A Fúria dos Mares [SwanQueen]
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Capítulo 3: The crown weighs heavy (until it's banging on my eyelids)
A coroa pesa (chega a cair sobre minhas pálpebras)
A carruagem de Regina finalmente chegou ao seu destino depois de longas horas pelas estradas tortuosas do reino: finalmente estava em casa. A propriedade pertencente a seu pai, com seus dias ensolarados e grama verdinha, era muito mais acolhedora do que o sombrio reino liderado pelo rei Maurice. Embora a guerra contra os ogros assolasse o território, o homenzinho insistia em manter as aparências e continuava a promover grandiosos bailes para a nobreza – “para levantar o moral”, ele dizia, embora Regina suspeitasse que nenhum dos soldados-cavaleiros que passavam fome entrincheirados na floresta, sentia sua moral levantada pelos tediosos carnavais do rei.
Regina achava tudo muito absurdo e entediante. Não queria dançar com condes e lordes em um baile estúpido, muito menos lhe interessava as ladainhas insessantes deles sobre o extremo valor que atribuíam a si mesmos ao falar das batalhas que enfrentavam. Não queria viajar tanto tempo apenas para tomar parte em festejos, rodeada de príncipes enfadonhos. Por isso, foi com muita alegria que chegou em sua própria casa.
Desceu da carruagem e correu aos estábulos, antes que seus pais lhe chamassem ao palácio. Correu o mais rápido que conseguiu, lutando para se equilibrar enquanto segurava as saias do vestido. Aos 16 anos, Regina não passava de uma criança a correr pelos campos – mesmo que isso provocasse a fúria de sua mãe. Cora ainda não sabia como faria para que a menina parasse de se comportar como um garoto travesso e se tornasse a verdadeira dama que sua linhagem exigia que fosse.
Justamente por ser apenas uma menina, precisava ver Daniel naquele momento e contar-lhe sobre a misteriosa viajante que havia encontrado na estrada a caminho de casa. Tinha de contar-lhe como a garota agia de maneira irritante, como se já conhecesse Regina há muito tempo e pudesse fazer dela o que quisesse. Tinha que contar-lhe que a garota usava uma farda de soldado – uma farda! – e fingia ser um rapaz... Fingia tão bem que até mesmo beijou Regina nos lábios como se fosse mesmo um homem. E Regina nem mesmo havia lhe dado permissão para que lhe beijasse! (Tinha acariciado o rosto dela e passado as mãos naquele cabelo loiro e olhado longamente para aqueles olhos verdes tão bonitos, mas de forma alguma tinha lhe dito que, sim, poderia beijá-la do jeito que quisesse... como se Regina fosse uma qualquer!). De repente, sentiu o rosto afogueado e já não sabia dizer se era pelo calor da corrida ou pela lembrança de sentir os lábios da garota, tão macios junto aos seus. Decidiu, por fim, que o melhor seria omitir que havia beijado a menina.
— Regina! – exclamou Daniel, assim que a viu entrar nos estábulos.
Regina não perdeu tempo e correu para abraçar o amigo. Havia muitos dias que tinha partido para a corte do rei Maurice, para a festa estúpida, acompanhada apenas de seus pais e alguns criados com quem nunca tinha a liberdade de conversar ou se divertir como fazia com Daniel.
— Não vai acreditar no que me aconteceu! – disse Regina, ao desvencilhar-se do abraço do rapaz – Quando viajávamos de volta para cá, encontramos um soldado do rei Maurice! Não um cavaleiro propriamente dito, nem mesmo usava armadura como os nobres... talvez fosse um soldado raso.
— E o que ele fazia longe do fronte de guerra? – perguntou Daniel franzindo o cenho – Não me diga que estava desertando. Não pararam para ajudar um soldado desertor, não é mesmo?
— Brent parou a carruagem e eu estava muito curiosa para vê-lo de perto, por isso saí para falar com ele.
