A Fabulosa Mooresville
5 Capítulo 5 - Milho, Frutas vermelhas e Tatuagens
Notas iniciais
PRESTEM MUITA ATENÇÃO EM TODOS OS DETALHES E GUARDEM NA MEMÓRIA!
Nós andávamos em silêncio. Em apenas alguns minutos nós já estávamos na frente do restaurante que a tal de Helena tinha falado. Ele ficava no andar de baixo de um prédio de dois andares um pouco estreito, era de madeira escura e tinha uma porta de vidro que não combinava com o lugar.
Eu conseguia ver meu avô sentado lá ao lado de vários outros senhores. Com sua altura era impossível não reconhecê-lo. Era provável que estivessem compartilhando histórias de guerra e amores impossíveis, contando vantagens ao seus companheiros e recitando frases de livros clássicos que habitam as bibliotecas de cidades pequenas.
Abri a porta e o um barulho de sino preencheu o ambiente. Meu avô se virou para a porta, deixando suas orelhas a mostra. Sorri levemente e ele não retribuiu. A porta aberta da cozinha dava passagem um cheiro forte de massa de bolo que vinha flutuando até nós.
–Magdalena. –Ele falou baixo. Jamais apreciei esse nome, achava simplesmente estranho, mesmo sendo o nome da irmã de minha avó. –Achei que adolescentes de hoje em dia dormissem até tarde. –Ele falou seriamente, bem diferente de como se comunicara comigo no dia anterior.
–Eu estou acostumada a acordar cedo vovô. Espero que isso não o incomode. –Respondi no mesmo tom. Ao seu lado estava um senhor rechonchudo de cabelo e bigode grisalhos. Ele tinha na sua frente uma xícara cheia de café e um pote com um tipo de mingau estranho. Seus olhos me admiravam ligeiramente arregalados.
–Essa é sua neta Nicolau?! Como cresceu! Era menor que minha macieira quando a vi pela última vez. Bem, minha macieira também cresceu. Uma árvore robusta, devo dizer. – Ele levantou esbaforido e agarrou minha mão a apertando freneticamente. –Não deve lembrar de mim, era tão pequena. Sou Alain Thibault, sou o dono do restaurante. Você brincava muito com minha neta quando era pequena. O nome dela é Joanne. –O senhor falava empolgado, sua energia poderia ser comparada com um garoto de seus trinta e poucos anos. Fascinante, porém estranho.
–Joanne? Não me lembro. Mas é um prazer te conhecer novamente Sr. Thibault. –Falei dando um jeito de tirar minha mão do aperto forte da mão dele, o que não o fez desmanchar o sorriso.
–Por favor, me chame de Alain. Ou Alan se preferir, americanos não pronunciam meu nome corretamente. –Ele falou e soltou uma gargalhada estrondosa que encheu o ambiente. Pude perceber meu avô balançando ligeiramente a cabeça.
–Alain. Acho que consigo. –Sorri animada para ele. Era a segunda dose de “vida” que recebia na cidade. A primeira dele e a segunda de Helena. Cidade na qual todos pareciam quietos. Não se ouviam gargalhadas nem gritos de indignação quando se andava pela rua.
–Joanne deve chegar daqui a pouco. É provável que esteja por aí com aquele livro velho na mão, gasto tanto dinheiro com livros para essa menina e ela só lê o mesmo. –Ele reclamou rindo. Um garoto alto e moreno se aproximou da mesa, deixando os pratos com comidas irreconhecíveis na frente dos homens que estavam na mesa. Em seus braços fortes expostos pelas mangas arregaçadas pude perceber duas tatuagens. Tinha algo escrito lá, mas não consegui ler o que era.
–Deve ser por que ela é estranha. –O garoto falou alto sério enquanto nos examinava, parando do lado de Alain. Atraente. Era o mínimo a se dizer dele.
–Oh sim, claro. Oliver e suas piadinhas. Cuidado para não assustar a garota. –Ele sorriu amigavelmente para o garoto. –Sofia esse é Oliver Painest, garçom e aprendiz de cozinheiro daqui. Um ótimo garoto, devo dizer. –O garoto olhou com admiração para ele. Era perceptível que eles tinham certa amizade.
–Se se assustou com o café da manhã daqui, volte no almoço que terá uma surpresa. -Ele deu um sorrisinho de lado e voltou à cozinha, pude ver Mary suspirando. Maldita hora que falei que poderíamos dar um tempo com a limpeza para sairmos com garotos. Maldita hora...
–Não ligue para ele, ele é assim mesmo. Misterioso, mas é um bom funcionário e não fica tentando nada com a minha neta. Na verdade, eles são com cão e gato. Acho que ela é a única pessoa que eu já vi a conseguir levar Oliver ao estado de irritação profunda. E quem é essa moça bonita aqui? –Ele falou tão rápido que quase não identifiquei o que queria dizer, parecia um alto falante com defeito.
–Sou Mary Küster, prazer. –Ela apertou a mão dele que estava estendida.
