A Face Oculta Da Lua

3 Além Das Várias Colinas


Notas iniciais
Hasta la vista, Gotham! x]

– Você jura que sabe mesmo pilotar esse troço? – Alice encarava Ducard na dúvida, mas ele apenas sorria orgulhoso na direção do enorme Caça cinza, sem desviar os olhos um único momento do avião de guerra – Aliás, isso é um avião militar! – disse o óbvio, incrédula – Como, em nome de Orlando Bloom, você conseguiu se apossar desse tanque com asas?

– Mesmo aqui em Gotham, a Liga das Sombras é muito temida e respeitada... – explicou – Digamos que eu tenho os meus contatos – riu baixo, ainda analisando cada detalhe do avião. O brilho intenso da tintura cinza se refletia através dos olhos azulados e escuros de Ducard, tornando a sua expressão ainda mais complexa. Alice quase podia vê-lo estremecer de expectativa por finalmente deixar para trás aquela cidade que lhe fora tão nociva. Pudera ela ser capaz de partilhar desse sentimento...

– Tudo bem, mas ainda não faz o menor sentido – protestou, desviando os olhos para o mesmo ponto que ele fixava – se você tem tanta influência a ponto de conseguir uma arma dessas, como é que uma simples cela de cadeia pôde detê-lo por tanto tempo? – estreitou os olhos, como se desse um Xeque-Mate ao perceber a expressão repentinamente endurecida do ninja.

– Essa questão me perseguiu por cada dia que eu permaneci preso. Por cada dia que o resgate não apareceu... – Ducard encarou Alice pela primeira vez, e sorriu – Já está mais do que na hora de encontrar a resposta!

– Pelos chifres do Harvey! – Alice arregalou os olhos, prevendo a gravidade da situação – Você acha que algum membro da Liga se aproveitou da sua prisão e o traiu?

– É justamente o que eu pretendo descobrir – assentiu de leve com a cabeça, falando tão baixo quanto o seu sadismo permitia – E então, vamos?

– Vai esquentando o motor que eu já subo! – abanou as mãos na direção do Caça, despachando-o – Eu só preciso de um minuto aqui...

– Tempo é um luxo do qual nós não podemos dispensar... não demore! – disse, já quase dentro do avião.

– A gente mal saiu de Gotham e o barbicha acha que já pode mandar em mim – resmungou, com um sorriso discreto no rosto, agachando-se sobre os próprios joelhos e encarando Baguera carinhosamente. Deixou que seus dedos brincassem em torno do pelo longo e macio da gata enquanto percebia as enormes bolas amarelas fitando-a com atenção. Deixou-se hipnotizar uma última vez com o brilho negro que parecia dançar sobre o pelo de Baguera conforme Alice a acariciava – Acho que a gente se separa aqui, garota! – deu um meio sorriso triste – A viagem vai ser bem mais longa do que eu gostaria, e é uma passagem só de ida...

A gata sentou-se da forma mais ereta possível, parecendo prestar atenção a cada palavra da hippie. Elas ainda se encaravam fixamente, como se o mundo à sua volta estivesse em segundo plano.

– Enfim, eu detesto despedidas... – suspirou – Obrigada pela companhia, e tente não chorar muito quando o avião decolar, está bem? – fungou, dando-se conta do quanto já havia se apegado àquele tufo gordo e brilhante, dona dos mais belos olhos amarelos.

A hippie assistiu a gata se espreguiçar brevemente, empinando o corpo para trás, como se estivesse alongando de uma só vez cada músculo de suas patas. Baguera chacoalhou todo corpo em seguida, fazendo alguns pelos soltos voarem ao seu redor, e por fim contornou o lugar onde Alice ainda estava ajoelhada, com aquele típico rebolar felino marcando sua caminhada compassada.

– Você nem vai se despedir de mim, sua ingrata...? – Alice parou de falar ao vê-la pulando de forma ágil e precisa para dentro do avião em que Ducard a esperava – Não, não, não, nada disso! – a hippie balançou a cabeça freneticamente enquanto subia no grosso metal com dificuldade, segurando firmemente a borda da entrada e deixando metade de seu corpo para fora, em completo desequilíbrio – Você não pode ir comigo, sem chances! Não vai ter como voltar depois! – avisou, mas Baguera já estava aconchegada sobre o banco do copiloto, ao lado de um Ducard impaciente.

– Se você não entrar nesse avião em cinco segundos, eu juro que dou a partida com você estando dentro dele ou não – Ducard a intimou, parecendo completamente inquieto em cima de seu banco.