— E sua mãe não lhe impediu? — indagou ele, ainda cético quanto a veracidade da história.
— A carruagem de meus pais já estava muitos quilômetros a nossa frente. Tivemos um contratempo com uma das rodas e ficamos para trás até que Brent pudesse concertá-la. Papai jamais me deixará viajar sozinha novamente depois que Brent contar-lhe tudo o que aconteceu – completou ela, com pesar.
— Não vejo motivo. Não há nada de errado em um soldado na estrada.
— Sim, mas acontece que paramos e esse homem não era bem um soldado... Me ameaçou com sua faca e sequestrou a carruagem. Depois revelou ser, na verdade, uma garota.
— E não roubou a carruagem, nem suas jóias? – constatou ele, vendo que Regina ainda trazia os brincos e o colar de pérolas consigo – Devia estar fugindo de algum lugar – deu de ombros.
— Juro que era igualzinha à Emma – disse Regina com voz hesitante, depois de algum tempo de silêncio.
Daniel deu um suspiro cansado como sempre fazia quando Regina inevitavelmente voltava a falar na menininha loira que havia sido sua sombra quando eram mais novas.
— Você sabe que isso é impossível, Regina. Emma morreu há muitos anos atrás, naquela manhã chuvosa, depois que você veio nos visitar, lembra? – repetiu a história pelo que deveria ser a centésima vez.
Regina se lembrava.
Lembrava muito bem da noite em que passara nos braços de Emma. As duas eram crianças, mas Emma era ainda menor que Regina: a figura pequenina que a seguia para onde quer que fosse, os bracinhos finos e o corpo mirrado de quem havia passado fome a vida toda. Mesmo naquela época, Regina entendia que a amiga tinha uma vida difícil e que devia considerar-se sortuda em ter conseguido trabalho na propriedade de Lorde Henry.
Ainda assim, Emma havia sugerido que fugissem juntas. Regina teria fugido – Deus sabe que teria acompanhado Emma para bem longe dali. Naquela idade, Regina sofria muito nas mãos de Cora, ainda não tendo se acostumado aos castigos terríveis aplicados pela mãe. Teriam fugido e, provavelmente, morreriam de fome juntas ou acabariam trabalhando em outra fazenda. Mas nada disso importava mais – Emma havia morrido.
No dia seguinte à sua visita frustrada aos amigos, Regina havia conseguido fugir do castigo e correr até as colinas como fazia todas as tardes. Chegando lá, encontrou apenas Daniel – com o rosto vermelho de tanto chorar e o corpo ainda a tremer um pouco. O menino havia abraçado Regina e dito em sussurros hesitantes que Emma havia morrido naquela manhã. Seu pai fora ordenado a levá-la para longe dalí e, no caminho, a carruagem onde estavam virou em um penhasco. O pai de Daniel, por ser mais forte e rápido conseguira pular da carruagem a tempo, mas Emma não havia tido a mesma sorte.
Depois de ouvir aquele relato, a menina Regina voltara para casa aos prantos e trancara-se em seu quarto por semanas. Levou meses antes que tivesse coragem para encarar Daniel outra vez. Culpava-se pela morte da amiga e, mesmo que o garoto insistisse que tudo havia acontecido por acaso, ainda hoje ela não conseguia se perdoar pelo fim trágico de Emma.
Regina sabia que Daniel tinha certeza que a garota que assaltou a carruagem a caminho de sua casa não era Emma, que Regina enxergava-a em todo lugar como uma maneira de aplacar sua culpa. No entanto, a morena não podia esquecer como aqueles olhos verdes brilhavam exatamente como os de Emma, como o cabelo loiro da soldado era do mesmo tom desbotado da menininha em sua memória.
— Ela disse que se chamava Emma – disse ela, finalmente.
— Existem muitas Emmas no mundo, Regina. Esqueça isso.
***
Seis meses se passaram desde o notável encontro entre Regina e Emma – aquela Emma qualquer, que podia muito bem ser apenas uma fugitiva e não a amiga que lhe marcara a infância.
