Diário do Berg

O dia seguinte seria perfeito. Meus pais iriam trabalhar, Andreza e Débora sairiam para uma consulta no pediatra e as gêmeas iriam para a casa de uma amiguinha da escola tomar banho de piscina, essas coisas.

Era bem cedo quando eu acordei. Por volta das oito da manhã. Valentina ainda dormia, no quarto de Andreza.

Corri até o supermercado e comprei umas coisinhas. Arrumei a casa e ela continuou dormindo. Até que lembrei que tinha esquecido do mais importante: camisinha!

A farmácia era perto da minha casa. Eu fiquei meio sem jeito.

— Eu quero … Eu quero … — minha voz ficou presa na garganta. Eu costumava ir àquela farmácia sempre, tanto que os atendentes até me conheciam de vista. Fiquei paralisado.

— Diz logo menino, eu tenho mais gente pra despachar. — ordenou a balconista.

— Camisinha!

— Quantas?

Quanto eu comprava? Achei melhor um pacote. A farmácia estava lotada, o que me deixou mais assustado ainda. No meu pensamento eu rezava para que ela falasse baixo.

—ZÉ? ZÉ? Ô ZÉ, TRAZ UM PACOTE DE CAMISINHA PRA ESSA CRIATURA QUE TA AQUI NO MEU PÉ!

Ave Maria ao quadrado, que vergonha! Peguei a porcaria daquele pacote de camisinha, puxei uma nota de vinte reais da carteira e corri, sem pegar o troco. A cara vermelha de vergonha.

Valentina havia acabado de acordar quando cheguei em casa. Espantada, perguntou o que era aquilo: a casa estava arrumada, com pétalas de rosas vermelhas espalhadas pelo chão, um café da manhã um tanto quanto romântico em cima da mesa, uma música de fundo... era o nosso momento.


— Pra você minha linda! — respondi.

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Diário da Valentina

Berg me agarrou por trás e beijou meu pescoço. Fechei meus olhos e viajei em um embalo que eu nunca havia sentido antes. Tirei minha camiseta e meu short e fiquei em trajes íntimos. Aos beijos fomos caminhando até o quarto dele. Velas o iluminavam e uma linda música de fundo tocava. Eu estava adorando aquilo tudo.

Pus a mão debaixo da camiseta dele e fui subindo. Depois a tirei. Logo estávamos sem nenhum pudor, nos amando.

Era complicado pensar que estávamos crescendo, que mais cedo ou mais tarde eu teria de fazer aquilo com ele. Ninguém nunca me amou como o Berg. Ele era quem eu amava e eu tinha certeza de que eu poderia me entregar de corpo e alma para aquele nerd.

Estávamos despidos, abraçados sobre a cama. Ele tirou os óculos e me olhou apertando os olhos. Sua vista estava embaçada, eu tinha certeza. E eu estava com medo, mas a medida que nos beijávamos, o torpor consumindo nossos corpos, meu medo iria se esvaindo. O dele, talvez não.

—Camisinha... como coloca esse troço? — ele cochichava consigo mesmo, sua voz trêmula, enquanto abria a quarta embalagem; as outras três ele havia estragado de qualquer forma, menos colocado... lá onde deveria colocar.

—A gente aprende. — respondi. Levantei levemente a cabeça dele e fiz com que ele olhasse nos meus olhos — Mas...

— Que foi? — indagou.

— Não se sinta pressionado. A gente não precisa... não agora se você não quiser. Eu confesso que também estou com um pouco de medo.

— Eu te amo. Eu te amo Valentina. E eu esperei por tanto tempo que você estivesse aqui, perto de mim, que eu acho que o meu nervosismo é por medo de fazer tudo errado. — confessou.

Eu não disse nada, apenas o beijei. Quis que ele continuasse.

Berg rodeou minhas costas com as suas mãos e logo estava tirando o meu sutiã. Ele foi carinhoso comigo, algo que eu já esperava dele e, a cada segundo que passava, eu o amava mais e mais. E, enquanto ele contemplava o meu corpo explorando-o aos beijos, eu só revirava os meus olhos.

Eu o amava. E aquilo só contribuiu para que eu o amasse cada vez mais.

