A Face Oculta Da Lua
24 As Verdades Que Eu Não Quero Ouvir... – Parte II
Notas iniciais
O contato com o titânio era gelado, mas Alice sentia-se verdadeiramente quente... De um jeito que julgava não ser mais possível. Ao menos não para ela. Não depois de sentir-se morrer junto com seu filho no piso imundo de um abandonado galpão...
Mas aquele calor veio fácil, doce e acalentador, por braços que costumavam ser estritamente desprovidos de gentileza e amabilidade. Mas apesar da improvável e inesperada situação, Alice soube reconhecer que aquele abraço era de Bruce, apesar da armadura do Homem Morcego interpondo-se entre seus corpos.
_ Obrigada... – ela sussurrou, permitindo que suas pálpebras cansadas se fechassem por um momento sobre a rígida armadura negra. Parecia-lhe algo natural demais se deixar levar por aquela presença, e por um momento, isso se traduziu tanto na forma de reconforto quanto em temor.
_ Eu posso ajudá-la, se você quiser – murmurou de volta, ainda mantendo aquele abraço do qual nenhum dos dois parecia pronto para desfazer. Não ainda... Não depois de tantos erros que clamavam por consertos.
Alice abriu a boca para responder, porém sua resposta perdeu-se com o som abrupto da porta se escancarando. Os dois se afastaram com pressa, ambos direcionando o olhar para a origem do inconveniente barulho, dando-se conta mais uma vez de que não estavam a sós, e por mais que tivessem se deixado levar pelo inebriante momento daquela sugestão de reconciliação, precisavam acima de tudo tomar cuidado na presença de terceiros.
_ Ra’s Al Ghul – um jovem ninja a chamou, demorando alguns segundos extras em observar aquela estranha cena, que ele ainda foi capaz de ver desfalecer assim que o rangido da porta ao abrir-se anunciou sua chegada –, os mafiosos estão aqui, e exigem vê-la.
Alice respirou fundo, praguejando em silêncio pela má hora. Falcone parecia demonstrar um dom nato para a inconveniência.
_ Certo, obrigada, Lauren. Crane, fique aqui com o Comissário. Sayid, você vem comigo! Provavelmente esta não será uma conversa muito amigável, quanto mais ninjas ao meu lado, melhor! Batman, você... – a hippie olhou incrédula para os lados, sem perceber qualquer sinal do Morcego – Bom... Eu ia mandá-lo embora mesmo! – ela franziu a testa, estranhando o súbito sumiço do Cavaleiro das Trevas.
Sayid posicionou-se lealmente ao seu lado, parecendo sempre pronto para comprar qualquer briga que fosse pela sua líder. Alice arqueou os lábios num sorriso divertido em direção ao árabe, subitamente feliz.
_ Hora do show! – brincou, quase ansiosa por aquela conversa – Máscara? – balançou algumas vezes o disfarce pálido antes de colocá-lo sobre o próprio rosto. Sayid a imitou, parecendo suspirar brevemente antes de fazê-lo.
_ Podíamos trocá-las por algo menos abafado da próxima vez que precisarmos esconder nossas fisionomias... – comentou, ajeitando o acrílico em seu rosto da melhor forma que seus largos traços permitiam.
_ Eu nem poderia imaginar que esta máscara te causasse algum desconforto! Você sempre sorri quando a coloca... – zombou, tomando a dianteira para sair do cômodo e ir de encontro à sua desagradável visita.

_ Boa noite, senhores! – ela os cumprimentou com mais escárnio do que podia ser capaz de controlar, já prevendo a pequena guerra que seria travada ali. Notou com satisfação que seus ninjas já estavam a postos, rodeando de forma sutil os mafiosos visivelmente deslocados, já cientes do perigoso terreno que pisavam, embora a ninja soubesse que se tratava de um entendimento superficial – A que devo a inconveniência da visita?
_ A que deve? – Falcone foi o primeiro a falar, quase soltando fumaça pelas ventas como um animal em fúria – Viemos honrar a sua parte no acordo! Trouxemos Coringa até sua gangue, agora você nos devolve o dinheiro que foi roubado de nossas instalações.
Alice gargalhou fartamente antes de responder, reação capaz de provocar um maior endurecimento na expressão do mafioso mais velho.
