A Fúria da Tempestade- Sonhos de Verão (Livro I)
3 Lealdade e Honra

" O melhor amor é aquele que acorda a alma e nos faz querer mais, que coloca fogo em nossos corações e traz paz às nossas vidas, foi isso que você fez comigo e era isso que eu queria ter feito com você para sempre..."
Norte de Westeros
Proximidades de Winterfell, Estrada do Rei
Desde a partida de Porto Real que o fogo queimava nos olhos verdes de Cersei Lannister, que passou a odiar ainda mais o norte, o lar da puta nortenha de sobrenome Stark. A bela Lady que ainda assombra sua vida, o nome que fora sussurrado por Robert enquanto tomava Cersei em seus braços, na noite de núpcias. Maldita seja Lyanna Stark. Os Deuses eram testemunha, ela havia tentado, havia sorrido em seu casamento até mesmo se sentindo feliz, afinal se casava não só com um belo cavaleiro, mas um rei. Contudo o amor que ela prometeu a si mesma — ao menos — tentar sentir pelo recém coroado rei se foi naquela noite horrível, que apenas lhe trouxe lágrimas.
Mas quando seus olhos se detém na figura da filha mais velha, se martirizava por cogitar a ideia de que a noite com Robert fora totalmente desastrosa. A prova viva de que mesmo com tantas lágrimas, ainda sim agradecia, sua doce Nicéia estava ali por culpa daquela única noite e Cersei não conseguia mesmo se quisesse se arrepender. O leve sorriso de canto marcava os lábios rosados, que a pouco mais de dois dias tomavam um tom arroxeado por culpa do frio, enquanto lia junto a Myrcella que sorria da mesma forma que a irmã mais velha. Tommen se estica para ver as gravuras e Nicéia sempre baixava um pouco mais o livro e se demorava alguns segundos para que a criança conseguisse ver, já que ainda não sabia ler.
Cersei amava seus filhos, isso ninguém poderia negar. Em seus olhos refletia a devoção e cuidado com cada um deles, a rainha conhecia todos os quatro como os corredores de Rochedo Casterly, conhecia seus gostos e ditava cada uma de suas manias e trejeitos. Nicéia, sua filha mais velha e também a única que tivera de Robert, possuía uma personalidade digna da mistura dos dois sangues, obstinada, travessa e de uma língua afiada que Cersei só havia visto em duas pessoas: sua mãe e Tyrion. Joffrey, o herdeiro e seu primeiro filho com Jaime, era um caso que a rainha pouco se metia, o jovem era cruel e sádico, possuía um brilho estranho em seus olhos verdes e estes pareciam escurecer toda vez que os colocava sobre Nicéia, Cersei não sabia o que significava, mas temia. Myrcella, sua pequena e doce Myrcella, amava contos e canções sobre grandes cavaleiros e princesas apaixonadas, possuía uma voz tão doce quanto sua personalidade e graças aos deuses, Tomem parecia dividir isso com a irmã.
A rainha suspirou com um leve sorriso enquanto observava os filhos, mas logo bufou ao ver a silhueta de Winterfell por entre as cortinas.
— Que os Deuses me ajudem — murmurou aborrecida deixando que seu sorriso morresse aos poucos.
— Chegamos — Myrcella comemorou, pulando sobre o banco apenas para se inclinar sobre a janela espiando entre as cortinas.
Cersei revirou os olhos quando Nicéia, com Tommen em seu colo, imitou a irmã caçula. Contudo, ao invés de espiar, Nicéia colocou a cabeça para fora a fim de ver de mais perto o famoso norte das histórias de seu pai. Quase não escondia a euforia dentro de si, conhecer Lorde Eddard Stark, o famoso Ned, melhor amigo de seu pai, aquele que empunhou a espada e lutou bravamente ao seu lado. Sorriu feliz quando viu a neve cobrindo boa parte do pátio, viu algumas pessoas apontarem para ela e sussurrarem entre si. Alguns até mesmo a reverenciavam.