No entanto, Regina não conseguia tirá-la de seus pensamentos: seu atrevimento, seu sorriso insolente, o corpo dela tão perto do seu. Invariavelmente, quando esses pensamentos lhe assomavam, Regina sentia as bochechas esquentarem – mesmo sabendo que não havia ninguém para recriminá-la pelo que tinha feito. Não havia contado nada daquilo nem mesmo a Daniel, seu melhor amigo. Não possuía a coragem necessária para admitir para mais ninguém, além de si mesma, que já não era mais uma dama (“Nunca deixe que Daniel ou qualquer outro garoto tome liberdades com a senhorita... Eles jamais a respeitarão novamente” lhe dissera sua criada, certa vez em que vira Regina andando muito próxima de Daniel nos campos).
Então, em uma manhã ensolarada de sábado, Regina ouviu a governanta e a cozinheira falando, em sua sessão de fofocas diárias na cozinha, sobre a filha de um pobre coitado. Contavam, em seus sussurros escandalizados, a história de como a garota em questão havia fugido de casa com uma das empregadas, pois ambas eram amantes e gostariam de viver juntas suas vidas sujas e pecaminosas.
Regina sentiu a velha e conhecida culpa lhe acometer novamente. Lembrou-se de como havia beijado a moça loira na carruagem. Por mais que tentasse enganar a si mesma, não podia negar que, quando retribuiu aquele beijo, Regina já havia percebido que Emma era uma mulher e não o soldado que imaginara inicialmente.
Saiu imediatamente, antes que fosse notada pelos empregados escutando conversas impróprias para sua idade e sua condição de dama solteira. Correu até os estábulos e apenas notou o rosto coberto em lágrimas quando lá chegou e viu Daniel apressar-se em abraçá-la para que se consolasse do que quer que a afligisse.
— O que houve? Sua mãe castigou-lhe novamente? Eu disse que não deveria ter vindo me ver tantas vezes esta semana, não pode abusar de sua sorte – disse ele, tentando adivinhar o motivo mais óbvio por trás das lágrimas da amiga.
Regina afastou o rosto dele, permanecendo ainda em seus braços.
— Não ouviu a história que contam sobre a filha do fazendeiro vizinho?
— A que fugiu com a namorada? Sim, um escândalo. Me parece que o homem a deserdou imediatamente e já mandou um bando de empregados procurá-las com ordens para matar a tal namorada, tamanha foi sua vergonha.
Regina arregalou os olhos, muito assustada com o relato que parecia ficar cada vez pior e com as próprias lembranças.
Então, ficou na ponta dos pés e ergueu o rosto para pressionar os lábios contra os do rapaz. No momento, pareceu-lhe uma heresia um tanto menor beijar um garoto pelo qual nutria tão pura amizade do que beijar uma garota qualquer que mal conhecia e que era uma garota— alguém que não deveria despertar-lhe sentimento nenhum.
Daniel demorou meio segundo para responder ao beijo. Apertou mais as mãos ao redor da cintura de Regina e continuou a tocar-lhe os lábios delicadamente.
Contudo, Regina constatou, horrorizada, que aquele beijo era diferente demais de sua experiência anterior: não sentiu o coração acelerar e comprimir-se em seu peito, não lhe parecia natural, nem mesmo sabia o que fazer a seguir. Sentiu o peito reto de Daniel pressionar-se muito levemente contra o seu e quando os vestígios de barba dele roçaram sua pele, afastou-se do rapaz bruscamente.
Os olhos dele brilhavam de alegria, refletindo o sorriso em seus lábios. Os olhos dela brilhavam com as novas lágrimas que se formavam e o medo de seus próprios sentimentos, o medo do tipo de futuro que poderia lhe aguardar caso não fosse capaz de apreciar os beijos dos príncipes com os quais sua mãe insistia que deveria se casar.