_ Muito interessante sua escolha de palavras! De fato... inspiradoras! Honrar acordos? Dinheiro roubado? Faz parecer que a máfia é a grande vítima da história... Não são vocês mesmos que vivem desonrando a própria palavra e fazendo montantes cada vez maiores de fortuna com o dinheiro que roubam? – retaliou, num tom desafiador que desagradou a todos.
Falcone sorriu um sorriso repleto de ameaças, assim como as faíscas que pareciam querer saltar de seus olhos oblíquos.
_ Devo supor que você não pretende nos devolver o dinheiro... – concluiu, estreitando as pálpebras em advertência, como se desse à Alice uma chance de mudar de ideia.
_ Você supõe certo! – Alice saboreou as palavras, e mais ainda um sinuoso brilho de ódio se acendeu no olhar de cada rosto que a encarava de volta – Veja bem, não é nada pessoal, vocês me foram muito úteis, mas eu tenho planos para esse dinheiro. Já até mesmo comprometi parte dele a um valioso serviço terceirizado.
_ Nós tínhamos um acordo! – Maroni rangeu os dentes, cerrando os olhos meio desfocados pela mais irracional ira, sentimento compartilhado por todos ali que não usavam uma máscara.
_ Ah, sim, verdade! Mas... Céus, como eu posso ilustrar de um modo que vocês consigam compreender? – fingiu gastar alguns segundos refletindo, até que sorriu, parecendo decidir-se pela melhor explicação – Eu menti!
_ Sua vadia! – Chechen urrou extravasando fúria, tirando de trás da calça um revólver prateado, mirando-o diretamente na direção do peito de Alice – Quais são suas últimas palavras, cachorra?
_ Terei esse direito? Quem diria, mafiosos são verdadeiras ladies! – riu – Agradeço a gentileza! Tenho realmente algumas palavras a dizer, mas garanto que estão longe de serem as últimas.
_ Eu não teria tanta certeza – destravou a arma, como uma potência extra à própria ameaça – Finalmente um pouco de alimento aos meus cães! Eles andam famintos por carne fresca...
_ Devem ser criaturas adoráveis! Mas, vamos logo às minhas últimas citações! Eu não morreria em paz sem dizê-las... – pigarreou, preparando-se para verbalizá-las – A manga é verde, a manga é rosa, é amarela, apodrece e cai no chão! – citou com pompa, como se fosse algo digno de nota.
Rostos repletos de desentendimento refletidos por testas franzidas a encararam, incrédulos. E a aversão parecia apenas crescer naquelas feições ameaçadoras, cheias do mais puro ódio nos mínimos detalhes. Alice aproveitou-se do silêncio para ridicularizá-los uma segunda vez.
_ Sabe, senhores, quando uma pessoa diz suas últimas palavras, é de praxe matá-la... – bufou, encenando desagrado – Agora essas palavras foram as minhas últimas, e nem de longe surtiram o mesmo efeito. – reclamou.
_ Ela ainda nos ridiculariza com suas troças! – Lau comentou o óbvio, irado, ele mesmo parecendo apalpar algo metálico sobre suas vestes.
_ Imagino que esse seja o inteligente do grupo? – Alice gargalhou numa clara gozação, desviando a atenção que residia nos mafiosos aos homens mascarados sob seu comando e contendo os risos a algum custo – Vamos, ninjas. Hora de mostrar que não se ameaça impunemente a Liga das Sombras! – deu um largo sorriso ao notar o ódio e pretensão instantaneamente darem lugar ao medo nas menores expressões dos mafiosos. Seus ninjas acataram à sua ordem de imediato, dando início ao último confronto entre aquelas duas classes tão distintas. – O Falcone é assunto meu! Divirtam-se com os outros. – avisou, encarando o mafioso com um sorriso escondido como o resto de seu rosto – Líder contra líder...
_ Liga das Sombras? – Falcone pareceu engolir em seco, recordando-se de uma época distante em que um atentado relacionado àquele nome assolou Gotham a algo próximo da ruína, chegando perto demais de destruir sua cidade e seu reinado. Perto demais.