–Mary. Um belo nome senhorita. –Ele sorriu para ela que ainda mantinha os olhos na porta da cozinha por onde o bonitinho havia saído. –Vamos, sentem-se e peçam algo para comer. –Obedeci e me sentei ao lado do meu avô. Peguei um cardápio de papel plastificado simples e encarei os nomes peculiares. “Ovos moles com molho vermelho e pimenta habanero” e “Pele de porco ao forno com panquecas Thibault” faziam parte do cardápio do café da manhã. –Deixe-me dar uma sugestão. Já que não estão acostumadas com as comidas daqui, deveriam começar com mingau de milho com frutas vermelhas.
Concordamos com ele e logo nossos pratos estavam na mesa trazidos pelo atraente e misterioso Oliver. Peguei hesitantemente a colher e mergulhei na tigela cheia de uma pasta amarelada e pontos vermelhos. A fumaça que saiu dali esquentou minha mão quase que instantaneamente, e eu enchi a colher. Olhei para Mary que encarava sua colher com uma cara nada disfarçada de nojo.
Em um ímpeto levei a colher na boca e a puxei de volta, franzindo o cenho a espera de o sabor dominar minha boca. A primeira coisa que senti foi minha boca ser dominada pelo calor, depois veio o gosto. Não era ruim.
Não mesmo.
O gosto das frutas combinava de um jeito tão único com o milho e com o calor da comida que era difícil explicar a mim mesma que aquilo não era ruim. Um dos meus melhores cafés da manhã em anos.
Olhei para Mary que estava com a boca entupida de mingau e com uma expressão de prazer no rosto. Ela retribuiu o olhar e seus lábios formaram o que deveria ser um sorriso se ela não estivesse de boca cheia. Ela levantou a mão, me pedindo para esperar, e engoliu todo o conteúdo de dentro da boca.
–Se não quiser terminar o seu, me dê que eu termino. –Ela falou e voltou a comer. Ela não iria comer o meu mesmo, estava gostoso demais e eu estava com fome demais. Alain olhou sorrindo para nós e depois cutucou meu avô, que deu o mesmo sorriso doce que eu tinha conhecido no dia que cheguei.
Quando estávamos com as tigelas vazias, a mesma garota loira que estava lendo na rua quando chegamos entrou no restaurante, largando uma bolsa de couro numa das cadeiras ao lado da porta e se abanando.
–Está muito quente hoje. –Ela falou se aproximando da mesa e sorrindo. –Vovô, o senhor por aqui? Nossa que raro... –Ela falou irônica e ele a olhou repreendendo-a.
–Sem gracinhas, por favor. –Ele falou levemente irritado e ele soltou uma pequena gargalhada, o abraçando apertado. –Joanne, se lembra da neta de Nicolau? Aquela que brincava com você quando estava de férias. –Alain colocou o cabelo da garota atrás da orelha e ela agradeceu o carinho com um sorriso.
–Vagamente. Lembro-me do balanço. –Ela falou e gargalhou no final. Isso completou parte da minha lembrança. Meu avô ainda jovem nos observando de longe, enquanto minha avó me empurrava no balanço de madeira. Uma menina de cabelos loiros tão brilhantes como ouro de vestido rosa ria ao meu lado batendo palmas.
Era ela. Mas a memória não estava completa ainda, faltava algo.
–Joanne, essa é a garota que brincava com você. – Ela apontou com a cabeça para mim e eu sorri amigavelmente para a garota. Levantei-me para parecer minimamente educada e dei um abraço tímido nela, que retribuiu com a mesma timidez. –O nome dela, caso não se lembre, é Sofia, e essa é a amiga dela, Mary. Elas se mudaram para a cidade depois de... Você sabe. É bom ela ter uma amiga nativa, então peço que seja essa amiga. –Ele falou olhando sério para ela, que retribuiu com um sorriso amarelo. Era estranha essa pressão de Alain para que ela voltasse a ser minha amiga, mas nada mais me surpreendia nessa cidade. Ou o povo era hospitaleiro demais, ou fugia de mim.
–É claro. Estão querendo ir a algum lugar? Eu posso acompanhá-las se quiserem. –Ela falou para mim e para a Mary, que já estava de pé. A loira deu dois tapinhas na perna e puxou os lábios, formando uma linha fina com eles.
–Sim, seria muito bom. Estamos indo ao mercado. –Falei animadamente. Era bom ter uma companhia que mora na cidade.
–Tudo bem. Vamos? –Ela falou e deu um pulinho. Assenti e olhei para Mary. Ela mexia nas unhas com uma cara triste. Balancei a cabeça e puxei o braço dela fazendo-a perder o equilíbrio. –Vovô, vou acompanhar as meninas e mais tarde eu volto e faço os bolos. –Ela deu um beijo no topo da cabeça do senhor.
Assim que abri a porta o cheiro mudou drasticamente, voltou a ser o mesmo de cereja e amendoim torrado. Saí do restaurante recebendo com carinho aqueles mágicos raios de sol que enchiam a cidade de luz e davam um ar confortável para ela.
Percebi como os cabelos de Joanne brilhavam com aquela luz, e ela parecia aproveitar mais do que eu aqueles raios. No seu rosto pude perceber o leve sorriso. Naquele momento percebi que ela era a cidade. Magnífica, linda e quase mágica. Mas talvez escondesse um segredo.
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