Por fim, Daniel, percebendo que havia algo errado, puxou-a para seus braços novamente e Regina afundou naquele abraço reconfortante. Chorou por alguns segundos, antes que o amigo afirmasse que tudo ficaria bem e que seu príncipe encantado seria a pessoa certa e saberia beijá-la e transformá-la na mais bela rainha – exatamente como nos contos de fadas.
Nunca mais se beijaram novamente – nem mesmo antes do fim, quando a vida dele se esvaia em seus braços, mais uma vítima de seu destino e dos planos repugnantes de Cora Mills.
***
Como era seu hábito todas as manhãs, depois da primeira refeição do dia e antes de ver sua mãe lamentar seu usual mau comportamento durante as aulas de piano, Regina cavalgava pelos campos verdes da propriedade de seu pai. Galopava feliz, os cabelos esvoaçando e um sentimento de liberdade estampado em seu rosto.
Aos dezoito anos, Regina já era uma mulher muito bonita: os cabelos morenos, as formas femininas cada dia mais acentuadas, a graça de uma dama educada para ser uma verdadeira rainha. Mas eram nessas horas no meio da manhã, onde cavalgava sozinha sentindo o ar puro encher seus pulmões que se sentia mais feliz e mais verdadeira.
A calmaria do lugar a fazia esquecer dos incômodos trazidos por memórias amargas ou pelos abusos constantes de sua mãe. Era revigorante.
Mas naquele dia, a quietude foi rapidamente quebrada pelo som dos cascos de um cavalo que não era o seu batendo rápido contra o chão e os gritos desesperados de uma criança pedindo por socorro.
Regina nem mesmo tomou tempo para pensar: deu meia-volta em seu cavalo e deslocou-se para acudir a menina. Depois de minutos de tensão e movimentos arriscados, ambas estavam seguras em terra-firme novamente. A garotinha sorria para sua salvadora com ar sonhador e Regina sentiu-se orgulhosa por tão prontamente ter salvo uma vida.
A garotinha em apuros chamava-se Snow White e foi assim que Regina teve seu destino traçado.
***
Quando o Rei Leopold, um viúvo com idade suficiente para ser pai de Regina, pediu a mão da jovem senhorita Mills em casamento, não havia uma só pessoa mais feliz no reino do que Snow White. Ela via na noiva de seu pai a possibilidade de uma nova amiga, de uma cúmplice para seus dias solitários no castelo.
O povo do reino também alegrou-se com o casamento real que aconteceria em breve e todos falavam sobre a beleza da nova rainha. Cora Mills nunca esteve mais orgulhosa da filha (embora sentisse mais orgulho de si mesma pelo dever cumprido).
Enquanto isso, Regina chorava todas as noites em seu quarto e fugia aos estábulos para ver Daniel em cada oportunidade que encontrava. Aterrorizava-lhe a ideia se casar com aquele homem e tornar-se a rainha daquela gente – apenas um brinquedo nas mãos do rei e um bonito enfeite para adornar seu palácio.
Chorava nos braços de Daniel – o único lugar que a fazia se sentir segura naqueles tempos.
— Você não pode deixar que eles vençam – disse o rapaz, determinação permeando suas palavras.
— E como supõe que eu faça isso? Minha mãe está radiante com minha ascendência ao trono, não me deixa dizer “não” ao rei e eu sei que já não suportaria seus castigos – disse Regina, já começando a irritar-se pelo otimismo desenfreado do rapaz.
Ele pensou por um longo minuto antes de respondê-la:
— Vamos fugir juntos... se você estiver com muito medo dela, é claro.
Aquelas palavras caíram feito uma rocha sobre o coração de Regina. Ainda lembrava-se perfeitamente de outra pessoa lhe dizendo exatamente as mesmas palavras há tantos anos atrás, quando imaginava que ainda poderia facilmente escapar seu destino. Emma prometera-lhe uma fuga quando ainda eram crianças, quando Regina não podia imaginar o destino trágico que a amiga teria.
