A Fórmula da Magia
4 Bem-vinda á família
Notas iniciais
Pan esperava uma resposta. Eu estava indecisa, não poderia simplesmente aceitar como se isso não fosse algo importante, para mim era extremamente importante.
–Eu... eu preciso pensar- confessei calmamente- não posso aceitar uma coisa dessa assim.
Pan me dirigiu um olhar de "eu sei, ja imaginava" e disse:
–Tudo bem, ficará aqui na ilha enquanto decide- olhou para os garotos- vocês, tratem ela com respeito, é nova por aqui.
Me senti envergonhada. Eu estava invadindo o lar deles sem pedir licença e eram obrigados a me tratar bem? Isso era constragedor.
– Clarissa, não precisa ficar com vergonha, somos legais.
– Tudo bem... mas eu poderia ficar na praia?- pedi a ele- Seria melhor para pensar, quero decidir isso logo, não quero encomodar.
– Ok, vou te levar para a praia, venha comigo- disse já saindo na minha frente.
Segui-o até a praia. Estava bonita. Pedi que me deixasse sozinha um pouco, queria pensar antes de qualquer coisa. Sentei em um tronco caído que havia ali e fiquei olhando para a paisagem.
Família. Aquela palavra rodava em minha cabeça. Eu queria antes de tudo, saber de onde eu viera, quem eram meus pais, de quem eu herdara minh aparência. Eu não sabia nem se meus pais estavam vivos! Seria bom viver com pessoas que me quisessem por perto, mesmo que fossem todos garotos. Eu queria ser amada, aceita e se isso teria que ser em uma ilha no meio do nada eu estava disposta. Olhei meu reflexo na água. Meu cabelo longo preto ao invés de liso estava bagunçado, meu olho azul, sabe se lá se foi do meu pai ou da minha mãe que herdei, estava inchado e eu estava toda suja por andar na floresta atrás de um garoto que mal conhecia e estava prestes a me tornar "da família". Estava acabada! O que aconteceria agora? Viveria aventuras na "Terra do Nunca"? Lutaria contra o Gancho? Eu ri. Só de pensar em lutar com um cara de bigode gosmento e chapelão de pirata eu ria. Então parei de rir. Me senti culpada, não fazia nem 24 horas que Lila havia morrido e eu estava rindo de uma coisa tão idiota. Não tinha que rir, tinha que chorar, eu tinha que sentir a falta dela, não ficar alegre por isso. Respirei fundo. Está decidido, não tenho nada, o que me resta e viver aqui, feliz ou não, é aqui que vou viver.
– Pan! -gritei por meu novo amigo.
Vi arbustos se mexerem e de lá saiu Pan, com aquele sorriso de quem vai aprontar na cara.
– Clarissa, — veio em minha direção- então ja decidiu?
Ele disse de um jeito que não parecia ser uma pergunta, e sim uma afirmação.
– Sim- talvez me arrependeria disso, mas era a única opção que eu tinha- vou ficar aqui, não tenho mais o que fazer a não ser aceitar sua proposta.
– Ótimo! -sorriu- Bem-vinda á família.
Não sorri de volta, ainda me sentia culpada pelo riso que eu dera á uns minutos atrás. Pan me guiou até o acampamento em que os garotos estavam para dar-lhes a nova notícia. Desta vez não estavam fazendo ritual, ou sei-la-o-que, estavam sentados conversando.
– Então, lhes apresento a nova garota perdida!- anunciou Pan.
Garota perdida? Mas o que...? Ele não mencionou nada a respeito disso. Me senti ainda mais constrangida. Os garotos começaram a sussurrar entre si, provavelmente estavam falando mal de mim, ou pelo menos era o que eu pressentia.
– Sente-se aqui- ofereceu um garoto com cabelos loiros e olhos... cinzas? Está bem, aquilo era estranho.
Os garotos o lançaram olhares assustados, talvez ele não fosse tão social. Logo me simpatizei com ele. Sentei-me ao seu lado e puxei assunto para não ficar chato.
– Então... qual seu nome?
– Johny — disse como se não falasse isso á muito tempo- o seu é Clarissa, certo?
–Sim- concordei. Eu queria sorrir, mas ainda não estava pronta para mostrar meus dentes. Estava triste por Lila, e não sorriria até que me sentisse bem.
Observei a fogueira. O fogo crepitava soltando um calor aconchegante. Por um momento tive a sensação de que gostaria de viver ali. Pelo menos já tinha um amigo. Será que ele ainda gostaria de mim se soubesse de meus poderes? Esqueça isso Clarissa, você tem um amigo agora, não estrague tudo. Seja feliz.
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