A Face Protetora
14 Então, é hoje! A Cartada final!
...No quarto, naquela belíssima cama, encontrou um anel. Um belo anel. Um belo e perigoso anel, que ela reconheceu ser o anel de Albine. Agora, ela estava certa! Meg, certa vez, contara-lhe sobre aquele lugar. Aquele, então, era o esconderijo do fantasma! A amásia e ajudante do fantasma (Se é que este existia), na realidade, não era, ninguém mais, ninguém menos, que a própria Albine Olins! Ah! Malrora enchia-se de orgulho! Agora, parecia uma detetive! Sim! E sorria, ria, segurando o anel. Então, apressada, segurou Psiquê, correndo dali. Agora? Ah! Agora, Albine veria! Malrora humilharia ela perante todos, mostrando as evidências, e as pistas. Nestas idéias, então, ela deixou o local, encontrando os bastidores, e tudo em ordem, como sempre deveria estar. Ou, então, era o que todos queriam aparentar. O restante do dia, então, correu como normalmente. Ensaios, surpresinhas aqui, e ali, burburinhos, duetos, etc. Todos, inexplicavelmente, sem a presença de Albine. Agora, Malrora apercebia-se de uma coisa. Era raro, nos momentos de sustos, que sua rival estivesse presente. Este pensamento, então, deu-lhe mais clareza de que, com toda a certeza, era ela, sim, a amásia e ajudante do fantasma. * * * Narciso estava sentado em uma cadeira, com as mãos na cabeça. Com certeza, pensava num modo de levar, dali, Malrora. Já que não seria por bem, seria por mal. Seus olhos, então, ardiam, em irritação e crispação. -Ah! Levarei, de qualquer modo, Malrora! E já sei como! – Então, ergueu-se, e caminhou até o portão da Ópera. Sorrindo, malicioso, ele tomou sua carruagem, e pediu que seguissem à polícia. * * * À noite, então, quando estavam, todas, no dormitório, reunidas, Malrora correu até Meg. -Meg! -Ora, Deus! Que há? – Impacientou-se a menina, prevendo uma longa noite. -Não podes imaginar o que descobri! -O que? – Perguntou, sentindo-se interessar. -Sabes da Casa do Lago? Já me relataste sobre ela, lembra-te? -Sim, lembro-me... Oh, não! Não digas que voltaste lá! -Digo, sim! E digo, cara minha, ainda mais: Encontrei uma prova. Uma grande prova, de que Albine é a culpada. -Do que estás a falar, Malrora? -Deste anel! Vejas, é o anel de Albine! Estava, exatamente, em cima daquela bela cama. -Deus! Malrora, isso, então... -Sim! Isso, então, prova que Albine é a ajudante... E amásia do Fantasma! Claro, pois, o anel fora encontrado na cama, não? -Sim, mas... Não fales nada, ainda! Esperemos que ela seja pega! -Há! Achas, minha cara, que deixá-la-ei livre? Nunca! Ela, que me fez passar por tantos dissabores! Amanhã, mesmo! Terei com ela! – A menina exclamou. Então, não querendo escutar o que Meg tinha a dizer, correu para a cama. Nem preparou-se para dormir. De qualquer modo, sabia que seus ouvidos teriam a visita do curto dueto. Porém, o que ela escutou, afinal, não fora isso. Fora, sim, outro pequenino diálogo, o qual, caríssimos, transcrevo-vos aqui: “-E talvez, esta noite, nós voaremos pra tão longe...
-Estaremos perdidos, então, antes do amanhecer...” -Cretinos! – Pensou Malrora, sorrindo. Aconchegou-se, então, para baixar as pálpebras, quando... “-Amanhã, então! Será minha cartada final!” -Como? – Surpreendeu-se a menina, com os olhos perdidos. – Deixe estar! Antes disto, eu a desmascararei! Ora! Ela que se deixe! – Então, dormiu. * * * O dia amanhecera frio, gélido. Tanto, que algumas bailarinas, sequer, conseguiam erguer-se. Apenas Malrora, aflita, caminhava pelos corredores, a procura de seu gato. Corria, então, de um canto para outro, quando pôde encontrá-lo. Alçou-o nos braços, e apertou-o contra o peito. -Psiquê! – Ela exclamou, amuada. –Poderia estar desaparecido, sabias? – Acariciou-o. De repente, ao lançar um olhar à porta do dormitório, viu que as meninas haviam despertado. Ansiosa, correu até elas. –Então, é hoje! Que será que Albine tem, agora, para surpreender-nos?Antes mesmo, então, de ajuntar-se ao caminho das outras, correu ao quarto, e buscou o anel, guardando-o num bolso do leve vestido. -Malrora, que está fazendo aí? Temos pouco tempo! Venha ensaiar! -Tudo bem, Meg, tudo bem! Vamos!- Disse a outra, correndo do lugar. A frente do palco, ia Carlota, em despeito, até que, triunfante, Malrora retirou-a do posto. -Queria que quebrasses a perna!