– Ok, ok, entendi – disse, entrando completamente no monstruoso avião de combate enquanto ainda praguejava baixo – seu ninja resmungão... ficou anos preso dentro daquela cela imunda e não pode esperar uns minutinhos agora – fungou irritadiça, tirando Baguera da poltrona completamente acolchoada e pousando-a em seu colo ao finalmente sentar-se ao lado de Ducard.

Ele mexia agilmente no enorme painel de controle à sua frente, e logo a porta já estava fechada e o avião pronto para decolar. O interior do Caça era tão imponente e assustador quanto o lado de fora... a sua anatomia aerodinâmica e ao mesmo tempo rude dava a sensação de que nem mesmo uma bomba nuclear seria capaz de atingi-los naquele grosso metal. Alice deu um longo assovio ao encarar os incontáveis botões e mostradores redondos que lembravam vários velocímetros em uma única cabine.

– Pra que serve esse botão? – Alice perguntou, levando uma mão curiosa até um enorme botão vermelho, que imediatamente chamou sua atenção ao observar tudo ali dentro, quase o apertando.

– Não mexa aí! – Ducard exclamou, dono de uma voz um tanto histérica e rude, empurrando a mão da hippie para o lado oposto ao botão que ela quase pressionou – Você está louca, garota? – encarou-a, irritado – Esse botão serve para ejetar os bancos em caso de emergência!

– Eu sabia disso, oras – mentiu, franzindo a testa e fingindo-se totalmente ofendida pela impaciência evidente no tom do ninja – eu só estava te testando, para ver se você realmente sabe pilotar essa joça...

– É mesmo? – o ninja deu um meio sorriso especulativo, com uma expressão descrente e beirando o divertido – Então talvez você possa me explicar para que serve esse monitor... – apontou para uma das seis telas de LCD, desafiando-a a responder.

– Bom, segundo a minha vasta experiência em voos e em combates aéreos, eu posso garantir que essa tela serve para que os pilotos possam assistir ao programa do Chapolin Colorado quando estiverem no meio de uma batalha, em desvantagem, e precisarem de alguém para defendê-los... – concluiu, séria, mas logo caiu na gargalhada.

– Esse monitor fornece uma visão estratégica da situação aérea e terrestre durante uma batalha – ignorou o comentário de Alice, nem ao menos entendo o seu significado, voltando a mexer nos controles enquanto explicava – incluindo desde a identidade da ameaça e sua relevância, até informações precisas de rastreamento.

– Tudo bem, você já me convenceu – a hippie encarou-o, admirada pelas suas habilidades vastas e conhecimento a respeito do avião de guerra – parece que não existe nada que você não possa fazer, não é mesmo?

– Eu sou um ninja, esqueceu? – respondeu, bem-humorado – Agora coloque o cinto e fique o mais longe possível do painel de controle... nós já vamos decolar – avisou, com uma satisfação extra no tom de voz.

– Falou, chefia! – respondeu alegremente, circundando o próprio corpo com o cinto de segurança e segurando Baguera firmemente em seu colo para o momento do voo, que ao que tudo indicava estava cada vez mais próximo.

– A partir de agora você deve se referir a mim como ‘Mestre’ – repreendeu-a.

– Olha, se levarmos em consideração que se não fosse por mim você ainda estaria vendo o Sol nascer quadrado, eu acho que posso chamá-lo até de barbichinha se eu quiser – riu, e Ducard nem sequer alterou sua expressão, apenas circundou o corpo com o cinto e finalmente conduziu o Caça a levantar voo.

Alice sentiu-se completamente jogada para trás com a potência repentina do motor a jato, fazendo-a arfar de surpresa ao perceber que não conseguia retornar à posição original em que estava, por mais que tentasse. Era como se um enorme peso estivesse empurrando-a para trás, impedindo qualquer tentativa de movimento de sua parte, resistindo ao comando de seu próprio corpo... ela mal conseguia se mexer naquela posição, e aquela era uma sensação sufocante.

– Vai melhorar assim que o avião atingir a altura certa e se mantiver estável... – Ducard comentou, percebendo o incômodo nos olhos da hippie e a tensão evidente de seus músculos. Até mesmo Baguera parecia estar mais indiferente àquela situação do que Alice.

– E isso vai demorar?

– Uns dois segundos, talvez – disse, focando sua atenção em um ponteiro vermelho, que subia rapidamente. Antes que Alice pudesse responder, ela já sentiu o avião adquirir gradativamente uma posição horizontal bem mais confortável, e instantaneamente os movimentos de seu corpo voltaram a ser liderados por ela.

