A Face Oculta Da Lua
6 Primeiro Dia De... – Parte I – A Dor Do Corpo
Notas iniciais
Alice pulava com um pé só pelos corredores escorregadios e frios da Liga, tentando calçar uma espécie de sapatilha ao mesmo tempo em que se esforçava em uma corrida completamente inútil para alcançar Ducard. Inútil e frustrante! O ninja parecia simplesmente ter evaporado pelas paredes... assim que a hippie conseguiu envolver completamente o pé por aquele calçado, começou a andar um pouco mais apressada, deixando de lado o protesto de suas pálpebras que pareciam recusar-se a permanecer abertas.
_ Não estrague tudo agora, sua hippie preguiçosa! Tudo o que aquele Barbicha mais quer é encontrar motivos para jogar na sua cara o quanto você é incapaz de passar por esse treinamento – aconselhou a si própria, mesmo sentindo-se invadida por uma tentação absurda de dar meia volta e mergulhar de cabeça na sua nova cama.
Desceu em uma caminhada acelerada pela enorme escada circular que dava acesso ao seu aposento, pulando dois degraus de cada vez com a pressa de chegar logo ao térreo. Estava estupidamente cansada, mas ao mesmo tempo sentia-se grata por distrair a sua mente de tudo o que mais a perturbou desde que forjou a própria morte. Alice queria uma nova chance para si mesma, e daria tudo de si para se livrar das correntes incômodas de seu passado...
Finalmente seus pés pularam os três últimos degraus, e Alice pôde sentir o quanto ofegava pelo esforço imposto ao seu físico tão molenga pela fadiga... antes de dar início a uma nova corrida para o lugar em que Ducard a esperava, Alice dobrou de leve os joelhos, escorando brevemente suas mãos nas próprias coxas, respirando fundo algumas vezes com certa dificuldade.
_ Tudo bem, você consegue! – voltou a falar sozinha, ainda naquela posição e de olhos fechados – por mais que Ducard pareça um ninja sádico que nunca é capaz de enxergar o quanto os seus atos têm potencial para o desastre, quem sobreviveu ao Coringa consegue passar ilesa por qualquer um! – tentou se animar com aquela verdade deturpada, mas só foi capaz de soltar uma careta com o próprio comentário traiçoeiro.
Balançou a cabeça tentando espantar os receios que pareciam não querer deixá-la seguir em frente com a plenitude de suas decisões e, suspirando, dirigiu-se até a enorme porta principal da Liga para finalmente dar início aos novos desatinos que certamente já a esperavam. Há apenas alguns passos, junto com Ducard.
Assim que Alice abriu a porta, um vento gelado carregou alguns flocos de neve para dentro da Liga, sujando o chão antes impecavelmente limpo. Ela fechou a porta com cuidado atrás de si, reparando na postura enrijecida de Ducard... ele estava há vários metros de distância, de costas para Alice e com as mãos cruzadas atrás de si, como se apenas apreciasse a paisagem gélida das montanhas que os cercavam por todos os lados.
A hippie deu um sorriso travesso ao vê-lo tão distraído dentro de seus próprios pensamentos, parecendo um alvo fácil demais até mesmo para ela. Alice agachou-se cautelosamente sobre a neve espessa e improvisou uma pequena bola branca e úmida com todo o gelo depositado sobre o chão, caminhando vagarosamente até o ninja, diminuindo a distância entre os dois na ponta dos pés e levantando cada vez mais a bola de neve que segurava à medida que conseguia se aproximar sem que ele percebesse.
_ Você precisaria de uma vida inteira de treinos para conseguir me surpreender – Ducard cortou o silêncio, ainda de costas para uma hippie completamente frustrada e perplexa. Ela lançou um olhar irritado para a bola de neve, jogando-a fora por trás de seus ombros – Você está atrasada – o ninja comentou, finalmente virando-se na direção da aluna para encará-la.
_ Culpa sua e daquela escada interminável – bufou, cruzando os braços – instale um elevador ali e marque os treinos com um pouco mais de antecedência ao invés de cretinos três minutos que eu prometo ser pontual, palavra de escoteiro! – Alice levou a mão ao peito em um sinal respeitoso mais do que exagerado e debochado.
_ Uma das coisas que eu mais prezo como Ra’s Al Ghul é o envolvimento daqueles que eu tenho como aluno com o treinamento – avisou – por isso, atrasos não serão tolerados sob qualquer justificativa, que isso não torne a se repitir – seu tom foi irredutível, mas não parecia irritado.
_ Perdoe essa reles mortal, óh, Barbicha Suprema! – Alice riu.
_ Eu devo lembrá-la que você deve se referir a mim como Mestre! – brigou, mas sua feição parecia a mais bem humorada que Alice já vira. Sem dúvida alguma, Ducard estava radiante por finalmente ter retornado à sua antiga vida. Parecia sentir-se completo novamente, apesar de parecer disposto a manter a postura ranzinza de sempre.