_ Liga das Sombras, Gavione! – confirmou, satisfeita com o reconhecimento gerado. Caminhou tranquilamente até o mafioso que liderava os outros, notando-o empunhar sua pistola de forma trêmula, esbanjando incerteza e medo pela primeira vez. Quase podia sentir o cheiro do medo na atmosfera pesada que os envolvia.
Sob aquele breve instante de hesitação, Alice o desarmou com um chute certeiro em seus punhos, fazendo o revólver voar para longe de seu alcance, desferindo em seguida um soco sedento na face do homem e, sem querer, acabou extravasando mais força do que pretendera. Mas a sensação foi inebriante demais para contê-la... Sabia que tipos como Falcone eram, de certa forma, culpados pela morte de seu filho. Porque eles, mais do que ninguém, riam da cara do sistema, e o faziam subornáveis. Eles, mais do que ninguém, criavam os monstros. Eles faziam de Gotham um berçário aconchegante para a escória que hoje a cidade abrigava.
Alice deu um novo soco na barriga do homem, que gemeu e curvou-se sobre o próprio corpo com a dor. A ninja aproveitou-se daquela posição para lançar o joelho sobre as costelas do mafioso. Ele caiu, arfando com a falta de ar, ela sentou-se sobre sua pélvis, voltando a desferir golpe atrás de golpe em seu rosto, movida pelo sentimento cego, corrosivo e irracional que a vingança lhe inspirava em sua mais pura essência.
A cada novo soco, a respiração de ambos parecia desregular-se mais e mais, porém por razões largamente opostas. Enquanto Falcone arfava com a dor, Alice arfava pelo sentimento inebriante de causar dor a quem merecia. Era como dar um pouco de paz à memória de seu Krusty. Seu pequeno e injustiçado Krusty...
Sentiu luvas negras afastarem-na de leve de seu intuito, impedindo novas investidas de sua parte. Alice notou a própria respiração pesada e ruidosa, carregada do mais puro ódio. Seus dedos tremiam de aversão, como se protestassem para dar continuidade aos golpes, mas de certa forma, o toque de Batman a acalmou, e ela deixou-se separar de seu alvo sem maiores protestos.
Falcone, em meio às tosses, cuspiu um dente junto com um punhado de saliva sangrenta, encarando Alice com olhos levemente inchados.
_ Nós tínhamos um acordo... – ele repetiu, como se pudesse fazê-la mudar de ideia com aquele fraco e repetitivo argumento.
_ Veja por esse lado, Falcone... – sentiu a própria voz tremer – ... a máfia é como um cassino, cheia de seus joguinhos de azar estúpidos... E hoje, eu quebrei a banca!
A ninja saiu andando a passos pesados para longe daquele lugar, antes que mudasse de ideia e voltasse a espancar indiscriminadamente o homem que liderava a máfia. Tony estava parado junto ao batente da porta, encarando-a com ares risonhos e um brilho divertido nos olhos. O cozinheiro ergueu a mão esquerda enquanto ela passava, e Alice, sem dizer qualquer palavra, bateu sua própria mão contra a dele num gesto cúmplice que aquele momento os fez compartilhar, como se celebrassem em silêncio.
Apenas no instante em que se viu longe da presença dos mafiosos, Alice retirou a máscara e a jogou longe, pouco entendendo a origem de toda a raiva que se abrigava dentro dela. Limpou algumas gotas de suor do rosto com a manga da própria túnica, sentindo sua respiração soar mais profunda do que o normal. Estava cansada... Parecia dominada por uma exaustão que não cederia nem mesmo após dias de descanso.
O Cavaleiro das Trevas caminhava ao seu lado, lançando olhares de soslaio na direção da hippie de tempos em tempos, como que para verificar se ela faria alguma besteira.
_ Pensei que você tinha ido embora... – ela comentou num tom desinteressado, limpando o sangue de Falcone que se impregnou nas articulações de seus dedos, passando-o com asco para o pano áspero da túnica ao friccionar compulsivamente o dorso da mão contra o tecido. Havia destinado tanta força contra o mafioso, que podia sentir suas mãos levemente doloridas pelo episódio.
_ Eu sabia que você ia tentar me afastar quando a máfia chegou. Por isso dei a entender que parti e fiquei observando tudo às escondidas. Só por garantia...