- Exclamou a derrotada, bufando. -O que me desejas, desejo-te em dobro. – Sorriu a protagonista, piscando. Após, então, da cena que já conhecemos, Malrora deixou o palco, exausta. Precisava recompor a voz, e o fôlego. Sentou-se a um dos espelhos, e observou sua imagem. Como era pálida, meu Deus! Se sua mãe não possuísse o mesmo tom de pele, pensaria que estava doente. Muito doente. -Albine! – Ela chamou, vendo que a menina deixava o palco. -Sim, prima donna? – Ela perguntou, em cáustica ironia. -Preciso falar contigo. Quero que venhas comigo. – A moça disse. Erguendo-se, acenou para a outra, que seguiu-a. Seguiu-a, sem deixar, no entanto, a arrogância. Passando por alguns corredores, até acharem-se isoladas, Malrora aproveitou. – Albine... Quero dar-te um conselho: Quando fizeres algo de errado, tente não incriminar os outros. Sim. Tente, também, não ofendê-los moralmente, como fez, e... -Que pretendes com este prólogo? -Ora! Que audácia! Como ousas, menina? Eu e tu sabemos, claramente, que tu és a ajudante fantasma. Tu és AO, não é, Srta. Albine Olins? Ah! Em pensar que, muitas vezes, culpou a própria Christine, pobrezinha, que nada tem a ver com isto! Como ousa? Tantos ensaios atrapalhados, tantas pessoas preocupadas, tantos acidentes causados... por você? Agora, como se não bastasse, quer tirar-me, a qualquer custo, da Ópera, para que eu não ofusque o brilho de vocês, coristas! Primeiro, os duetos, depois, os risos e barulhos. Então, as cartas! Agora, felizmente, deixastes aparecer! Tola! Não contavas comigo, não? A maior vítima das tuas trapaças, e dos teus truques! -Curioso, Malrora. De repente, passastes a crer em fantasmas, não? -Não fujas o assunto, sujinha! Pensastes que poderias enganar-me? Ora! Como és tola! Não contava que eu descobriria o teu anel – e tirou-o do bolso – na cama do nosso “queridíssimo” espectro. Agora, minha cara, vais pagar por estes sustos, e por estes acidentes! Quantas estréias atrasadas! Deus meu! Mas, agora, ah! Agora... Albine escutava, então, paralisada. Não poderia acreditar no que estava escutando. -Malrora... Não sei do que estás a falar! -Imunda! Cala-te! Não adianta! Não podes escapar! Venha! -Malrora! Que estás fazendo? – Perguntou Meg, assustada. -Estou desmascarando esta porca, Meg! É tempo de pagar por tudo! -Malrora, acalma-te! -Malrora! – Chamou uma voz masculina. Então, escutaram-se muitos passos, até que, assustadoramente, Narciso parou, ali, em frente a elas, com muitos policiais. – Avisei-te. Não é por bem? É por mal! -Narciso! – A menina exclama. -Vá com teu marido, vá, Malrora. Vá, e deixe-nos em paz! Houve um instante de silêncio. Malrora estava boquiaberta, e paralisada. Narciso, então, adiantava-se, para agarrá-la, quando: -Malrora... CORRA! – Gritou Meg, empurrando-a. As moças, então, cortaram os ares, correndo e pulando. Correram, correram, correram, até que se perderam dos outros policiais. – Entre ali! Rápido! Vá! – Murmurou, enfiando a amiga em uma passagem, que ficava atrás de um quadro. – Vou espiar, já retorno! Enquanto isto, Narciso procurava-a por alguns muitos corredores: -Malrora! Malrora! Não podes fugir, criança! – Ele gritava, furioso. Olhou em alguns dormitórios, sem sucesso. Então, quando estava a sair de um deles, avistou uma sombra. – Malrora?! Volte aqui! – A sombra, porém, adentrou uma porta. Narciso, mais que depressa, seguiu-a. O quarto, então, que a sombra havia adentrado, era o camarim de Christine. Obviamente, ela entrava no espelho, e saía correndo. Narciso, então, furioso, correu atrás dela, levando uma tocha. Meg, que espiava por um buraco, encheu-se de pavor. Ele poderia machucar-se, se o fantasma estivesse lá embaixo. Correu, então, até o esconderijo de Malrora. -Malrora! Narciso adentrou o espelho! Está a caminho da casa do lago! Ele vai ferir-se! -Oh, não! Eu o amo, não o quero morto! – Assustou-se a menina, enxergando a gravidade do fato. Num pulo, saltou o quadro, e correu, com Meg, dali. Seguindo o mesmo caminho do ex-marido, foi parar em frente ao lago. O bote não estava ali. -Malrora, há outra forma! Venha!- Gritou Meg, abrindo uma pequena passagem na parede. Caminharam por um escuro corredor, quando, finalmente, adentraram a casa do lago. Porém, por outro espelho. Súbito estremecimento e pavor, então, tomaram conta de Malrora, quando ela pôde avistar o que estava à sua frente.
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