_ Não vamos entrar nessa discussão de novo... eu não quero fazer parte da Liga das Sombras quando tudo isso acabar, portanto o seu posto de “Mestre” comigo é temporário... e sinceramente, “Barbicha Suprema” parece muito mais respeitoso para mim, além de soar forte – piscou, ainda rindo.
_ Você demonstra descaso e arrogância, espero que possa compensar essas atitudes presunçosas nos treinos! – lançou, como um desafio.
_ Mete bronca, colega! Eu sou um tipo de “Karatê Kid” do Kung Fu! – gabou-se.
_ Que bom, mas o Kung Fu de nada vai lhe servir aqui – sorriu ao ver a expressão de Alice murchar na mesma hora – o seu progresso será analisado na espada – avisou – e somente depois cogitaremos um possível embate corpo a corpo.
_ Espada? – a hippie franziu a testa – É uma piada, certo?
_ Por que seria? – o ninja a incentivou a prosseguir, pegando duas espadas orientais longas que estavam apoiadas em um tronco morto e apodrecido daquilo que um dia foi uma árvore.
_ Porque a Idade Média já ficou para trás há um bom tempo – começou a argumentar, listando nos dedos todos os itens que faziam daquela opção uma opção contestável – porque ninguém hoje em dia usa esse tipo de arma, e porque isso é um treino, o que sugere que não deve haver ferimentos causados por lâminas...
_ Nós usaremos a espada... – Ducard jogou uma das armas na direção de Alice, que a pegou ainda no ar de forma estabanada – ... porque através dessas armas nós somos capazes de medir não apenas a nossa própria força, mas também a força e a destreza do oponente. Porque se você se tornar capaz de superar uma luta com um espadachim, qualquer outro embate se torna mais fácil, e porque a perspectiva de ferimentos mais graves é o que confere competência ao treino – explicou a uma Alice boquiaberta.
_ Confessa, o Coringa te contratou para me matar depois de várias torturas, não é? – arriscou um palpite, que a cada minuto lhe parecia mais certeiro.
_ Se fosse verdade, ainda assim não deixaria de ser um método eficiente de treino – sorriu, apontando sua espada para a hippie.
_ Ok, espera só um segundinho então – disse, fincando a extremidade da lâmina no gelo e começando a enrolar o cabelo em um coque improvisado.
_ Jamais largue a sua arma quando estiver sob uma ameaça! – Ducard a advertiu, pressionando dolorosamente a ponta larga da espada um pouco abaixo do queixo de Alice.
_ Tudo bem, mas no momento não existe ameaça nenhuma, porque isso é só um treino, esqueceu? – lembrou-o, surpresa pelo modo com que ele parecia levar tudo aquilo a sério demais.
_ Eu sou seu inimigo agora, e é bom que você me veja e me trate como tal se quiser ter a oportunidade de realmente me enfrentar – Ducard desviou a lâmina do pescoço nu de Alice e desferiu um golpe em seu braço, rasgando a manga da túnica e deixando um corte superficial de aproximadamente cinco centímetros abaixo de seu ombro esquerdo.
_ Agora essa porra ficou séria! – Alice olhou incrédula para o corte rosado que se destacava em seu braço embaixo da túnica rasgada – Essa era a túnica menos esquisita daquele maldito armário – rosnou, segurando novamente sua espada e indo para cima do ninja.
Ducard estava errado... a experiência de Alice no Kung Fu foi a única razão da hippie não ter virado picadinho com os golpes precisos e fortes do ninja. Apenas graças ao seu reflexo já aperfeiçoado pelo treino nas artes marciais, ela conseguia evitar as ofensivas tão bem elaboradas do habilidoso espadachim.
Se a hippie não estivesse tão concentrada em desviar, agachar, pular, e algumas vezes estancar as investidas de Ducard, sabia que se fascinaria ao vê-lo lutar. Ele parecia crescer com aquela espada desferindo com perfeição os golpes que sua mente elaborava. A imaginação do ninja parecia ser o único limite de seus braços ágeis...
Ele deixava que a sua arma falasse por ele em cada golpe, extravasando doses certas de emoções, força e agilidade, de uma maneira tão competente que Alice nem poderia sonhar em um dia superá-lo...
Enquanto Ducard parecia apenas fazer uma dança elaborada em volta da aluna, Alice não podia sentir-se mais desajeitada e ridícula naquela condição. Tentou esvaziar a mente de seus movimentos sempre medíocres e lentos, concentrando-se apenas no som agudo de lâmina contra lâmina.
