A Fabulosa Mooresville

4 Capítulo 4 - Folhas, Cerejas e Raios de Sol


Notas iniciais
Olá! Espero que gostem! Tem um link da música que é o "tema" da fanfic lá embaixo nas notas finais, se quiserem ler escutando é só acessar!

Quando acordei estava escuro ainda. Da janela aberta entrava uma brisa gelada e o mesmo cheiro das laranjas. Levantei-me calçando meus chinelos e andei até ela. Debrucei-me no batente como na noite anterior e fiquei observando a paisagem. O sol começaria a nascer em alguns minutos, então o céu começou ficar meio alaranjado.


Numa árvore próxima consegui enxergar um balanço amarrado em seus galhos, a corda parecia estragada e a madeira podre. Ele balançava levemente, para frente e para trás. De repente me vi ali, uma criança ainda, com um vestidinho rosa e sapatinhos pretos brilhantes. Uma moça com idade avançada me empurrava, enquanto um senhor nos observava de longe. Faltava alguma coisa naquela memória, algum fragmento esquecido. E alguma coisa me dizia que era importante.



Uma folha amarelada tentou entrar no quarto, mas ficou presa em meus cabelos. Enquanto tentava tira-la dos meus cabelos embaraçados, escutei um baque vindo de cima. Virei a cabeça por reflexo e encarei uma das janelas do terceiro andar. Estava fechada. Balancei a cabeça para esquecer e continuei tentando tirar a folha, que agora tinha se despedaçado e grudado completamente no meu cabelo. A casa, além de ser velha e sinistra, estala. Só me faltava essa.



Me afastei da janela e fui até a mala, tirando uma saia branca com um laço preto e uma jaqueta de couro avermelhada. Coloquei as roupas em cima de uma cadeira e peguei uma toalha. Antes de sair do quarto, olhei para Mary. Ela estava esparramada na cama toda e a coberta estava no chão. Ri levemente para não acorda-la e sai do quarto.



O corredor estava exatamente como a noite passada, levemente iluminado. Andei rapidamente até o outro extremo. Parecia que ali era o banheiro, pois a maçaneta em vez de ser de ferro, era de porcelana branca com detalhes azuis. Era muito bonita, mas havia uma pequena rachadura bem no meio. Cuidadosamente virei a maçaneta para o lado esquerdo. A porta abriu facilmente e eu entrei.



Ali definitivamente era o banheiro. A parede era de azulejos brancos até mais ou menos minha cintura, e depois era de madeira escura igual ao resto da casa. O piso também era de azulejos brancos. As paredes estavam com o que pareciam pequenas veias pretas espalhadas por todo o lugar, a pia estava amarelada pelos resíduos da decomposição das folhas e pelas manchas de ferrugem. Dentro da banheira, que também servia como chuveiro, tinha várias folhas secas e estava imunda. Vários frascos antigos estavam no chão. Quando se mudaram lá pra baixo, meus avós esqueceram a pequena janela aberta, deixando as folhas entrarem e o vento derrubar os objetos.



Era assustador.



Cautelosamente tirei as folhas da banheira, as jogando numa espécie de lixeira sofisticada velha que ficava ao lado do vaso. A banheira sem as folhas era pior ainda. No lugar onde elas estavam agora era dominado por um tipo de sujeira amarelada grudada na porcelana.



Tirei meu pijama e o coloquei no lugar mais limpo que encontrei. Abri a torneira que, é claro, abria pro lado esquerdo. Ouvi barulhos vindos da encanação e o cheiro de ferrugem dominou o banheiro. O chuveiro tremeu e rangeu, e após longos segundos um líquido espesso e marrom saiu, deixando ainda mais suja a banheira.



Esperei a água enferrujada sair, mas mesmo assim a água ainda era amarelada e com cheiro de ferro. Tomei banho sem lavar a cabeça, até por que não trouxe shampoo e não iria usar o dali. Terminei o banho o mais rápido possível e voltei para o quarto correndo.



O cheiro do segundo andar já estava bem melhor que ontem à noite. O cheiro de canela agora era bem mais forte que os outros, e agora brigava com o cheiro de laranja que vinha de fora. Aquilo me fez novamente levar a língua aos lábios. Era delicioso.



Mary se sentou assustada assim que eu bati a porta. Olhou-me com sono e voltou a cair no travesseiro. Ela não estava acostumada e não gostava de acordar cedo. Ri alto e coloquei a roupa que havia separado, prendendo meus cabelos loiros num rabo de cavalo alto.



–Mary, acorda. Nós temos que ir pra cidade. –Falei e a cutuquei.