Impulsionada por aquela memória violenta e pela esperança brilhando nos olhos de Daniel, Regina assentiu à fuga:
— Encontro você aqui, hoje à noite. Os guardas estarão todos no salão de bailes na festa em homenagem a Snow White... A menina chega esta tarde, estarão todos muito ocupados agradando-a, nem mesmo notarão nossa ausência.
Mas Snow White havia antecipado sua visita à família da futura madrasta. Havia chegado minutos antes e corrido aos estábulos para encontrar Regina, havia chegado bem a tempo de ouvir os planos de fuga e ver os abraços trocados com Daniel.
O medo de perder Regina, que seria sua amiga e confidente, foi maior do que seu senso de discrição. Assim, antes que o sol se pusesse no horizonte, Cora Mills já havia sido informada por Snow White sobre os planos da filha.
***
Regina chegou aos estábulos na hora marcada carregando apenas uma pequena bolsa com alguns pertences. Abraçou Daniel, que já havia preparado dois cavalos para sua viagem e apressaram-se em sair dali.
No entanto, chegando à porta do estábulo, deram de cara com os olhos frios de Cora Mills lhes esperando:
— Pretendem ir a algum lugar?
— Mamãe... eu... fiquei entediada com o baile... então, convidei Daniel para um passeio noturno, sentirei tanta saudade daqui e de Daniel uma vez que me casar com sua majestade e... – Regina balbuciou a primeira mentira que lhe veio à cabeça.
— Precisam levar alforjes e malas para um simples passeio noturno? – perguntou Cora, fingindo inocência.
Regina calou-se imediatamente, aterrorizada pela possibilidade de sofrer mais um dos castigos abusivos da mãe. Daniel, que finalmente encontrara sua voz, tentou argumentar:
— Senhora Mills, entendo que esteja pensando...
— Ah, fico feliz que entenda meu ponto de vista Senhor Colter – atalhou Cora – desta forma, acredito que também compreenda que esta situação é inaceitável. Por muito tempo fui condescendente com esta... esta amizade entre vocês. Entendo que minha filha tem gostos excêntricos quando se trata de plebeus, mas não posso permitir que você estrague o futuro dela desta maneira.
— Daniel não está estragando meu futuro. Ele me ofereceu um futuro melhor do que este que a senhora tanto insiste ser o meu destino – contrapôs Regina.
— Cale-se, Regina! – gritou Cora, perdendo a paciência por um momento antes de se recompor e tornar a falar com sua voz doce e profundamente falsa – Será que não entende? Você irá se tornar rainha. Sinto muito que em algum momento tenha achado possuir algum poder de escolha aqui, mas a verdade é que esta família depende de você para se elevar à realeza e não permitirei que estrague isso por causa de uma paixãozinha de criança, por um plebeu sem valor.
— Eu não pertenço à esta família, mamãe – disse Regina, enchendo-se de uma coragem que nunca pensou possuir – Sempre fui tratada como um objeto, mas não admitirei ser usada como moeda de troca. Não desta maneira!
Então, tomou a mão de Daniel e arrastou-o em direção à porta com o propósito de passar por sua mãe a qualquer custo.
Infelizmente, Regina não sabia que o custo seria alto demais.
— Menina tola – respondeu Cora, sua voz ainda suave e ameaçadora. Estacou no mesmo lugar quando ambos tentaram passar por ela – Certamente poderíamos ter resolvido esta situação pacificamente. Uma pena.
Então, Cora esticou o braço em um movimento quase gracioso e enterrou uma um punhal no peito de Daniel. Os olhos dele se arregalaram de surpresa e, quando caiu ao chão, já sem vida, foi envolvido rapidamente pelos braços de Regina. Ela acariciou-lhe os cabelos e apertou-o contra si. As lágrimas de Regina molharam o rosto inerte do amigo, mas Cora já não parecia se importar – de fato, parecia já ter certeza que a filha não teria forças para dar seguimento aos seus planos de fuga.