Aos poucos a hippie foi acostumando-se com o peso da espada, e isso permitiu que a arma respondesse melhor aos seus comandos, que não fizesse dos seus movimentos algo tão grosseiro e amador quanto as primeiras oscilações frustradas e patéticas que improvisou com a lâmina. Suas duas mãos um pouco trêmulas seguravam a arma com uma força muito além da requisitada, deixando claro o quanto ela era principiante no assunto. Ducard avançava impassível na direção de Alice, e tudo o que ela podia fazer era retroceder, ceder por cada espaço que o ninja conquistava de seus pés.
_ Segure a espada apenas com uma das mãos – Ducard falou com a voz perfeitamente controlada, como se o exercício intenso não afetasse em nada a sua respiração – se você continuar lutando com essa tensão, em breve será derrotada por si mesma por fadiga muscular – avisou, sem nunca parar de investir contra Alice.
_ Eu não vou conseguir aparar os seus golpes se usar a força de apenas uma mão... – ela ofegou um pouco, sentindo mais do que nunca o quanto o ar naquela porção alta da montanha era rarefeito e insuficiente.
_ Não se trata apenas de força! Você tem que encontrar a sua zona de conforto durante a batalha, precisa de muito mais do que brutalidade avulsa para enfrentar um mestre de espadas – comentou, quase casualmente – Agora, passe a espada para uma única mão! – repetiu a ordem.
_ Você vai me despedaçar! – Alice protestou, quase caindo enquanto ainda retrocedia sem ver exatamente onde pisava.
_ Faça o que eu mandei, Alice! – o ninja rosnou entre dentes, dando um tom de impaciência à sua voz.
A hippie gemeu antes de deixar que somente sua mão destra segurasse a espada e arcasse sozinha com os movimentos perfeitos de Ducard. Assim que a nova ofensiva veio em sua direção com rapidez, ela ergueu a espada para a direção do golpe e fechou os olhos, ciente de que logo em seguida a dor viria.
Surpreendeu-se ao perceber o quanto foi mais fácil evitar o choque da lâmina em seu próprio corpo ao aceitar aquela ordem do ninja. Ao ajeitar a espada em apenas uma das mãos, a tensão de seus músculos foi drasticamente reduzida e pareceu-lhe bem mais simples desviar-se dos golpes com a metade esquerda de seu corpo completamente livre e razoavelmente mais leve.
_ Melhor, bem melhor! – Ducard aprovou, parecendo satisfeito com aquele pequeno progresso – mas você ainda está pensando muito antes de agir, deixe que sua espada seja guiada pelo instinto!
_ Você devia dar graças aos deuses dos ninjas por eu conseguir me manter de pé, Qui-Gon Jinn! – resmungou, esboçando um pequeno sorriso com a referência feita – Cada parte de mim pede por um descanso! – Alice decidiu investir contra Ducard pela primeira vez, mas foi uma tentativa ridícula, evitada por um simples desvio do ninja, sem qualquer esforço de sua parte.
_ A mente sempre tem que estar no controle do corpo, Alice! – disse, investindo de volta com uma agilidade e precisão espantosas, como que para mostrar o jeito certo de se fazer. O golpe saiu exato até demais, e uma nova mancha vermelha apareceu abaixo do pescoço da hippie e acima de seu peito. Ela encarou o ferimento recente com frustração, mas logo sua atenção foi novamente desviada para a espada de Ducard, que não parava de se mover contra ela nem por um minuto – Aprenda a ignorar os protestos de seu corpo, só assim você será capaz de comandar com plenitude a si mesma, e nenhum cansaço físico poderá atingi-la durante um confronto! Os seus oponentes podem dilacerar o seu físico, mas a sua mente... esta cabe apenas a você liderar!
_ Isso não é muito lógico... – a hippie ofegou enquanto Ducard ainda brandia a sua espada com uma energia inesgotável para cima dela – a mente sempre vai ser afetada pelas enfermidades externas.
_ Não se você aprender a dominá-la. Tornar-se a dona de si mesma e decidir o que fazer com um corpo que, na realidade, nada mais é do que um amontoado de carcaça comandado pelo seu cérebro. Aproveite-se desse comando e torne as suas vontades reais... Ou, continue subestimando o poder da mente e mantenha a sua fraqueza no controle.
_ É que não parece um conceito muito fácil de se aplicar – Ducard cortou o ar lateralmente em direção à cintura de Alice, mas o movimento foi bloqueado de última hora, impedindo um novo hematoma que certamente seria o mais grave, e fazendo com que o contato brusco entre as espadas provocasse um sonoro baque agudo – como pode ser possível ignorar o corpo, se a minha própria mente me diz que o sensato é protegê-lo da exaustão?
_ Essa força você precisa achar dentro de si mesma. Apenas as suas motivações podem levá-la à perfeição de seu autocontrole, nenhuma lição pode lhe ensinar esse conceito!
