A Fabulosa Mooresville
8 Capítulo 8 - Calor, Olhares e Livros
Notas iniciais
Sofia narrando!
O sol que antes tornava tudo tão bonito e mágico agora estava ficando insuportável. Já estávamos andando pela rua há alguns minutos e a cada minuto ficava mais quente. Gotículas de suor começaram a brotar em minha pele, escorrendo pelo meu pescoço e me forçando a tirar a jaqueta.
–Nossa, que cidade quente. –Mary reclamou enquanto tentava se abanar com as mãos. Ri da cara que ela fazia. Seu lábio superior estava levemente levantado e um dos lados do nariz franzidos.
Joanne continuava do mesmo jeito.Inabalável. O calor não parecia a atingir, pelo contrário, ela parecia absorver a energia, e com isso ficava cada vez mais mágica.
Examinei rapidamente as pessoas que se encontravam na rua. Cada uma estava ocupada em fazer algo, e não se importavam de serem observadas por dois novos olhares.
Uma garota em particular me chamou atenção. Ela parecia pequena, mesmo sentada. Seus cabelos eram da cor da madeira, pude perceber as várias sardas espalhadas pelo nariz e pela maça do rosto. Ela dedilhava um violão um tanto antigo, seus olhos estavam fechados e ela balançava lentamente. Ela parecia um anjo olhando de longe, combinava perfeitamente com o cenário da cidade.
No momento em que passamos na frente da garota senti um braço fino e leve rodear meus ombros. Tomei um leve susto, parando de andar. Joanne soltou uma risada abafada para minha reação. A dona do braço era ela. O hálito extremamente gelado dela batia no meu pescoço, me dando calafrios.
–Vejo que já notou a Dama de Gelo. –Ela havia percebido que eu estava observando a menina do violão. Riu sinistramente e se afastou. –O nome dela é Joanna. Chegou à cidade um ano antes dos pais morrerem. Tem um irmão muito lindo. Dylan. Ele sim é legal, ela é estranha. –Ela falou e riu. Não parecia apreciar a presença daquela menina na cidade.
A garota abriu os olhos enquanto eu passava por ela. Nossos olhos se encontraram e nós nos encaramos por alguns segundos. Sua boca se curvou num leve sorriso e depois voltou a fechar os belos e grandes olhos azuis.
Não era comum de se ver na minha cidade natal alguém tocando instrumentos na rua. Nem desenhando. Muito menos lendo. A cidade era completamente diferente do que eu estava acostumada. Não havia cheiro de fumaça de carros, nem a barulheira de celulares e televisões. Era possível se ver muitas crianças na rua, brincando de coisas que meus avós devem ter brincado na infância.
A cidade havia parado no tempo. De alguma forma alguém ou alguma coisa impediu a modernização chegar a ela. E isso me revirava o estomago. Perfeito demais.
–Estão vendo aquela garota? –Joanne apontou para uma garota de cabelos levemente acobreados que ouvia música com um livro fechado no colo sentada num banco não muito longe dali. Ela parecia uma pequena fada. Não apenas pela aparência, algo nela deva um ar um tanto místico. –O nome dele é Aria Huntress, filha do tesoureiro da cidade. Não é uma pessoa legal. Não aconselho vocês a chegar perto dela, ela acha que manda em alguma coisa. –Suas feições tornaram enojadas. Ela claramente não gostava daquela garota.
–Ela parece legal. –Falei. A garota da qual estávamos falando se levantou assim que viu um garoto, o pegando num abraço apertado.
–Mas não é. Aquele que a abraçou é Thomas Di Loretto, ele é lindo. E rico. Filho do primeiro ministro, que por acaso é muito amigo do pai de Aria, então eles cresceram juntos. –Joanne falou indignada e suspirou. Seus olhos deslizaram pela rua, até que se focaram num ponto e seu sorriso se tornou maléfico. –Ah, momento raro agora. Estão vendo aquela garota toda de preto? –Virei a cabeça para onde ela olhava. Uma garota bem branca e com as roupas pretas estava andando do outro lado da rua, seu rosto estava retorcido em uma carranca. –Ela se chama Emily Foxer, a gótica da cidade. Ela quase não vem a aqui, normalmente fica dentro da floresta. –Ela riu desdenhosa. –Deve ficar matando coelhinhos.