Depois da nossa primeira vez, Berg e eu ficamos mais íntimos. Ninguém poderia desconfiar de nada. Nossos beijos foram se tornando mais quentes e a santa mão boba começou a fazer parte dos nossos amassos diários.

Se a primeira vez foi boa, a segunda e a terceira foram melhores. Descobrimos um mundo só nosso, em que podíamos fazer o que quiséssemos.

Enfim, nunca fui tão feliz! Aquelas foram as melhores férias da minha vida.

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Diário da Madalena

Fui induzida por Richard a pintar o cabelo um tom mais escuro, e o mais difícil: colocar o meu primeiro piercing. Claro que a culpa não era dele, eu estava indo por livre e espontânea vontade. Seria um o canto da boca só para começar. Se eu gostasse do resultado poderia colocar mais. A dor foi intensa, mas rápida. Eu fiquei tão linda! Tão linda que decidi colocar um outro no nariz e outro no umbigo.

— Muito bem, Madá. — Disse Richard. A voz dele era suave, ele parecia estar passando mal.

— Como eu estou?

— Perfeita. Olha, só posso te dar esse conselho: O modo como você se veste não modifica nada o fato de você ser gótica ou não. Tipo, eu uso preto porque eu gosto, porque eu me sinto bem. Sacou?

— Entendi.

Eu estava me tornando como ele. Eu estava apaixonada por ele!

Nós andávamos na rua (de preferência à noite) e todos olhavam para a gente como se fossemos bichos selvagens.

— Liga não, Madá. No começo é assim, mas logo você se acostuma. Essa galera não sabe da nossa vida, nem porque somos assim.

— Richard …

— Diz.

— Eu gosto de você. — falei, meio que sem pensar.

Ele me beijou. Quer dizer, Nós nos beijamos e naquele clima dentro do cemitério eu me deixei levar. O cemitério era deserto de noite. Começamos a tirar a roupa e transamos ali mesmo.

Minha primeira vez foi bem inusitada. Juras de amor e palavras bonitas a selaram aquele momento único na minha vida.

Eu fui precipitada, mas já não tinha mais nada a perder.

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Diário da Ludi

Minha mãe continuava não querendo me ver nem pintada de ouro. Mesmo doente! Eu queria cuidar dela, pois ela parecia mal e ela não tinha ninguém. A mãe do Rafa me disse que com o tempo ela esqueceria, mas já havia mais de um ano. No entanto, se não fosse pela Madalena, esse problema nunca teria acontecido. Minha mãe não dava a mínima para mim e aquela maldita nerd teve que se intrometer na minha vida e mostrado aquela foto para mamãe.

Se ela não descobrisse, eu não falaria. Quantos héteros assumem que são héteros? Por que eu tenho que assumir que sou homossexual? Isso só diz respeito a mim. Direitos iguais, baby!

Talvez eu tentasse uma nova aproximação com a minha mãe. Mesmo sabendo qual seria o resultado.

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Diário da Andreza

Foi durante um jantar em família. Tudo parecia perfeito, Papai e mamãe discutindo como sempre, Débora tomando sua papinha, Lina e Lana brigando, Berg e Valentina trocando olhares bobos (aqueles dois estavam aprontando).

Alguém chamou lá do portão. Era o Rafa.

Meu pai levantou furioso da cadeira:

— Deixa que eu vou lá dar uma lição no moleque,

—Não! —Impedi-o. — Deixa que eu resolvo.

Rafael estava no portão, seu semblante preocupado, temeroso. Era estranho encontra-lo depois de tudo o que aconteceu. Eu trazia Débora, talvez ver a filha o fizesse bem e vice-versa.

— Rafa? O que você quer?

— Eu vim me despedir da Débora. Eu tô indo estudar numa base do exército em Minas Gerais.

— Exército? Desde quando? Como assim?!

— Não posso mais ficar aqui. E não se preocupa que vai ter dinheiro pras despesas com a Débora todo mês. Eu vou ganhar dinheiro para estudar, talvez eu me forme em Engenharia... você sabe que é o que eu sempre quis.

— Mas Rafa! Você não pode me deixar aqui... quer dizer, deixar a Débora aqui, ela vai crescer sem pai, não vai ter você por perto.