_ Sinceramente... Não entendo como você pode ter qualquer preocupação com esses criminosos. Por que os defende? Por que se importa? – Alice franziu o cenho, sabendo o quanto sua expressão deveria parecer confusa.
_ Não é exatamente com a máfia que eu me preocupo... – fitou-a de forma significativa, como se ali residisse a verdadeira resposta – Só não quero que você se arrependa de algo que não poderá voltar atrás!
_ Eu não ia matá-lo... – disse devagar, prestando atenção se aquela frase havia soado verdadeira, o mínimo que fosse. Não sabia dizer... – Tudo bem, meus punhos pareciam ter vontade própria, mas eu não chegaria a tanto... – considerou, recordando-se da estranha leveza que a apaziguou naquele pouco instante em que lhe foi permitido extravasar – Só queria... dar uma lição. Uma lição difícil de esquecer.
_ Garanto que conseguiu! Você golpeou onde mais dói...
_ Na cara? – ela repuxou os lábios num sorriso orgulhoso e cheio de si – Viu só aquele dente quebrado que o Falcone cuspiu? Eu devia cobrar pela extração! Serviço odontológico de primeira! – riu alto, ainda capaz de reproduzir mentalmente a sensação do dente cedendo sobre a força imposta de seus dedos cerrados.
_ No bolso! – ele a corrigiu, sério – O desfalque que a Liga das Sombras causou à máfia foi o golpe mais doloroso, com certeza. Ainda mais com a impossibilidade do revide. O orgulho deles foi perdido junto com o dinheiro. Um mafioso que não é capaz de defender seus investimentos cai, mais cedo ou mais tarde. É a lei da selva que os rege.
_ Bom, temos uns a menos, então! Considere isso como um pequeno presente à Gotham por tudo o que a Liga das Sombras já fez a essa cidade.
_ Mas não importa quantos você derrube, sempre haverá novos candidatos para ocupar o lugar daqueles que caíram! Sempre... – disse, e o rouco de seu timbre despontou frustrado.
_ Você não pode mudar o mundo sozinho, Morcego. Mas está fazendo um ótimo trabalho tentando! – sorriu em nenhuma direção específica, encarando-o pelo canto do olho com indisfarçada afeição. Sentia um enorme alívio a cada palavra civilizada que trocavam. Não suportava mais as acusações, muito menos o tom de decepção e por vezes de indiferença que lhe era destinado. A ninja sabia bem que, depois do que fizera, tudo o que poderia receber de Bruce se resumiria a conversas civilizadas, nada além. Mas aquela pequena trégua entre eles já era suficiente para fazê-la sorrir...
...E como!
Eles retornaram ao aposento em que o Comissário era mantido, e Alice não gostou nem um pouco do que viu. Gordon parecia dono de um olhar mais astuto e focado, beirando a consciência, não mais vazio e domado como ela esperava encontrar.
_ O que houve? – Alice perguntou a Crane, revezando olhares entre o psiquiatra e o Comissário.
_ A droga já foi quase que completamente consumida pelo organismo dele – explicou calmamente, molhando os lábios – Seus efeitos só irão diminuir cada vez mais rápido até que ele desperte inteiramente da analgesia.
_ Então dê uma nova dose! Está esperando o quê? Ele acordar e reconhecer o lugar? – bufou.
_ Não é tão simples assim... Uma nova dose do gás seria extremamente tóxica. O cérebro não aguentaria tanto, e provavelmente os rins e o fígado seriam sobrecarregados pela droga. Mas se for do seu desejo, podemos arriscar... – Jonathan comentou maldosamente, instigado.
_ Estamos falando de arriscar o quê, exatamente? A vida? A sanidade? Funções cerebrais? Alguns neurônios? A altivez do bigode?
_ Eu nem imagino. Provavelmente a sanidade e talvez a vida, dependendo da intensidade com que investirmos na segunda dose.
_ Nem imagina? Crane, o que diabos você fez com o Max durante os seus testes? Brincou de enfermeira? Do que adiantou uma cobaia se na hora em que eu preciso de respostas concretas você nem imagina o que pode acontecer? – brigou, irritada por sentir-se na escuridão do desconhecido, presa nas incertezas da ignorância.