– Uau... – disse, sacudindo os ombros ao sentir-se no controle novamente – pensei que eu ia acabar furando o banco!

– Dramática... – disse, revirando os olhos, mas Alice pareceu não ouvir. Ela encarava, boquiaberta, os pequenos pontos distantes há vários quilômetros de distância. Gotham parecia uma cidade de legos daquela altura, e o que mais a impressionou foi a rapidez com que se distanciaram tanto!

Alice não soube dizer exatamente quanto tempo ela passou entretida com os próprios pensamentos e dúvidas... apenas sabia que Gotham já havia ficado para trás há um bom tempo. E junto com Gotham, todo o seu passado também parecia sumir, renovando a vontade da hippie de virar o jogo, de finalmente recomeçar bem longe dali, de ser capaz de tomar as rédeas de seu próprio destino sem nenhuma interferência externa.

Mas havia algo que a impedia de acreditar totalmente no sucesso do plano... uma questão inconveniente, que parecia tornar um planejamento inteiro e grandioso completamente inútil, apenas pela pouca consideração dedicada aos detalhes daquela fuga.

– Sabe, uma dúvida acaba de me ocorrer – Alice comentou casualmente, ainda perdida na imagem das várias nuvens que pareciam enfeitar o caminho que faziam – a Liga das Sombras fica do outro lado do mundo, certo?

– Certo... – Ducard assentiu, mantendo a sua atenção dividida entre as palavras de Alice e o céu parcialmente limpo à sua frente – a sede da Liga das Sombras fica no Himalaia – completou.

– Então... nós vamos passar por vários países no caminho até chegar lá... quer dizer, seria como atravessar várias fronteiras, só que por via aérea – a hippie continuou desenvolvendo o seu raciocínio, e suas palavras saiam cada vez mais tensas conforme o fazia.

– Sim... – concordou mais uma vez, sem saber exatamente aonde Alice queria chegar com aquela conversa – mas qual é a dúvida?

– Bom, nós vamos atravessar vários países com um avião próprio para a guerra, e isso me faz pensar que talvez esses países se sintam intimidados diante de uma arma dessas sobrevoando o seu território, não é mesmo? A Segurança Nacional certamente vai interpretar esse nosso voo como um ataque, e não como um passeio turístico – explicou-se, parecendo temer as próprias conclusões – certamente os radares de cada um dos países vai acusar a presença desse voo não autorizado, e nós seremos atacados por um exército inteiro, antes mesmo de chegar perto da Liga das Sombras! – a hippie finalizou o seu raciocínio, de olhos arregalados.

– É uma questão pertinente, mas não há com o que se preocupar – respondeu, sem alterar a expressão calma de seu rosto – Esse avião é invisível.

Alice ficou longos segundos encarando Ducard, com uma expressão que esbanjava ceticismo, enquanto uma de suas sobrancelhas permanecia fortemente arqueada diante daquela estranha revelação.

– Então eu devo supor que você é a Mulher Maravilha? – debochou, surpreendendo-se ao ouvi-lo dar uma risada baixa com o seu comentário.

– Acho que eu não me fiz entender direito – disse, sorrindo – esse avião não é invisível, pelo menos não esse invisível que você está pensando... nós estamos dentro de um Caça F/A-22 Raptor, o modelo mais moderno no que diz respeito à tecnologia bélica aérea! Essa belezinha aqui é equipada com um artifício incrível de camuflagem contra os radares inimigos – encarou Alice, sorrindo para ela ao ver que sua expressão ainda era confusa – basicamente, os radares funcionam enviando ondas de rádio por todo o perímetro aéreo, coletando-as assim que elas retornam ao radar após se chocarem com algum objeto. Mas se essas ondas forem absorvidas, ou desviadas por esse objeto, que no nosso caso é o avião, ele fica invisível aos radares. É como se ele não existisse – concluiu.

– Então nós não seremos identificados enquanto estivermos voando? – suspirou aliviada, e ao mesmo tempo impressionada com a incrível arma que os envolvia.

– É como se estivéssemos dentro do avião da Mulher Maravilha – brincou, ajeitando-se no assento em frente ao volante – não precisa se apavorar...

