A Face Protetora

10 Dormindo com o passado.


Suas pálpebras pesavam, à resolução do sono, quando ela pôde escutar. Escutar sussurros. Encheu-se de pavor, mas intentou escondê-lo. Então, dormiu, suando seus próprios desapegos. O dia amanheceu chuvoso, e, realmente, muito frio. O vento, debatendo-se contra edifícios e grandes casas, uivava, sombriamente. Para Malrora, que possuía natureza típica de morbidez, era uma manhã perfeita! Perfeita, até que... -Srta. Malrora!- Disse Giry, aproximando-se da menina, que retocava as peças do vestuário. -Que há? – Perguntou a outra, em sua seriedade costumeira. -Venha, comigo. – Madame Giry recomendou, e Malrora seguiu-a, sem demonstrar curiosidades. Seguiram à grande porta da Ópera, e, apenas, até lá; Logo que nossa protagonista viu, pois, o que a esperava, caiu, sem sentidos, nos braços de sua professora de dança. -Não te preocupes, madame. Malrora fora, sempre, assim. – Disse Narciso, seu ex-marido. * * * Leve torpor preenchia-lhe o tato, quando ela pôde despertar do desmaio. Não podendo observar sua volta, acariciou a cama, procurando algo. Então, como se uma agulha lhe ferisse o a palma da mãozinha, crispou-a, tirando-a, rapidamente, dali; havia tocado a mão do ex-marido. Por isso, a repulsa. -Que estás a fazer, monsieur? -Avisei, não te lembras? Vim buscar-te! -Ora, vá ao inferno! -Venha comigo. – Ele sorriu, irônico. Lentamente, aproximou as mãos do rosto dela, que voltou-o para outro lado. Em seus gestos, como ele pôde perceber, havia um imenso nojo, e ódio. -Não voltarei contigo, Narciso. Não me peças. -Não peço, Malrora. Não preciso pedir. Sei que vais retornar à nossa casa. Graças a Deus, pude descobrir, exatamente, onde estavas tu. – Pausou. Agora, tomava um timbre doce, e, em mesmo tempo, ardente. – Há quanto tempo, menina, fugiste de mim? E, menina, há quanto tempo, então, que não revelou-me onde estava? Malrora permaneceu em sua posição, com os olhos fitos no chão. Sua respiração era ofegante, e seus rancores assoberbavam-lhe o seio. Ela não podia crer! Como ele encontrara-a? Ela, que fugia, então, há tempos! Há dois anos, caríssimos, que fugia dele! Em realidade, não que Narciso fosse algum monstro, ou maníaco, ou, até mesmo, tarado. Não. Muito pelo contrário, Narciso era um rapaz extremamente doce, extremamente amável, e idolatrava, idealizava Malrora. Mas, ponderemos: Quem, vendo o objeto concreto de seu amor, assim, escorrer-lhe pelos dedos, não tornar-se-ia um membro espavorido, amedrontado, e, até mesmo, obsessivo? Foram dois anos de amargor, de aflição, de consumismo humano. Respirar os lençóis da cama, e não sentir o perfume dela, despertar, e não tê-la, lá, perante os olhos... Tudo! Era um suplício de Tântalo! Dois anos, meus caros, caminhando por um corredor escuro, sombrio, sem a sutil proteção de quem amava... Andando, até quando, não sabe-se quem, enviou-lhe uma nota, uma carta de salvação. A carta que identificava o paradeiro de Malrora! Aquilo? Aquilo era tudo! Ele a teria de volta! A qualquer custo! Ele a teria de volta! Primeiro, ele enviar-lhe-ia correspondências, para preparar-lhe o espírito. Foi, então, em condições de desejo, que partiu, e chegou ali. Agora, ele tinha, diante de sua visão, a menina de seus sonhos. Nada poderia satisfazê-lo, que não fosse ela. -Narciso. Não é viável. Tu sabes. -Até quando, menina, vais negar que ama-me? -Até, que saiba eu, o dia de minha morte! – Ela exclama, dramática. Depois, torna o rosto para o outro lado, para descansar a face esquerda. -Olhes para mim. – Ele sussurrou-lhe, ao ouvido. Escutando-o, ela teve, por ápices de segundos, um pequeno delírio. Porém, não obedeceu-o. – Olhe para mim!!! – O mancebo exclamou, em alta voz. -Narciso, cala-te! O que vão pensar os... – Ela disse, impaciente, enquanto virava a face para ele. Alcançando, com os olhos, o rosto do rapaz, paralisou, e cortou a fala. Como ele havia mudado! Abandonara o frescor do olhar, o frescor das expressões, por olhos de fogo, cansados, e traços arrastados. Por maior ódio que possuísse, não pôde resistir a um laivo de compaixão. Em seu interior, ela entendia o porquê destas contradições. Entendia, e, ao contrário da maioria das garotas revoltadas, não negava. Não, para si mesma! Para quê? Ela amava-o. Esta, então, era a verdade. Podia sentir, nitidamente, seu seio palpitar, e seus ânimos excitarem-se, com aquela doce cadeia, que cingia-lhe o colo. – Narciso, já lho disse, não? Por favor. Não é o momento apropriado. -Não me provoques, anjo...