— Saiam destas janelas imediatamente. O que iriam pensar os nortenhos? Pensaram que somos tão selvagens quanto eles — a própria rainha respondeu a pergunta puxando Nicéia pela barra do vestido negro e colocando sentada novamente.
— Mamãe, é o norte! — comemorou a princesa — Tio Tyrion disse que os nortenhos são quase centauros de tão bem que cavalgam.
— Não dê muita atenção ao que meu adorado irmão diz — debochou, fazendo Nicéia segurar o riso.
A conversa acabou ali, a euforia de Nicéia impedia que ela ao menos falasse, escutou os cascos de cavalo e pela pequena brecha deixada, a armadura de seu tio reluziu com o sol fraco. Cruzou as mãos no colo e alisou o vestido de forma rápida, mas foi impedida pela mãe que sorriu carinhosa em sua direção ajeitando a tiara sobre os cabelos negros da filha.
— Esta linda.
Nicéia sorriu um pouco mais quando os cavalos pararam e junto deles, a comitiva. A princesa se pôs de pés em um pulo, puxando as peles de urso para bem perto de seu pescoço. Ajudou Myrcella com os cabelos e Tommen nem mesmo esperou para pular fora da carruagem, logo atrás foi a aia que corou sobre os olhares cortantes de Cersei.
A princesa apanhou a pequena mão de Myrcella e juntas desceram logo atrás da mãe. A primeira coisa que notou fora que a fortaleza de Winterfell não fora construída para ser bela e sim quente. As pedras que compunham o castelo eram grandes e pareciam pesadas, possuíam um tom sem graça de cinza, girou o pescoço antes de seus pés tocarem o chão de terra e gostou do que viu, era quieta e cheirava a liberdade.
— Nicéia — o sussurro de sua mãe a retirou de seus pensamentos.
A rainha fez um suave gesto com a mão para que ela se aproximasse e ela permaneceu ao lado de Tommen, puxando Myrcella, que parecia um tanto acanhada pela quantidade de olhos que os cercavam e os encarava com admiração e devoção. Nicéia escutou a voz grossa de seu pai que abraçava o homem à sua frente. Aquele deveria ser Lorde Eddard Stark, senhor de Winterfell e protetor do norte. Não deixou de sorrir em expectativa.
O vento frio deixou suas bochechas ainda mais coradas de que o normal e levou seus cabelos para longe, espalhando o cheiro de rosas que Myrcella adorava. Procurou com os olhos seu tio Jaime, que de forma galante jogava os cabelos de um lado para o outro e deixava as jovens nortenhas aos suspiros. Joffrey já havia descido de seu cavalo e vinha caminhando na direção de Robert. Cersei fez um gesto para que se aproximasse.
— Ah Ned, é tão bom ver sua cara congelada — brincou o rei arrancando um suave riso do amigo — Venha, quero que conheça meus filhos. Este é Joffrey, meu herdeiro. Vê como é alto? Vai ser um grande homem!
Joffrey se aproximou rapidamente e de forma polida comprimentou a todos os homens com um aceno e as mulheres com um suave beijo na mão. A garota ruiva suspirou quando Joffrey se aproximou e Nicéia não deixou de sentir pena. Se a garota conhecesse Joffrey, correria dele.
— Esta é minha Myrcella, tão doce e delicada — Myrcella soltou a mão da irmã e sorriu envergonhada escondendo o rosto nas veste de Cersei, que mantinha o rosto impassível e com um sorriso falso nos lábios. — E Tommen, meu caçula. Acho que nem chegou a conhecê-lo, Ned.
Nicéia já sabia o que vinha a seguir, com um sorriso doce se apressou em colocar-se ao lado do pai, que ao menos disse seu nome da mesma forma que os de seus irmãos. O sorriso largo que cresceu nos lábios do rei ao encarar a filha deixou bem claro que ali estava sua maior criação.
— E esta Ned, é a minha Nicéia. Filha da Tempestade, minha pequena corça coroada — disse um pouco mais baixo contemplando o rosto da filha com certa adoração, que não passou despercebida por ninguém. — Vê como é bela, Ned. Perfeita, sem nenhum defeito sequer.