– Mas eu não estou apavorada – sua voz saiu aguda e histérica, como se desmentisse as palavras de Alice. Ela pigarreou algumas vezes, tentando recobrar o controle do próprio medo – por que eu estaria em pânico afinal? Nós estamos voando em uma velocidade quase supersônica, a caminho de um tipo de sociedade milenar de ninjas que provavelmente o traíram e que não vão gostar nem um pouco de ver a sua fuça novamente, e é bem provável que esse ódio acabe destinado a mim também, já que fui eu quem o libertei da prisão – parou de falar por um momento para respirar – realmente, eu não tenho motivo algum para ter medo! – disse, sarcasticamente.

– Você foi a autora desse plano – Ducard a lembrou – então aceite as consequências.

– Eu tenho ouvido muito essa frase ultimamente... – reclamou, recostando-se melhor ao acolchoado macio da poltrona.

– Por acaso está arrependida de tudo o que fez para chegar até aqui?

Alice afundou-se ainda mais no banco, encarando a paisagem bem ao seu lado através do vidro grosso e um pouco escurecido.

– Não... – respondeu por fim, demorando mais tempo para dar a sua resposta do que gostaria – está um pouco tarde demais para isso!

– Ótimo, porque o arrependimento não é um sentimento bem-vindo à Liga das Sombras. O remorso nada mais é do que uma mistura patética de fraqueza e incompetência, duas características inaceitáveis lá dentro.

– Eu achei que já tinha lhe dito que não tenho qualquer interesse em entrar para a Liga das Sombras – a hippie voltou a encará-lo, franzindo a testa.

– Nunca despreze suas alternativas, Alice! – disse, e ela não soube identificar se aquilo era um conselho amigável ou uma intimação hostil – o rumo do seu destino cabe apenas a você, mas cada tropeço nas decisões erradas pode significar sua queda. A Liga das Sombras agora é a sua melhor opção... você encontrará lá toda a proteção necessária para manter a si mesma e a sua farsa seguras.

– Não volte atrás com a sua promessa, Ducard – a hippie o encarou, séria – eu já deixei claro que não quero ter qualquer ligação ou compromisso com a Liga das Sombras após o término do treinamento... eu o ajudei a sair da cadeia mesmo sabendo que você poderia não retribuir o favor, mas já que me deu sua palavra de que o faria, então a mantenha...

Ducard realizou uma manobra brusca com o Caça, e no mesmo instante Alice sentiu sua cabeça se chocar fortemente ao vidro grosso da cabine, e tudo à sua volta pareceu rodar após o baque surdo que o contato brusco produziu.

– Não coloque a minha palavra em dúvida – ele rosnou um tanto enfurecido, reposicionando o avião para o trajeto certo, porém de forma bem mais sutil dessa vez – eu já disse que vou ajudá-la, e uma promessa feita é uma promessa cumprida – o ninja disse, com a voz um pouco mais suave.

– Que ogro! – Alice reclamou, massageando o ponto latejante em sua cabeça e sentindo as unhas afiadas de Baguera se fincarem dolorosamente em sua pele, graças ao susto que a gata certamente levou por ser submetida ao movimento grosseiro do avião – bastava dizer que ia me ajudar, não precisava fazer com que eu sofresse um traumatismo craniano para entender sua mensagem...

– Os aprendizados mais eficazes são aqueles que sentimos na pele. É bom que você já se acostume aos meus métodos...

– Estou começando a pensar que seria mais saudável se eu tivesse me entregado ao Coringa de vez... – praguejou, acalmando Baguera com os movimentos suaves de seus dedos em cima do pelo negro da gata – depois você acorda morto em uma valeta qualquer e não sabe o porquê – continuou resmungando, mas agora o seu tom transmitia zombaria. Ducard deu um sorriso discreto, ainda encarando fixamente o caminho esbranquiçado pelas nuvens à sua frente.

– O treinamento não é exatamente um mar de rosas, e é exatamente a dificuldade excessiva que o torna tão eficiente. Dedique-se a ele com afinco e você jamais se arrependerá do resultado – disse, como um de seus primeiros ensinamentos – Apenas superando os próprios limites até a sua última gota de suor, você será capaz de provar o seu valor, ou então ser mais uma que falha por não aguentar o cansaço físico e principalmente o psicológico ao qual será submetida. Então, a questão agora é: você está pronta?

– O meu limite é exatamente a barreira que eu quero quebrar. E eu já nasci pronta – brincou, fazendo uma careta ao sentir o latejar em sua cabeça persistir.

– Então prove – Ducard a desafiou, com um daqueles brilhos meio perigosos que a hippie sempre via dançando nos olhos do ninja.

– Como é que é? – a hippie franziu a testa, sem entender.