Ela estava certa. Regina não conseguiria fugir. Não aquela noite.
***
— Estou certa de que papai irá adorar seu vestido de noiva! É digno de uma verdadeira rainha e toda a nobreza estará orgulhosa de sua nova monarca. Mal posso esperar pelo dia do casamento! – Snow White divagava alegremente sobre aquilo que agora era seu assunto favorito.
Nestas ocasiões, Regina apenas concordava com um aceno de cabeça. Ela queria que a menina fosse para o inferno e levasse consigo seus vestidos de noiva, suas conversas sobre casamento e promessas de amizade. À noite, Regina sonhava com o dia em que tiraria o sorriso inocente do rosto da outra menina à tapas e safanões.
Toda vez que lembrava-se da noite em que... daquela noite, queria gritar e distribuir socos e pontapés ao que quer que estivesse em sua frente. Snow havia lhe confessado que, depois de ver Regina abraçada ao rapaz nos estábulos, tivera um medo descomunal de perder a futura madrasta e contara tudo o que vira à Cora Mills. Snow não demonstrara o menor remorso ao contar-lhe a verdade, apenas alívio pelo casamento real continuar intacto. Regina teve certeza de que a menina nada sabia do que realmente havia acontecido naquele estábulo – do que Cora havia feito.
Os dias que se seguiram à morte de Daniel foram de uma tortura excruciante. Não havia testemunhas do que havia acontecido e quando um dos criados encontrou o corpo de Daniel estendido e apunhalado nos estábulos, todos presumiram que algum ladrão havia tentado roubar os cavalos (Cora se certificara de soltar alguns dos animais e afugentá-los da propriedade antes de arrastar Regina aos prantos para longe do corpo do rapaz e essa era toda a evidência de que precisavam para comprovar a teoria do roubo).
Daniel fora enterrado no alto da colina, no cemitério dos empregados. Regina insistira para que ele fosse enterrado ao lado do túmulo vázio de Emma (aquele túmulo simbólico no qual Regina e Daniel depositavam flores a cada aniversário do desastroso acidente que havia poupado a vida do pai de Daniel, mas levado a menininha loira para baixo do penhasco, fazendo com que seu corpo jamais pudesse ser encontrado).
Mas então, duas semanas depois, Regina sentia que já não tinha lágrimas a derramar. Seus olhos queimavam e sua respiração ficava desconpasada junto com o coração, mas nenhum líquido escapava de seus olhos: não podia mais se dar ao luxo de sentir aquela dor e buscou no fundo de sua alma a força necessária para seguir em frente. Disse a si mesma que Daniel não poderia ter morrido em vão – mais uma vítima do destino deturpado de Regina, mais uma morte inevitável a pesar no fardo que carregaria consigo para sempre. Aquele destino não era mais seu, que Cora Mills fizesse dele o que bem entendesse. Regina estava decidida a não se casar, não se tornar rainha, não ser um fantoche inanimado a passar das mãos de sua mãe para as mão do rei.
— Regina! Regina – chamou Snow White, impaciente.
Regina desviou os olhos da costura na qual trabalhava e encarou a menina tagarela.
— Você está tão distraída hoje. O que está acontecendo? Será que de novo está triste pela morte daquele cavalariço? Não deve se chatear assim. Seu casamento acontecerá em poucas semanas e logo estará muito feliz em nosso palácio, não deixe que isso estrague esse momento tão bonito da sua vida!
Até mesmo o som da voz de Snow lhe aborrecia profundamente e quando a menina levantou da cadeira e andou até as costas de Regina e meteu os dedos nos longos cabelos negros para trançá-los – como agora era seu irritante costume – Regina não pôde mais conter seus impulsos de violência.
Virou-se de repente e, agarrando o pulso da menina, empurrou-a com força contra a parede da sala. As costas de Snow colidiram dolorosamente contra a superfície dura e ela começou a chorar descontroladamente, seus olhos muito abertos a fitarem Regina com a surpresa de alguém que nunca havia sido agredida em toda a sua vida.