_ Ajudou bastante – revirou os olhos, deixando que o seu sarcasmo se mesclasse à revolta de seus movimentos cada vez mais lentos e fatigados, cada vez mais ineficazes, se é que isso era possível – Mas até mesmo a dificuldade em respirar nessas condições me impede de ignorar o quanto eu estou inútil...
Ducard girou a lâmina na espada fracamente empunhada por Alice, fazendo com que a arma torcesse o braço da hippie antes de subir uns dois metros com a força do impulso imposto pelo ninja, desarmando a sua aluna com a rapidez tão típica de todos os seus movimentos, por menores que fossem. A espada começou a cair praticamente no mesmo instante, e Ducard a segurou firme pelo cabo antes que ela se chocasse contra o chão. Ele a encarou com olhos triunfantes ao segurar as duas espadas, e Alice apenas arfava sem muito controle, tentando a todo custo buscar o ar escasso daquela montanha.
_ E à uma hora dessas, você já estaria morta – o ninja a alfinetou, sorridente.
_ Beleza, então eu vou tomar outro banho e morrer na minha cama! – disse, começando a dar meia volta.
_ Nós ainda não acabamos! – arqueou uma sobrancelha, esperando que a sua aluna se virasse novamente para encará-lo.
_ Como assim? – perguntou, quase implorando – Você já me humilhou bastante por hoje, não acha?
_ A nossa prática com as armas chegou ao fim por hoje, mas existe... outra parte do treinamento que ainda deve ser iniciada – disse misteriosamente, parecendo saborear cada palavra que escapava de sua boca. Havia uma satisfação e uma ansiedade dentro de seus olhos azuis que realmente intrigaram Alice.
_ Que parte? – perguntou, curiosa e ao mesmo tempo temendo a resposta capaz de estimular aquele brilho intenso dentro das gemas safiras de Ducard. Aquele brilho nunca foi um bom sinal, disso Alice sabia muito bem...
_ Você já vai saber, mas por ora eu quero que você vá até a cozinha e coma alguma coisa – mandou – não me parece uma boa ideia passar pelo que está por vir de estômago vazio... – disse, como se refletisse e considerasse consigo mesmo sobre as possíveis consequências que esse tipo de ato imprudente poderia gerar.
_ Taí uma ótima sugestão! – suspirou aliviada – pensei que o seu plano era me deixar morrer por inanição, caso a espada não desse certo...
_ Então se apresse! Enquanto você come eu vou preparando os equipamentos necessários – pensou alto, e já começou a se afastar em direção à Liga – Eu te encontro na cozinha em vinte minutos – avisou, sumindo de vista.
_ Mas espera aí! – Alice chamou, mas a sua resposta resumiu-se ao silêncio – Onde fica essa maldita cozinha? – perguntou para o nada, como se a resposta pudesse vir de algum lugar.

_ É assim que se tratam os hóspedes por aqui... – Alice comentou com o seu melhor tom birrento, revoltada ao continuar andando em círculos pela Liga à procura da cozinha enquanto o seu estômago não parava de reclamar – Deviam colocar placas indicativas nessa espelunca.
A hippie continuou caminhando, tentando guiar-se pelo olfato para chegar até a comida, mas a única coisa que seus sentidos olfativos provaram-se capazes de capturar foi o cheiro forte de Alecrim e... Cânfora, talvez, e ela simplesmente não sabia explicar como aquele odor tão específico estava presente em cada canto...
Deixou-se ser levada por aquela mistura agradável de ervas que invadiam o ar da Liga, se perguntando se aquela caçada pela origem do aroma a induziria para algum lugar específico, ou se aquele cheiro apenas estava impregnado nos aposentos. Mas certamente acabaria levando a algum lugar... sem dúvida o odor ficava mais forte a cada passo!
Não demorou muito até que a hippie se visse diante de uma porta fechada da mesma madeira escura que adornava tudo por ali. Era uma porta dupla e alta, formada por vários altos-relevos que mais pareciam pequenas veias saltando da madeira... as projeções davam voltas elegantes pela porta, formando desenhos indecifráveis capazes de prender a atenção até mesmo daqueles que não davam a mínima para o esplendor de um trabalho manual bem feito.
A maçaneta era igualmente arrojada, de um dourado fosco e envelhecido que combinava perfeitamente com o conjunto. Alice soltou o ar em um único sopro, seduzida por perceber o quanto a arquitetura calma e estonteante daquele lugar a impressionava...
Ela girou uma das maçanetas sem muita cautela, decidindo que encontraria a cozinha nem que fosse por tentativa e erro, nem que tivesse que explorar cada aposento da Liga individualmente. Mas, assim que entrou no recinto, arrependeu-se! Vários pares de olhos perplexos e irritados a encararam, parecendo irados com a ousadia da novata de entrar ali.