-Ele pediu, e puxou-a para si. Em espécie de delírio, ela sentiu seu busto ser pressionado, entorpecentemente, contra o peito do rapaz, que parecia gelado. -Ai...- Ela gemeu, ao ter contato com o frio.- Estás frio! -Eu estive frio, sim, por dois anos! Mas, agora, este frio passará...- Disse, e deitou-se ao seu lado. Quando o fez, ela vergou a cabeça para trás, deixando o pescoço completamente exposto. Narciso adiantou-se para colar os lábios ali, e o fez. Mas, ao apenas encostá-los, sentiu a temperatura da “esposa”; estava quente como o próprio fogo! -Narciso... -Ela murmurou, e pôs a mãozinha perfeita em seu rosto. -O que houve? Sente-se mal? -Não! E, mesmo que estivesse, não o atrapalharia por nada! -Ela exclamou, com uma voz envolvente, e pôs as mãozinhas em seu colete. Ele percebeu qual era a intenção da garota ao fazer isso, e ajudou-a a desabotoar a peça. -Não diga mais nada... Por favor! Só cubra-me de amor, e cubra-me com a tua pele... Eu venho ansiando por isso há muito tempo... Então, prossiga... Ah! Eu te amo! -Eu também te amo!- Ele a contemplava com olhos rasos de lágrimas. -Dispa-me...- Ela sussurrou, e, com delicadeza, foi desabotoando a camisa do rapaz. Este, sem pressa, abria devagar seu vestido. Foi retirado corpinho e saiote, deixando-a, apenas, com roupa íntima. Como sua pele alvíssima contrastava com o vermelho escarlate do cetim! Ah, e como ela sorria! Delirante, continuou a despir o ex-marido, até que este se encontrou completamente despido. Por um tipo de pudor, ela cobriu-o com o cetim. Ah! Não havia Vênus, ou unicórnios, ou qualquer outra mulher ou anjo que alcançasse a beleza de Malrora. Os cabelos encaracolados e negros fluíam-lhe pelas e espáduas e pelo colo, como numa cascata. Os lábios escarlates estavam entreabertos, e exalavam um perfume delicioso, típico de um anjo. Seus olhos negros e brilhantes estavam cerrados à meio, deixando visíveis suas pálpebras rosadas e seus cílios franjados. Nunca se fixou na tela, nem se lavrou no mármore, tão sublime imagem da tentação, como aí estava encarnada na altivez da formosa mulher. Já delirando de fervor, o rapaz beijou-a no colo, nos braços, no rosto. Ela estava com o corpo quente, como se estivesse com mais de 40°C de febre, e Narciso o percebia, mas não comentava nada. -...Ah...- Ela suspirou, vergando a cabeça para trás, como se fosse desmaiar. Mas, ao invés disto, a moça ria muito, e, com graça, levava os dois braços ao pescoço do marido e dependurava-se ali. -Meu Anjo... -... — Ela simplesmente nada respondia. Parecia inconsciente ou embriagada. Mas, para nossa maior curiosidade, não era o ébrio álcool que corria nas veias da mulher, mas sim a loucura. Era o único a se imaginar! Agia como louca! E ria, e beijava-o fortemente no peito, e, depois, encolhia-se no canto da cama com algum amuo, e o marido tinha de buscá-la novamente para seus braços. -Meu bem, estás me escutando?- Ele perguntou, carinhosamente. -Narciso! Por que não paras de falar? Estás desde o início da noite tagarelando como um pássaro!- Ela exclamou alto, pondo os dedinhos nos lábios do marido, que, com alguma graça, beijou-os. Estava enraivecida agora! Deitou-se do lado inverso ao dele, e cruzou os lindos braços. -O que houve?- Ele perguntou, rindo. -Por que ris? Não há motivos para isso, aqui! -Claro que há! Esta é a segunda melhor noite de minha vida, e minha menina se comporta como uma criança travessa!- Ele exclama, passando um braço à frente o peito da moça, e puxando-a novamente. De forma volúvel e divertida, ela se vira e começa a soltar frases intermitentes e a tagarelar como uma louca. -... E então, que achas? Estás a ouvir-me? O quarto está girando! Me olhas assim por quê? Que estamos fazendo aqui? O que foi? Por que tentas beijar-me?- E abraçou-o carinhosamente- Eu te amo, amo, amo muito! -És maluca! Só podes ser!- Ele exclamou, e encaixou-a em seu corpo. Não foi que a mocinha coube-lhe perfeitamente, como se aquela luva fosse feita para aquela mão? Sim, mas ela ainda estava quente, e delirava nos braços dele. Por que Malrora era tão volúvel em sanidade? — O que houve contigo? Vai dormir?

-... — A moça aconchegava-se ao peito de Narciso, fazendo uma expressão de sono, e encolhendo-se para se aquecer. Ele, antes que ela adormecesse, vestiu-a, e vestiu-se. Afinal, seria grande escândalo.