_ Os meus testes basearam-se apenas em provar a eficácia da droga. Você tinha pressa pelos resultados, seriam necessários anos de pesquisas para esclarecer cada propriedade desta nova versão do Gás do Medo. – explanou calmamente – Por isso não há como saber com exatidão que tipo de reações os pacientes terão a cada situação. Eu preciso de mais tempo e mais testes para responder a essas questões com precisão! – exclamou de uma forma irredutível que encerrava a discussão. Alice suspirou, vencida.
_ Então as opções são deixá-lo voltar à consciência ou submetê-lo ao duvidoso com uma segunda dose da droga... – pesou suas alternativas, mordendo a ponta da língua enquanto pensava.
_ Nós não temos muito tempo. – Crane avisou – Logo o Comissário despertará... Se formos arriscar uma nova intervenção, deve ser agora.
_ Não me apresse, é um impasse difícil! – brigou, notando um olhar repreensor vir de Batman – Ok, ok, não vamos arriscar a vida do Flanders, satisfeito? Deixe que a boneca aí acorde! – bufou, contrariada. Não lhe agradava nem um pouco dar continuidade ao seu interrogatório sem poder ter plena certeza e tranquilidade de que as respostas que ouviria seriam as mais honestas possíveis.
Mas, de qualquer forma, ela teria de encarar aquele viés. Se optasse por não submeter Gordon a mais uma dose da droga, ele estaria consciente no momento das perguntas e muito provavelmente tentaria manipular a história ao seu favor. Por outro lado, caso o fizesse aspirar uma nova porção do gás, ainda assim poderia correr o risco de ter suas respostas distorcidas pela alta dosagem que estaria em seu organismo, novamente levando-a a desconfiar de suas palavras pelo efeito exacerbado que a droga poderia proporcionar – talvez até chegando a causar danos irreversíveis e sumindo de vez com a verdade que ela ainda esperava arrancar do homem...
Alice caminhava de uma ponta do cômodo à outra, impaciente com a espera e com a escolha que fizera. Gordon parecia recobrar cada vez mais rápido os sentidos, e aquela condição preocupava a ninja. Ela sequer buscou novamente pela sua máscara para esconder o rosto, apenas limitou-se a fitar as feições cada vez mais confusas que Gordon lançava à medida que seu entendimento e a posse de seus pensamentos lhe retornavam numa velocidade gradativa.
_ Batman e Espantalho, sugiro que vocês saiam daqui, ou se escondam se preferirem. Não quero que Gordon faça qualquer associação de vocês dois a mim! – Alice avisou num tom decidido.
_ Certamente! – Crane anuiu, parecendo não ter qualquer intenção de ser visto ali. Ele sumiu de vista sem que Alice precisasse dizer uma segunda vez para que o fizesse.
Batman, contudo, continuou exatamente na mesma posição, sem mover um único músculo que indicasse algum movimento para fora dali.
_ Você também, Batman! Tudo bem se você quiser ficar pra garantir a segurança de Gordon, mas ao menos se esconda – pediu, preocupada com o despertar cada vez mais notório do homem que sequestrara.
_ Eu não me importo de ser visto com você. Durante anos eu fiz esse tipo de interrogatório pelo bem de Gotham e em prol da polícia, e esse caso não é diferente. Gordon nunca se importou que eu fizesse o trabalho sujo para deter aqueles que a polícia não era capaz de caçar, e eu muito menos! Eu fico!
_ Bom, você quem sabe... – a ninja deu de ombros, tentando domar a exagerada gratidão que sentia por ele finalmente entendê-la – De qualquer forma, acho que já é meio tarde demais para camuflagens... – comentou ao notá-lo desperto e novamente em posse desajeitada do controle de seu corpo. Gordon revezava confusos olhares de Batman para Alice, como se seus olhos estivessem presos num ciclo vicioso ao repetir indefinidamente aquele caminho entre os dois.
_ Mas o quê...? – o Comissário deslizava os olhos lentos à sua volta, parecendo fazer um enorme e cansativo esforço para tentar entender onde estava e, principalmente, como havia chegado àquele lugar. Levou uma das mãos à cabeça, parecendo tonto e pálido a ponto de querer vomitar.