– Seus argumentos não passam de palavras vazias para mim enquanto eu mesmo não testemunhar o valor delas. Se quiser me convencer da credibilidade das intenções por trás das suas atitudes, então me prove que você é capaz de passar pelo treinamento que está por vir! Eu jamais treinei incompetentes, Alice, e não pretendo começar agora.

– Bacana... – Alice falou devagar, imaginando se os anos de cadeia haviam enlouquecido de vez o ninja – E o que eu devo fazer? Jurar de pé junto?

– Aperte esse botão vermelho – Ducard mandou, inclinando a cabeça em direção ao chamativo botão que Alice quase pressionara acidentalmente há algumas horas atrás, antes de deixarem Gotham.

– Ah, tá! – a hippie revirou os olhos, rindo – Bela piada...

– Aperte o botão – repetiu a ordem com um tom bem mais autoritário agora, deixando claro que aquilo estava longe de ser uma brincadeira de mau gosto.

– Você ficou louco, seu projeto de Tartaruga Ninja? Você mesmo disse que esse botão ejeta os bancos, e nós estamos a vários quilômetros do chão – argumentou – nós dois viraríamos panqueca!

– Há uma coisa que você precisa saber sobre o treinamento que a espera, Alice, e eu só vou explicar isso uma vez, por isso é bom que você seja capaz de entender esse conceito de imediato! – seu tom foi o mesmo de um professor pouco paciente que se vê obrigado a explicar algo básico demais, algo que poderia ser concluído pelo aluno através do simples bom senso – uma ordem direta vinda do seu Mestre é lei, mesmo que você não entenda os motivos que a precederam.

– Isso é loucura, Ducard! – a voz de Alice saiu bem mais aguda do que o normal – nós vamos morrer... – disse o óbvio, na esperança de que ele percebesse o quanto aquela sua ordem era insana e idiota.

O ninja voltou sua atenção para o painel, mexendo agilmente em alguns controles, e logo um pequeno radar começou a apitar, intercalando àquele som irritante um ponto de luz vermelho em seu visor, piscando insistentemente, de forma a avisar que havia algo errado. Alice o encarou, horrorizada.

– O que você fez? – perguntou, sentindo sua voz falhar. Sabia que aquele conjunto de sons agudos e aquela luz aparecendo e sumindo, sem parar, nem de longe podiam denotar um bom sinal.

– Eu ativei o piloto automático e reprogramei a rota do avião – avisou tranquilamente – se você não apertar esse botão no próximo minuto, nós vamos bater em uma montanha quase tão grande quanto o Monte Everest – sorriu, como se aquela fosse uma notícia digna de ser celebrada.

– Mas que tipo de prova é essa? Você está me fazendo escolher o melhor jeito de morrer, é isso? – perguntou, confusa, sentindo que seus olhos se arregalavam cada vez mais.

– Eu estou mostrando a você qual é o seu lugar. Estou lhe ensinando a importância de obedecer às ordens que lhe foram designadas, a confiar em mim como seu Mestre, mesmo que você não seja capaz de entender as causas que levaram a essas resoluções – ele recostou-se no banco, largando o volante pela primeira vez, cruzando os braços, quase entediado. O ninja ainda encarava Alice, parecendo levemente curioso e interessado com a decisão que ela tomaria diante daquele empecilho.

– Eu realmente não entendo as causas dessa loucura, mas sou perfeitamente capaz de enxergar as consequências – argumentou, mas percebeu a teimosia persistir dentro do brilho safira de seus olhos. Ele estava realmente disposto a levar aquela idiotice adiante – ok, tudo bem... – a hippie tentou organizar os pensamentos, respirando fundo algumas vezes na esperança de que o gesto pudesse desencadear alguma solução brilhante – onde estão guardados os paraquedas?

– Esse avião não possui um estoque de paraquedas – comentou casualmente, como se fosse algo totalmente trivial.

– Você só pode estar gozando com a minha cara! – exaltou-se, percebendo o seu rosto se esquentar de uma hora para a outra – um avião próprio para o combate com mil e uma tecnologias e sem paraquedas?

– Vinte e quatro... vinte e três... – Ducard encarou o relógio em seu pulso, começando a fazer a contagem regressiva, que acabaria na colisão entre o avião e a montanha.

– Oh, meu São Cosme e Damião, padroeiros dos adoradores de doces! Eu troquei um louco por outro! – Alice praguejou, sentindo perfeitamente que entrava em pânico – Por favor, Ducard, desfaça isso enquanto ainda dá tempo! – implorou.

