Notas iniciais
Prólogo da história.
-Christine... Por quê?- Indaga ele, recostando-a na parede. Corre um breve silêncio, um instante inútil de contemplação, até que ela, com voz arrastada e amarga, e um ar repassado de profunda melancolia, murmura: -Não vejo sentido em responder-te algo que, de qualquer forma, só os outros podem fazê-lo. Ouvindo esta, a medida que cabe, singular frase, ele, com tênue violência, arranca-a da pedra. Em quanto isso...-“Mantenha suas mãos à altura de seus olhos...” – Disseram Madame Giry e Raoul. -Me atrevo, apenas, a vir até aqui. Tome cuidado. — Recomendou ela, fixando-se na escada. Raoul, soltando algumas palavras, as quais não vejo necessidade de repetir, retirou-se. Já no lago...Erik contemplava, com semblante acerbo e lúgubre, um anel de brilhantes, quando ouviu a voz de Christine: -Já tendo saciado, em outros, teu desejo por sangue, quer saciar, em mim, teu desejo pela carne?- Tendo ela dito, procurou, voltando o rosto, a silhueta da moça, que trajava um vestido de noiva. -O destino que me obrigou a ser infeliz no sangue, — Disse, com voz trêmula, caminhando para ela. - também me negou a ventura dos prazeres da carne. - Então, tentou tocar, com a mão, o rosto da menina. Debalde, ela desviou-o. Ele, digamos que aproveitando, acariciou-lhe, mansamente, uma mecha de cabelos. -Este rosto, esta infecção, que envenena o amor entre nós, também recebeu o repúdio, o medo materno, e me fez ter, como primeira peça de roupa, uma máscara. — Continuou, pondo, sobre a mimosa fronte de Christine, um véu nupcial. - A piedade chega tarde, então, vira-te, e encare o teu destino: uma vida inteira disto- Aponta o rosto — perante os teus olhos. -Pegando a mão da menina, coloca, nela, o anel que observava antes. Esta, estupefata e abatida, retira o véu, indo até um espelho, e retirando um elegante pano que o cobria:

-Esse assombroso rosto não mais me amedronta. É em tua alma, sim, que a verdadeira deformidade repousa. *Às vezes, perdemos a cabeça. É natural. Ser diferente é normal. Porém... temos de tomar cuidado. Cuidado para que nossos defeitos não passem os limites. Era o que você devia ter feito.

Há um breve silêncio. Breve, breve. Breve como a luz, quando Raoul aparece por trás da grade. Quando Erik o avista, diz, sarcasticamente:

-Espere! Penso eu, minha querida, que temos visita!

-Raoul!

-Não poderia ser melhor!(...) Noite perfeita!

-Liberta-a! (...) Liberta-a!

-Que pedido apaixonado!

-Raoul, é inútil!

-Eu a amo! Não significa nada? Eu a amo! Mostre alguma compaixão!

-O mundo não mostrou-me nenhuma compaixão!

-Christine, Christine! Deixe-me vê-la!

-É um prazer, senhor. — Erik diz, puxando uma alavanca, que abriu as grades do lugar. Assim, Raoul adentrou, e o fantasma foi a seu encontro. - Christine não correu risco! Por que eu a faria pegar, então, pelos pecados que são teus?

As grades se fecham e Raoul volta-se, para percebê-lo. Então, Erik pega uma corda, e joga sobre o rapaz, atando-o nas mesmas grades que se abaixaram:

-(...) Nada poderá salvá-lo, a não ser Christine!- E a olha. A moça, que, outrora, observava a cena estupefata, tem ímpetos de correr até lá. — Diga que me ama, que será minha, e ele viverá. Diga que não, e ele sucumbirá. Esta é a escolha! Este é o ponto que não possui volta!

-*Quer mesmo errar novamente? As lágrimas que eu vertia pelo seu triste destino, se tornam, agora, lágrimas de ódio!

Escutando isto, ele (Erik) busca outra corda. -Christine, perdoa-me, perdoa-me!- Raoul pedia, enquanto ela lamentava-se. Erik voltava com a corda, dizendo:

-Já não é tempo de lamentar-se, e pedir compaixão.

-Anjo da música, você me *decepcionou! Eu entreguei-lhe minha mente, e sem protestar! -Não abuse de minha paciência. Faça sua escolha!- E ele puxa a segunda corda, que havia amarrado ao pescoço de Raoul. Ela fita o semblante de seu noivo, ainda preso à grade, e, *arqueando as sobrancelhas, volta o rosto para o, tão diferente agora, fantasma da ópera. -Pobre criatura das trevas, que vida conheceste? Deus deu-me coragem para mostrar, mostrar verdadeiramente, que não estás sozinho. –Dizendo-o, ela se aproxima e, vagarosamente, o beija. Em um momento, bastante breve, ela fixa o olhar no rosto dele. Por qualquer razão, que, no momento, desconheço, ela sabia que ele estaria chorando. Roçou-o, com o lábio trêmulo. Agora, o gesto demora um pouco mais. Quando, então, as faces separam-se, as lágrimas descem em abundância, assim, pelo rosto de Erik, que, fúnebre, diz: -Vá, fique com ela. Esqueça-me. Esqueça tudo isto. Vão, não deixem que eles os encontrem. Vão, e prometam-me que nunca revelarão o segredo que sabem. Que sabem, sobre o anjo do inferno. –Se afastando, então, ele sobe a escada da casa do lago. Christine, mais que depressa, desamarra Raoul, e este abraça-a. Erik, observando de cima, não pode conter esta exclamação: -Vão, agora! Vão, agora, e deixem-me! O noivo de Christine, aliviado pelo término do perigo, soergue-se para beijar a face da menina. Logo depois, os dois partem.