A Face Protetora
4 Pequenos sustos, ou...?
Desde todos os estranhos acontecimentos, transcorreram-se duas semanas, sem que ninguém revirasse o tema do polêmico Fantasma Da Ópera. Todavia, nestas mesmas duas semanas, ocorriam coisas estranhas, rumores no camarote n° 5, apetrechos de bailarinas, sem motivo, desaparecidos, sombras nos corredores, vozes nos dormitórios, enfim! Nada que, de fato, assustasse os mais lúcidos. Malrora estava a festejar! Após disputar o papel principal de “Rosas e vinho”, com Carlota, foi escolhida! Estaria lá, no palco, deslumbrante e deslumbrada! Não poderia estar em outro auge, a não ser no de sua felicidade, e prazer. No camarim, as meninas estavam, aflitas e ansiosas. Era ensaio! Ensaio de estréia! -Deus! Estou aflita! – Exclamou Malrora. -Tu te acostumas! – Riu Meg. -Meninas, preparem-se! Entraremos!- Exclamou uma delas, agitada. Puseram-se em fila, e em pode de sílfide. Ao som do arco, entraram, graciosas. Malrora, obviamente, ocupando o centro das meninas. Era destaque, era a atração principal. Cantavam, rodopiando, quando, a certo ponto da música, uma voz, belíssima e poderosa, cantou mais alto. Estacaram, assustadas, e curiosas. Com os olhares ávidos, puseram-se a buscar o ponto da voz. Vinha de cima. Vinha, praticamente, do teto. Estacaram. -Meninas, meninas! Prossigamos com o ensaio! Não temos tempo a perder! – Exclamou o maestro, intentando manter a ordem. Então, a algum custo, todas as meninas voltaram às suas posições iniciais. Ao término do ensaio, todas se apinharam no camarim, cheias de espanto, e pavor. Malrora e Meg, aflitas, afastavam-se das outras. -Meg! Conte-me o paradeiro de Christine! Estou enlouquecendo! – Exigiu Malrora, em baixo tom de voz. -Deus! Vais enlouquecer-me! -Se não contar-me, morro! -Tudo bem. Porém, tem de prometer-me que não vais comentar com ninguém. É perigoso! Christine tem uma reputação a zelar, Malrora! -Tudo bem, tudo bem. Além do mais, para que o faria? -Então... Após raptá-la, o fantasma exigiu que Christine ficasse com ele. Sabes como? Ameaçou matar Raoul, sim! Perante os olhos da pobrezinha! Então, ela não sabia o que fizesse. Pouco depois, teve brilhante idéia! Beijou-o, e, então, ele, sentindo compaixão, deixou-a partir. Pelo menos, foi o que ela contou-me. Hoje, casou-se com Raoul. Mudaram-se para a Inglaterra. – Disse Meg. Malrora, suspirando, disse: -Como ela contou-lhe, Meg? -Mandou-me correspondência. -Oh, sim. Então... Eu poderia mandar-lhe uma carta, também! -Malrora, o que eu disse-lhe? Não façais isto! Ela possui um marido, uma casa, e uma vida feliz. Se o fizer, pode estremecer seu casamento! -Tens razão, Meg... – Suspirou Malrora, com certa falsidade, que não foi percebida. — Sabes o que penso? É melhor, menina, não falarmos sobre isto. Fiquemos caladas, e tudo se tranquilizará.- Com isso, retirou-se. Pensou em procurar Madame Giry. Porém, esta poderia desconfiar que o segredo havia sido corrompido. Então, calou-se. Chegou ao centro do palco, onde estava sozinha. Já era tempo de intervalo, e não precisavam ensaiar. Sentou-se, de pernas cruzadas. Fincou, nas coxas, os cotovelos e, neles, descançou a cabeça. Solfejou, a meia voz, algumas notas. Não se sentia, de forma alguma, em harmonia. Ela precisava, de algum modo, entrar em contato com a tal Christine, ou, até mesmo, ver o Fantasma da Ópera. Este, no entanto, não lhe aguçava a curiosidade. Não cria em assombrações, e, muito menos, gostaria de procurar alguma. Cada momento, senhores, em que pensava nisto, sentia-se uma tola. Christine era a chave. Saberia de tudo o que havia ocorrido. Estava afogada, não sentia, realmente, nada a sua volta. Estava dispersa do mundo, e estranha aos rumores das dançarinas. Continuou nisto, quando uma mão tocou-lhe o ombro. -Malrora?