_ Como vai, Jim? – a ninja o chamou pelo apelido, percebendo-o ainda mais confuso.
_ A... Alice? – perguntou, sem acreditar na própria visão, ainda muito embaçada e pouco precisa.
_ A própria. Muito bom que você se lembre de mim, Gordon... Talvez o nome do meu filho também seja familiar! – viu-o tremer de leve e desviar o olhar para baixo à menção de Krusty – O que foi, Comissário? Essa lembrança o assombra? – fitou-o com uma forte intensidade, largamente ampliada pela raiva.
_ Você nem faz ideia... – sussurrou tão baixo que Alice teve certeza de que aquela resposta foi lançada apenas para ele mesmo, não para ela.
_ Bom, muito bom... – respondeu mesmo assim, ajoelhando-se em frente à cadeira que o mantinha imobilizado, obrigando-o a encarar seu rosto – Tem alguma noção do quanto esta lembrança me assombra?
_ Não... – negou com um olhar triste e esgotado. Alice reconheceu aquele cansaço, mas não se compadeceu dele em momento algum – Você... deveria estar morta... – comentou, franzindo o cenho pela incompreensão.
_ Ah, sinto decepcioná-lo, Jim, mas estou bem viva. – ofereceu-lhe um sorriso irônico, em nada alegre.
_ O que eu estou fazendo aqui? O que vocês estão fazendo aqui? Onde é aqui?
_ Muitas perguntas, Comissário... E nenhuma delas vai ser respondida! Eu te trouxe aqui por respostas, não por mais questionamentos.
_ Você já parece ter muitas respostas pelo que eu vejo – engoliu em seco ao perceber a ojeriza no olhar da mulher que o tinha prisioneiro.
_ Verdade. Mas ainda faltam algumas. – levantou-se, caminhando lentamente ao redor do homem preso, como se o gesto por si só fosse suficiente para domar seus instintos homicidas – Como, por exemplo, que tipo de homem se sujeita a colocar em risco a vida de uma criança para capturar um psicopata?
Gordon fechou os olhos demoradamente, como se ele mesmo já tivesse feito essa pergunta inúmeras vezes a si mesmo. Levantou novamente as pálpebras antes de formular uma resposta, e as olheiras sob seus olhos pareceram ainda mais intensas. Sua voz soou rouca e tão acabada quanto suas feições envelhecidas não pelo tempo, mas pela culpa.
_ O tipo de homem fraco. Covarde. Alguém desesperado que acha que tem toda a situação sob o seu controle, mas que descobre ter sido um tolo manipulado, ao invés do manipulador que acreditava ser. – sob seus olhos formou-se uma brilhante película de lágrima conforme falava – Me perdoe, Alice!
_ Por que, Gordon? Por quê? Você sempre teve algum problema pessoal comigo. Sempre achou muito mais coerente ignorar o fato de que talvez eu fosse mais uma vítima dos joguinhos de Coringa, sempre me fez tão vilã quanto o Palhaço. Por quê? Trazer o meu filho para a morte foi a sua forma de vingança?
Os lábios de Gordon se repuxaram num sorriso triste, tão sem vida quanto sua expressão. Batman mantinha-se apenas como um espectador, revezando sua atenção de um para o outro conforme nasciam as perguntas e as respostas, em momento algum manifestando-se além de sua presença.
_ Eu era um homem desesperado por justiça, mas ao mesmo tempo incapaz e impotente demais para fazê-la. Acreditar que você era cúmplice de todos os maus tratos de Coringa a esta cidade era, de certa forma, um consolo. Porque eu sabia que, com você, eu seria capaz de medir forças e de não precisar me ver de mãos atadas por não ter a mesma sorte com o Palhaço. Minha perseguição a você, Alice, era uma tentativa patética de tentar me sentir no controle da situação. Era uma forma de adiar a verdadeira busca, a busca que eu sabia que me levaria ao maior fracasso da minha carreira... E como eu previ, realmente levou. Cada investida minha em tentar capturar o Palhaço se virou contra mim, e eu perdi tudo. Tudo com o que eu realmente me importava. Até que chegou o dia em que eu passei a não me importar com mais nada.