— Pare de chorar – Regina sibilou, mas vendo que Snow não parava, tornou a agarrá-la pelo pulso, puxando-a para que ficasse em pé novamente.
— Pare de chorar – repetiu – Pare ou lhe dou outro belo motivo para chorar de verdade – ameaçou ela, aproximando perigosamente a agulha de costura dos olhos de Snow.
A menina parou de choramingar imediatamente, apesar das lágrimas continuarem a escorrer silenciosamente de seus olhos assustados.
Oh, agora vejo que os métodos educacionais de minha mãe realmente surtem efeitos satisfatórios.
Desta vez, Regina não se atrasou com futilidades: não fez as malas, nem mesmo pensava em levar nada de valor daquela casa além das moedas de ouro que roubara das gavetas no escritório de seu pai. Enlaçou Snow pelo braço e sorriu brilhantemente – um sorriso tão falso:
— Agora, minha querida, que tal darmos um passeio?
— O que está fazendo? – sussurrou Snow, ainda muito assustada.
— Você, querida Snow, é meu passaporte para longe daqui.
***
Regina sabia perfeitamente que sua mãe havia alertado todos os criados e guardas para que não deixassem sua filha sair sozinha – ela não podia nem mesmo dar seus passeios matinais sem que alguma criada aparecesse para acompanhá-la.
Entretanto, tudo era diferente quando Snow White a visitava. A princesa de comportamento exemplar tinha permissão para fazer o que quisesse e Regina certamente se aproveitaria da boa vontade que todos tinham com a menina e usaria aquilo a seu favor.
Quando saíram de braços dados em seu suposto passeio, Snow mal tinha coragem de respirar perto de Regina, com medo de provocar outra reação violenta. Regina havia retirado uma faca de cozinha de dentro do espartilho e, embora Snow não tivesse a menor ideia de como ou porquê a garota havia roubado aquele objeto, ela já tinha provas suficientes de que Regina era capaz de usá-la.
Montaram as duas no mesmo cavalo e quando passaram pelos portões da propriedade da família Mills, os guardas apenas perguntaram-lhe despreocupadamente aonde pretendiam ir e a que horas voltariam (ao que Regina descaradamente mentiu, dizendo que iriam ao riacho ver as tartarugas e que voltariam dentro de duas horas).
Cavalgaram em um galope forçado durante duas horas. Andaram por entre os caminhos mais intrincados e desconhecidos, adentrando na densa floresta e saindo dela para estradinhas que Snow nunca havia visto.
— Onde estamos indo, Regina? – Snow finalmente sussurrou no ouvido da amazona.
Então, como que acordada de um transe, Regina virou-se levemente na sela e foi diminuido o passo do cavalo até pará-lo completamente.
— Nós não estamos indo à lugar nenhum – respondeu.
Desmontou e ajudou a outra menina a fazer o mesmo. Regina, então, tornou a montar em seu cavalo e começou a virá-lo em direção à estrada novamente.
— O que está fazendo? – Snow assustou-se – Não pode me deixar aqui sozinha!
— Não pode mais me dar ordens, sua sonsa.
— Mas...
— Ande naquela direção – Regina apontou na direção de onde tinham vindo – Já faz mais de duas horas que saímos, em breve virão procurá-la... a encontrarão logo se conseguir chegar perto do riacho.
— Vai mesmo fugir e me deixar aqui sozinha? Já está anoitecendo!
— Então é melhor ir correndo – Regina apenas deu de ombros, atiçou o cavalo e continuou sua fuga.
***
Regina cavalgou por dias. Gastou algumas moedas em duas pousadas diferentes ao longo do caminho, outras noites dormiu no chão e se alimentou das frutas das árvores enquanto ainda estava naquelas estradas rodeadas pela floresta (aquelas frutas não eram o suficiente para saciar sua fome por completo e seu estômago doeu sem parar por dias, mas precisava economizar o pouco dinheiro que tinha).