- Disse, lentamente, a voz. Congelando, a menina voltou-se. Um suspiro delicioso, um suspiro aliviado, exalou de seus pulmões, quando viu que era, apenas, uma das companheiras. -Sim? – Perguntou, monótona. -Gostaria de conversar contigo. -Fale. -Por que, estranhamente, tens tanta curiosidade em saber do passado deste teatro? -Quero conhecer o lugar onde vivo. -Não convenceu-me. Parece-me, Malrora, que esta curiosidade... Bem, se me permite dizer... vem do teu passado. Que te afliges? -Veja bem, deixemos claro: Estou aqui, apenas, para cantar. Não posso, não devo, e não quero confissões tolas. Isto não me ajudará em nada. Tu me compreendes. -Tudo bem, Malrora. Perdão, se fui inconveniente. -Não precisas desculpar-se. A bailarina sorriu, arrufada. Ergueu-se, e saiu do palco. Malrora, acompanhando-a com os grandes olhos, sorriu-se, pasmada. -“Mascarade, face of...” – Sussurrou uma voz. Irritada, a moça ergueu-se, dizendo: -Vá assustar crianças! Não percas teu tempo comigo!- Deste ponto, escutou uma risada. Leve risada. Sua espinha gelou, o que obrigou-a a correr. Dia seguinte, fora estréia. Em meio a peça, quando todos atuavam perfeitamente, grandes rumores tomaram a atenção da platéia. Milhares de frontes voltaram-se para o camarote nº 5. Escutavam-se risos, e escutava-se objetos balançarem. Porém, nada viam. A orquestra, então, esmereva-se por superar os ruídos. Quando conseguia, a platéia normalizava-se, e prendia a atenção à peça. Porém, minutos depois, o bulício retornava, e inquietava aos atores. Olhava-se, nada via-se. Passaram-se alguns dias. Os instrumentos haviam desaparecido. Procurou-se por toda parte; nada encontrou-se. Carlota, então, estava mais aborrecida que qualquer um. Só havia uma suposição: O fantasma havia retornado. Isso, caríssimos, era o que uns pensavam. Já não era, necessariamente, verdade, de acordo com Meg e Madame Giry. -Não pode ser! Este não é o estilo do Fantasma. Ele não fazia assim. As coisas que escondia não eram tão importantes. Sem piano, sem instrumentos, não poderemos ensaiar, e não poderemos apresentar-nos. Malditos serventes exibidos!- Dizia Meg. -Meg! – Malrora chamava. -Malrora? Por que faltaste ao ensaio, e... -Preciso dizer-lhe algo.- Ela disse, com o semblante perturbado. Percebendo-o, Meg olhou em volta, e, discretamente, perguntou: -Que há? Tem algo a ver com o fantasma? -Não sei, ao certo. Venha.- Chamou a moça. Meg seguiu-a, cautelosamente, até um espelho. -Deus! O camarim de Christine. Depois que ela se foi, tudo tornou-se tão triste! -Deveras? – Perguntou Malrora, observando a sua volta. Meg, tristemente, confirmou, balançando a fronte. – Vê aquele espelho? -Vejo. O que... Oh, meu... Não digas que entraste aí!- Balbuciou Meg, assustada. -Então... sabias deste lugar? -Bem... -Ora! Por que não me disseste? Que há lá? -Não posso dizer. -Meg, diga! O segredo está rompido, conte o restante! -Malrora, eu... – Começou, baixando os olhos. – Fora a meses... A última ocasião em que... – Olhando, novamente, para Malrora, percebeu que, no espelho, algo se movia. Seu coração pulou, e um frio percorreu sua espinha. -E então?- Malrora perguntou, ansiando por saber o resto. No entanto, percebeu as feições de sua amiga. No mesmo momento: — Que há contigo?
Meg, então, só pode apontar, com o dedinho, para o espelho. Recobrando a consciência, agarrou o braço de Malrora, antes que esta pudesse virar-se, e correu, com ela, do camarim.
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