— Eu prometo que vou vir a cada seis meses. E vou ligar sempre Manter contato por MSN, se você quiser. Mas... eu não tenho mais motivos para estar aqui e você sabe bem disso. — ele me deu um beijo leve no rosto e outro no rosto de Débora, em meus braços — papai te ama.

E ele foi. E eu deixei. Não podia demonstrar fraqueza, não mesmo.

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Diário da Madalena

Minha madrasta me criticou quando eu cheguei em casa “toda furada” como eles disseram. Eu estava tão feliz que nem dei ouvidos. Fui direto para o meu quarto. Lá eu sonhei com o Richard … Até meu pai me interromper.

— Madalena, hora de tomar o remédio.

Fiquei em silêncio. Ele poderia achar que eu estivesse dormindo. Ele abriu a porta e me mexeu para me acordar.

— Filha, sei que você não está dormindo. O que tá acontecendo?

— Nada, só mudei o estilo. —Respondi, me levantando da cama.

—Agora toma o remédio.

— Eu não sou maluca e eu não vou tomar. Agora sai daqui.

—Você sabe o que acontece quando demora a tomar o remédio.

— Ah pai, vai se danar! Me deixa!

Ele me deixou em paz. Com o tempo ele esqueceria dos tais remédios controlados. Gastando dinheiro em vão … eu sou lúcida! No entanto, não era isso o que os médicos me disseram quando eu tinha 10 anos. Eu não era uma criança normal pra eles. Eu dava trabalho em casa, na escola. Minha mãe desistiu de mim, me deixando sozinha com o meu pai.

Eu era uma criança frustrada, porém mimada. Meu pai me dava tudo o que eu queria mas eu não estava satisfeita. Eu queria Barbies, laptops, joguinhos, tudo! Quando ele não me dava o que eu queria, eu me jogava no chão e esperneava. Depois eu quebrava tudo em casa, cortava o meu cabelo, me cortava ... Minha madrasta logo notou meus sofrimentos e fazia meus gostos mais que o meu pai. Tanto que as vezes a chamo de mãe.

Aos 13 anos pus na cabeça que queria um namorado. Aquilo não se comprava, mas eu queria! Conheci o Berg quando entrei na escola nova. Foi amor à primeira vista. Depois o John, que me levou para um mundo que eu não conhecia. Mas com o Richard eu descobri que o amor se conquista. Mas a vingança … eu nunca esqueço.

Olhei-me no espelho, e em um sorriso forçado chorei à falta do meu dente. Aquela vadia gorda da Juliana me bateu a mando do Berg. Não vou sossegar enquanto não acabar de um por um:

A sapatão, o futuro soldadinho, a baleia, a drogada... todos!

Quão importante era pra mim, concluir a minha vingança da forma mais grotesca possível!

Naquela noite eu fugiria de casa e não voltaria nunca, NUNCA mais. Eu ia guardando minhas coisas na mala e me perguntando: “Para quê eu preciso disso?”. Resolvi não levar nada.

Richard estava me esperando do lado de fora e nem se espantou pelo fato de eu não estar levando nenhuma bagagem.

Ele morava de favor em uma casa em que só viviam homens. Ele e mais dois góticos, para ser mais exata. No começo eu até me senti meio estranha de ser a única mulher ali, mas resolvi me acostumar. Aquela era a minha nova realidade. Os caras nem ligavam para mim mesmo... Eles respeitavam Richard.

Enquanto isso meu namorado cuidava de mim como se eu fosse a sua esposa – e de fato, até que eu era – e eu também cuidava dele quando era necessário.

Naquela madrugada resolvi ter uma conversa bem séria com ele.

— Richard, eu quero a sua ajuda.

— Ajuda?

—Sim. Eu quero que você me ajude a ferrar com algumas pessoas que me já ferraram um dia. E quando eu digo ferrar...

Richard pôs os dedos nos meus lábios, e quando eu mais esperava uma resposta negativa sua, ele me surpreendeu com a seguinte fala:

— Por você eu faço qualquer coisa. Eu nunca pensei que conheceria alguém com você e ... Foi com você que comecei a descobrir a vida, Madalena!

Richard pôs a mão debaixo do meu vestido e dali começamos a nos beijar.

— Espera Richard.

— O que foi? Não tá gostando?