— Papai — Sussurrou envergonhada enquanto era bajulada pelo mesmo — É um enorme prazer Lorde Stark, ouvi muitas histórias sobre o senhor e estava eufórica para conhecê-lo.
Eddard sorriu, um sorriso que fora acompanhado por seu pai e a bela mulher de cabelos cor de fogo ao seu lado.
— Isso é verdade, perdi as contas de quantas foram as vezes que ela me fez repetir nossas histórias — o rei gargalhou empurrando a filha com delicadeza para que se aproximasse.
— Espero ter correspondido suas expectativas, princesa — Eddard beijou os dedos enquanto se ajoelhava fazendo a menina sorrir.
Nicéia sorriu ainda boba e concordou rapidamente com a cabeça e ao erguer os olhos procurou pelos azuis ao lado de Ned. Catelyn Tully era uma bela mulher, quem a olhasse não diria ter tido tantos filhos, o ar jovial contrastava com os cabelos que pareciam queimar feito chamas de uma lareira.
— Lady Catelyn, meu pai não exagerou quando disse o quão grande era sua beleza — Nicéia elogiou a senhora a fazendo sorrir agradecida.
— Não tão bela quanto você, princesa — ambas trocaram um longo olhar, mas foram interrompidas pela voz de Eddard que passou a apresentar seus filhos.
— Este é Robb, meu filho mais velho e herdeiro — Ned indicou o rapaz ao seu lado.
Nicéia não conteve um suspiro quando pousou seus olhos no nortenho, que em nada se parecia com o pai a não ser pelo porte altivo e os ombros largos, pois sua aparência era quase tão sulista quando sua mãe.
— Princesa — a voz doce do rapaz a fez suspirar uma segunda vez. — É tão bela quanto dizem os poetas.
As bochechas da princesa coraram fortemente a fazendo piscar algumas vez, os olhos azuis de Robb Stark pareciam penetrar os seus verdes e isso a deixava envergonhada.
— Bondade sua — murmurou de forma meiga enquanto baixava os olhos.
Relutante deu um passo ao lado desviando o olhar do jovem Stark e os direcionando a menina a sua frente, que aparentava ter a idade de Joffrey, ainda possuía traços infantis e um sorriso tímido nos lábios rosados.
— Sou Sansa, princesa — a menina lhe disse seu nome com uma leve reverência e um sorriso tímido.
— É tão bela quanto sua mãe, Sansa — Nicéia sorriu um pouco mais deixando a timidez de lado e se aproximando beijando a face da nortenha que corou como seus cabelos.
— Não tão bela quando você, princesa — Sansa parecia ter ganhado o dia pois seus olhos azuis iguais aos do irmão e mãe brilhavam com esplendor.
— Não é necessário tanta formalidade. Apenas Nicéia, sim?! — ofereceu, vendo de soslaio o sorriso orgulhoso que se desenhou nos lábios de seu pai.
Sansa não conseguiu pronunciar uma única palavra depois de tal afirmação, apenas acenou repetidas vezes com um sorriso tão grande que parecia que os cantos de sua boca se romperam a qualquer minuto. A menina ao lado de Sansa em nada se parecia com a irmã. Os cabelos negros e os olhos claros que pareciam carregar o norte, a pequena parecia travessa e Nicéia viu muito de si na menina. Sorriu e ergueu uma sobrancelha quando, sem muito jeito, a menina se curvou um pouco.
— Sou Arya — disse um tanto seca.
— Sou Nicéia e se me permite dizer, possui olhos muito profundos. Como se carregasse Winterfell neles, pequena loba — murmurou com um sorriso de canto trocando um olhar brilhante com a menina.
Arya sorriu e voltou à posição normal, ao seu lado um garoto um tanto mais alto observava a princesa com certa fascinação, como se Nicéia fosse uma miragem. Os cabelos tão negros quanto os dela caiam lisos sobre seus olhos escuros, Nicéia sorriu e o garoto suspirou alto fazendo os mais velhos riem com o ato do garoto.