– Vinte e dois... vinte e um... vinte... – ele continuou contando, parecendo nem ouvir os apelos meio gaguejados e trêmulos da hippie, apenas mirando o ponteiro do relógio com interesse.

– Se a gente morrer, eu juro que te mato! – Alice grunhiu para ele, apertando o maldito botão vermelho ao ver a montanha se aproximando cada vez mais rápido, cada vez mais perigosamente fatal à medida que a hippie vacilava em sua decisão. Ele apenas a encarou de volta, sorrindo com uma satisfação pouco compreensível naquelas circunstâncias.

Assim que o botão foi pressionado, Alice agarrou Baguera da melhor maneira que pôde, protegendo-a do que estava por vir. O grosso vidro deslocou-se repentinamente, dando passagem aos bancos em que Alice e Ducard estavam, cuspindo-os para fora do avião com uma velocidade súbita.

– Eu não acredito que realmente vou morrer depois de todo o trabalho que tive pra me fingir de morta... – Alice berrou, tentando elevar a voz de um modo que superasse o chiado desesperador do vento, que brincava zombeteiramente pelo seu corpo enquanto as poltronas subiam com uma velocidade cada vez menor, ainda orientadas pela expulsão estúpida exercida no momento da ejeção, até que pararam no ar por um breve momento e finalmente começaram a cair, seguindo o curso natural da gravitação.

Baguera miou alto, assustada com a ação da gravidade que já os puxava insistentemente para baixo. Seus pelos negros se arrepiaram e ela enterrou as unhas na pele de Alice, arranhando-a dolorosamente. Mas a hippie nem chegou a tomar consciência da dor que deveria fazer o seu pescoço arder. Tudo o que ela era capaz de sentir naquele momento era o intenso frio que tomava conta de sua barriga, que parecia querer expulsar as vísceras de dentro de seu corpo...

– Feliz agora? – a hippie gritou irritada na direção de Ducard, que parecia indiferente à velocidade cada vez maior que os tragava para baixo. A única coisa que ainda os mantinha presos ao banco era o grosso cinto de segurança que envolvia fortemente suas pernas e peitos e os prendia firmemente ao estofado, um tanto desconfortável naquela situação.

– Quase! – riu alto ao encarar uma Alice completamente pálida, descabelada e atônita com sua própria ousadia de acatar ao comando insano de Ducard.

– Mais alguma ordem brilhante que eu deva cumprir antes de virar Omelete de Hippie? – berrou mais uma vez, perguntando-se quanto tempo o seu estômago ainda aguentaria a todas aquelas reviravoltas angustiantes, provocada pela queda cada vez mais iminente. Bom, pela velocidade com que eles se aproximavam do chão, certamente não levaria muito tempo para todas as sensações desaparecerem de vez da sua percepção...

– Na verdade, sim! – o ninja respondeu alegremente – leve uma das mãos até a parte de trás do banco, na curva entre o encosto e o assento – Alice passou a segurar a gata apenas com a mão direita, levando a esquerda para o lugar ao qual fora orientada, sabendo que não tinha mais nada a perder – agora procure por uma corda com uma pequena circunferência de metal presa na ponta – disse, executando os mesmos passos que berrava à hippie – Encontrou?

– Sim! – assentiu, afobada, assim que sentiu o fino metal gelado entre seus dedos escorregadios e suados de apreensão.

– Quando eu contar até três, você deve puxá-lo com força, entendeu?

– Eu não acredito que ainda vou te obedecer de novo... – resmungou alto, já sentindo sua voz sair rouca e falha. A força do vento nem sequer a deixava franzir a testa com a indignação que explodia pelos seus olhos já ressecados.

– Um... Dois... Três! – Ducard gritou, e os dois puxaram a pequena peça de metal ao mesmo tempo.

Do fundo dos dois bancos, saiu um enorme paraquedas que imediatamente amenizou a queda brusca ao abrir-se imponente acima deles. Alice fechou os olhos, ofegando, percebendo as unhas de Baguera finalmente se encolherem, e um pouco de sangue começar a escorrer pelo seu pescoço e peito. Ducard tinha um brilho satisfeito nos olhos.

Agora parecia que eles apenas flutuavam pelo céu tingido pelos tons alaranjados tão típicos do pôr do sol, e logo o frio insuportável na barriga de Alice foi substituído por sucessivas ondas de arrepios, ondas de alívio...

– Por que você fez isso? – Alice reabriu os olhos, mas logo em seguida tornou a fechá-los ao notar o quanto eles estavam secos graças ao vento grosseiro que quis derrubá-la, e que agora não passava de uma brisa suave e gentil tocando a sua pele.