_ Céus, me perdoem! Vocês estão meditando, certo? – Alice perguntou ao notar que vários ninjas estavam sentados em cima das próprias pernas, isoladas do chão frio apenas por um tatame de madeira esburacado – Sabe, eu sempre admirei quem consegue ficar horas de olhos fechados concentrando-se em absolutamente nada! É realmente a coisa mais inútil que eu já vi – comentou alegremente, mas parou de sorrir ao notar as várias expressões que a fuzilavam – Eu imagino que vocês precisam de silêncio para continuar meditando, e que provavelmente eu tornei várias horas do tempo de vocês dedicadas a essa prática estranha totalmente inútil pela minha interrupção, não é mesmo? – arriscou.
_ Você não tem permissão para entrar aqui! – uma voz aborrecida ecoou do centro da impecável conformação em que os ninjas estavam – Somente os iniciados na Liga das Sombras têm acesso a esta área, creio que esse não é o seu caso... – Alice reconheceu aquela voz antes mesmo que Talia se levantasse para encará-la.
_ Tudo bem, Maria Mercedes, eu já estou de saída – levantou os braços em sinal de rendição – É... espero que vocês tenham boas horas de nada enquanto meditam!
Alice fechou a porta com um estalo fortemente audível, recomeçando sua caminhada. Não deu mais do que três passadas para longe da sala de meditação e logo parou por um momento, mordendo o canto do lábio inferior enquanto retrocedia aqueles passos e girava a maçaneta novamente.
_ Mas será que alguém pode me dizer aonde fica a cozinha? – fez uma nova interrupção, atraindo os mesmos olhares fatais que a fitaram há poucos segundos. Talia bufou alto, batendo uma das mãos na própria testa, em um gesto que fazia transparecer toda a impaciência que não foi capaz de controlar – Tudo bem, já entendi, nada de informações no meio da meditação, certo? – a hippie estava prestes a sair novamente quando viu a cabeça conhecida de Nureen no canto mais isolado da sala – Nureen, você está aí! – comentou, alegre – Você é o meu guia oficial, pode ir levantando a bunda desse tapete estranho e me levar até a cozinha!
_ Sinto muito, Alice, mas eu não posso abandonar a meditação antes que ela termine.
_ Balela, eu já tirei a concentração de todo mundo! – a hippie argumentou, indo na direção do ninja que pareceu um tanto incrédulo com aquela atitude – Ah, me desculpe, senhor, eu tropecei na sua cabeça! – Alice desculpou-se com um ninja completamente curvado sobre o próprio corpo quando acidentalmente chutou o topo da careca do homem – Com licençinha, um pouco de espaço seria bom, obrigada! – ela foi abrindo caminho até Nureen, erguendo-o pelo braço assim que o alcançou – Vamos lá, eu ainda estou te fazendo um favor de te tirar daqui! Você mesmo disse que essa Talia é uma megera, não se lembra? – argumentou um pouco alto demais enquanto ainda atravessavam a sala em direção à saída, com todos os olhares sobre si, inclusive o olhar severo de Talia.
_ Você realmente não deveria ter feito uma coisa dessas! – assim que deixaram a sala, Nureen a advertiu com uma voz fria e olhos emburrados, sem nem ao menos fitar o seu rosto enquanto ele a conduzia em direção à cozinha.
_ A culpa de tudo isso é do seu amado Ducard, que nem ao menos foi capaz de me dar instruções de como chegar à cozinha, ou um mapa... e o lugar é enorme, eu poderia me perder aqui várias vezes.
_ Você profanou um lugar de meditação e zombou das nossas práticas... – acusou-a, gesticulando alguns movimentos perplexos com as mãos – Você chutou a cabeça de um ancião! – falou, parecendo revoltado e ao mesmo tempo tentando não rir ao recordar a cena bizarra.
_ Aquela cabeça apareceu na minha frente do nada, ok?! – defendeu-se – quem manda o cara dormir durante a meditação? É nisso que dá, ele estava jogado no chão lustrando o piso com a sua baba e eu não o vi... aliás, a vítima nessa história sou eu! Eu podia ter caído e me machucado!
_ Você vai acabar sendo expulsa da Liga se continuar agindo assim – avisou com um ar sério – e a cerimônia de exílio não é algo muito agradável de se ver, muito menos de viver, eu suponho...
_ Uma pessoa não pode ser banida de algo que ela nunca fez parte! – sorriu.
_ Bom, você ainda está em fase de treinamento, mas logo será uma de nós... só precisa se comportar um pouco melhor! – acrescentou, fazendo uma breve careta ao franzir o nariz.
_ Não, você não entendeu... assim que eu terminar esse treino eu caio fora! – contou, ainda sorrindo largamente por não se sentir presa àquelas milhares de regras que todos ali seguiam religiosamente – Se eu ainda estiver inteira, é claro... – completou a frase, assim que se recordou do desastre que havia sido o seu primeiro dia com a espada. E ainda havia aquela misteriosa segunda parte do treinamento mencionada por Ducard, que realmente estava preocupando Alice!