Era incrível como ela conhecia quase todos da cidade. E para todos ela tinha alguma crítica, ninguém era bom o bastante. Pelo menos não tão bom como ela. Não estranharia se ela falasse mal de mim assim que eu virasse as costas.
–Chega de falar dos outros, prometi que ia mostrar a cidade e vou cumprir a promessa. –Joanne sorriu e colocou as mãos nos bolos. -Venham comigo, quero mostrar uma coisa a vocês. –Ela começou a andar mais rápido. Eu tentei acompanha-la, mas suas pernas eram muito mais compridas que as minhas, tornando difícil para mim acompanha-la.
Paramos em frente a uma pequena livraria, a mesma que mais cedo uma garota estava fotografando a vitrine. Joanne sorriu largamente para nós e abriu a porta. O forte cheiro de livro antigo e poeira passou por mim. O lugar era bem simpático, várias estantes estavam dispostas pelo lugar, e elas estavam repletas de livros novos e antigos.
Joanne adentrou na loja e andou até um dos extremos dela parando atrás de uma escada apoiada nas estantes. Nela estava um garoto arrumando os livros, se esticado para alcançar a mais alta prateleira. Ele era muito charmoso. Seus cabelos escuros caiam sobre os olhos enquanto ele lia os títulos dos livros para depois coloca-los em seu devido lugar.
–Alan. –Joanne falou e o garoto perdeu o equilíbrio, quase caindo da escada. Por pouco ele não caiu, mas suas longas mãos agarraram uma das estantes. Ela riu, seu belo riso ecoou pelo corredor. Mary também riu do garoto, mas estava visivelmente interessada. O garoto realmente tinha umas belas costas. Seus ombros eram largos e seus braços fortes.
–Anne, veio comprar outro livro para não ler? –Ele falou. Sua voz era melodiosa e rouca. Guardou o último livro na estante e se virou. Seu rosto era bonito, mas era novamente uma beleza clássica. Um príncipe transportado para a atualidade, vestindo calças jeans e uma blusa xadrez. As roupas não combinavam com ele.
–Não. Vim te apresentar minhas mais novas amigas, também as mais novas moradoras de nossa cidade e provavelmente suas mais novas clientes. –Joanne falou divertida e piscou para ele. – Seja educado e desça para cumprimenta-las. –Ela ordenou e ele bufou. Suas mãos envolveram um dos degraus da escada, então ele se jogou, ficando pendurado pelas mãos. Soltou-se, flexionando os joelhos ao atingir o chão e depois se endireitou, sorrindo charmosamente
–Sou Alan Ackerman, prazer. –Ele colocou uma das mãos no bolso e com a outra ele acenou timidamente.
–Sou Mary Küster, deve ser muito interessante trabalhar numa livraria. –Ela sorriu abertamente para ele, passando a mão nos cabelos, mas os olhos dele não desgrudavam de mim. Mary não deve ter apreciado muito isso, estava acostumada a chamar mais atenção que eu.
–Prazer Mary, é mesmo interessante. –Ele falou educadamente, mas seus olhos continuavam presos em mim. Desconfortável. Senti o sangue esquentar meu rosto enquanto abaixava a cabeça. –E qual o seu nome?
–Sofia Magdalena Ducce. -Levantei minha cabeça, mas não o olhei. Prendi meu olhar em Joanne, que olhava uma das estantes.
–Ducce? –Ele falou levantando uma sobrancelha e olhando para Joanne, que desviou o olhar do livro e sorriu de lado.
–Sim. –Franzi o cenho. Seria mais um primo?
