
"Eu aprendi, que tudo o que precisamos, é de uma mão para segurar e um coração para nos entender."
Norte de Westeros
Fortaleza de Winterfell
Nicéia não conseguia enxergar o sol por culpa da camada extra de nuvens cinzentas. O norte era lindo, isso ela não negava, o cheiro bom de pinheiros, neve e liberdade em nada poderiam se comparar ao odor desagradável das ruas de Porto Real e Nicéia agradecia aos Deuses por tal fedor não ultrapassar as muralhas da Fortaleza. Mas o norte não, em suas curtas horas dentro do castelo o único cheiro que sentia era o de assado com mel, seu prato favorito, assim como o de seu pai. Ned Stark deveria ter pedido exclusivamente para agradar seu pai ou quem sabe lhe trazer um pouco da juventude, e naquele exato momento era o cheiro maravilhoso que a princesa perseguia.
A fome fazia com que seu estômago desse saltos e reclamasse, não aguentaria até o jantar, sentia a boca salivar apenas em pensar em tal sabor em seus lábios e rezava aos Deuses para que as criadas de Winterfell fossem tão gentis quanto pensava. Pensamento que a fez revirar os olhos, quem não seria gentil com Nicéia Baratheon? Afinal, ela era a princesa. E há um pouco mais de dez minutos sentiu que havia se perdido por entre os corredores tão parecidos, Lorde Eddard deveria colocar placas indicando o caminho correto, mas fora o som de vozes femininas que atraiu sua atenção para um pequena e estreita escada por onde o cheiro parecia ainda mais intenso. Caminhou rapidamente, prevendo que aquela era a direção correta e de fato era. Aias e serviçais andavam de um lado para o outro, carregando bandejas de prata cobertas por comida, tão rápidas quanto deveriam.
— Com licença — pediu gentilmente, atraindo os inúmeros olhares em sua direção.
— Princesa, o que lhe traz aqui? Precisa de algo? — uma senhora um tanto velha de sorriso meigo se aproximou enquanto as demais permaneciam estáticas, absorvendo a repentina aparição.
— Se não for atrapalhar, gostaria de algo para comer. A viagem foi um tanto longa desde a última estalagem — sorriu tímida enquanto torcia os dedos.
— Mas é claro que não, princesa. O que deseja comer, diga e preparamos — a senhora sugeriu apressada, parecia um tanto nervosa e acanhada.
Nicéia percorreu os olhos claros pelo local até que os mesmo se focalizaram na bandeja de carne em fatias regada a um molho escuro que fez seu estômago se retorcer.
— Gostaria de um pouco daquela carne, senhora — murmurou, apontando na direção do prato fumegante.
Mas fora o rapaz sentado um pouco afastado que lhe chamou atenção, o jovem de olhar melancólico e o norte dentro si a olhava baixo e de forma discreta enquanto movia o talher sobre a sopa quente, Nicéia não deixou de sorrir, ato que não foi retribuído.
— Pode se sentar aqui, princesa — a senhora voltou a falar, se curvando.
O acento oferecido pela serviçal era na mesma mesa larga de madeira gasta, ainda assim longe do rapaz que tanto lhe chamara a atenção. Nicéia mordeu o lábio com força, queria se aproximar um pouco mais, perguntar seu nome, ouvir o som de sua voz, saber um pouco mais sobre o rapaz nortenho. Todavia, sentia que talvez não fosse bem vinda ao seu lado, mas pouco se importava, era filha de Robert Baratheon, o rei de Westeros, e, assim como ele, era uma filha da tempestade e possui a fúria dentro de si. E, muito além disso, era uma Lannister e um Leão jamais se curva.
Quando o prato fora posto à sua frente pela senhora que carregava um sorriso, Nicéia se levantou com o mesmo entre os dedos, imitando o caminhar confiante de sua mãe, puxando a cadeira ao lado do rapaz que mantinha a cabeça baixa, porém seus olhos ainda atentos a tudo que acontecia. Não ousou olhar ao redor, sentia que suas bochechas lhe trairiam se o fizesse, já que o silêncio prevaleceu na cozinha.