_ Isso é impossível – riu, como se chamasse Alice de tola pelas suas palavras – Ninguém, sem qualquer exceção, pode receber os ensinamentos da Liga das Sombras e se distanciar da instituição depois. Essa mera hipótese vai contra tudo o que nós acreditamos e ensinamos.
_ Você por acaso nunca ouviu falar no Batman? – arqueou uma sobrancelha para o ninja – Ele fez exatamente isso, não estou certa?
_ Mas não se pode comparar essas duas situações – balançou a cabeça, parecendo um pouco tenso com o rumo daquela conversa – Batman traiu a Liga, recebeu o treinamento e por fim se recusou a servir o Ra’s Al Ghul com os ensinamentos que obteve aqui. Você, por outro lado, sugere que não servirá a Liga como se sentisse que está isenta das suas responsabilidades para com ela.
_ E eu estou! Esse acordo já foi feito com Ducard, e eu sei que ele até pode ser um ninja sádico que detesta ser contrariado – “E como!” –, mas ele não quebrará a sua parte no combinado, eu coloco as suas mãos no fogo pela promessa dele! – disse, rindo.
_ Mas como...? – Nureen insistiu, parecendo não conseguir processar o que acabara de ouvir – Isso não é certo...
_ Foi um tipo de condição para tirá-lo da cadeia – Alice explicou, dando de ombros – é como dizem por aí: “Uma mão lava a outra pra não entrar mosca quando for a Roma”... Não, peraí! – franziu a testa, percebendo que havia algo de errado no ditado – “Quem tem boca lava os pés sobre o leite derramado”... Ah, enfim, você entendeu o que eu quis dizer!
_ Entendi – respondeu pensativo – bom, se o próprio Ra’s Al Ghul concordou com isso, quem sou eu para julgar... – ponderou, ainda que parecesse um pouco relutante em aceitar esse tipo de barganha – Não se preocupe, ele honrará com a palavra que lhe deu!
_ Eu espero que sim! Caso contrário eu serei obrigada a colocá-lo de volta naquela cadeia imunda – brincou, tentando desfazer a expressão endurecida que o ninja adotou assim que soube a respeito das reais intenções de Alice ali dentro.
_ Aí está a cozinha – disse, mirando a hippie de canto de olho com um meio sorriso discreto no rosto – e da próxima vez que você precisar de alguma coisa, chame outro! – falou, e os dois riram.
_ Obrigada por ter me acompanhado de livre e espontânea pressão – sorriu – a gente se esbarra por aí!
_ Mal posso esperar – revirou os olhos com o sarcasmo divertido de suas palavras, e logo deu meia volta, refazendo o caminho até a tal sala de meditação proibida para os não-iniciados.
Alice escancarou a porta da cozinha, quase podia sentir seus olhos brilhando por estar próxima da comida, e seu estômago roncou com o simples desejo de finalmente enchê-lo.
_ Fala sério, eu comeria o Burger King inteiro com essa fome! – Alice começou a fuçar as prateleiras um tanto baixas, sem nem ao menos reparar no homem que a encarava com curiosidade – Ervilhas? – perguntou com desânimo a um saco verde que logo ela jogou no chão, voltando a procurar comida de verdade.
_ Posso ajudá-la? – o homem perguntou, chamando a atenção da hippie pela primeira vez.
_ Pelas calças do Bob Esponja, que susto, moço! – a hippie virou-se para o homem, que estava sentado atrás de uma mesa, apoiando os cotovelos sobre o tampo claro.
_ Eu não queria assustá-la, mas talvez você possa me esclarecer por que está atirando ervilhas pela minha cozinha... – arqueou uma sobrancelha, esperando pela explicação.
_ Ahhh, sinto muito... Ducard mandou que eu viesse aqui para comer algo antes do meu próximo treino, eu só estava procurando algo comestível que eu consiga engolir.
_ Ah, então você é a famosa Alice que trouxe o Ra’s Al Ghul de volta? – ele perguntou, com um sorriso animado no rosto perfeitamente barbeado e de meia idade.
_ Pois é... aquele ninja não seria nada sem a minha ajuda – gabou-se, permitindo que um sorriso metido se formasse em seu rosto.
_ Sente-se em uma dessas cadeiras, eu faço questão de preparar algo para você! – falou, animado.
_ Imagina! Eu mesma posso cozinhar, não precisa se levantar daí!
_ E eu nem poderia... – o homem disse, afastando-se da mesa e deixando à mostra a cadeira de rodas que sustentava o peso de suas pernas inúteis.
_ Ai, cacete, me desculpe por isso! – a hippie corou, completamente envergonhada pelo seu comentário impróprio.
