A Face Protetora

12 Primeiro suspeito.


À noite, então, Malrora pôde repousar. Bem, é o que se pensa, não? Pois, o que a pobrezinha alcançou descansar, foram, somente, três horas. O resto da noite, por infelicidade, fora abarrotado de pesadelos, e burburinhos. Burburinhos, estes, que, se ela não tapasse os ouvidos, enlouqueceria. Sim, aquilo estava nevrálgico. A certo ponto, quando pensava que perdia as faculdades mentais, pôde aperceber-se de um diálogo. -“Tens certeza?” -“Evidente que sim. Obviamente, tomarei todos os cuidados.”Mais que depressa, ergueu a fronte, perpassada por um assomo de espanto. Fitou as camas. Curioso! Duas estavam vazias. Os leitos de Albine, e François. Alçou-se, trêmula, e foi até a cama de Meg. -Meg! -Que há, Malrora??? – Irritou-se a menina. -Escutei vozes! -Vá dormir. – Impacientou-se a lourinha, virando-se de lado. -Meg, por favor! Tenho medo! -Narciso está aí, basta chamá-lo. Agora, vá deitar-se! -Meg... -Dei – tar – se! – Falou, pausadamente, antes de cair, novamente, no sono. -Raios! – Exclamou Malrora, voltando ao leito. Deitou-se, e tentou dormir. Não pôde. Por isso, passou, em claros, o restante da noite. * * * A manhã? Ora! Fora tumultuada. Primeiro, por Malrora não consentir em despertar-se. O dia era cheio, e estavam, apenas, a uma semana da estréia. O papel era complexo, e ela tinha de dar o melhor DO MELHOR de si. Segundo, porque Narciso queria levá-la, de qualquer forma, para a casa. Mas, como era astuta, possuía modos de escapar. E, terceiro... Desjejuavam, em uma pequena mesa, algumas coristas, que haviam gasto parte da manhã, meus caros, para despertar Malrora. Então, possuíam os nervos à flor da pele. Que irritação contínua e encrespada, não levavam, nos olhos pesados, aquelas garotas! Apesar disto, Malrora conseguia superar o nível de irritação de todas. Estava para arrancar todos os cabelos, e, por pouco, não morria entalada com as frutas. -Que há? Se continuares a fitar-me, arranco-lhe os olhos! – Serpenteou uma das moças, para outra. -Calem estas malditas bocas! – Exclamou Malrora, ponderando sobre o diálogo, que, na noite passada, escutara. “Tens certeza?”; “Evidente que sim. Obviamente, tomarei todos os cuidados.”; Que diabos eram aquilo? “Tens certeza?” Maldição! Que era aquilo? Tem certeza? De quê? Diabos! – Ela não cessava em faiscar, cerrando os dentes. -Se mandares-me calar, Malrora, novamente, arrancar-lhe-ei a cabeça! – Bradou uma delas, derrubando sua xícara. -Felicitações, minha cara! – Sorriu a vítima da frase, a chasquear. Estavam a ponto de agarrar-se, quando, borboleteando, um envelope pousou no centro da mesa. Malrora, claramente, foi a primeira a agarrá-lo. Rasgou-o, e tomou posse da carta. “Raios que as partam! Calem-se! A.O.”Esta, ela fez questão de ler em alta voz. Então, soltando uma gargalhada, uma das moças exclamou: -Veja só! O fantasma deu-se ao trabalho de fechar uma carta, selá-la, para mandar-nos, apenas, cinco palavras! – Mal selara os lábios, e, sobre sua cabeça, caíra um pequeno candelabro. -Ele zangou-se! Cala-te! -Cale esta maldita boca, mulher! – Uma delas, a ponto de uma síncope, exclamou. – Malrora, quem é o remetente? -A. O. – Disse a moça, intrigada. “A.O? Quem é A.O? A última carta que recebi possuía remetente F.O” -A. O? Estranho! -Pois bem! Parece-me, então, que o fantasma trocou o pseudônimo. -E qual era o outro? – Perguntou Malrora, inocentemente. -Ai, Deus! F. O, anta! -O que vem de baixo, caríssima, não me atinge. Exceto, evidentemente, um formigueiro. – Sorriu Malrora. Logo depois – Ou então, ele tem um ajudante. – Disse, quando lembrou-se, novamente, do diálogo. Ergueu-se, então, para procurar Meg. E se fosse realidade? E se o fantasma possuísse algum ajudante? Este AO, então, cantava os duetos que ela escutava. Ele atirava água nas coristas, e escondia os instrumentos! O Fantasma da Ópera, então, era FO, que havia enviado-lhe uma carta, com o enigma! AO seria, apenas, uma forma de proteção! Como tudo estava claro! Como estava! No entanto, o que não estava claro, era o porquê. Que fim tinha isto? Para quê? Sumiu-se na escuridão de alguns corredores, até ganhar os bastidores da ópera. Lá, encontrou Meg, que buscava algo. Adiantou-se, e tocou o ombro da amiga. -Meg! -Malrora! Enfim, despertaste! Que há? Aconteceu algo? – Indagou ela, graciosa. -Não... Bem, em realidade, recebi uma carta! Sim! -E...? – Balbuciou Meg, não alcançando a intenção de Malrora. -Ora, Meg! É de remetente AO. Parece-me, minha cara, que o tal fantasma, se é que existe, possui um ajudante. Ou, então, trocou de pseudônimo. -Como é? Venha cá! – Sussurrou a outra, puxando Malrora. – Como supôs isto, srta. Morisset? -Qual, menina! – Pilheriou ela. – É claro. Lembra-te de quando os instrumentos anuviaram-se? Pela primeira vez? Não disseste que o próprio fantasma nunca esconderia aquilo? Pois então! Quem escondeu, em realidade, fora AO. Lembra-te daqueles duetos que escuto? E das vozes imperceptíveis que escutamos? São de AO. O fantasma, na verdade, está, apenas, protegendo-se! Claro como cristal! -Ora! Que detetive! Mas, Malrora, não faz sentido. O fantasma da ópera nunca necessitou de ajudantes! -Isto, já desconheço. Porém, prefiro acreditar em minha versão! É mais excitante! – E sorriu-se, dando pulinhos. – Agora, tenho dois mistérios a resolver. Se isto, realmente, é obra de um tal fantasma, e, se for, quem é seu ajudante! -E... Por acaso... Faz alguma idéia de quem seja?

-Bem...