— Sou Nicéia Baratheon e você, como se chama? — perguntou o mais doce que conseguia.
— Jon — seu tom era baixo e tão melancólico quanto seu olhar.
— Tem medo mim, Jon? — ele não respondeu e, como da outra vez, não ergueu os olhos — Então porque não me olha?
Nicéia continuou a encará-lo com seus olhos verdes brilhantes e desejava que ele fizesse o mesmo, e de fato, o fez. O poço negro e sem um aparente fim se ergueram e engoliram os seus, naquele momento Nicéia não se sentia uma leoa do rochedo e sim uma jovem corça assustada, não havia fúria e menos ainda medo, apenas a vontade insana de mergulhar e se perder naqueles olhos negros. Ele não sorriu mas parecia tão enfeitiçado quanto a jovem princesa, contudo, ela sim deu um sorriso que ela pensou não ter, mas tão belo quanto os outros.
Contudo, uma sombra estranha cobriu seus olhos e em um movimento rápido ele se ergueu e sem pedir licença saiu da mesa, a deixando sozinha, com tamanha grosseria do rapaz a jovem se ergueu tão dura quanto ele e o seguiu com os olhos tilintando uma fúria digna de uma Baratheon. Ele poderia caminhar rápido mas Nicéia era incansável e o perseguiu, um rugido deixou seus lábios quando agarrou a capa negra que ele usava, o puxando em sua direção, os dentes trincados em fúria e algo mais que não sabia identificar.
— Quem é você, Jon? — ela rugiu como uma leoa com seus olhos selvagens.
— Sou Jon Snow, o bastardo de Ned Stark. Não deveria falar comigo, princesa. Não sou digno de sua atenção — Jon tentou deixar a princesa para trás uma segunda vez e mesmo que sua voz fosse tão gelada quanto o norte, ela não o soltou.
— Quem lhe disse que me importo? Ser um bastardo não lhe faz um qualquer, Jon Snow — Nicéia procurava por seus olhos e os encontrava tão distantes quanto antes, Jon Snow sabia bem como afastar alguém. — Sou eu quem decide quem merece minha atenção, sou a princesa e ninguém me diz o que devo fazer.
Jon carregava o norte em seus olhos escuros, assim como Nicéia trazia a fúria de um leão nos seus. Ambos se encararam longamente, tempo que nenhum dos dois soube direito mas tudo parecia um pouco mais certo quando o faziam, Jon não se sentia um estranho quando encarava seu reflexo nos olhos brilhantes da princesa, mesmo assim não via um futuro. Jon era um bastardo, e nunca deixaria de ser.
— De seus irmãos, é a única que possui a aparência de um Baratheon — murmurou o rapaz com sua voz gelada.
— De seus irmãos, é o único que se parece com um nortenho — usando o mesmo tom, ela ergueu a sua sobrancelha fina em sinal de desafio.
Em poucos momentos, Nicéia percebeu que Jon preferia o silêncio a uma grande conversa e também que ele a observava por tempo demais. Contudo, antes de dizer qualquer outra coisa a voz suave de Alissa, sua dama de companhia, a fez se virar, largando o manto negro do bastardo de Winterfell.
— Princesa, pelos deuses, a Rainha está lhe procurando — comentou afobada com a mão sobre o peito.
Alissa era uma jovem dois anos mais nova que ela, possuía longos cabelos loiros e olhos verdes brilhantes, a jovem nascida nas terras ocidentais era a filha caçula do senhor da pequena ramificação da casa de sua mãe. Alissa era uma Lannister de Lannisporto, e havia sido mandada para Porto Real quando completou doze anos e desde então se tornara sua dama de companhia, ou como Joffrey gostava de chamá-la, " A sombra da leoa".
— O que minha mãe deseja? — perguntou, desviando sua atenção para Alissa.
— Ela não me disse, princesa. Apenas que deveria procurá-la, apenas sei que é uma conversa de Vossa Graça com a Rainha e você, princesa — explicou apressada, movendo os olhos verdes de um lado para o outro em desconforto.