Na primeira pousada em que passou a noite, usou a faca para cortar os cabelos bem curtos, na altura dos ombros (imaginou a expressão de horror no rosto de sua mãe se visse os longos cabelos cortados no chão do quarto e sorriu, satisfeita consigo mesma). Aquilo não seria o suficiente para mascarar sua aparência, mas teria que bastar por enquanto.
Os dias pareciam intermináveis e as noites frias ao relento eram assustadoras, mas Regina finalmente chegou à cidade e, depois, ao porto. Não foi difícil encontrar um navio com um capitão ganancioso o bastante para aceitar levá-la escondida em sua viagem. Ela viajaria pra qualquer lugar longe o bastante e, com sorte, conseguiria um bom emprego como criada de alguma senhora em um reino distante – trabalharia até mesmo nas lavouras, caso fosse preciso.
Entregou o que restava de seu ouro ao capitão e embarcou no navio cargueiro, escondendo-se no porão junto com vários sacos de açúcar e algodão, longe dos olhos do restante da tripulação. Uma vez por dia, o capitão lhe trazia um punhado de ervilhas e batatas doces – não eram o suficiente e acabavam fazendo com que seu estômago doesse mais ainda com a fome.
Demorou exatamente uma semana de viagem pelo mar para que o capitão descesse bêbado até o porão e tentasse beijar Regina à força. Ela mostrou-lhe a faca que carregava consigo e ele foi embora assim que ela cortou-lhe superficialmente o braço. O capitão desculpou-se no dia seguinte quando lhe trouxe a refeição, disse que não sabia como tinha sido capaz de tal ato, que sua filha também se chamava Regina e cortava os cabelos ainda mais curtos que os dela. Mesmo assim, Regina não dormia mais (nada além de breves cochilos) e estava sempre alerta a qualquer barulho.
No entanto, nenhum dos seus instintos de proteção foram suficientes quando, um mês depois, o navio onde estava foi invadido por piratas.
Primeiro, ela ouviu o estampido das pistolas. Depois, o cheiro da pólvora invadiu-lhe as narinas ao mesmo tempo em que os homens começavam a gritar lá em cima, no convés. O navio estava sendo invadido por piratas, mesmo assim Regina não pensou que seria problema esconder-se atrás dos sacos de açúcar empilhados no porão.
O barulho das lâminas das espadas se chocando e a gritaria dos homens finalmente cessou e ela respirou aliviada por um breve segundo, antes de lembrar-se que ainda não sabia quem havia ganhado a luta.
Depois de quase uma hora, ouviu os passos de alguém descendo as escadas para o porão. Prendeu a respiração e tentou não fazer barulho, enquanto torcia mentalmente para que aqueles passos fossem do seu capitão.
Os passos andaram lentamente por toda a extensão do porão e, um por um, aquela pessoa foi derrubando os sacos de açúcar de suas pilhas até que as sacas à frente de Regina também foram empurradas para o chão, revelando-a de seu esconderijo.
O homem que entrara ali sorria lascivamente em sua direção e deleitava-se com sua nova descoberta:
— Ei, Swan! – gritou ele para alguém que descia as escadas indo ao seu encontro – Nem imagina o que encontrei aqui. Um verdadeiro tesouro!
— Do que está falando, seu idiota? – uma voz respondeu em tom brincalhão – É só um navio cheio de açúcar.
Mas então, quando a tal Swan desceu o último degrau do porão e entrou em seu campo de visão, Regina sentiu o ar fugir-lhe dos pulmões por alguns segundos tamanha foi sua surpresa ao ver aqueles cabelos dourados novamente – aqueles olhos verdes muito abertos a lhe encararem com igual surpresa e aquela boca se abrindo e fechando devagar antes de, finalmente, encontrar as palavras:
— Senhorita Regina?
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