequena. Nada fiz de grandioso, mas, meus caros, asseguro-lhes: tenho bela voz, e atuo bem. Deixemos a falsa modéstia. — Sorriu-se. -Ora, ora... Poderia dar-nos uma amostra? Venha conosco. — Disseram os dois, de forma simultânea. Levaram-na, então, ao palco. Deixaram-na a frente de todos, inclusive, então, de Carlota. O arco começou a tocar, e, com uma mágica implacável, a voz de Malrora desprendeu-se. Sua voz voava, atravessava, planava. Era grossa, e, ao mesmo tempo, doce. Era forte, e, ao mesmo tempo, suave. Brilhante! Brilhante! Ao término da música, todos estavam boquiabertos. -Magnífica! Estupenda!- Bradavam uns, e outros. Carlota, porém, moia os próprios lábios, pensando: “Quando Christine vai embora, me aparece esta... esta... Malrora! Quem é esta larvinha?”-Malrora, queria acompanhar-nos! Está contratada! Brilhante sorriso se estampou nos lábios da mulher, que, mais que depressa, acompanhou seus novos diretores. O que se passou, caríssimos, não é algo, julgo eu, que valha a pena descrever. Em realidade, seria melhor deixar passar. Tudo é, realmente, aborrecido, e não nos leva a lugar algum. Prossigamos com a narrativa. * * * -A partir de hoje, minha cara, dormirá com as outras, nos dormitórios da Ópera. Espero, sinceramente, que não sinta-se incomodada. –Recomendou Madame Giry, atravessando, ao lado de Malrora, um corredor. Chegando ao fim deste, abriu uma porta. Era um quarto modesto, na verdade. Modesto, sem pobreza. Era razoável. As meninas, todas muito graciosas, estendiam suas camas. -Meg! -Mamãe?- Disse a menina, chegando-se à porta. Parou, intrigada, e fitou Malrora. -Esta é a nova inscrita. Ficará conosco. -Como se chama, moça? -Malrora Morisset. Prazer, criança. -Criança? – Ofendeu-se Meg. – Ora! Coisa nenhuma! -Meg!- Giry surpreendeu-se. -Perdão se a ofendi, Meg. É costume meu. Chamo todos de criança. -Oh, sim. Então, perdão. -Venha, Malrora. Vou apresentá-la às outras. — Disse Giry, levando-a ao meio do aposento. — Silêncio! Silêncio! Todas, ao escutarem as ordens, calaram-se, e viraram-se. -Esta é Malrora. Malrora Morisset. Ficará conosco, é nova. -Obrigada, Senhora. –Sorriu a moça, fitando as garotas. -Agora, se me permitem, preciso ir. — Diz Giry, saindo. A porta fecha-se. Algumas meninas, ralando-se de despeito, e inveja, correm até ela: -Malrora, então, é nova, não? Bom, espero que tenha nervos frios! Esta Ópera é uma surpresa. -Albine, fique quieta!- Exclamou Meg, correndo até elas. -Ora, ora. Surpresa?- Ironizou Malrora, sentando-se a uma cama. Em suas belíssimas expressões, trazia uns laivos de maturidade, que encantava. — Conte-me, senhorita... Albine, não é mesmo? Albine surpreendeu-se, mas continuou, acompanhada de François: -Nunca ouvira falar do fantasma da ópera? Sim! Isto mesmo! É um homem, um homem horrivelmente feio, que vaga pelos corredores do teatro! Sempre prega peças em todos, sempre! Já raptou uma de nossas sopranos, sim! Pobrezinha! Seu nome era... -Basta, Albine, basta, François!- Gritou Meg, em sua voz angelical. -Qual o problema, Meg? Deixe que elas falem! Ao contrário do que pensam, não tenho medo. Podes dizer, Albine. Quem é essa moça? -Seu nome era Christine Daae. Creia-me: Nunca mais, menina, ela foi vista! Entretanto, o fantasma continua na Ópera. -Isto, Malrora, é mentira! Não dê atenção às duas. São umas boateiras de má fé! O fantasma não continua por aqui, e Christine não está com ele! – Disse Meg, revirando os olhos. Tinha ar sério. -Por que o medo, Meg?- Provocou Albine. — Não é segredo. Christine era amásia do fantasma... — mal pode pronunciar, e um tapa osculou sua face. Estremecendo de ódio, ela e Meg se atracaram. Malrora, num só puxão, separou as duas: -Ora, moças! Que ridículo! Parem com isto! Isto é imaturidade! Tanto isto, quanto a tua vontade, srta. Albine, de amedrontar-me! Não creio em fantasmas. Se este sr, de fato, existiu, era homem, e de carne e osso! Poderia ser um ajudante, ou um refugiado. Mesmo assim, querida, parabéns! Fora um delicioso passatempo!- Sorriu-se, e retirou-se, para preparar seu leito. * * * Era noite, e todas estavam ansiosas! Ora, noite de estréia! Passara-se uma semana, desde que a nova inscrita havia chegado. Já estava, pouco, pouco, acostumada com o ambiente. Maravilhoso, maravilhoso! Todas, em suas posições. Todas, em seus lugares. As cortinas abriram-se, e Malrora estava lá. Ganhara o papel principal. Seu sonho havia se realizado! Estava bela, deslumbrante! Todos olhavam, encantados, para sua beleza. Pouco se importavam com história, ou com vozes. Queriam, mesmo, deleitar a vista naquele corpo gracioso, naquele rosto divino! E ela cantava, dançava, rodopiava! Tinha talento inexprimível! Seus lábios escoavam-se, soltando notas agudas, inefáveis, e, outrora, grossas! Seus olhos cresciam, à medida que sua excitação expandia. As cortinas fecham-se. Nunca viram melhor espetáculo. Nunca viram mulher mais bela! Outras bailarinas, afiladas e peroladas, entram em cena. Malrora poderia descansar. Sentou-se a um espelho, e pôs-se a olhar sua imagem. Sorria. E que sorriso! Uma voragem, de onde submergiam-se o prazer, a vitória, a sublimidade de momentos simples! -Parabéns, minha querida! Estiveste perfeita!- Madame Giry sorriu. Logo depois, tornando-se grave, murmurou. –Preciso dizer-lhe algo. -Diga! -Algumas meninas, minha cara, gostam de fazer intrigas. Mesmo assim, nem tudo o que dizem é real. Não leve à razão. Tu me entendes. -Se falas, madame, da noite de ontem, não te preocupes. Eu... -Por favor, caríssima. Aqui, não tratamos, mais, destas histórias. Evite comentar. Espero que entenda-me. – E, em seu gesto sóbrio e cortês, retirou-se. Malrora, a peso de alguma resolução, tombou a fronte. Pensava se, realmente, era verdade. Ora, pois, se fosse alguma invencionice, Albine, François e Meg, realmente, teriam imaginação! E que imaginação! A história, apesar de suas graves palavras, excitou-lhe a curiosidade. Este fantasma... existiria? Esta Christine? Que rumo tomara? Fora ela, de fato, amásia do tal homem? Abandonou estes pensamentos, para entrar, novamente, em cena.
Fale com o autor