_ Ah, você perdeu tudo? – riu com maldade, sem acreditar nos seus ouvidos – De todos nessa história, Gordon, você foi o que menos saiu lesado! Justamente você, aquele que deveria ter uma fatia maior nessa conta, no entanto está usufruindo de sua própria farsa, mentindo obedientemente por um cargo que não merece, encobrindo crimes de policiais já mortos para manter a ilusão dos habitantes de que tudo está sob o controle do inabalável e virtuoso Comissário Gordon! Eu ficaria encantada de saber o que você perdeu nisso tudo! – retaliou, incapaz de se sensibilizar por aquelas palavras que até soavam verdadeiras, mas que em momento algum a convenceram.
_ Não perdi tanto quanto você, eu reconheço, mas ainda assim perdi muita coisa. Perdi o amor da minha esposa e os sorrisos dos meus filhos quando me viam chegar em casa depois de um dia árduo de trabalho. Perdi a esperança que me movia a lutar e me doar por uma Gotham melhor e mais honesta. Perdi a fé em mim mesmo, o orgulho próprio e a consciência tranquila que me fazia descansar a cabeça sobre o travesseiro à noite... Perdi o melhor de mim, aquilo que me diferenciava dos corruptos com quem eu era obrigado a dividir o meu ambiente de trabalho. E ganhei também. Ganhei um peso enfadonho sobre os meus ombros... O peso daquelas vidas que se perderam por culpa da minha obsessão desmedida. Seu filho, o oficial Turker e até mesmo o policial Smith. Antes de hoje, eu a colocava nessa conta também, mas graças a Deus posso tirá-la de minha lista funesta. – encarou-a com pesar antes de novamente baixar os olhos.
_ Não, Comissário, de forma alguma! O senhor pode continuar me considerando nessa lista. Estou viva, é verdade, mas uma parte de mim morreu com Krusty. A melhor parte de mim! – ressaltou, vendo-o assentir de leve, como se aceitasse em silêncio aquela culpa. – Tem uma coisa que eu não entendo, Gordon.
_ O quê? – perguntou com tanto cansaço que parecia que tirava suas energias de algum lugar externo ao seu corpo.
_ Como o meu paradeiro foi descoberto? Logan e eu éramos os mais cautelosos possíveis, sempre tomamos cuidado pra não chamar atenção. Que tipo de ajuda vocês tiveram?
_ Coringa sempre descobre o que quer – avisou, mas o modo como o fez não convenceu Alice.
_ Havia mais alguém envolvido, Gordon?
_ Alice, tem coisas que é melhor esquecer... – principiou, parecendo ansioso por encerrar o assunto – Não há nada que se possa fazer para mudar o passado, e algumas respostas servem apenas para nos atormentar ainda mais...
_ Quem, Gordon? – a ninja o cortou, impaciente. O Comissário suspirou, rendendo-se ante a determinação e sede de Alice pela verdade.
_ O Doutor Logan... – contou, vendo-a pela primeira vez abalada com a pronúncia daquele único nome. Houve um momento de silêncio em que ela apenas tentava recordar o modo certo de respirar.
_ Logan? – repetiu com a voz fraca e incrédula, como se suplicasse em silêncio para que Gordon se desmentisse, ou garantisse à Alice que ela havia ouvido errado.
_ Logan parecia preocupado com o seu futuro e o do menino. – articulou, tentando soar o mais brando possível – Parecia perturbá-lo que suas constantes mudanças e fugas afetassem Krusty pela falta de um lar estável. Ele também parecia extremamente incomodado com você, Alice... A forma como ele nos descreveu a contradição de sentimentos que você nutria pelo garoto, as pequenas rejeições e fascínio que você sentia pelo seu filho parecia angustiá-lo amplamente. O modo como ele falava dava a entender que você podia estar passando por algum problema psicológico mais sério, como um surto, e que precisava de ajuda. Uma ajuda psiquiátrica! – explicou melhor.
_ Ele foi até vocês? – sentiu o queixo cair na mesma proporção em que sua testa se franzia.