— Sete infernos — praguejou, apertando os olhos claros com fúria, o que fez Alissa se encolher um pouco.
A jovem conhecia a fúria que habitava o coração da Baratheon, Nicéia poderia ser doce e de um sorriso brilhante, contudo, quando irritada possuía uma força absurda, rugia feito uma leoa e atacava qualquer um que ousasse se aproximar demais. Lembrava-se vagamente dos olhos verdes tilintando enquanto suas mãos trabalhavam em destruir qualquer detalhe de seu antigo quarto na fortaleza.
A jovem princesa sentia suas mãos tremerem, quando reunidos o assunto não era assim tão bom, tinha medo do que seria tratado naquela maldita sala e com o desprezo do bastardo seu humor não estava dos melhores. Engolindo uma lufada de ar, ela fincou os pés na neve e girou a cabeça na esperança de ver Jon logo atrás, contudo, o rapaz já havia tomado distância e já quase sumia de suas vista,s aquilo só serviu para que a fúria que sentia aumentasse ainda mais. Um rugido rouco abandonou sua garganta quando iniciou sua caminhada com Alissa ao seu lado.
— Não deveria se misturar a um bastardo, princesa — a jovem de Lannisporto se pronunciou, erguendo o queixo em uma tentativa falha de ser como um Lannister do Rochedo.
— Não me lembro de ter lhe pedido conselhos, Alissa — lembrou com a voz rude, cruzando seus olhos aos da moça, que se encolheu envergonhada.
Os passos de Nicéia pareciam furar buracos no piso de pedra, o grande salão estava com os membros da família Stark e seu pai. Alissa correu para longe quando a princesa parou próxima à mãe, o humor negro pairava sobre sua cabeça, afugentando os olhares de Sansa que parecia prestes a iniciar uma conversa com ela, contudo, desistiu antes mesmo de abrir a boca.
— Onde esteve, Nicéia? — a pergunta veio de Jaime, que a encarava de soslaio identificando a fúria que crescia em seus olhos claros.
— Andando, conhecendo um pouco de Winterfell mas não fui muito longe, não se preocupe — esclareceu entre dentes, sem ao menos olhar o tio.
— Não deveria sair do castelo sem um guarda real, Nicéia. Não conhece essas terras — alertou Robert com sua costumeira taça de vinho entre os dedos grossos. — Mas não é disso que quero lhe falar. Alguns dias antes de partimos para o norte, recebi uma carta de Jardim de cima.
Os olhos de Cersei tomaram um brilho surpreso assim como Tyrion, Jaime e até mesmo Joffrey, que ignorava a jovem Stark por completo.
— O que Lorde Mace Tyrell desejava? — Cersei ergueu uma sobrancelha enquanto deixava seus dedos se agarrarem ao canto da mesa de madeira.
— Uma proposta de casamento para Nicéia. Mace Tyrell deseja que a princesa se case com um de seus filhos e una as casas — explicou com a voz alta e clara.
Nicéia se enfureceu após tal afirmação, não odiava os Tyrell, longe disso, até mesmo gostava de Loras. Mas isso não queria dizer que devesse se casar com um deles.
— Então, querida sobrinha, com qual deles deseja se casar? O aleijado, o galante ou a flor? — Tyrion debochou enquanto viu o próprio reflexo em um colher de prata. — Bom, a última opção não é lá grande coisa.
— Não irei me casar com uma maldita rosa — a jovem esbravejou com os olhos apertados como fendas.
— Não disse que irá, apenas disse que recebi uma carta, Nicéia — Robert retrucou, erguendo os olhos azuis na direção da filha que mais parecia um animal feroz.
— Pois então diga que não me casarei com nenhum deles — indagou, levando as mãos ao rosto. — Maldito seja Mace Tyrell e suas investidas em me casar com um de seus filhos.
— Creio que Willas seja sua melhor opção, minha querida — Tyrion se intrometeu mais uma vez, sendo ignorado pelo rei e levando um olhar feroz de seus irmãos.