–Tudo bem. –Ela falou e levantou ainda com os olhos fechados. Balancei a cabeça para sua ação e sentei na cama de frente para o armário. Ele de madeira levemente mais clara que a do resto da casa. Sua porta ainda estava aberta e o vestido de minha avó estava ali. O olhei por algum tempo, examinando-o. Consegui imaginar minha avó nova com aquele vestido andando elegantemente com meu avô ao seu lado. Era lindo, flores amarelas preenchiam o tecido branco, e um laço amarelo estava amarrado nele. Levantei-me e passei a mão pelo seu tecido, apertando-o em meus dedos e o levando até o nariz. Cheiro de tecido velho e um leve cheiro de perfume.



–Vou tomar banho. –Mary falou e me deu um susto. Larguei rapidamente o vestido, como se tivesse sido pega fazendo algo vergonhoso.



–Ok. Sorte sua que eu tomei antes e dei um jeito no banheiro. Você ia sair gritando. –Falei enquanto dava um jeito na cama. Peguei um pouco do dinheiro que trouxe e coloquei num bolso no interior da jaqueta e esperei ela acabar com o banho.



Quando descemos o dia já estava bem claro e os pássaros cantavam do lado de fora. Procurei pelo meu avô, mas ele não estava em casa. Devia ter ido tomar café na rua e não chamou a gente.



Saímos e Mary saiu correndo para não pisar muito tempo naquelas folhas da varanda. Tranquei a casa e andei calmamente até o carro. Entrei no banco do passageiro e tranquei a porta, então Mary deu a partida.



A viajem até o centro foi rápida e silenciosa, o cheiro de laranja foi ficando mais fraco a medida que nos afastávamos da casa, dando lugar a um cheiro igualmente maravilhoso de amendoim torrado e cereja. A rua principal era fechada para carros, então tivemos que parar num pequeno estacionamento ali e ir andando até ela. A cidade era surpreendentemente cheia para suas proporções, vários idosos, adultos e adolescentes preenchiam a grande rua principal. A atmosfera do lugar era diferente do que estávamos acostumadas. Um sentimento alegre pairava no ar e os raios de sol dançavam nos rostos das pessoas. Era maravilhoso, todos pareciam se conhecer.



Examinei rapidamente cada pessoa ali, rostos diferentes e vidas diferentes. Cada uma ocupada com seus afazeres e sem perceber as duas novas moradoras na cidade.


Havia uma garota sentada num banco da calçada com as pernas cruzadas, lendo um exemplar de “Um homem de sorte” velho e surrado. Outra desenhava sentada em uma mesinha de pedra e tinha perto do banco. Uma outra tirava fotos de uma pequena livraria.


A garota sorridente que estava na mesa de pedra, desviou os olhos do desenho e olhou na minha direção. Sustentei seu olhar por um minuto, então ela o desviou, guardando seu desenho numa bolsa e vindo até mim.



–Vocês são as novas moradoras, não é? É a neta do Nicolau? E você trouxe sua amiguinha pra cá. –Ela falou rápido e sorriu. –Meu nome é Helena Dawson. –Ela estendeu a mão e eu a apertei levemente.



–Sou Sofia e essa é a Mary. –Sorri de volta. Ela era simpática e alegria irradiava dele. –Pode nos dizer onde fica um mercadinho ou uma mercearia? –Perguntei e ela fez cara de pensativa.



–Tem um mercado no final da rua e uma mercearia na rua paralela. Imagino que também quer saber onde está seu avô? –Ela falou sorrindo e acenou para alguém atrás de mim.



–Sim, seria ótimo. –Disse. Ele não tinha deixado nenhum recado em casa, mas era aceitável já que não era acostumado a ter que deixar satisfações de onde iria.



–Ele passa o dia num restaurante de um amigo dele. Se eu não me engano o nome é Sunset. É só seguir na direção do mercado que você vai ver o restaurante. –Ela colocou os cabelos atrás da orelha e as mãos no bolso. Era baixinha e tinha os cabelos da cor do mel que brilhavam a luz do sol.



–Muito obrigada pelas informações! –Mary falou e a garota olhou para ela sorrindo. O celular de helena tocou e ela pegou, olhando para o visor.



–Não há de que. Agora eu devo seguir meu caminho. Adeus. –Ela se despediu rapidamente e saiu correndo, acenando em nossa direção.



Voltamos a andar pela rua. Uma senhora bem idosa estava em pé ao lado de uma farmácia, ela segurava um pequeno gato malhado nas mãos. Olhei-a curiosamente, e ela ao perceber saiu andando o mais rápido possível, praguejando alguma coisa ao gato.



–Ela é muito legal. –Mary comentou.



–Quem? –Virei a cabeça pra ela rapidamente quando ouvi afirmação.



–Helena. Quem mais seria? –Murmurou irritada. Efeito de ter acordado cedo.



–Ah sim. Muito legal. –Encerrei a conversa e continuamos andando pela rua, vendo cada indivíduo se portar de sua própia maneira, embalados pelo cheiro de cerejas, amendoim e pelos brilhantes raios de sol.



Leiam as notas finais!




Notas finais
Música da fanfic: http://www.youtube.com/watch?