— Sou Nicéia e você como se chama? — perguntou quando percebeu que o menino seria incapaz de dizer uma única palavra.
O silêncio prevaleceu novamente, o menino não responderá a pergunta feita pois estava mais ocupado em contemplar a beleza da princesa e não escutava mais nada. Seus olhos amendoados brilhavam enquanto um sorriso um tanto bobo preenchia seus lábios. Nicéia riu colocando os dedos sobre os lábios com delicadeza, sendo acompanhada por risinhos dos demais.
— Parece que Nicéia conseguiu um novo pretendente. Já me cansei de todas as semanas enxotar uma fila de homens que desejam se casar com ela, mais um não me será problema — brincou Robert com uma gargalhada alta assustando o menino que deu um pulo no lugar arregalando os olhos.
— Seu nome é Bran, princesa — quem respondera fora Robb, que a encarava com seus olhos azuis intensos que a fizeram corar um pouco mais.
Contudo com esse movimento ela pode ver um rapaz na fila de trás, que antes era escondido por Lorde Stark, este possuía olhos escuros como a noite e cabelos cacheados no mesmo tom, um rosto longo e branco. Um verdadeiro nortenho, como nas histórias de seu pai, aquele rapaz a fez se lembrar dos livros que lia para Myrcella durante a noite. Um cavaleiro bravo e gentil, que roubara o coração da princesa. Era simples, ela sentiu o coração bater rápido a garganta se tornar seca como o deserto de Dorne, as mãos suaram e seus olhos não conseguiam desviar dos dele, poderia ficar dias o encarando. Todavia, ele os desviou em sinal de respeito. Nicéia piscou, vasculhando em sua mente qualquer informação dita por seu pai, mas em nenhuma delas ele estava presente. Queria saber seu nome, escutar sua voz e descobrir o porquê do olhar melancólico.
— Ned, me leve as criptas. Quero prestar meus respeitos.
Nicéia desviou os olhos do rapaz um tanto alarmada, encarando o pai com um brilho melancólico o mesmo parecia sentir tal ato, pois não ousava olhar de volta. A princesa conhecia a história trágica de amor e guerra, Robert não poupou palavras ao descrever o quão bela era Lyanna Stark e o quanto ele a amava. Havia admiração nos olhos da princesa quando escutava sobre a nortenha, um carinho escondido, mas ainda sim sua mãe estava ali, Cersei Lannister deveria ser o alvo de seus cortejos e olhos brilhantes. Seu pai deveria amar e respeitar sua mãe, contudo naquele instante ele a envergonhara com suas palavras.
— Robert, a viajem foi longa, deveríamos descan...
A rainha, como previsto, fora ignorada pelo marido fazendo com que Nicéia sentisse seu coração em chamas. A jovem pensou em retrucar ou até mesmo ir atrás do pai, contudo os dedos gelados de Sor Jaime Lannister a impediram de avançar. Pelo canto dos olhos, a princesa observou a mãe, que mantinha o queixo erguido e os olhos impenetráveis e ferozes, como uma verdadeira leoa do Rochedo. A passos firmes, se aproximou da mãe, pegando sua mão gelada e sorrindo enquanto voltava a encarar a senhora de Winterfell, que parecia tão constrangida quanto ela.
— Lyanna Stark jamais será tão bela quanto você, mamãe — sussurrou vendo um sorriso discreto nos lábios finos da mãe — A nortenha não possui fios de ouros no lugar de cabelos e muito menos olhos verdes de leão e não importa o quão bela ela tenha sido, nunca chegará ao seus pés, mamãe.
Nicéia não desviou seus olhos de Catelyn Tully, todavia o que ela não havia notado fora que seus olhos possuíam um brilho tão felino quanto os de Jaime e sua mãe, deixando o ar doce e receptivo. Catelyn teve certeza que, por detrás daqueles cachos negros e sorrisos tímidos, um leão rugia.
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