— Sete infernos, tio Tyrion, se está tão interessado, case-se você com ele — a voz furiosa de Nicéia trovejou pelo grande salão. Robert gargalhou.
A presença dos Stark era ignorada por todos, como se nenhum deles estivesse ali presenciando tal discussão. Robert parecia pouco se importar com os olhares nervosos dos filhos de Winterfell.
— Acalme-se, Nicéia, está agindo como se fosse partir para Jardim de Cima amanhã mesmo — riu com mão em frente ao rosto corado pelo vinho. — Assim que puder, mandarei uma carta a Lorde Mace dizendo que sua proposta não me interessa. Satisfeita?
— Muito — Cersei respondeu junto à filha, chamando a atenção de Robert para si.
— Não entendo porque todo Lorde de Westeros quer enfiar minha irmã em sua cama ou na cama de seus filhos. Não existem mais mulheres disponíveis nos Sete Reinos? — Joffrey praguejou baixo mas o suficiente para que Robb Stark, que se encontra não muito longe, escutasse, assim como sua mãe Catelyn.
— Está decidido, nada de casamento com as rosas — Nicéia exibiu um sorriso satisfeito, encarando o pai que sorria largo, por um lado parecia aliviado com a decisão da filha.
— Obrigada por pedir minha opinião antes de se decidir, papai — com a voz macia ela agradeceu, voltando a possuir um olhar de corça.
— Pelos sete, Nicéia, nunca te enfiaria na cama de alguém que não queira — esclareceu, erguendo a voz forte. — É minha filha e não uma mercadoria de Luxo.
Com isso, o rei se levantou, passando ao lado da filha mais velha e lhe beijando a face com um sorriso orgulhoso, deixando o grande salão a passos largos e dignos de um Baratheon.
— Se enxotar todos os homens que tentam se casar com você, com quem vai se casar? — Cersei rolou os olhos e apertou com um pouco mais de força a mesa.
— Maldita seja sua língua afiada, Tyrion — praguejou Sor Jaime entre dentes, impedindo a resposta da sobrinha.
Nicéia sorriu, se aproximando do irmão, contudo, se sentara ao lado de Robb que permanecia com o mesmo olhar brilhante e sorriso caloroso em sua direção. Não deixou de compará-lo a Jon, o maldito bastardo que havia ignorado sua presença e até mesmo se menosprezado. Os olhos era o que mais os diferenciavam, Jon possuía o norte nos seus, um par de poços fundos e negros que a deixava intrigada e com vontade de descobrir cada canto de sua alma. Robb a aquecia com seu azul que lembravam o pouco que ela viu do céu que cobria o norte, deixava transparecer tanta alegria e conforto. Robb parecia desejar que ela o conhecesse e que desejava fazer o mesmo com ela, e isso a fazia sorrir.
— Querido, porque não acompanha a princesa em uma caminhada? Aproveitando apresenta um pouco do castelo, tenho certeza de que ela vai adorar as estufas — sugeriu Catelyn, sorrindo para o filho.
— Claro, se a rainha permitir.
— Se ela desejar, porque não?! Robb me parece um rapaz honrado — indagou, forçando um sorriso simpático para o rapaz.
— Gostaria de me acompanhar, Princesa? — a voz aveludada de Robb a fizera alargar seu sorriso calmo.
— Adoraria.
Ned observou o filho se levantar e esticar a mão para a jovem princesa e depois sumirem pelo salão em direção a saída. O protetor do Norte não negava a semelhança que a moça parecia ter com o pai, principalmente após o pequeno ataque de fúria que a mesma teve há poucos minutos, se acalmando rapidamente logo em seguida. Isso o fazia lembrar Robert na juventude com sua ira repentina e depois o sorriso largo e as gargalhadas altas. Não deixou de se sentir feliz pela aproximação dos dois, se fosse embora para Porto Real gostaria muito de deixar Robb acompanhado de uma jovem como Nicéia, ela seria uma grande Senhora de Winterfell.
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