_ Sim, ele nos procurou. Parecia disposto a fazer o que fosse preciso para negociar a sua liberdade por um tratamento psiquiátrico decente. Se quer saber, o Doutor Logan parecia seriamente perturbado! Naquela época eu não entendia por que ele achou que expor você e a si mesmo daquela forma daria algum bom resultado... Mas hoje eu vejo o que o desespero pode fazer à pessoa. Nós nos tornamos frágeis, alvos fáceis... estúpidos, essa é a palavra! Terrivelmente estúpidos.
_ E depois que ele procurou por vocês? Como a polícia reagiu?
_ Mais uma vez, eu me aproveitei da situação, apenas pelo mesmo intuito tolo que me fazia acreditar que eu ainda poderia livrar Gotham de Coringa de uma vez por todas... – hesitou, parecendo novamente envergonhando, porém não se recusando a dar suas respostas – Eu o tranquilizei. Falei o que ele mais desejava ouvir... Disse que vocês já não eram mais nossa prioridade, e que ele poderia se estabilizar junto a você e ao menino e tratá-la em paz, da maneira que achasse mais apropriada. Na época eu também não entendi como essa resposta o convenceu, mas, bom... – Gordon soltou um riso sem humor, negando algo com a cabeça – ...parece que eu mesmo fui vítima dessa mesma esperança ingênua ao acreditar que minha esposa queria me encontrar numa rua deserta qualquer de Gotham. – zombou de si mesmo, recordando o momento em que um homem alto de máscara o fez desmaiar, e provavelmente o trouxera à presença de Alice enquanto estava inconsciente.
_ Gordon, onde eu posso encontrá-lo? Você sabe me dizer onde Logan está? – perguntou em tom de súplica, quase implorando.
O Comissário abaixou o olhar, soltando o ar de forma lenta demais, como se quisesse adiar aquela resposta. Comprimiu os lábios numa fina linha reta antes de falar novamente.
_ Alice, você era o brinquedinho de Coringa... – começou, sem jeito – ... e Logan foi a pessoa que tirou dele essa diversão... – continuou, lançando expressões sugestivas – Coringa não é do tipo que perdoa ou aceita ser passado para trás...
_ Gordon, você está dizendo que... Logan... Coringa... – pronunciou sem muita coerência, já com aquele terrível nó se firmando irredutível em sua garganta.
_ Coringa matou Logan, Alice. – foi direto ao ponto, finalmente verbalizando aquela notícia que ele tanto tentou evitar dar.
Alice deu algumas passadas em ré, rejeitando aquela maldita frase, negando para si mesma aquelas palavras que faziam mais um pedaço de si ser consumido por tristezas tão reais, que chegavam a ser mais dolorosas do que o estalar de um chicote.
De um momento a outro, a ninja ousada e cheia dos mais infindáveis sentimentos de rancor e vingança tornou-se novamente a hippie azarada e abalável, a mesma hippie capaz de sentir dor e demonstrá-la, de se deixar sucumbir aos sentimentos, aos fardos, de se fechar aos recantos de sua própria angústia.
Batman envolveu seus braços com o couro que rodeava suas mãos, chegando a sobressaltar Alice, que até mesmo havia se esquecido da presença do Cavaleiro das Trevas ali. Ela o encarou com desalento, mais uma vez sentindo-se perdida pelo fardo da perda. Reconheceu compaixão nos olhos negros que a encaravam, e não suportou vê-la ali. Não nele. Não no único homem que seria capaz de verdadeiramente compreendê-la, não naquele homem.
Desvencilhou-se das mãos reconfortantes de Batman e caminhou meio cambaleante para fora da pequeneza claustrofóbica daquele cômodo. Sem saber o que fazia, apenas andou para longe de todo e qualquer espaço rodeado por paredes, chegando mais perto dos sons estridentes dos trovões que iluminavam e rasgavam o céu negro, percebendo-os apenas agora.
_ Leve o Comissário Gordon de volta a casa dele – ordenou a Sayid quando quase esbarrou em seu corpo, desviando do moreno logo em seguida, cheia de uma pressa que não lhe fazia o menor sentido.
_ Ra’s Al Ghul? Aonde vai? – o árabe perguntou, preocupado.
_ Sair! – avisou por cima do ombro, sem ousar deter sua caminhada para longe dali. Para o mais longe que seus pés tivessem a gentileza de lhe carregar.
Fale com o autor