_ Sem problemas – tranquilizou-a, parecendo indiferente à sua deficiência – por que não se senta e espera um pouco, Alice? Eu estou preparando uma sopa para o jantar que em breve ficará pronta...
_ Tudo bem – ela sorriu, ainda sem jeito, buscando uma cadeira qualquer para sentar-se enquanto observava o homem encarar a enorme panela fumegante em cima do fogão – Eu posso ajudá-lo!
_ De forma alguma... – rejeitou a oferta, levando uma colher com uma pequena porção da sopa quente em direção à boca – ... você desperdiçaria muitos ingredientes jogando-os no chão – piscou, com um sorriso sagaz – Precisa de mais tempero – comentou para si mesmo enquanto picava agilmente um pouco mais de pimenta e a jogava dentro da panela, mexendo a mistura que já exalava um cheiro forte.
_ Você é o cozinheiro oficial da Liga?
_ Sou sim – respondeu enquanto ainda mexia no ensopado – e posso dizer sem qualquer sombra de dúvida que esses ninjas não durariam dois dias sem alguém que cozinhe para eles... – riu, e Alice foi obrigada a acompanhá-lo... era estranho pensar que todos aqueles ninjas fortemente treinados e quase indestrutíveis não eram capazes de se virar na cozinha.
_ Então eu posso saber qual é o nome do integrante mais importante da Liga das Sombras? – perguntou, ainda sorrindo.
_ Pode me chamar de Tony – ele respondeu, virando a cadeira de rodas na direção da hippie para retribuir ao sorriso. Um homem simpático, sem dúvida, e parecia muito vantajoso para Alice fazer amizade com quem cuidava da comida... seria uma forma de garantir que seu prato jamais levaria uma cuspida de quem o fez.
_ Prazer, Tony! Então diz aí: os cozinheiros da Liga também são obrigados a se tornarem ninjas para trabalhar aqui?
_ Não necessariamente – disse, servindo um prato generoso para Alice e colocando-o à frente dela, junto com uma cesta de pães frescos e uma colher tão perfeitamente limpa que fazia o reflexo dentro dela brilhar – existem muitos funcionários por aqui que não são iniciados, mas alguns, assim como eu, já foram ninjas e tiveram que abandonar o posto por alguma razão – apontou para a própria cadeira de rodas, justificando o seu motivo para não fazer mais parte do grupo de ninjas.
_ E por que continuar na Liga das Sombras? – Alice perguntou antes de encher a boca com uma enorme colherada da sopa, que imediatamente a esquentou por dentro – Por que você não saiu daqui se não podia mais servir à Liga com o seu treinamento?
_ Simplesmente porque eu não consegui me imaginar em outro lugar que não fosse este... a Liga das Sombras é a minha casa, não importa a função que eu exerça aqui dentro. Muitos ninjas se aposentam por várias razões, mas grande parte deles prefere continuar servindo ao Ra’s Al Ghul de alguma forma, porque essa é a vida que nós conhecemos.
_ Vocês realmente veneram os seus líderes... – Alice comentou, cortando um pedaço de pão para molhá-lo na sopa e logo enfiar na boca, ansiosa pela sensação de mastigar – De um jeito que vai muito além da fidelidade compreensível – completou, de boca cheia.
_ Não é exatamente o líder que nos inspira a essa lealdade – corrigiu-a –, mas sim o significado de fazer parte de algo realmente grandioso como a Liga das Sombras. Ela se manteve firme por muito mais séculos do que você é capaz de imaginar, realizando feitos incríveis pelo mundo, e saber que eu ainda posso contribuir com tudo isso, mesmo que indiretamente, é simplesmente lisonjeiro...
_ Você realmente consegue achar incrível uma instituição com o propósito de destruir? – Alice falou baixo, tentada a entender por que ninguém ali parecia se importar com os inocentes que acabavam pagando o preço de tanta aniquilação.
_ Eu já tive esse receio – Tony riu – todos nós passamos por essa fase de revolta antes de realmente perceber o quão grandioso tudo isso é. Infelizmente, alguns sacrifícios são imprescindíveis para nos levar a um objetivo maior, para que novos sacrifícios não sejam mais necessários no futuro.
_ O conceito de “bem maior” sempre foi uma justificativa para explicar todas as guerras e devassamentos que correspondem à nossa história... Mas que bem pode haver no extermínio?
_ E como lutar de forma justa contra a injustiça se você realmente quiser vencê-la? Como tentar combater a corrupção do mundo de forma ética, se essa mesma corrupção pertence aos mais fortes? Se aqueles que deveriam se mostrar solidários são os primeiros a aderirem à mesquinhez e ao oportunismo?
_ Existem exceções – Alice insistiu, mesmo que compreendesse o ponto de vista de Tony – e elas devem ser levadas em conta! – levou mais um pedaço de pão à boca, sentindo o alívio preencher o seu estômago junto com a comida.