– Não feche os olhos agora, você vai perder o espetáculo! – Ducard disse empolgado, sem precisar gritar para se fazer entender dessa vez.

Alice fingiu que não ouviu. Tudo o que ela queria no momento era a escuridão de seus olhos bem fechados, pelo menos até que se encontrasse finalmente segura em solo firme. A hippie nunca teve problemas com altura, mas depois dessa idiotice sem tamanho que Ducard a obrigou a fazer, ela não se surpreenderia se acabasse descobrindo que adquiriu algum tipo de fobia por altitudes exageradas...

Seu corpo estava completamente jogado sobre o banco, e estava difícil decidir qual parte dele estava mais trêmula...

– Abra os olhos, Alice! – o ninja disse novamente, e pelo seu tom, Alice sabia que ele sorria.

Ela levantou as pálpebras a contragosto, levando a atenção de seus olhos para o mesmo ponto que Ducard encarava tão fixamente, parecendo hipnotizado por aquela cena. E de fato, os segundos que se passaram realmente foram um tanto eficazes para prender a atenção da hippie com a mesma eficácia que entretia o ninja.

Alice abriu os olhos apenas alguns instantes antes de ver o enorme Caça se chocar contra a montanha. Ela quase foi capaz de ver cada fragmento do metal resistente se desmanchando com o baque antes da explosão exagerada que o destruiu completamente, que fundiu aquela arma indestrutível em um pedaço de metal sem qualquer valor comercial ou bélico...

O fogo parecia arder naquela porção gelada da montanha, juntando dois elementos antagônicos em um mesmo lugar: Fogo e Gelo, Calor e Frio, Chama e Neve, Caos e Paz. Uma mistura contraditória que se traduzia apenas em fumaça, mas que sem dúvida, era uma combinação linda! O encontro entre a neve alva e o fogo incandescente era um espetáculo de tirar o fôlego. Era como juntar o Yin e o Yang da natureza, numa visão sem igual.

– Isso foi um enorme desperdício, e um desperdício totalmente desnecessário! – Alice brigou, sentindo o coração doer ao presenciar toda a grandiosidade do avião se transformar em nada mais do que um amontoado inútil de lixo de uma hora para a outra, bem diante dos seus olhos.

– Era um bom avião de guerra... – Ducard suspirou – mas foi um mal indispensável!

– Indispensável é o seu nariz! – reclamou – Você fez isso só para deixar claro que quem dá as ordens aqui é você. Seus métodos me lembram uma certa pessoa – disse baixinho, apenas para que ela ouvisse esse último comentário.

– Sim, serviu para isso também – ele assentiu – mas nem de longe esse foi o meu principal objetivo.

– Esse troço deve custar milhões, e você simplesmente o explode por razões maiores...?!

– Esse troço, como você mesma disse, custa em torno de quatrocentos milhões, um valor alto demais para incentivar o rastreamento do avião. Você acha mesmo que eu ia expor a Liga das Sombras às possíveis visitas militares apenas para manter um capricho pessoal de não destruir o Caça?

– Bom, pelo menos o Caça não tentou traí-lo, já a Liga... – alfinetou, sentindo que sua voz arranhava a garganta ao passar. Para a surpresa de Alice, Ducard riu, sem muito humor.

– E esse é outro motivo que me impede de manter o avião – ele comentou, mais para si mesmo do que para a hippie – eu não quero chamar atenção da Liga para o meu retorno... se eles vissem uma arma dessas sobrevoando a sede, ligariam os pontos na mesma hora e logo associariam a mim. Não... isso estragaria tudo! – comentou, parecendo preso nas divagações distantes de sua mente – Eu quero chegar de surpresa, e ver como eles reagem à minha aparição repentina...

Alice permaneceu em silêncio, apenas focando sua atenção ao banco que ainda deslizava pelo ar graças ao paraquedas. A sensação era até gostosa agora que o susto já havia passado! Agora eles se aproximavam do chão numa velocidade bem menos cruel... quase gentil! Seus pés já estavam a insignificantes metros do solo agora, e Alice concentrou-se naquela pouca distância, ansiando cegamente o momento em que se sentiria segura novamente no chão firme, e não mais cambaleando indecisamente de um lado para o outro à mercê da direção e dos comandos do vento.