— Não, não é isso. Esse nosso plano vai começar amanhã de manhã bem cedo. Vamos começar a colocar terror na vida desses idiotas. Sabe, não é por causa de um dente, é pelo simples fato deles me humilharem, me colocarem pra baixo em um momento difícil da minha vida. Perder o John não foi fácil.

— Ei, agora você tem a mim. Mas... eu vou com você pra onde for.

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Diário do Berg

Rafael Furtado resolveu viajar apenas no dia seguinte quando eu descobri que ele iria para o exército.

— Cara, você tá fazendo uma besteira.

— Eu já tenho dezoito, preciso fazer algo da minha vida. – Respondeu ele. – Além do mais eu quero ir. Não tem mais sentido eu ficar aqui.

—Você tem uma filha linda! E eu sei que você ama a minha irmã. Também sei que ela, mesmo você sendo um merda, também te ama.

— Boas palavras de motivação você escolheu, Berg. — tocou meu ombro — Mas está decidido.

A mãe do Rafa não disse nada quanto ao assunto. Entretanto havia um brilho nos olhos dela que não queria que ele fosse. Isso eu percebia. Dona Angelina era muito cabeça e aprovava tudo aquilo que o filho achava correto. De certa ela via o sofrimento dele e concordava com o fato de que apenas a distância o faria esquecer a Andreza.

Iríamos de carro Valentina, Ludi e eu para deixar nosso amigo no aeroporto

Andreza, cabeça dura, não moveu uma palha nem pra se despedir do ex-marido. Apenas disse que os papeis do divórcio sairiam logo, logo e que ele precisava vir nas próximas férias para assiná-los.

—Vem com a gente, Andreza. É bom que você não fica sozinha com a Débora em casa.

—Não, não, não e não, Berg! — fez birra — Vai você. Eu e minha filha ficaremos muito bem. Minha filha. —Frisou.


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Diário da Andreza

O que o Berg queria que eu fizesse? Acompanhá-los como se a vida fosse um mar de rosas e como se nada houvesse acontecido? O Rafa era um tremendo idiota. Os normais se matariam na cachaça, mas ele iria para longe e lá eu tinha certeza que ele não iria aguentar a pressão.

Para esquecer todos os problemas, eu resolvi tirar uma soneca. Minha filha também dormia e eu não via o porquê de não fazê-lo.

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Diário do Berg

Enquanto estávamos prestes a entrar no carro, a imagem da Madalena, completamente gótica me chocou. Ela vinha na minha direção. Eu fiquei hipnotizado.

—Quê que é? – ela perguntou em um tom alto.

—Você tá R I D Í C U L A. – Ludi zoava.

— Cala a boca sapatão. Minha conversa é com o nerd aqui.

— Então diz o que você quer. — exigi.

— Só vim te adiantar uma coisa: Eu guardo mágoas. Sempre guardei. E eu vou me vingar de vocês. TODOS vocês. – disse ela, apontando o dedo pra gente. – Sabe, eu quero ver... Sangue!

Depois do discurso obscuro ela me empurrou no chão e caiu por cima de mim, frisando a última palavra:

—Sangue!

Ela levantou-se e saiu, com os caras mega estranhos que a acompanhavam.

— Esquece essa aí, Berg. Ela é doida. – Disse Rafa, às gargalhadas. – Só ela pra me fazer rir numa hora dessas.

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Diário da Madalena

Depois daquele empurrão que eu dei no Berg, Richard e seus amigos estavam se perguntando o motivo de eu ter feito aquilo.

—Muito simples garotos. – mostrei uma chave a eles, havia caído do bolso da camisa do nerd e ele nem percebera. Era a cópia dele da chave da casa.

—Você tá pensando em invadir a casa dele? Pra quê?

— Eu já digo. Vocês vão ficar aí ou vêm comigo?

Entramos e percebi que no quarto dormia alguém. Era a Andreza. Logo perto da cama onde ela estava, dormia a garotinha que me fizera ir até lá.

—Madá? O que você vai fazer? Que menina é essa? – perguntou Richard.

—Nossa filha! Eu sempre quis ter uma filha. E você? Hein Richard? Ela não é linda?! — meus olhos brilharam.

Eu mataria dois coelhos com uma cajadada só.

Notas finais
E agora? Débora tá nas mãos da maluca!!!