_ Isso é utópico, Alice – ele sorriu pacientemente – lindo na teoria, mas impossível na prática. Não há como separar o joio do trigo de forma tão específica, tudo o que nós podemos fazer é tirar a sujeira daquelas civilizações que já estão apodrecidas pelos próprios costumes, para que uma nova tenha a oportunidade de surgir, mais limpa.
_ Isso também é utópico – rebateu – simplesmente porque nunca chegará o dia em que vocês vão conseguir dizimar a corrupção... ela faz parte do homem e do convívio social, infelizmente. Sempre surgirá uma nova maçã apodrecida dentro da cesta independente de quanto tempo a Liga lute contra isso, porque não é algo que se possa controlar ou evitar. A Liga já existe há séculos suficientes para que vocês percebam que sempre vai aparecer alguém para perturbar a paz ilusória que vocês tanto buscam inutilmente.
Tony recostou-se o quanto pôde na cadeira de rodas, sorrindo para Alice.
_ Esse é o tipo de discussão que pode nunca ter fim, mas que ainda assim vale a pena abordar, mesmo percebendo que você não vai mudar de ideia a esse respeito, e nem eu – concluiu.
_ “Da discussão nasce a luz!” – a hippie deu um sorriso antes de voltar a comer, engolindo a sopa com satisfação, por mais que o gosto fosse saudável demais para ela – Vocês só têm legumes por aqui? – mudou bruscamente de assunto.
_ Tudo o que temos na cozinha é cultivado por nós mesmos – disse, orgulhoso.
_ Tá brincando? Nesse frio vocês conseguem cultivar alguma coisa? – perguntou surpresa.
_ Não, não é tão natural assim – sorriu, brincando distraidamente com o pequeno controle de sua cadeira de rodas automática – na verdade, nós cultivamos essas coisas em um ambiente artificial, uma estufa com temperatura e luminosidade apropriadas – esclareceu.
_ Então, por favor, me diga que vocês têm um Pé de Cacau nessa estufa!
_ Infelizmente não... – riu, achando graça da expressão suplicante da hippie – Por quê?
_ Chocolate, Tony! – explicou – Como eu vou ficar aqui sem chocolate? Por isso que aquela tal de Talia é tão mal-humorada, é tortura deixar uma mulher sem acesso à glicose! – disse, fazendo o cozinheiro rir.
_ Uma fonte de energia saudável potencializa os resultados do seu treinamento, sinto muito, mas aqui nós vivemos com aquilo que julgamos estritamente necessário. Os excessos são dispensáveis.
_ E nada mais do que o necessário – Ducard complementou enquanto entrava na cozinha.
_ Ra’s Al Ghul! – Tony o cumprimentou com um aceno respeitoso de cabeça e um sutil sorriso no rosto. Seus lábios pareciam sempre curvados em uma simpatia atípica naquele lugar, era uma companhia reconfortante em meio a toda aquela seriedade e regras.
_ Como vai, Tony? – Ducard retribuiu ao gesto – Tentando colocar um pouco de juízo nessa cabeça-dura da Alice? Qualquer ajuda é bem vinda! – disse, e os dois riram.
_ Valeu a consideração, colega... – a hippie bufou dramaticamente, levando a borda do prato quente até os lábios e deixando que o resto de sopa escorresse para dentro de sua boca.
_ Nós ainda temos uma parte vital do seu treinamento a ser cumprida – Ducard a lembrou – Quanto antes começarmos melhor.
_ Sei, sei... – Alice limpou o rosto com a manga rasgada de sua túnica, encarando o seu mentor com desconfiança – Tony, saiba que se eu simplesmente desaparecer depois desse “treino” – fez o sinal de aspas no ar com os dedos – a culpa é do Barbicha!
_ Nós não teríamos essa sorte – o cozinheiro rebateu com um ar divertido, atraindo um olhar chocado da hippie.
_ Em pensar que eu fui com a sua cara, Ratatouille! – Alice levou a mão ao peito, numa encenação ridícula de ofensa.
_ Sinto muito, Alice, mas você jogou ervilhas pela minha cozinha, como espera que eu me agache para recolhê-las nessa cadeira de rodas? – arqueou uma sobrancelha tentando mostrar-se rígido, mas seus olhos eram sempre brincalhões.
_ Te vira aí! – ela riu, mas logo retirou o saco de ervilhas do chão e recolocou-o no armário – Até mais, Tony! Foi um prazer conhecê-lo...
_ Igualmente – respondeu com mais um de seus sorrisos afáveis, antes que Alice e Ducard saíssem pela porta. E assim que a hippie começou a segui-lo, a apreensão do desconhecido a dominou antes que ela pudesse tentar evitá-la.
Engoliu em seco algumas vezes, apenas seguindo-o.
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