Ela tirou o cinto que a prendeu de forma tão eficiente ao banco – a única lembrança intacta que sobrou do enorme avião de guerra – sentindo-se completamente impaciente pelo “pouso”. Antes mesmo que a poltrona alcançasse o solo, Alice pulou dela, incapaz de manter-se sentada por mais tempo. A hippie posicionou Baguera no chão, gentilmente, agachando-se para encará-la, com um olhar repleto de culpa.

– Me desculpe por toda essa loucura – Alice sussurrou carinhosamente para a gata, passando as pontas dos dedos em torno dos pelos, que mais pareciam veludo de tão sedosos e macios – me desculpe por acabar te trazendo pra cá...

Baguera soltou um miado suave misturado com um baixo ronronar, quase como se realmente a desculpasse.

Ducard chegou ao nível do solo logo em seguida, guiado pelos movimentos suaves de seu paraquedas ainda aberto. Ele sorriu de um modo triunfante para Alice ao ficar ereto, e ela o encarou de volta, levantando-se do chão, sem saber exatamente o que sentia naquele momento.

– Espero que você tenha entendido o que acabou de acontecer aqui – a voz do ninja saiu um pouco falha, mas nem de longe chegava a atingir a mesma intensidade de rouquidão que marcava o timbre fragilizado da hippie.

– Entendi muito bem! – ela concordou, porém sua expressão era cética – Você precisa urgentemente de terapia intensiva – lançou, como uma conclusão óbvia.

– Hoje você recebeu a sua primeira lição como minha aprendiz! E talvez essa tenha sido a mais importante de todas – ele explicou, ignorando o comentário sarcástico de Alice – por mais que você julgue as atitudes de seu Mestre errôneas, sempre confie nelas, e mais importante ainda: sempre se mantenha obediente ao que lhe for imposto!

– Ou seja: não se dê ao trabalho de pensar por si mesma e ter suas próprias opiniões, apenas abaixe a cabeça para tudo – Alice completou, mal humorada – seja uma marionete obediente nas mãos de seu ventríloquo...

– O ventríloquo comanda o espetáculo, mas quem dá vida ao show é a marionete – disse, transbordando uma paciência que Alice jamais esperou encontrar em suas palavras – mas não é uma questão de querer manipulá-la. Trata-se de passar uma mensagem, de torná-la capaz de falar por si mesma, sem a intervenção do ventríloquo. Porque você foi um fantoche a sua vida inteira, e eu lhe ofereço a liberdade dessa condição, e não a prisão – o ninja concluiu, utilizando-se da mesma analogia feita pela hippie – aceite e aproveite ao máximo o que a voz da experiência pode lhe oferecer, Alice, somente assim você será capaz de concluir o seu treino com êxito. Foi para isso que você pediu a minha ajuda, não foi?

– Eu não queria dar a entender que estou contestando os seus métodos, eu só... – fez uma pausa, procurando pela expressão mais adequada – ... fui pega de surpresa por eles! – sorriu timidamente, tentando mostrar que seria capaz de passar por todas as dificuldades que a esperavam ao tê-lo como Mestre, tentando aparentar uma competência que ela sabia que não tinha.

– Você vai se sair bem! – ele deu um sorriso amplo ao lembrar-se de uma Alice confusa, cheia de medos e receios mal resolvidos que dividiu a cela com ele há alguns anos, e ver a nova Alice bem diante de seus olhos, parecendo bem mais focada agora, tanto que já havia feito coisas incríveis para alcançar os próprios objetivos. Somente o fato de forjar sua morte e ser a responsável pela fuga de um presidiário já mostravam a Ducard que ele sempre esteve certo ao apostar na capacidade de Alice, que era tão desmerecida pelos olhos incapazes de enxergar o seu verdadeiro potencial.

Notas finais
Pois é, eu gosto de aviões de guerra, e daí?! =P Por isso eu acabei me empolgando com o capítulo, porque praticamente descrevi o funcionamento inteiro do Caça... rsrsrs (Aliás, todas as informações que o Ducard dá a respeito do Caça são verdadeiras - exceto o lance dos paraquedas, realmente não achei nenhuma informação quanto a isso, mas a gente finge que é verdade -, eu estou quase uma perita no assunto! Tô até vendo a Segurança Nacional dos Estados Unidos vir atrás de mim para me ameaçar por eu ter falado demais a respeito da defesa/ataque aérea do país... heheh) Júlia, minha fofa, eu sei que eu tinha prometido para você que ia colocar a resposta daquela sua dúvida nesse capítulo, mas eu achei melhor deixar para o próximo, porque senão ia ficar grande demais e eu ia demorar uma eternidade para postar! rsrs Desculpa eu? =P