–Ducce. Os donos da casa mal-assombrada. –Ele sorriu largamente. Olhei confusa pra Joanne, que soltou uma baixa gargalhada.
–Desista Ackerman, Jessica já falou isso. –Ela falou entre as gargalhadas e deu dois tapinhas no braço do garoto.
–Jessica, sempre acabando com a minha diversão. –Ele falou com a voz afetada e depois riu. –Pelo visto conheceu a outra parte da sua família. Espere até conhecer os antigos amigos do seu avô. O meu é um deles. –Ele sorriu, e dessa vez eu tive que retribuir. –Falando nisso, dê isso aqui para ele em nome de Aaron Ackerman.
–Ele se esticou e pegou um livro de capa grossa sem nome, parecia o mesmo que Jessica estava lendo no mercado. –E diga que se ele quiser pode ir visitá-lo comigo da próxima vez que eu for. –Ele pegou um papel branco e embrulhou o livro, depois o colocou numa sacola e me entregou, sorrindo simpaticamente. –Joanne, antes que você pergunte, a Lyanna está no estoque. –Ele riu para ela, que já estava abrindo a boca para perguntar algo.
–Vidente. –Joanne sorriu e saiu saltitando pelo corredor. Seus cabelos loiros brilhantes balançavam, me remetendo a um dos únicos momentos de meu passado que eu me lembrava. Nós duas, pequenas e lindas em vestidos de mangas bufantes, brincando ao lado do balanço, sentadas sobre uma toalha listrada. Um chá para as bonecas. No caso, as bonecas éramos nós.
–Você não mora com seu avô? –Perguntei, abraçando a sacola. O ar se tornou mais sombrio. Alan engoliu em seco e fez uma careta de desgosto leve, com certeza para passar despercebido por mim e Mary.
–Não. Ele mora num asilo na cidade ao lado. Eu moro com meu padrasto. –Ele falou e se virou, mexendo em alguns livros. Entendi aquela ação como um recado para eu não tocar mais no assunto.
Aproveitei o repentino silêncio para observar uma das estantes. Me aproximei de uma e passei a mão delicadamente pelas capas, aspirando o forte cheiro de livro. Não reconheci a maioria dos títulos ali presentes, na verdade a maioria ali não tinha títulos, e se tinha já foram apagados pelo tempo.
–Ele gostou de você. –Mary falou pegando um dos livros e o examinando, abrindo em uma página qualquer.
–E você gostou dele. –Respondi sem olha-la.
–As coisas nem sempre saem como planejo. –Ela fechou o livro repentinamente, chamando minha atenção.
–Você sabe que se conversar com ele vai rapidinho pegá-lo em suas garras. –Tirei o livro da mão dela e o guardei.
–Você acha? –Ela falou insegura. Eu não queria nada com o garoto, então ela podia fazer o que quiser com ele.
–Tenho certeza. –Sorri e ela pulou, indo conversar com o Alan.
Fiquei sozinha por algum tempo, repetindo o que estava fazendo antes, mas logo Joanne apareceu, andando em minha direção com um sorrisinho. Mais uma vez naquele dia me senti inferior, não por ela ser bonita, e sim por ter esse jeito mágico. Se ela saísse voando eu não ia ficar surpresa.
–Falei com uma amiga minha, Lyanna, ela vai juntar meu pessoal para ajudar na limpeza, vão nos encontrar no restaurante mais tarde. –Ela suspirou. –Ela disse para vocês desculparem ela por não vir falar com vocês, está muito ocupada lá atrás. –Suas mãos se juntaram, fazendo um estrondo na quieta livraria. –Vamos conhecer o resto da cidade?
LEIAM AS NOTAS FINAIS!!
Notas finais
Estava pensando em, agora que a história começou e nenhum novo personagem irá entrar, tirar o "Fic Interativa" do nome. O que vocês acham? Continuará a mesma coisa, só que ninguém ficara me mandando fichas.
beijos
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